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Revista Radis

Reportagens

A lama que sustenta

Data de publicação: 
01/04/2017
Projeto de restauração do manguezal em Magé, no Rio, promove qualidade de vida para moradores, pescadores e catadores de caranguejo
Catanhanha: espécie de caranguejo que retornou ao manguezal na área mais castigada do fundo da Baía de Guanabara após revitalização. (fotos:Eduardo de Oliveira)

 

“Aqui dentro tinha ‘pega’ de carro, as pessoas jogavam futebol de tão duro e careca que estava o solo”. A descrição de Adeimantus da Silva, sobre o mesmo solo que hoje hospeda uma grande área de manguezal, pode parecer exagero para quem não conhece bem o local. Porém, uma breve olhada no terreno ao lado, com a terra ainda compacta e rachada, permite perceber que sua lembrança não é exagerada. A área em questão abriga hoje o Parque Natural Municipal Barão de Mauá, região de conservação ambiental localizada na Praia de Mauá, distrito do município de Magé, que fica na região da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Idealizado por meio de uma parceria público-privada entre a Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Magé e o Instituto OndAzul, o parque é moradia permanente do projeto Mangue Vivo, iniciativa que visa a revitalização do manguezal na área mais castigada do fundo da Baía de Guanabara. A ideia é não somente reestruturar o que foi destruído, mas também oferecer qualidade de vida aos moradores do entorno. Adeimantus é coordenador de campo e um dos reflorestadores da área.

Era 18 de Janeiro de 2000 quando uma imensa mancha de óleo pôde ser vista sobre as águas da Baía de Guanabara. O vazamento de petróleo de um duto da Petrobrás, que liga a refinaria de Duque de Caxias à Ilha do Governador, poluiu uma área superior a 50km², contaminando o mar, ecossistemas, a fauna marinha e dificultando o trabalho de pescadores e catadores de caranguejo da região. Na época do acidente, Alberto Ferreira da Silva, morador da Praia de Mauá, pescava na região para complementar a renda familiar. Ele disse à Radis que, naquele momento, não fazia ideia do estrago causado pelo derramamento: “A gente não tinha noção do que foi o derramamento. Hoje a gente sabe que aquilo foi uma catástrofe”, declarou o pescador, que atualmente também trabalha como faxineiro em uma escola municipal, em Magé. “A palavra para quem vive da pesca no local hoje é sobrevivência”, definiu. Os reflexos do acidente ambiental no ano 2000 são visíveis na Baía de Guanabara até hoje. Na Praia de Mauá, por exemplo, moradores de municípios vizinhos evitam entrar em suas águas por medo de alguma contaminação.

Os riscos à saúde não afastam somente visitantes nas férias, mas também os potenciais compradores de peixe, o que afeta o comércio e o mercado de trabalho. Segundo Alberto, os compradores ainda evitam comprar seu pescado quando ele revela que veio daquela região da Baía de Guanabara. Na época, a Petrobrás foi multada em cerca de 50 milhões de reais, destinados para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e as prefeituras dos municípios afetados — segundo informações de Erian. Naquele momento, também surgiram iniciativas de revitalização do ambiente, sendo um deles o Projeto Mangue Vivo.

A iniciativa foi do Instituto OndAzul, uma organização não-governamental dedicada à defesa do meio ambiente e do crescimento sustentável. Em 2001, o impacto de mais de 30 anos de desmatamento do mangue, e do recente derramamento de óleo na região era grande. Depois de avaliar, junto a Secretaria do Estado do Meio Ambiente, as áreas atingidas e definir qual era a mais afetada, o instituto começou a colocar o projeto em prática. “O óleo encostou na orla inteira, havia várias partes do manguezal que estavam contaminadas por petróleo; até o lixo flutuante, que estava na margem da Baía, estava contaminado; as aves também; além do solo, que estava duro e rachado, não tinha nenhuma árvore e o calor era absurdo”, lembrou Erian Osório, coordenadora do projeto.

Seu Benedito, morador de Magé, e Erian Osório, coordenadora do Mangue Vivo: comunidade está interligada ao projeto

“Nesse mar de lama, a gente mergulha de cabeça”. A frase, estampada em um banner que hoje dá as boas- -vindas ao local do Projeto Mangue Vivo, não faria sentido em 2001. O mar que se via era terra seca e compacta, com muito lixo e esgoto doméstico. O projeto começou com a retirada do lixo que estava no local. Adeimantus contou que foram retiradas mais de 10 carretas, só com garrafas PET. O passo seguinte foi cavar canais, para umidificar a terra. “A gente ficou um ano inteiro só cavando canal”, comentou José dos Santos, o Zé Baiano, um dos 30 reflorestadores que trabalharam naquela época.

Com o solo já mais úmido, mudas passaram a ser plantadas. Para evitar o ataque de pássaros, e pragas, e a depredação das pessoas, os reflorestadores optaram pelo plantio da Aroeira, já que seu cheiro afastava os predadores. As pessoas pararam de quebrar as mudas quando perceberam que o projeto era sério, conta Zé Baiano. Outra dificuldade era o óleo, ainda presente nesta fase. “No início a gente sofreu para plantar. Muitas vezes a gente cavava um metro e ainda encontrava óleo”, relembrou, afirmando que as mudas cresciam bem, na maioria das vezes.

Em 16 anos, o projeto já recuperou cerca de 19,2 hectares de manguezal. Possibilitou o retorno de caranguejos como o aratu, uçá e azulão, e trouxe de volta o catanhanha, uma outra espécie do animal que transforma madeiras e folhas do manguezal “no lixo biológico mais perfeito da natureza”, como atestou seu Benedito José da Silva, morador da Praia de Mauá há 42 anos. Além da recuperação do ecossistema, o projeto também promove ações na área de educação ambiental, com palestras em escolas e mutirões de visitação ao parque — com o objetivo de divulgar o projeto. “Quem entra no mangue, ao sair fica com o sentimento de que foi a um lugar especial”, contou Erian. Benedito, que acompanha o projeto de perto desde sua criação, viu as 30 pessoas que atuavam em campo se resumirem a uma, seu filho Adeimantus. “Meu filho faz questão de não desistir”, lembrando que, antes do projeto, os moradores cortavam a vegetação do mangue para vender e sobreviver. Segundo ele, com o início da revitalização e a volta dos animais e peixes, estas mesmas pessoas passaram a ter outra fonte de renda, sem precisar devastar o mangue.

Propágulos das três espécies de mangue usadas no plantio: mangue vermelho (Rhizophora mangle), mangue preto (Avicennia schaueriana) e mangue branco (Laguncularia racemosa)

 

Erian explicou que esse é o grande diferencial do projeto, proporcionar qualidade de vida para as pessoas do local. Ela relatou que, depois de certa relutância inicial, a comunidade abraçou o projeto. “Havia uma desconfiança muito grande por não saberem o que iríamos fazer no local, mas hoje eu acho que eles reconhecem o benefício para a comunidade pesqueira, caranguejeira e para quem está no local”, acredita. Seu Benedito aposta que ainda é preciso reforçar a comunicação com a comunidade, para que esta possa valorizar o que está sendo feito. “No início, a Erian distribuía convites para que os moradores fossem conhecer o que estava sendo feito, mas as pessoas não estavam preparadas para uma discussão em prol do desenvolvimento”, relembra.

Como não recebe verba do governo federal, nem do governo do estado do Rio, o projeto sobrevive, hoje, do financiamento de instituições privadas. Erian lembra que a época áurea foi em 2005, quando uma empresa do ramo imobiliário bancou o projeto por dois anos. Por dois anos, eles tinham recurso para o preparo de mudas, a construção de viveiros e o pagamento de salário aos funcionários, em sua maioria moradores da região, que trabalhavam reflorestando. “Foi quando a gente conseguiu fazer tudo o que queria, foi quando a área conseguiu realmente começar a brotar de vez”, atesta a coordenadora.

Atualmente, o projeto está na fase de plantio e monitoramento, cumprindo um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado pela empresa de engenharia norte-americana Hines, como reparação de dano ambiental causado no complexo petroquímico. A empresa pagou a multa para o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que contratou o OndAzul para recuperar mais 10,5 hectares do parque. Mas o financiamento não é suficiente para sustentar questões estruturais, explica Erian. Algumas pontes de madeira instaladas em cima do mangue, por exemplo, ou foram destruídas ou precisam de reparos, para evitar impacto direto no mangue; instalações como uma mesa destinada aos visitantes não existem mais; viveiros foram desativados e as mudas diminuíram. A falta de apoio da Prefeitura de Magé e a escassez de recursos fizeram o projeto estagnar, avaliou a coordenadora.

Adeimantus, coordenador de campo, no trabalho de reflorestamento da área; Erian comemora transformação de “lugar abandonado em ambiente acolhedor"

De todo modo, Erian e Adeimantus não desanimam. A todo momento, planejam coisas novas e, neste momento, desejam uma maior integração da população com o projeto. “Esse local não é privado, o que fazemos é para a população. Fazer com que o parque se torne um lugar que as pessoas venham para passar um dia com a natureza é algo que ambicionamos”, diz Erian. Outro projeto em vista é a concretização de um plano de manejo, que permita os visitantes apreciarem o parque de cima. Para isso, aguardam a liberação, pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FunBio) — mecanismo para a conservação da biodiversidade que viabiliza o uso de recursos de compensações ambientais — de um dinheiro referente a um TAC assinado pela empresa petrolífera Chevron. Com o recurso recebido por conta desta multa, será possível deixar o parque totalmente preparado para visitação e, quem sabe, um lugar de lazer e de construção de boas histórias, afirma ela.

Mas, para que o plano de manejo não se transforme em vários “elefantes brancos”, é preciso que a Prefeitura de Magé se envolva com o projeto, contribuindo com recursos financeiros e também apoio na infraestrutura e na manutenção do projeto, afirma Erian. Enquanto os planos não se concretizam, ela se diz orgulhosa de fazer parte do projeto e perceber o quanto ele transformou o local. “Ver um lugar abandonado se transformar em um ambiente acolhedor; ver tudo o que a gente conseguiu, com essa quantidade enorme de natureza, é algo muito gratificante”, disse, emocionada, à Radis.

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