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Reportagens

A ciência a caminho da roça

Data de publicação: 
01/10/2018
Livro relançado atesta a importância das expedições do Instituto Oswaldo Cruz para mudar registros do Brasil e promover a saúde pública

Em comemoração aos seus 25 anos, a Editora Fiocruz relançou em parceria com a Casa de Oswaldo Cruz “A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913”, um registro de aspectos originais da memória da saúde e das ciências biomédicas no país. Os expedicionários do instituto — Carlos Chagas e Arthur Neiva, entre eles — não só realizaram o levantamento das condições médico-sanitárias das populações de extensas áreas no início do século 20, como também possibilitaram um minucioso registro de aspectos geográficos, econômicos e socioculturais dos lugares visitados.


“As expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz têm um alcance histórico inegável. Primeiro, por terem ampliado consideravelmente o horizonte dos estudos no campo das chamadas ‘doenças tropicais’ no Brasil. Segundo, pela enorme repercussão que tiveram, junto aos intelectuais, às camadas médias e às próprias elites urbanas, as revelações sobre aquele Brasil caipira, doente, explorado e inculto, que vivia à margem do cosmopolitismo e da civilização que as cidades do litoral, em particular a capital da República, supunham encarnar”, destaca o texto de apresentação do livro, impresso pela primeira vez em 1991. Pesquisa e texto couberam a Eduardo Vilela Thielen, Fernando Pires Alves, Jaime Benchimol, Marli Brito de Albuquerque e Ricardo Augusto dos Santos.


A presidente da Fundação Oswaldo Cruz, Nísia Trindade Lima, em prefácio à edição comemorativa, avalia que a publicação representou valiosa contribuição para toda uma linha de pesquisa sobre a construção da saúde pública e do Estado nacional no Brasil, por constituir-se como um trabalho pioneiro que veio se somar às poucas referências sobre o tema das expedições médicas ao interior durante a Primeira República. “A primeira edição contribuiu para ampliar o conhecimento sobre um expressivo processo social. Organizadas por geólogos, engenheiros, militares e cientistas de instituições de saúde pública, tais expedições atenderam a objetivos estratégicos do Estado e contribuíram para a revisão dos mapas cartográficos, o estudo da flora e da fauna, além de valiosos registros etnográficos”, afirma.


Nísia destaca que as viagens científicas do instituto tiveram importância na construção de novas imagens dos sertões, associando-os às doenças e ao abandono por parte do Estado, e foram cruciais para a campanha do saneamento rural, deflagrada de 1916 a 1920, e denominada como movimento sanitarista da Primeira República no estudo pioneiro de Luiz Antonio de Castro Santos (1985).


Brasil adentro

Desde sua criação em 1900, o então denominado Instituto Soroterápico Federal associou-se aos esforços empreendidos pelo Estado para diagnosticar e encaminhar a solução dos problemas sanitários do Brasil, por meio da participação de seus pesquisadores em ações profiláticas, solicitadas por órgãos governamentais ou empresas voltadas para o serviço público, explica o livro. Ao interesse econômico de algumas campanhas somava-se o esforço de construção nacional, por parte do Estado republicano, através da incorporação de populações até então isoladas no vasto interior brasileiro. Do ângulo da modernização, o cientificismo da época, apoiado na revolução pasteuriana, lançava os pesquisadores nacionais na busca de legitimação da nova medicina higienista, praticada não só nos centros científicos europeus, mas também nos terrenos de Manguinhos.


Na publicação há registros de missões do período de 1911 a 1913. Entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, o pesquisador Astrogildo Machado e o farmacêutico Antônio Martins, do Instituto Oswaldo Cruz, percorreram os vales do São Francisco e do Tocantins com os responsáveis pelos estudos do prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil, que partindo de Pirapora (MG) deveria alcançar Belém do Pará (PA). Entre março e outubro de 1912, a serviço da Inspetoria das Obras contra a Seca, três expedições exploraram o Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Arthur Neiva e Belisário Penna percorreram o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul. Para o Ceará e o norte do Piauí, dirigiram-se João Pedro de Albuquerque e José Gomes de Faria. Adolpho Lutz e Astrogildo Machado desceram o rio São Francisco, de Pirapora a Juazeiro, visitando também alguns de seus afluentes. A serviço da Superintendência da Defesa da Borracha, Carlos Chagas, Pacheco Leão e João Pedro de Albuquerque inspecionaram boa parte da bacia amazônica, entre outubro de 1912 e março de 1913.


As expedições desse triênio, indica o livro, foram demoradas e percorreram extensas áreas com as investigações científicas predominando sobre as preocupações médico-sanitárias de curto prazo. Além dos trabalhos científicos, essas expedições produziram, por meio de relatórios de viagem e de intenso uso da fotografia, um minucioso registro das condições de vida da população interiorana, seus hábitos, suas técnicas, sua mentalidade, associando às questões sanitárias os aspectos sócio-econômicos, culturais e ambientais das regiões percorridas.


Retratos em preto e branco

No prefácio à primeira edição, o escritor Mario Souza sublinha o fato de os cientistas de Manguinhos terem adicionado à sua equipe um novo tipo de cronista: o fotógrafo. “Estes novos cronistas, que tinham a capacidade de apanhar o mundo e domá-lo numa folha de cartão, portavam um equipamento complicado, que exigia um detalhado ritual e disponibilidade da luz solar para cumprir suas tarefas. A parafernália dos antigos profissionais da câmera já era em si uma cartola de mágico. Mas o que impressionava, na convenção do preto e branco, era a capacidade da fotografia transformar os gestos em instantâneos, a memória finalmente apanhada num suporte químico. Era este o fascínio que fazia dos lances aventureiros um trabalho para os fotógrafos.”
No universo de aproximadamente 900 imagens geradas, foram identificadas certas recorrências temáticas: trabalho, vida social, transportes, paisagem urbana, paisagem rural/fluvial, habitação, animais/rochas/plantas, doentes, retratos e famílias, além de registros da própria expedição. Para a produção, foram usadas câmaras grandes, pesadas, que utilizavam negativos de gelatina seca sobre base de vidro, no formato 13 por 18 centímetros. Sobre este aspecto, no relatório de uma das expedições, há referência a um burro de carga que arriou devido ao peso do equipamento fotográfico que transportava. Dos fotógrafos, conhece-se apenas dois deles: José Teixeira, que acompanhou a expedição chefiada por Neiva e Penna, e João Stamato, cinegrafista no Rio de Janeiro na década de 1910, que documentou a expedição de Pirapora, Minas Gerais, a Belém, Pará, pelos vales dos rios São Francisco e Tocantins.


Na documentação, destaca-se a de Belisário Penna e Arthur Neiva, para os autores do livro a mais “engajada, crítica e rica em observações de caráter sociológico”. Depois dessa experiência, eles se tornaram incansáveis propagandistas do saneamento do Brasil, buscando sensibilizar as elites para a ideia de que a redenção econômica, social e moral do país só iria acontecer com a melhoria das condições de saúde da população rural. Vários escritores foram influenciados por estes cientistas, em particular Monteiro Lobato, que aderiu à grande campanha em prol da consciência sanitária nacional, tentando retificar a imagem do Jeca Tatu — não mais um homem decaído por força da preguiça e da indolência, mas um homem doente e, por isso, improdutivo.


“Ideias há que ferem fundo e se propagam com tal rapidez, coligem tal número de adeptos, empolgam de tal forma o espírito, explicam com tal lucidez tantos fenômenos desnorteadores que, ainda em meios de opinião rarefeita como o nosso, passam rapidamente da fase estática para a dinâmica. Fazem-se força, e levam de roldão todos os obstáculos. A ideia do saneamento é uma. Bastou que a ciência experimental, após a série de instantâneos cruéis que o diário de viagem de Arthur Neiva e Belisário Penna lhe pôs diante dos olhos, propalasse a opinião do microscópio, e esta fornecesse à parasitologia elementos para definitivas conclusões, bastou isso para que o problema brasileiro se visse, pela primeira vez, enfocado sob um feixe de luz rutilante. E instantaneamente vimo-la evoluir para o terreno da aplicação prática”, escreveu Lobato, clamando contra a existência de 17 milhões de vítimas da ancilostomose (verminose conhecida como amarelão), o que representava quase 70% da população brasileira.

Autor: 
Bruno Dominguez

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