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Revista Radis

Reportagens

Muito chão pela frente

Data de publicação: 
01/10/2017
Mulheres do Pará cobram acesso e atenção às questões de gênero e saúde em regiões distantes dos grandes centros

Três dias de balsa. Este foi o tempo de viagem para que Raissuellem Castor, de 26 anos, e Kelmira Ferreira dos Santos, de 24, alcançassem Belém e conseguissem participar da etapa estadual da conferência. Elas representavam as usuárias do município de Prainha, na região do Baixo Amazonas, oeste do Estado do Pará. As viagens foram longas para grande parte das cerca de 500 mulheres que estavam ali. “Muitos estão atrás de sonhos, nós estamos atrás do básico, de coisas que já deveriam existir e funcionar bem”, disse Raissuellem à Radis, explicando que queria, acima de tudo, cobrar agilidade dos laboratórios e ampliação da rede para os exames citopatológicos. Com suas dimensões e distâncias imensas, o Pará tem questões específicas. Na etapa paraense, que aconteceu entre 4 e 5 de agosto, em Belém, as pautas foram discutidas em tom de voz muito alto. As mulheres ali presentes queriam realmente ser escutadas à distância. Até pelos que não estavam ali. “É péssimo o governador não estar presente. Estamos fora do alcance de suas vistas”, criticou a agente comunitária de saúde.


“A nossa esperança é sermos ouvidas”, reforçou Maria Eunice Begot, presidenta do Conselho Estadual de Saúde, ao avaliar como positivo o encontro das delegadas do estado, realizado depois que 110 dos 144 municípios passaram por etapas locais. “As condições de vida e trabalho das mulheres ribeirinhas, as quebradoras de castanhas, os povos de terreiro, tudo isso precisa ser olhado de maneira diferente”, ressaltou. A conselheira lembrou que o Pará tem um dos menores valores per capita para a saúde, de apenas R$ 3 reais por dia. “Por outro lado, por conta das distâncias geográficas, temos que realizar grandes operações. Para efetuar a vacinação em alguns lugares é preciso o uso de helicópteros”, acentuou.


Um dos temas mais discutidos em Belém foi a saúde sexual e reprodutiva. A mortalidade materna no Pará tem taxas de 66 óbitos de mulheres por 100 mil nascidos vivos — acima da média nacional (60) e bem distante do estado que tem a menor taxa, Santa Catarina, com 28 óbitos. “Ainda precisamos trabalhar bastante para melhorar o pré-natal, porque perdemos muitas mulheres por hipertensão arterial”, afirmou Eunice. Implementar o preventivo de câncer de colo do útero com eficiência em todas as regiões de saúde é uma meta ainda a ser alcançada. Houve um aumento de 20% no número de óbitos por esse tipo de câncer entre 2011 e 2016, conforme apresentou a secretária de Saúde do estado Heloisa Maria Melo e Silva Guimarães. Ela lembrou que a doença atinge principalmente mulheres de baixa escolaridade, e falou da importância dos registros estatísticos — não somente os relacionados a esta doença, mas também os dados de mortalidade infantil e de violência doméstica, que também são altos por lá.  


“Eu gostaria de estar aqui dizendo que daqui a 20 anos a mortalidade infantil será lenda, mas infelizmente o que eu venho falar é da preocupação que persiste”, alertou Carmem Helena Ferreira Foro, vice-presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que fez a palestra sobre o Eixo II — “O mundo do trabalho e suas consequências na saúde das mulheres” — e discutiu o impacto da reforma trabalhista e de outras ameaças à vida das mulheres. “A nossa força de trabalho vai ficar mais barata, e a nossa região é a mais cobiçada para o novo ciclo que o capital deseja. As mulheres da Amazônia já estão sentindo o impacto, especialmente as trabalhadoras rurais, de não ter terra para produzir. Nossas terras estão sendo vendidas para estrangeiros”, denunciou.


"Belo Monstro"


“As mulheres da minha região estão doentes da alma”, disse Maria Francineide dos Santos, delegada representante de usuárias em Altamira. A área é uma das impactadas pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte (veja mais sobre o assunto na página 10). A usina ganhou o apelido de “Belo Monstro”, e a revolta pelos seus impactos foi reproduzida por várias delegadas. “O que foi feito ali não tem nome. Hoje, mais de 13% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza. A população amazônica e os paraenses precisam dizer não a esse modelo, que só trouxe mazelas”, conclamou Francineide, indignada. “Meu município é um dos mais violentos do país. Nem sequer o hospital de atendimento materno-infantil de Altamira, que era condicionante da construção da usina foi implementado. Qual o benefício para a região?”, questionou Maria do Socorro Rodrigues do Carmo, enfermeira e vereadora do município.


Muitas das delegadas lembraram o quanto é importante a preparação e a capacitação sobre as questões de gênero, desde a atenção básica. Tripla jornada, respeito às parteiras tradicionais e a implementação de notificação de atendimento de violência doméstica e sexual apareceram também entre as pautas de discussão. “Os ACSs muitas vezes têm que conversar com os maridos que não querem que as esposas façam o preventivo de câncer de colo do útero”, observou palestrante Maria Eunice Figueiredo Guedes, da Universidade Federal do Pará (UFPA), convidada para discutir o Eixo II — Vulnerabilidades nos ciclos de vida das mulheres na Política Nacional de Atenção Integral à Sáude das Mulheres —, que incluiu temas-chave como racismo. “A violência doméstica ainda é muito arraigada na sociedade. Existe uma naturalização do preconceito, muitas vezes até por parte da profissional de saúde, que acha que a mulher suporta tudo, e a culpabiliza pelo estupro”, observou Maria Eunice.


“Nas aldeias, muitas vezes só os homens falam português, e o acesso ao atendimento de saúde para as mulheres indígenas fica prejudicado”, revelou Oé Paiakan Kaiapó, da etnia Kaiapó, representante de usuárias do município de Redenção, na região do Araguaia. Estudante de Serviço Social, com histórico familiar de atuação no conselho distrital de Saúde Indígena (DSEI/KPA), Oé considera importante dar visibilidade ao subsistema de saúde indígena — seu principal objetivo na conferência.


Destino: Brasília


“Nós, agentes comunitários de saúde somos a grande porta de entrada para o sistema”, lembrou Diene Nunes, representante de trabalhadores, de Breves. A reportagem da Radis a encontrou muito entusiasmada, quando comemorava ter sido eleita, ao lado da amiga Maria Augusta, entre as representantes de oito municípios da região da Ilha de Marajó. “São apenas duas vagas por regional, e algumas regionais têm muitos municípios”, explicou. O objetivo de Diene, que se preparava para ir pela primeira vez à capital do país, era um só. “Quero defender os direitos das mulheres ribeirinhas”.


“Ir para a Nacional” era visto como grande vitória entre as delegadas, especialmente para aquelas de fora da região metropolitana de Belém, e a disputa foi acirrada. “É importante descentralizar. A minha região, do Araguaia, tem 17 assentamentos de agricultura familiar. Temos muitas famílias em situação de vulnerabilidade. Um tema a ser mantido e levado para o documento final é garantir o tratamento fora do domicílio, essencial para pacientes de regiões rurais. Hoje a ajuda de custo é insuficiente”, explicou a assistente social Ednalva Silva Geremias. “A mulher se desloca e deixa outros filhos sozinhos, ou quando ela mesma está doente, a família inteira fica ainda mais vulnerável”, lembrou.


O Pará decidiu levar absoluta maioria de mulheres (90%) para a conferência nacional. Os poucos delegados homens eram geralmente de municípios onde não havia mulheres delegadas. A escolha das pessoas que iriam para a etapa nacional, no entanto, sofreu impacto da logística. “Para muitos municípios, só existe transporte uma vez por dia. Os delegados só têm uma diária para ficar, portanto só podem dormir uma noite na cidade, e têm que ir embora. Por isso a delegação da região metropolitana leva mais delegadas para a nacional”, observou Ednalva.


Qualificação da participação social


Além de representatividade, qualificação. Foi sobre isso que Christiane Costa, do Conselho Nacional de Saúde, falou durante a palestra magna do evento. “O Conselho tem que entender melhor de orçamento. Queremos que as representantes de gestão discutam onde está o dinheiro da saúde. Fazer valer essa conferência e quebrar de uma vez por todas a visão que muitos têm de que o controle social é ´arruaça´”, defendeu a auditora de contas públicas, que é nascida no Pará.


Se nem todas tinham formação técnica e muitos anos de escolaridade, a persistência e a dedicação eram marca registrada das participantes. A quebradeira de coco Cledeneuza Maria Oliveira, de São Domingos do Araguaia, deu uma verdadeira aula à reportagem da Radis sobre a luta que trava há pelo menos 30 anos: “Trabalhamos a participação da mulher na sociedade, a autoestima das mulheres das áreas rurais. Muitas delas não compreendiam que seu trabalho era essencial para a renda familiar. Enquanto os homens estão na roça, elas estão quebrando coco para fazer azeite, fazer sabão. Isso agrega valor. Com essa compreensão, a gente passou para a participação política nos municípios. Dar opinião, compreender o processo político, tudo isso é política, não é só política partidária”, definiu. (E.B.)

Autor: 
Elisa Batalha
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