Portal ENSP - Escola Nacional de Sa??P??ca Sergio Arouca Portal FIOCRUZ - Funda? Oswaldo Cruz

Revista Radis

Reportagens

A muçulmana interditada

Data de publicação: 
01/11/2018

Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular.
(Artigo 18 -Declaração Universal dos Direitos Humanos)

 

Aeroportos nunca tinham lhe deixado intimidada. Até aquele dia. Ela estava embarcando no Rio de Janeiro, onde morava e cursava doutorado, para uns dias em casa, em Rosário, na Argentina. Recém-convertida ao islamismo, usava o hijab — véu que as mulheres islâmicas utilizam para cobrir a cabeça e o colo. À sua frente, duas freiras vestiam o hábito, traje típico mantido por muitas congregações e ordens religiosas da Igreja Católica. Na fila do embarque, as freiras seguiram sem qualquer embaraço. Ela não.
A pesquisadora argentina Gabriela [nome fictício] é bióloga e tem duas filhas. O episódio no aeroporto aconteceu há cerca de 10 anos, antes das suas meninas nascerem, durante o período em que ela abraçou a religião muçulmana, sofrendo uma série de preconceitos e discriminações, como agora relata à Radis: “Naquele dia, fui conduzida a uma sala da Polícia Federal e revistada. Alegando questões de segurança, eles queriam verificar se eu levava algo sob o hijab. As freiras também estavam cobertas, mas somente eu fui submetida ao constrangimento de levantar minhas roupas e o véu. Aquilo não era justo. Me senti invadida e com raiva”.
Não foi a única ocasião em que Gabriela teve o seu direito à crença e à religião desrespeitados. “O preconceito teve várias fontes que às vezes pareciam contrárias entre si”, conta. “A resistência podia vir da própria comunidade islâmica, já que os muçulmanos às vezes desconfiam das motivações daqueles que se convertem, ou de outras religiões, principalmente dos evangélicos”. Ela se sentiu desvalorizada também entre os colegas acadêmicos que criticavam o fato de uma estudiosa em genética se deixar levar pelo criacionismo — teoria que, por princípio, rejeita a ideia da evolução biológica. “Criticavam a minha fé em Deus e o fato de o Islã ser uma religião que, do ponto de vista ocidental, vai de encontro à emancipação das mulheres”. A forma da intolerância é que não variava muito. “Gargalhadas na rua, xingamentos e um profundo desrespeito”, lembra.
Gabriela conheceu a religião muçulmana em 2007, ao se aproximar de um amigo americano, cujo pai havia se convertido ao islamismo durante o movimento por direitos civis nos Estados Unidos, na década de 1960. Seis meses depois, com muita leitura, ela começou a fazer as cinco orações diárias e a praticar a religião do profeta Muhammad. “Grande parte do meu conhecimento era explicado por meio do Alcorão [livro sagrado dos muçulmanos]. Poderia ter tido outra religião, mas naquele momento, o Islã foi espiritualmente muito importante para mim”, diz ela, que não conseguiu enfrentar a resistência das pessoas a uma religião específica. “Eu passei a viver de forma muito isolada. Somando isso a outras questões da minha vida particular, acabei me afastando aos poucos”, conta. “Não das minhas crenças, mas da prática da religião. Ainda acredito em Deus e leio sempre que posso”.
 A liberdade religiosa está garantida nos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas ainda não existe de fato. O Brasil registra uma denúncia de intolerância religiosa a cada 15 horas, segundo dados do Ministério de Direitos Humanos (MDH). O último relatório da Anistia Internacional chama atenção para os ataques aos locais de culto das religiões de matriz africana, como a Umbanda e o Candomblé, na Baixada Fluminense. Somente em agosto e setembro de 2017, pelo menos oito centros religiosos foram destruídos. “Acho que a pluralidade provoca certo mal-estar em pessoas que têm medo daquilo que é diferente”, lamenta Gabriela. (ACP)

Autor: 
Ana Cláudia Peres

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
Image CAPTCHA
Enter the characters shown in the image.