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Reportagens

A história se repete

Data de publicação: 
01/04/2018
Biografia do escritor Lima Barreto revela origens da exclusão e do preconceito racial no país

Biografias são testemunhos que nos ajudam a entender o tempo e o ambiente em que viveram suas personagens. Direta ou indiretamente, elas nos informam sobre a vida que se levava na época, ajudando a desenhar contextos e a compreender comportamentos e disputas que forjaram, inclusive, situações e práticas de saúde. Isso se potencializa quando o biografado foi uma figura pública e deixou uma obra magistral, como é o caso do escritor Lima Barreto (1881-1922), cujas vida e obra carregam marcas da vivência do racismo e da exclusão social, das críticas mordazes ao patrimonialismo e às disputas pelo poder, mas que também são um retrato dos desafios enfrentados pela população da nascente 1ª República — alguns, ainda atuais um século depois.

“Lima Barreto é um dos intérpretes do Brasil. Sua história se confunde com a do país”, confirmou a historiadora e antropóloga Lília Schwarcz, na apresentação que fez do escritor, ao proferir a aula inaugural da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), no início de março. Autora da biografia “Lima Barreto — Triste visionário” (Companhia das Letras, 2017), Lília destacou a importância do resgate do autor, celebrado apenas depois de sua morte, “neste momento de claro declínio dos direitos sociais e civis”.

Invisibilidade, inadequação, adicção e loucura são palavras determinantes na trajetória de Afonso Henriques de Lima Barreto, autor de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, um dos clássicos da literatura brasileira. Nascido no bairro carioca das Laranjeiras em um premonitório 13 de maio, sete anos antes da abolição da escravatura no país, ele mesmo neto de escravizados e filho de pais livres — um tipógrafo e uma professora —, o escritor experimentou ainda jovem a desigualdade e a discriminação — temas presentes em seu primeiro livro, “Recordações do escrivão Caminha”, de 1909 —, o que talvez o tenha despertado para uma busca insistente por liberdade, traço marcante de sua pena e de sua trajetória. Para ele, “o fim do cativeiro e a conquista da liberdade eram ‘troféus’ difíceis de ganhar, complicados de guardar, quase impossíveis de manter”, como destacou Lília, em artigo sobre o 13 de maio de 1888.

A historiadora identificou, na produção da sua biografia, uma certa urgência e um desconforto constante, sentimentos que compartilhava por meio da dor de suas personagens — escravizados libertos, pacientes internos, funcionários públicos entediados — e da crítica feroz que fazia à elite e seus estrangeirismos, aos políticos e à corrupção. “Ele estava sempre em um local onde não gostaria de estar”, resume a pesquisadora. O descompasso também se refletia na relação que Lima travou com a loucura, esse “imenso caminhão onde cabe qualquer coisa”, como costumava dizer, e que entrou em sua vida “para nunca mais sair”, nas palavras de Lília.

O contato precoce com a Colônia dos Alienados, onde o pai foi administrador, e as duas internações ao longo da vida — motivadas pelo excesso no consumo de álcool — renderam ao escritor desafetos, desalentos, mas também belas personagens e inúmeros questionamentos. “No manicômio, a única cor é negra”, escreveu, no momento em que se discutia no país conceitos como o darwinismo social, teoria que defendia que a mistura de raças causaria degeneração. Para os que seguiam esta corrente, ele seria um degenerado, já que além de sua ascendência negra, era filho de mãe tuberculosa e pai neurastênico. Em seus romances, contos e outros textos, a loucura e o uso excessivo de álcool foram usados por Lima como metáfora para o desencaixe social, álibi perfeito para sua personalidade fora das regras, para o “protagonista fora do lugar”.

Sua narrativa sobre a experiência em instituições de saúde mental também conta muito sobre personagens reais daquele período, como o psiquiatra baiano Juliano Moreira (1873-1933), de quem foi paciente. Conhecido por sua explícita discordância quanto à atribuição da degeneração do povo brasileiro à mestiçagem, especialmente a uma suposta contribuição negativa dos negros na miscigenação, foi Juliano que deu a Lima Barreto “alguma dignidade”, ao entregar a ele papel e lápis. Como contou Lília, ele usou “instrumentos de trabalho como instrumentos de cura” e permitiu que o escritor exercesse sua subjetividade. Tais experiências estão descritas em outro romance, "O cemitério dos vivos", escrito em 1919, no qual o autor se revela nas injustiças e preconceitos sofridos pelo narrador-protagonista, Vicente Mascarenhas.

Para além do preconceito e da loucura, Lima também gravou em sua produção literária a marca de uma época, ao descrever o cotidiano do Rio de Janeiro daqueles dias. “Lima Barreto foi nosso primeiro criador de almas. Ele sentiu, como nenhum outro escritor brasileiro, a tristeza e o humor que cabem na vida do pobre. É nossa primeira autoridade neste assunto: povo. Viu os costumes da gente carioca, seus divertimentos,  suas virtudes e seus vícios”, descreveu o crítico literário Agripino Grieco, em 1956, destacando como o escritor era capaz de enxergar a beleza daquilo que é mais próximo e atual.  
Funcionário público de pouco destaque, descreveu com maestria o cotidiano do transporte público carioca — “Nos trens, somos todos da mesma cor” —, criticou a atuação de políticos e a corrupção que já se apresentava naquela época, e discutiu o papel da literatura em um país pobre. Recusado duas vezes para entrar na Academia Brasileira de Letras, cultivou uma autoimagem de contestador, e se mantinha à margem do primeiro escalão de cronistas de Bruzundanga — como ele chamou o país numa sátira sobre a vida brasileira no começo do século 20. Recuperar sua história é, para Lília, além de um resgate importante para a cultura nacional, mais uma maneira de reparar uma dívida histórica com o escritor, somente escalado ao panteão dos grandes nomes décadas após a sua morte. “A história produz muitas invisibilidades sociais, por ser um exercício de lembrar e de esquecer”, justificou. Para ela, é importante tentar enxergar, a partir das narrativas de Lima Barreto, quais as questões que se  modificaram e quais as que permanecem. Em sua opinião, em relação ao escritor, a questão racial permanece. Um século depois, ainda não damos conta.

Autor: 
Adriano De Lavor

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