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Revista Radis

Reportagens

O torcedor do outro time

Data de publicação: 
01/11/2018


Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão...
(Artigo 19 - Declaração Universal dos Direitos Humanos)

 

Em 12 de outubro de 2006, Gustavo (nome fictício) se despediu dos amigos depois de comemorar a vitória do seu time, o Náutico, sobre o Palmeiras, no Estádio dos Aflitos, no Recife. Na volta para casa, andou pela rua já deserta àquela hora em busca de um táxi quando um carro repentinamente parou ao seu lado. “‘Perdeu, perdeu’, foi o que ouvi. Percebi o perigo e comecei a correr. Mas acabei tropeçando e eles me alcançaram”, relata à Radis. Eram seis contra um. Seis homens vestidos com a camisa da torcida adversária. “Levei pancadas na cabeça e na região lombar. Eles me chutaram e atacaram com um taco de beisebol. Foram dois, três minutos, que duraram muito”, relata. Perto dali, havia um posto de gasolina e um segurança interrompeu a agressão. “Naquele momento pensei muito na minha filha e percebi que tudo o que mais queria era vê-la crescer”. Socorrido, foi levado para o hospital. Saiu de lá com oito pontos na cabeça e a decisão de se afastar de forma permanente dos estádios. “Eu poderia ter morrido e tive sorte por escapar”.  
A ONU prega que o esporte pode ser usado como instrumento de transformação social e um caminho para o desenvolvimento e a paz — além de gerar um ambiente de respeito e promoção dos direitos humanos. Mas brigas, agressões e mortes de torcedores revelam o intrincado caminho da violência que apequena a festa nos estádios e invade as ruas por meio de brigas de torcidas organizadas. Na época em que foi agredido, Gustavo integrava uma torcida local ‘de pista’. “Essas torcidas têm uma posição de confronto na ruas. Como ela, existem inúmeras pelo Brasil”, explica. “Percebo que a violência está muito maior, não tem mais briga ‘de mão’. É briga de arma de fogo mesmo”. Depois da agressão, o recifense se desligou do grupo e excluiu o futebol de sua vida — inclusive pela TV.
Tempos depois, ele encontrou um caminho para viver sua paixão com segurança, passando a integrar a Timbu Chopp, uma torcida que ele considera mais light e que tem como lema “Beber, torcer e vibrar sem violência”. “Há várias torcidas ‘Chopp’ e a nossa proposta é não brigar ou procurar confusão”, diz ele. “Esse grupo tem uma ideologia diferente do outro. Queremos a paz e a convivência entre torcedores de qualquer time”. Gustavo conta que o elo entre os 100 integrantes da torcida é muito forte. No centro dele, o futebol. “Mulheres e crianças têm liberdade de ir aos jogos. Vamos cedo, nos divertimos. O jogo complementa o programa familiar”, observa.
Na prática, e de forma muito dura, Gustavo teve negado o direito à liberdade de expressão assegurado pela Declaração dos Direitos Humanos. A ONU entende que é preciso promover e construir um ambiente de respeito e promoção dos direitos humanos em todos os espaços de socialização, seja no trabalho, em casa, na escola ou em atividades esportivas. As torcidas bem podem ser um desses espaços. Não vale a pena matar ou ser morto por um clube ou instituição, entende Gustavo. “Meu direito de torcer, de ir e vir não foi respeitado. Eu não pude andar na rua com a camisa do meu time. Isso não pode acontecer comigo ou com qualquer pessoa”. (LM)

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