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Revista Radis

Editorial

Epidemia de fraudes

Data de publicação: 
01/07/2018

Ao contrário do que se costuma pensar, comunicação não é a simples transmissão de informação em que um receptor passivo entende exatamente o que um emissor diz. Sem entrar em distinções de conceitos e modelos, é mais realista entendê- -la como um processo social, uma arena em que muitas vozes e versões estão sempre em disputa para dar sentido a fatos, coisas, acontecimentos e experiências humanas. Com as tecnologias e redes sociais digitais e a explosão de informações que circulam em nosso cotidiano, a disputa entre diferentes narrativas, que sempre existiu, ganhou dimensão bem maior e complexa.

Nossa matéria de capa traz a discussão sobre o fenômeno das fake news, que são notícias intencionalmente fraudadas para circular preferencialmente nas redes sociais digitais, simulando o estilo jornalístico e reunindo ou não alguns fragmentos de realidade a um conjunto de elementos e conclusões deliberadamente inventados para enganar as pessoas, com objetivo político, comercial, ou o propósito de atacar indivíduos ou coletividades. A repórter Ana Cláudia Peres ouviu jornalistas e pesquisadores de instituições como UFRJ, USP e Fiocruz e também traz o posicionamento de coletivos de comunicação como Intervozes, Pública, Instituto Igarapé e agências Aos Fatos e Boatos.com, que checam origem, veracidade e correção do que é propagado.

Há sites especializados em criar estas notícias e fazê-las circular por meio de robôs e perfis falsos. Impressiona a quantidade de fake news na política, como ocorreu nas últimas campanhas presidenciais no Brasil e nos Estados Unidos. Notícias comprovadamente falsas foram usadas para atingir a reputação da vereadora Marielle Franco, brutalmente assassinada no Rio de Janeiro. São estratégias que enfraquecem a democracia e provavelmente tentarão influenciar as eleições brasileiras deste ano. Segundo pesquisadores, “verdadeiro”, hoje, é aquilo que circula mais e que chega por meio de vínculos afetivos nas redes sociais, mesmo que a narrativa pareça inverossímil. O fenômeno é reforçado pela desconfiança nas instituições em geral e nos meios de comunicação tradicionais — neste caso, por abdicarem do jornalismo comprometido com a apuração e frequentemente manipularem notícias. Notícias falsas são aceitas por dizer o que as pessoas já querem acreditar, especialmente quando há polarização ideológica, ou de valores religiosos ou culturais.

Na saúde, fake news se tornaram epidemia, somando-se a outra categoria de notícias falsas ou imprecisas, que são os boatos, também analisados na reportagem. Na epidemia de febre amarela de 2017, essas narrativas influenciaram em morte de macacos, baixo índice de vacinação e pânico entre a população. O antídoto para este mal pode estar no diálogo nas redes sociais digitais e na checagem independente de informações por parte da sociedade, com plataformas inovadoras. Há meios de identificar fake news e fugir de boatos.

Ainda nesta edição, aprovação da legalização do aborto na Câmara de Deputados da Argentina, intolerância do governo americano com imigrantes e refugiados, estratégias de resistência ao racismo no Brasil, violência contra os pobres na intervenção militar no Rio e crescimento da aids. Reportagem de Luiz Felipe Stevanim ouviu lideranças populares sobre um modelo que se contrapõe ao predatório agronegócio. A agroecologia, uma alternativa saudável de produção de alimentos, social e ambientalmente sustentável e economicamente viável, será debatida no 12º Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que reúne, em julho, oito mil pesquisadores, alunos e trabalhadores da saúde na sede da Fiocruz, no Rio de Janeiro.

Autor: 
Rogério Lannes Rocha
Editor chefe e coordenador do Programa Radis

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