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Revista Radis

Reportagens

O poder do diálogo

Data de publicação: 
01/01/2018
Entrevista | Jaakko Seikkula

O psicólogo Jaakko Seikkula, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Jyväskylä, na Finlândia, desenvolveu a partir do início dos anos 1980 com sua equipe, na região finlandesa da Lapônia Ocidental, a abordagem conhecida como Diálogo Aberto (Open Dialogue), pesquisando tanto os processos de diálogos em si, como os resultados desse método no tratamento da psicose aguda e de outros transtornos psiquiátricos. A estratégia consiste em montar equipes personalizadas e multiprofissionais para cada paciente e realizar, periodicamente, reuniões para as quais são convidadas a família e outras redes sociais dos pacientes, mesmo nas situações de crise — e principalmente nelas. “Nós nos concentramos na geração de diálogo, para fazer ouvir todas as vozes nas reuniões terapêuticas. Os usuários de saúde mental são abordados como seres humanos em sua plenitude e não como sintomas, mesmo durante crises agudas”, explica o pesquisador.


Ao longo de décadas de pesquisa, Jaakko vem demonstrando o poder do diálogo. Mais de 80% dos indivíduos tratados com esse tipo de abordagem não apresentaram sintomas de psicose nos cinco anos subsequentes ao tratamento, e 85% dos pacientes se recuperaram a ponto de retomarem seus empregos integralmente. Esses resultados foram obtidos com o uso mínimo de medicação antipsicótica: em dois terços dos casos nenhuma medicação foi usada. “Não é sobre parar de tomar medicamentos, é sobre contribuir de uma maneira muito ativa. É sobre vivenciar juntos os momentos de crise e superá-los, revendo e diminuindo o papel que a medicação desempenha”, esclarece o psicólogo em entrevista à Radis.


Explique melhor a proposta de Diálogo Aberto.
Diálogo Aberto é uma abordagem que reorganiza os serviços do cuidado psiquiátrico, incluindo alguns elementos. Antes de tudo, o sistema de cuidado é reorganizado de maneira que se torne possível que sejam gerados encontros de diálogos. Assim, as vozes das pessoas são escutadas, e quando as escolhas das pessoas são ouvidas elas realmente se tornam capazes de mobilizar todos os recursos para lidar com as situações críticas da vida. A ideia de Diálogo Aberto também pressupõe que o sistema seja organizado de maneira que você garanta socorro imediato no momento de crise, para que a pessoa não precise esperar para encontrar os profissionais nas reuniões terapêuticas nesse momento de muita gravidade.


Como funciona na prática?
Qualquer um dos profissionais da equipe pode ser acionado e convocar imediatamente o grupo ao identificar uma situação de crise. Envolve ainda a família, se possível, e às vezes outras redes de apoio social. O trabalho é interdisciplinar, vai além das fronteiras da atuação de cada profissional, com a formação de equipes unidas e horizontalizadas, muitas vezes também interligadas com profissionais do sistema de assistência social. Em cada grupo há uma pessoa que é o usuário principal, mais os familiares, e tudo é discutido abertamente nesses encontros, com o usuário, que também tem voz ativa, esteja ele como estiver. E o que nós temos descoberto é que isso realmente parece melhorar o uso de todos os recursos para lidar com as situações difíceis.


A abordagem é desmedicalizante? Prevê a interrupção do uso de medicamentos? 
Fica claro nos estudos que a necessidade de medicação diminui e é possível evitar muitos dos efeitos danosos dos remédios, porque selecionamos melhor as situações em que a medicação se mostra necessária, sempre alinhadas com as próprias expectativas do usuário. Não é sobre parar de tomar medicamentos, é sobre contribuir de uma maneira muito ativa. É sobre vivenciar juntos os momentos de crise e superá-los, revendo e diminuindo o papel que a medicação desempenha.


Quais são os resultados dessa abordagem no tratamento de pessoas com distúrbios psiquiátricos?
Mais de 80% dos que se trataram com essa abordagem não tiveram nenhuma experiência de recaída com sintomas de psicose nos cinco anos subsequentes ao tratamento, e 85% se recuperaram a ponto de retornarem para seus empregos integralmente. Esses resultados foram obtidos com o uso mínimo de medicação antipsicótica, em dois terços dos casos nenhuma medicação foi usada. Em estudos de casos de depressão profunda, a recuperação ocorre mais rápida e mais frequentemente, em comparação com o tratamento habitual. No estudo que fizemos na Lapônia Ocidental com pacientes psicóticos em seu primeiro episódio, 65% não usaram medicação antipsicótica durante cinco anos; e a situação se manteve estável 20 anos depois do início do tratamento. Também a taxa de aposentadoria é mais baixa na Lapônia Ocidental do que em outras regiões onde o tratamento é convencional.


Você defende que “não existe psicose”. Como os psiquiatras lidam com essa concepção, que considera os sintomas psicóticos reflexos de situações críticas e fatores estressores em um organismo saudável?
É claro que é um ponto desafiador, mas talvez não seja mesmo uma questão de dessa ou daquela doença, mas uma questão de como lidamos com uma situação de crise. É claro que muitos psiquiatras também já adotaram essa maneira de pensar, que não se trata exatamente de como se dá o diagnóstico, mas de se concentrar no que está acontecendo na vida daquela pessoa. O Diálogo Aberto enfatiza a importância da nossa escuta cuidadosa, de aceitar o outro sem condições. Adotar a prática dialógica é uma nova habilidade, onde podemos nos encontrar em papéis profissionais diferentes daqueles nos quais estamos acostumados a agir.


O que é necessário para que um sistema de saúde aplique a abordagem de Diálogo Aberto?
Na minha experiência, eu ouvi muitas ideias práticas sobre como aplicar essa abordagem nas equipes profissionais, aumentando o contato dos pacientes com os profissionais em grupo. É preciso acima de tudo que haja uma decisão de que se está pronto para discutir as questões abertamente e ter confiabilidade para com as equipes. Não é necessário ter um sistema muito forte por trás para instalá-lo. Sobre o apoio das autoridades de saúde e políticos, tudo tem que ser discutido muito abertamente. Esse é um ponto muito interessante que você levanta, porque os políticos têm mais a perder do que outros profissionais ao apoiar esse tipo de abordagem, porque trata-se de um sistema muito democrático.
 

Autor: 
Elisa Batalha
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