Portal ENSP - Escola Nacional de Sa??P??ca Sergio Arouca Portal FIOCRUZ - Funda? Oswaldo Cruz

Estudos em Comunicação e Saúde

Comunicação e Saúde

EM BUSCA DO DIÁLOGO

Data de publicação: 
01/04/2016
um estudo sobre interatividade na comunicação

Rogerio Lannes Rocha

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Orientador: Prof. Dr. Muniz Sodré de Araújo Cabral

Rio de Janeiro

2003

 

 

Folha de Aprovação

 

em busca do diálogo

um estudo sobre interatividade na comunicação

 

 

 

Rogério Lannes Rocha

 

 

 

Dissertação submetida ao corpo docente da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro – ECO/UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre

 

 

Aprovada por:

 

 

Professor Doutor Muniz Sodré de Araújo Cabral - Orientador

 

 

Professor Doutor Jorge de Campos Valadares

 

 

Professor Doutor Mohamed El Hajji

 

 

Rio de Janeiro

2003

Ficha Catalográfica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

Rocha, Rogério Lannes

Em busca do diálogo: um estudo sobre interatividade na comunicação/ Rogério Lannes Rocha. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO, 2003.

x, 144p., il

Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Comunicação.

1. Diálogo 2. Interatividade 3. Comunicação – Comunicação de massa 4. Mídia 5. Dissertação (Mestr. – UFRJ/ECO) I. Título

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao vô Lau, pelos 100 anos de serena referência ética

A Paula, pela descoberta da alteridade em nosso encontro amoroso e alegre

A Nina e Julia, por me ensinarem a ser pai e, com Mariah, me renovarem sempre para o diálogo

 

Agradecimentos

 

 

 

 

 

Agradeço muito especialmente a meu orientador, Muniz Sodré, e aos mestres Paulo Vaz, Raquel Paiva, Moha Hajji e Aluízio Trinta, por me revelarem, generosamente, novas dimensões do pensamento e do discurso.

Pela leitura de capítulos e sugestões ao texto final, agradeço a Wilson Chebabi,Antônio Aristides Dutra e Janine Cardoso. Pelas valiosas colaborações que viabilizaram a pesquisa por e-mail, agradeço a Pery Cotta, Kátia Machado, Justa Franco e Andreia Soares.

Agradeço a todos que incentivaram, deram sugestões ao projeto inicial e foram solidários no período das disciplinas e da redação da dissertação, em especial a José Paulo Silva, Ilma Noronha, Cecília Minayo, Neusa Garvazza, Luciana Heymann, José Maurício Arruti, Cristina Fonseca, Fernando Lattman-Weltman, Leonel de Aguiar, Teresa Neves, Patrícia Saldanha, Jorge Ricardo Gonçalves, Pedro Teixeira e Robert Colvin. Obrigado a Gil de Souza, pelo equilíbrio e saúde.

Agradeço à ENSP/Fiocruz, pela liberação de parte de meu tempo para concluireste trabalho, e aos parceiros do Radis, APA-CPII, Nupec/ECO/UFRJ e Asfoc, pelo companheirismo e pela tolerância com a ausência.

Obrigado a Paula, Nina, Julia e Mariah, por me apoiarem de forma irrestrita.Obrigado também a Monique, por compartilhar o cuidar de nossas filhas. E, finalmente, um agradecimento especial a meus pais, Valdir e Leusa, pelo tanto de suas vidas dedicado a minha, e a meus irmãos, Vania, Léo e Valdir, pela cumplicidade e afeto.

 

Resumo

 

 

ROCHA, Rogério Lannes. Em busca do diálogo: um estudo sobre interatividade na comunicação. Orientador: Muniz Sodré de Araújo Cabral. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO, 2003. Dissertação de Mestrado.

 

Este trabalho aborda a promessa de interatividade na mídia tradicional brasileira, com foco na troca de e-mails entre leitores e colunistas de jornal. Distintas teses sobre comunicação de massa e nova mídia são apresentadas, e a extensão e as condições em que as formas de interatividade são ofertadas pela mídia são objeto de uma análise empírica. O contato por e-mail entre leitores e colunistas foi analisado com base em pesquisa quantitativa e qualitativa, realizada por correio eletrônico com colunistas de alguns dos principais jornais brasileiros. O ambiente social e cultural em que esse novo processo ocorre foi considerado para avaliar o significado do apelo à ‘interatividade’ no atual discurso da mídia. Uma das possibilidades levantadas é que a simulação de interatividade visa a preservar a hegemonia discursiva. O desejo humano de vincular-se ao outro está na origem do interesse do público pela interatividade e da tentativa de transformá-la em uma busca de diálogo, conclui o estudo, que também avalia alternativas de relacionar-se com a mídia, no ambiente midiático contemporâneo, com base em escolhas éticas.

 

Abstract

 

 

ROCHA, Rogério Lannes. In search of dialogue: a study on interactivity in communication. Tutor: Muniz Sodré de Araújo Cabral. Rio de Janeiro: Federal University of Rio de Janeiro – UFRJ/ECO, 2003. Dissertation for the Master's degree.

 

This work addresses the promise of interactivity in the Brazilian mass media, focussed on the exchange of e-mails between newspaper readers and columnists. Different views on traditional and new media, as well as the extent and the way in which interactive forms are offered, are analyzed here. The analysis of the contact between the newspaper readers and columnists is based on a quantitative and qualitative internet survey, involving some top Brazilian newspaper columnists. Social and cultural environments are taken into consideration to assess the meaning of the appeal for interactivity in the present media discourse. Simulation to preserve the hegemony of the discourse is one of the possibilities raised. The human desire for a relationship with the other is the origin of the public interest on interactivity and on trying to transform it in search for dialogue concludes this study. It also evaluates some alternatives of how to relate with the media, based on ethical choices, in the contemporary social and cultural environment, which is ruled by the media.

 

Sumário

   

Introdução.................................................................................................. 1

1. Modalidades de diálogo............................................................................. 5

1.1.1 –   1.1. Diálogo como intersubjetividade............................................. 6

2 –           1.1.1. Alienação e auto-engano............................................. 7

2.1.1 –   1.2. A eterna busca.................................................................... 8

3 –           1.2.1. Diálogo na “esfera inter-humana”............................... 10

4 –           1.2.2. As “esferas da natureza e do espírito”......................... 11

4.1.1 –   1.3. A arte do diálogo............................................................... 14

5 –           1.3.1. Da retórica à dialética............................................... 14

6 –           1.3.2. Da demonstração à argumentação.............................. 16

6.1.1 –   1.4. A psicanálise e o resgate do diálogo....................................... 18

7 –           1.4.1. Diálogo como tempo recuperado................................. 21

7.1.1 –   1.5. A pragmática da comunicação humana................................... 22

8 –           1.5.1. Retroalimentação, metacomunicação e dupla vinculação.. 24

8.1.1 –   1.6. A comunicação que encerra o diálogo.................................... 25

2. Comunicação de massa e interatividade................................................... 29

8.1.2 –   2.1. Crítica da comunicação de massa.......................................... 30

9 –           2.1.1. “Onde está a resposta?”............................................ 30

10 –       2.1.2. Assaltar a mídia ou sabotar o código?.......................... 31

10.1.1 –                                                                                                                                                                2.2. Do analógico ao digital 35

11 –       2.2.1. Internet, ciberespaço e interatividade.......................... 35

12 –       2.2.2. Da sedução à inteligência coletiva – Baudrillard versus Lévy 39

13 –       2.2.3. A nova mídia........................................................... 42

13.1.1 –                                                                                                                                                                2.3. Interatividade na comunicação de massa brasileira......................................................... 44

14 –       2.3.1. Rádio – interação ou segmentação?............................. 45

15 –       2.3.2. Tevê – metamorfose ou mimetismo?........................... 47

16 –       2.3.3. Tevê a cabo – diversidade ou “mais do mesmo”?........... 52

17 –       2.3.4. Jornal – filtro ou permeabilidade?................................ 55

18 –       2.3.5. Crítica da interatividade – Sodré versus Boni................. 59

18.1.1 –                                                                                                                                                                2.4. Muito aquém da interatividade................................................................................... 60

3. Leitores, e-mail e colunistas de jornal...................................................... 63

18.1.2 –                                                                                                                                                                3.1. Metodologia  63

19 –       3.1.1. Questionário........................................................... 64

20 –       3.1.2. Distribuição e acompanhamento................................. 65

21 –       3.1.3. Retorno e perfil dos colunistas.................................... 66

21.1.1 –                                                                                                                                                                3.2. Análise dos resultados............................................................................................ 67

22 –       3.2.1. A busca do contato.................................................. 67

23 –       3.2.2. Quem responde às mensagens................................... 68

24 –       3.2.3. Perfil do leitor......................................................... 69

25 –       3.2.4. Mais próximos, com o e-mail..................................... 71

26 –       3.2.5. “O primeiro leitor a gente nunca esquece”.................... 72

27 –       3.2.6. “O leitor quer atenção”............................................. 74

28 –       3.2.7. Pautar ou não pautar................................................ 76

29 –       3.2.8. A voz do leitor na coluna........................................... 78

30 –       3.2.9. “Sentir o pulso do leitor”........................................... 80

31 –       3.2.10. “Tem razão, o leitor”.............................................. 82

32 –       3.2.11. Leitor versus leitor................................................. 82

33 –       3.2.12. Violência e outros temas.......................................... 83

34 –       3.2.13. Diálogo e interatividade segundo os colunistas............. 85

34.1.1 –                                                                                                                                                                3.3. O leitor e o editorialista.......................................................................................... 89

34.1.2 –                                                                                                                                                                3.4. Para além da interatividade........................................................................................ 96

4. A cultura midiatizada............................................................................ 100

34.1.3 –                                                                                                                                                                4.1. Da mediação à midiatização..................................................................................... 101

35 –       4.1.1. Regulação e interação com os acontecimentos............. 105

35.1.1 –                                                                                                                                                                4.2. Ônibus 174 – Uma tragédia carioca............................................................................ 109

36 –       4.2.1. Violência e as éticas das personagens........................ 110

37 –       4.2.2. Mídia e sociedade – éticas do coro e da platéia............ 114

37.1.1 –                                                                                                                                                                4.3. O ambiente midiático  119

38 –       4.3.1. Reflexão ética e a força do comum........................... 121

Considerações finais................................................................................. 129

Referências Bibliográficas......................................................................... 137

Anexos.................................................................................................... 145

 

Lista de Ilustrações

 

 

Figura 1 – Foto – 11 de setembro (Time, 24 set. 2001) ...................................... 107

 

Figura 2 – Foto – ônibus 174 (Jornal do Brasil, 13 jun. 2000) .......................... 110

 

Figura 3 – Título jornal – marchas antiguerra (Folha de S. Paulo, 16 fev. 2003) 119

 

 

 

 

Introdução

Um fenômeno crescente ocorre na mídia brasileira há, pelo menos, 10 anos. Com o discurso de que, cada vez mais, é o público que escolhe o que vê, ouve e lê, os meios de comunicação investem na imagem de que estão-se tornando mais interativos, antecipando um momento de convergência tecnológica da mídia tradicional com os recursos digitais. A promessa de maior participação do público na programação da tevê e do rádio e nas páginas da imprensa, se confirmada, poderia alterar as avaliações que reservam à comunicação de massa o estatuto da unilateralidade.

Esta dissertação aborda a promessa de interatividade na comunicação de massa, a partir do foco em uma forma de contato que articula instâncias tão diversas quanto o monológico jornal impresso e o dialógico correio eletrônico, o articulista de jornal e o leitor de suas colunas. Além de investigar a extensão e as condições em que essa interatividade é ofertada pela mídia, importa analisar aqui o modo como essa possibilidade é apropriada pelo sistema midiático em sua relação com a sociedade brasileira, avaliando o contexto cultural em que se processa, ou não, essa mudança.

O procedimento de alguns jornais de disponibilizar o e-mail dos colunistas ao lado de seus textos, desde meados da década passada, não teria maior repercussão, não fosse o fato de cada vez mais freqüentemente aparecerem opiniões de leitores nos artigos publicados. O contato por e-mail entre leitor e colunista revelou-se um objeto relevante para esta investigação a partir de observação do colunista Moacir Werneck de Castro, ao comentar, em artigo de 1999, que “o e-mail gera um retorno ou feedback inesperado, quebrando o controle que as direções dos jornais sempre puderam exercer sobre a opinião dos leitores”.

Uma vez aceito o pressuposto de que a comunicação de massa é unilateral e monológica, como argumentam estudos da teoria crítica dos anos 60 e 70, meu objetivo foi verificar o que de fato está ocorrendo de novo, tanto do ponto de vista técnico da interação quanto da ocorrência de interferência sobre os ‘conteúdos’ da mídia,  além do significado que adquire esse maior contato para os colunistas e, do ponto de vista destes, também para os leitores.

Os sistemas de comunicação articulam-se e se confundem com outros sistemas sociais e econômicos de poder, esferas do Estado e, em última instância, com a economia de mercado e o capital. Considerando que os investimentos e a concentração de capital em jogo não fazem antever um rápido abandono das posições hegemônicas da mídia tradicional na sociedade, busquei observar também se, na direção da anunciada convergência de mídias, a tradicional tende a incorporar os recursos digitais da chamada nova mídia, ou o inverso, conforme pensam teóricos como Lucia Santaella, de acordo com quem (1992, p.29):

o que essas novas mídias estão indicando, em primeiro lugar, é que elas proliferam através do reaproveitamento das mídias já existentes, provocando um desvio produtivo no uso das tradicionais mídias de massa. Em segundo lugar, elas também parecem estar demonstrando que deverão provocar na cultura de massas tanto ou mais efeitos de transformação do que esta produziu nas formas eruditas e populares de cultura.

Não foi objetivo deste trabalho analisar a conveniência ou eficácia das tecnologias nem encontrar saídas para as empresas de comunicação, mas parte do estudo foi dedicada à compreensão do significado desse processo na cultura contemporânea. Também não vi sentido em tentar ‘adivinhar’ as próximas novidades tecnológicas e como nos relacionaremos com elas – exercício que tem levado à obsolescência alguns dos livros escritos nas últimas décadas. A hipótese que procurei submeter ao procedimento da análise dos fatos foi a de que a aparente abertura dos meios à maior participação do público estaria associada a estratégias que tendessem ao reforço do papel hegemônico da mídia na cultura. O apelo à interatividade viria da força de atração que o conceito, embora impreciso, exerce sobre o público.

O tema e o objeto aqui analisados logo derivaram de uma simples visada sobre processos interativos, digitais ou não, em meios lineares tradicionais de comunicação e seus ‘efeitos’, para a identificação da discussão de fundo supostamente presente na motivação do sujeito que procura a interatividade: o desejo de diálogo. A interatividade seria, do ponto de vista do público, uma promessa de diálogo, e o diálogo, um desejo essencial do ser humano.

Tal percurso conduziu a discussão deste trabalho para o núcleo teórico da comunicação: a vinculação entre o eu e o outro, cerne do qual derivaram outras discussões teóricas presentes nos dois primeiros capítulos desta dissertação, como as aproximações conceituais do que sejam diálogo, comunicação e interatividade ou, ainda, como abordado no quarto capítulo, as implicações éticas e de disputa por hegemonia política e econômica envolvidas na apreensão individual ou coletiva da existência compartilhada, do ser-em-comum.

O quadro teórico apresentado no primeiro capítulo é aberto pela conceituação do diálogo como troca subjetiva, seguida pela exposição do pensamento de Martin Buber, que se dedicou a problematizar a alteridade, fundando uma filosofia do diálogo, em que a centralidade do homem não está em si mesmo e nem no outro, e sim na relação entre o eu e o outro. À discussão sobre essa relação são incorporados autores da retórica, da dialética, da psicanálise e da pragmática da comunicação, convergindo, ao final do capítulo, exatamente para a questão da vinculação, dentro de um contexto em que a comunicação adquire sua autonomia como campo teórico.

Assumido o princípio de que o diálogo está no centro da questão da comunicação, a escolha de conceitos que orientassem o curso do trabalho procurou não se deixar ‘engessar’ pelos essencialismos de definições como ‘não-comunicação’ ou ‘incomunicação’. Amparando-me no axioma da pragmática de que “é impossível não se comunicar” e na visão – neste trabalho apresentada por Vattimo – de que não há verdades, mas interpretações, procurei lidar com as definições dos diversos autores a partir de critérios de aproximação e afastamento conceitual, ou seja, modalidades de diálogo, graus de interatividade, amplo espectro das possibilidades de comunicação – da monológica à dialógica. Procedi da mesma forma em relação às conceituações de interação, mediação e ética.

As expressões ‘modalidades’ e ‘graus’ – explicitamente justapostas às definições ou não – são, portanto, chave neste trabalho e desafiaram a própria autonomia do texto, que, de tempos em tempos, tendia a simplificar ou absolutizar conceitos e interpretações. Pelos excessos dessa ordem, cometidos no processo da análise e ainda presentes neste texto, peço antecipadas desculpas ao leitor.

O segundo capítulo comporta, em sua primeira parte, diferentes visões sobre comunicação de massa e a emergência do digital, além de conceitos de interatividade. As discussões nele presentes dizem respeito ao caráter unilateral da mídia de massa e às possibilidades de resgate ou não da dimensão da troca no âmbito da tecnologia digital.  Na segunda parte, apresento comentários e alguns exemplos sobre a relação da mídia tradicional brasileira com seu público, a partir de breve observação empírica, adotando como critério de referência, para a avaliação dos graus de interatividade, as categorias de interatividade fraca ou forte, de Paulo Vaz, e transmissional, consultacional, conversacional ou registracional, de Jens Jensen, apresentadas no mesmo capítulo.

Sem pretender identificar quais os melhores dispositivos interativos a serviço das empresas de comunicação ou especular sobre ‘novas’ tecnologias informacionais, as discussões e a breve avaliação apresentadas nesse capítulo tiveram o objetivo de verificar se o que a mídia promete explícita ou implicitamente como ‘interatividade’ ou ‘participação’ de fato corresponde ao que é possibilitado ao público. Cumpriram também o papel de contextualizar a perspectiva de convergência de mídias e o discurso técnico-publicitário de interatividade com os meios, que conformam o ambiente em que se dá a emergência da possibilidade de maior contato com o medium tido como tradicionalmente menos interativo, o jornal, a ser analisado em seguida.

O terceiro capítulo é dedicado à apresentação dos resultados e da análise da pesquisa híbrida (qualitativa e quantitativa) realizada por meio do envio de questionários a colunistas de jornais de todo o país. O tema do contato entre leitor e colunista via correio eletrônico foi abordado em perguntas semi-abertas, que procuraram aferir o perfil de leitores e colunistas que se utilizam do e-mail, mudanças na freqüência e qualidade da troca com os leitores, influência das mensagens na pauta e presença de suas opiniões na coluna, motivações e interesses de ambas as partes, temas mais abordados, vínculos porventura estabelecidos e graus de interatividade e diálogo que os colunistas atribuam a essa forma de contato. Aspecto interessante dos resultados dessa pesquisa, as respostas direcionaram o foco da análise para fora das páginas dos jornais, priorizando a relação que se estabelece entre o leitor e o colunista.

No quarto capítulo, a discussão volta a se ampliar, abrangendo mídia e sociedade. O sentido da promessa de interatividade na cultura contemporânea mistura-se a um conjunto de processos sociopolíticos e estratégias técnico-comunicacionais que caracterizam uma mudança nas relações de sociabilidade, referente à construção e regulação da realidade social. À discussão sobre a cultura inserida no ambiente midiatizado – o ‘quarto bios’ aristotélico, conforme formulação de Muniz Sodré – comparecem o papel da mídia, os interesses do mercado e do capital e as alternativas do pensar e agir diante da crise ética brasileira e do poder midiático global. Os temas são trabalhados a partir de um ensaio sobre ética e violência focalizando o episódio do ‘ônibus 174’ e comentários sobre o ‘11 de setembro’ e outros acontecimentos recentes veiculados pelo noticiário nacional e internacional.

1. Modalidades de diálogo

No princípio é a relação (...) A vida pré-natal das crianças é um puro vínculo natural, um afluxo de um para o outro (...) o homem conheceu o universo no seio materno, mas ao nascer tudo caiu no esquecimento. E este vínculo permanece nele como uma imagem secreta de seu desejo.

Martin Buber

Desejo e necessidade, o diálogo está no centro da questão da comunicação humana. Observar o fenômeno da comunicação de massa – por definição e origem, um processo de contato distante e unilateral – ou da relação entre mídia e sociedade é necessariamente lidar com a idéia de uma crise do diálogo na comunicação. Discutir a interatividade e seu lugar na cultura, como proposto nesta dissertação, requer, portanto, uma reflexão sobre modalidades de diálogo, tomadas desde já não como conceitos excludentes de outras possibilidades e gradações de interação, mas como referência para identificar aproximações e afastamentos nos processos de comunicação a serem examinados neste trabalho.

Tornar comum, trocar, mediar, relacionar-se, vincular-se, dialogar enfim são ações da ordem da comunicação. É no encontro, na relação, no vínculo que estão as expectativas humanas de conhecimento, amor e felicidade expressas no discurso de filósofos e poetas. Na relação dialógica entre reflexão e ação, entre práxis e logos acende-se a centelha que dá origem ao discurso científico racional, à explicação cartesiana, mesmo quando posteriormente transformada em pura demonstração. É na busca do autoconhecimento, da troca com o outro, do pertencimento e interação com o meio ambiente e de mediação e vínculo com o transcendente que a experiência humana adquire sentido.

Este capítulo, dedicado às conceituações de diálogo, começa tratando do resgate da capacidade humana de dialogar, trabalhado com base em texto da psicanalista francesa Éliane Amado Lévy-Valensi, contemporânea de Jacques Lacan, e entrevista com o psicanalista paraense, radicado no Rio de Janeiro, Wilson Chebabi. Segue com a problematização sobre o ser e a relação, conforme a filosofia do diálogo do alemão Martin Buber, e apresenta uma breve visada histórica sobre a arte do diálogo: da origem da retórica e da dialética à diferenciação existente entre argumentação e demonstração, na visão do filósofo francês Chaïm Perelman. À formulação da “não-comunicação” ou “incomunicação” do francês Jean Baudrillard é contraposta a tese da impossibilidade humana de não comunicar, defendida pelos teóricos pragmáticos americanos do Instituto de Pesquisa Mental de Palo Alto, Califórnia. O capítulo termina indicando, entre os muitos conceitos possíveis e historicamente construídos por diferentes linhas teóricas, a conceituação de comunicação com a qual estarei trabalhando nesta dissertação.

1.1. Diálogo como intersubjetividade

Diálogo é troca intersubjetiva, que o simples contato, a conversação, a comunicação interpessoal não asseguram. A troca torna-se ilusória, ‘não verdadeira’, caso o sujeito se aliene de sua percepção do mundo, de seus desejos e sentimentos, desconectando-se de sua subjetividade, essa raiz da vida do sujeito, sua própria vida.

No pensamento ocidental, a noção de subjetividade surge junto com a de objetividade, a partir de Descartes, no século XVII, quando se rompe com a forma indistinta com que sujeito e objeto eram percebidos na visão do mundo vivido. Subjetividade, então, passa a ser entendida como a maneira pela qual o ser humano apreende ou conceitua o real. Instaurada a separação entre o sujeito que percebe e o objeto da percepção, o esforço de grande parte dos pensadores ocidentais dos séculos posteriores foi o de buscar, por meio da razão (inspirados em Descartes) ou da observação e experimentação (seguindo o caminho iniciado por Bacon no século XVI), a apreensão e compreensão do real, a certeza sobre a questão de o real ser mesmo o que parece ser.

Se, no Iluminismo, a ‘graça’ de Deus ainda era garantia de que aquilo que se percebia de fato existia, na Modernidade, com a ‘morte’ desse avalista absoluto, o homem viu-se compelido a entender o mundo e ele mesmo interpretando (e tendo sua percepção alterada por) distintos processos históricos, econômicos e culturais, estados físicos ou emocionais mutáveis, singularidades. Com Freud (no final do século XIX), a psicanálise surge como base conceitual que dá sustentação a um processo analítico cujo objetivo é ajudar o ‘paciente’ a ser cada vez mais sujeito, ele mesmo, e não objeto.

O diálogo a que aspira a psicanálise é aquele em que o sujeito, livre das barreiras interpostas à busca, diferenciação e descoberta do outro, redescobre sua subjetividade e passa a expressar aquilo que realmente pensa e sente, e não aquilo que supõe que o outro queira ‘ouvir’.

A psicanálise não deixa de estar inscrita na concepção que perpassa toda a história do Ocidente, em que a diferenciação entre o eu e o outro se funda na ruptura de um vínculo cósmico – expressa no mito judaico-cristão do pecado original, a ‘queda’ representada pela saída do Éden –, mas pensa isso em termos mais limitados: na relação do ser humano a partir de sua experiência de feto, bebê, tendo, enquanto cresce, que encarar perdas daquele sentimento oceânico, daquela plenitude. O vínculo mãe e filho não é reconhecido como uma relação pela psicanálise, é uma coisa só, e o parto e a diferenciação não acontecem quando a criança sai do ventre, mas ao longo de toda a vida. O diálogo aqui é uma relação de aproximação e afastamento constante do universo do ventre materno, de reconhecimento de si mesmo pela diferenciação com o outro.

A possibilidade que se abre com o processo psicanalítico (ou via as diversas vertentes analíticas decorrentes da psicanálise) não é a de um diálogo perfeito, idealizado, inatingível. É a de algo possível, desde que os envolvidos tenham a liberdade de divergir, viver suas diferenças. Isso pressupõe a idéia do autoconhecimento, um diálogo do sujeito com suas vozes internas, com suas verdades, uma comunicação consigo, que passa por um diálogo com o outro.

1.1.1. Alienação e auto-engano

Na comunicação interpessoal, está sempre presente o medo do sentimento de solidão, que leva à tendência ao diálogo ‘alienado’, ou seja, a situação em que o sujeito diz algo que imagina que seja o que o outro quer ouvir, porque, assim, supõe, será ouvido. Aqui, o diálogo é constantemente ameaçado por um dilema, que condena o sujeito ao isolamento, como explica o psicanalista Wilson Chebabi:

Quando eu me dou conta de que a maneira como visualizo, percebo e sinto, vislumbro as coisas não bate, não coincide com o que os outros pensam, fico numa divisão de águas, num dilema: ou eu estou inteiramente enganado, ou os outros estão. Mas isso é assustador na medida em que me deixa isolado. Então, a minha subjetividade só eu a tenho, só eu penso assim ou sinto assim. É por aí que entra todo um questionamento. Ou eu, para não sofrer a dor que vem da solidão, adoto o que os outros pensam e procuro pensar aquilo que os outros querem que eu pense, ou me recolho e fico isolado. Nas duas possibilidades existe uma alienação, porque ou eu me alieno de mim mesmo, para não perder os outros, ou me alieno dos outros, para não perder as minhas convicções. E aí eu fico condenado a um isolamento.[1]

Chebabi afirma que vivemos numa sociedade em que há simulações de diálogo o tempo todo. “Toda vez que o sujeito está falando aquilo que ele imagina que deva falar, sem sentir, está alienado. O diálogo alienado é como se as partes tivessem papéis estereotipados, recitam apenas aquilo que acham que devem dizer”, acrescenta. A comunicação transforma-se num monólogo também quando as partes se dispõem a não ouvir nem dizer senão aquilo que já pensam e sentem. A comunicação como diálogo deixa de existir, mesmo em meio a múltiplos discursos; são monólogos que se confirmam mutuamente.

Para a psicanalista Éliane Amado Lévy-Valensi (1965, p. 173), a alienação do homem reside na fixação em um objeto extinto, em um tempo também extinto que, fascinando a consciência, falseia a experiência e o objeto atuais e torna a consciência “incapaz para o devir e a comunicação”. Assim, o sujeito vive um tempo não realizado e uma comunicação alienada, que, no nível dos transtornos mentais, se traduz nos processos da neurose narcísica que leva à transferência e à impossibilidade das escolhas amorosas, da esquizofrenia e do autismo, que levam ao não-reconhecimento da existência e da presença do outro.

A forma mais intensa de alienação talvez seja o auto-engano, a alienação acerca de si mesmo, como sujeito, e não em relação a qualquer objeto externo. E engana-se com êxito quem não o pretende fazer, quem acredita em suas próprias ‘mentiras’. “O universo subjetivo no qual vivemos imersos é tão real quanto o mundo objetivo no qual trabalhamos e agimos. A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de um ser humano é a que ele trava consigo mesmo”, diz o economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca (1997, p. 9), interessado em discutir as implicações éticas do auto-engano na vida pública e privada, a partir da investigação da formação de crenças, as pulsões e a conduta individual.

Para ele, a conquista da linguagem representou “um verdadeiro big-bang” na expansão do universo do engano nas relações humanas: “é no cosmo paralelo da intersubjetividade humana mediada pela linguagem que a arte do engano encontra o seu elemento e alcança a plenitude” (ibidem, p. 37). Na retórica ou na argumentação não estão presentes apenas discurso e resposta que visam ao entendimento, mas também palavras que cavam ou erguem barreiras. Aqui, a idéia da separação e não a da aproximação pela palavra, pela linguagem. O diálogo aliena-se no engano e no desconhecimento involuntário, no intercâmbio cotidiano de palavras, na realidade desordenada do discurso, em que a comunicação é, segundo Lévy-Valensi (1965, p. 36), “uma caricatura da comunicação, um simulacro de diálogo”. No espaço da comunicação humana, auto-engano e engano interpessoal apresentam-se cumulativamente e são carreados pela linguagem, desafiando e sendo desafiados pelo diálogo.

1.2. A eterna busca

A relação, o diálogo, representa para o filósofo Martin Buber (1977, fragmento 343) a origem da existência humana e, nela, um fim. Ele assinala que a vida das crianças no ventre materno é puro vínculo (verbundenheit), uma relação íntima entre dois seres, “uma inter-ação corporal na qual o horizonte vital do ente em devir parece estar inscrito de um modo singular no horizonte do ente que o carrega”. Estudioso do hassidismo,[2] ele acredita que esse horizonte vai além da mãe humana, é cósmico. E é esse vínculo humano e espiritual,[3] postula Buber, que o ser humano deseja e busca no diálogo durante toda a sua vida.

Buber defende a idéia de que o homem é um ente de relação ou que a relação lhe é fundamental, fundamento de sua existência. Com Feuerbach, acredita que não há a identidade absoluta do homem e que sua natureza “não é contida somente na comunidade, na unidade do homem com o homem, mas numa unidade que repousa exclusivamente sobre a realidade da diferença entre eu e tu” (Buber, 1977, p. xxv).[4]

O “Eu” e o “Tu” são conceitos-chave na filosofia do diálogo de Buber. Em sua visão o mundo é duplo para o homem, e não da forma maniqueísta bem/mal ou certo/errado, mas segundo as duas atitudes possíveis do homem diante do outro e do mundo, traduzidas pelas “palavras-princípio Eu-Tu e Eu-Isso (Ele ou Ela)” que ele pode “proferir” (ibidem, fragmento 9). Essa escolha define ainda mais. Na medida em que o proferir não é apenas fala – mas ação, atitude –, a palavra-princípio que é expressa fundamenta a própria existência, define o eu – distinto em cada um desses pares de vocábulos: “Se diz Tu profere-se também o Eu da palavra-princípio Eu-Tu. Se diz Isso profere-se também o Eu da palavra-princípio Eu-Isso” (idem, ibidem). Buber afirma que aquele que profere uma palavra-princípio penetra seus domínios e permanece neles. Não há separação entre a atitude e o ser.

O domínio do Isso é o dos verbos transitivos, é o das atividades que têm algo por objeto: eu percebo, experimento, uso, represento, quero, sinto alguma coisa, penso em alguma coisa. O reino do Tu tem fundamento diverso. Enquanto no domínio do Isso uma coisa existe porque outra existe ou porque é limitada por outra, no domínio do Tu não se pode dizer que uma das partes é um objeto ou uma coisa: “Aquele que diz Tu tem coisa alguma por objeto (...) não possui coisa alguma, não possui nada. Ele permanece na relação” (ibidem, fragmento 11).

Pode-se dizer que o que profere o Tu situa-se no ‘entre’, outra categoria primordial da dialogicidade da pessoa, o locus mais importante, no qual são possíveis a aceitação e a confirmação ontológica dos dois pólos envolvidos no evento da relação. Contudo, sendo o entre, o intervalo, o lugar de revelação da palavra proferida pelo ser, ele existe tanto entre Eu e Tu quanto entre Eu e Isso.

Na atitude ‘Eu-Isso’, têm-se a experiência e a utilização objetivante. Na outra atitude, o ato essencial do homem, o encontro na reciprocidade e na confirmação mútua do diálogo com o outro, a relação com o Tu que se torna Eu. A essas duas atitudes correspondem, na visão do autor, dois tipos de mundo e também dois princípios de existência: o monológico e o dialógico.

A relação, sinônimo de diálogo para Buber, engloba o encontro, que é algo atual, um evento que acontece no instante atual. A relação abre a possibilidade da latência, de um encontro dialógico sempre novo. Mesmo durante o relacionamento[5] ‘Eu-Isso’, o homem guardaria a possibilidade de uma nova relação, da atualização do encontro dialógico. O dialógico é para Buber a forma explicativa do fenômeno do inter-humano, que implica a presença no evento de mútuo encontro. Presença, aqui, significa presentificar e ser presentificado, o que leva à idéia da reciprocidade. “Que ninguém tente debilitar o sentido da relação: relação é reciprocidade”, enfatiza Buber (ibidem, fragmento 14 e p. xlviii).

1.2.1. Diálogo na “esfera inter-humana”

A dualidade da atitude acaba sendo também definidora do lugar do outro e, conseqüentemente, do Eu que atua. De outra forma: as duas palavras-princípio ao se atualizarem não só estabelecem dois modos de ser-no-mundo (monológico e dialógico), mas também imprimem uma diferença no estatuto ontológico do outro. O fundamento cabe à palavra-princípio ‘Eu-Tu’. Segundo Buber, o Tu ou a relação são originários. O Tu apresenta-se ao Eu como sua condição de existência, já que não há Eu em si, independente; em outros termos, o ‘si mesmo’ não é substância, mas relação. “O homem se torna Eu na relação com o Tu” (ibidem, fragmento 37).

Na sucessão de encontros face a face, os eventos de relação “se condensam e se dissimulam” e “é nesta alternância que a consciência do parceiro, que permanece o mesmo, que a consciência do Eu se esclarece e aumenta cada vez mais”. Não é uma consciência clara, é gradativa, mas emerge com força crescente até que a ligação com o Tu se desfaz, e o Eu se vê diante de si, “separado, como se fosse um Tu, para tão logo retomar a posse de si e daí em diante, no seu estado de ser consciente, entrar em relações” (idem, ibidem). A consciência simultânea do vínculo e da separação é da ordem da subjetividade.

Depreende-se do pensamento de Buber (ibidem, fragmentos 20, 76) que, no relacionamento monológico, o Isso pode estar na presença do Eu – porque se oferece ou é visto como objeto –, mas o Eu não está na ‘presença’[6] do Isso – porque, diante de um objeto, não se apresenta em sua totalidade. Aqui, o Eu é um sujeito de experiência, de conhecimento, denominado por Buber ‘egótico’, porque ele se relaciona consigo mesmo. O outro no relacionamento ‘Eu-Isso’ também não se apresenta em sua alteridade. Segundo essa formulação, só no encontro dialógico acontece uma recíproca presentificação do Eu e do Tu, em sua totalidade e na alteridade essencial de cada um; o Eu como pessoa, e o Tu como outro.

A busca do outro é o ato essencial do homem, que se traduz quando este dirige àquele a palavra-princípio. Mas, segundo Buber, não se pode ‘experienciar’ o Tu presente, saber a seu respeito algo parcial, como se faz em relação ao Isso; só é possível saber tudo. Ambos só se apresentam na relação ‘Eu-Tu’ em sua totalidade. Para que o evento instaurado pela palavra-princípio ‘Eu-Tu’ seja dialógico, é necessário o elemento de totalidade, como suspensão de todas as limitações, ações e sentimentos, uma busca que não se utiliza de meios, assemelhando-se a uma passividade, em total abertura para que o outro se apresente. A relação com o Tu é imediata – a própria memória transforma-se no momento em que passa dos detalhes à totalidade, diz Buber –, e o encontro acontece quando o homem é totalidade que age e há a reciprocidade da ação totalizadora (ibidem, fragmento 19).

Segundo o critério da reciprocidade, a relação de maior valor existencial, conforme Buber, é o encontro dialógico, a relação inter-humana em que a linguagem se completa como seqüência no discurso e na réplica, e a invocação encontra sua verdadeira e plena resposta (ibidem, fragmentos 121, 122). Além da esfera dos homens, ele distingue outras duas: a relação com os seres da natureza e a esfera das essências espirituais.

1.2.2. As “esferas da natureza e do espírito”

Se a relação na vida dos homens com seus pares toma a forma da linguagem, com a natureza, segundo Buber, permanece no limiar da linguagem e com os seres espirituais gera linguagem, embora não se dê por meio da linguagem. Para ele, as três esferas estão incluídas no “Tu eterno” (ibidem, fragmento 121), que, entretanto, não está incluído em nenhuma: “da vida com a natureza pode-se extrair o mundo ‘físico’, o mundo da consistência; da vida com os homens, o mundo ‘psíquico’ e da afetibilidade; da vida com os seres espirituais, o mundo ‘noético’, o da validade” (ibidem, fragmentos 121, 122).

A reciprocidade na relação com a natureza está presente na poesia de Goethe, diz Buber, em que o Eu tem uma intimidade pura com a natureza: “(...) ela se oferece a ele e lhe fala constantemente, ela lhe revela seus segredos sem, entretanto, trair os seus mistérios. Este Eu crê na natureza e fala à rosa ‘Então és Tu?’ e se une a ela numa mesma atualidade”. Quando o Eu se volta sobre si mesmo, deduz Buber, “a visão do Sol permanece no olhar feliz que se recorda de sua natureza solar e a amizade dos elementos acompanha o homem até o silêncio da morte e do devir” (ibidem, fragmento 80).

A falta do “diálogo necessário” com a natureza está na origem da crise ética contemporânea, em que o ser humano “não sabe mais o que ele é e como deve comportar-se no mundo com os outros” (Jornal do Brasil, jun. 20, 1999, p. 14), afirma o teólogo Leonardo Boff, atualizando a visão de certo antropocentrismo datado buberiano. Segundo o teólogo, a essência do ser humano é constituída pelo cuidado e tem como base sentimento, comoção, capacidade de sentir e de se relacionar afetivamente com tudo o que está em volta (pensamento que, sustenta Boff, é partilhado por Martin Heidegger, em Ser e Tempo). O cuidado, diz o teólogo, é a estrutura básica que permite que as coisas “sejam humanas”, carregadas de afeto e significação.

O sentimento de base e o afeto essencial captam a realidade não como um mero objeto que está à nossa mão. Captam-na como um sujeito que vem carregado de valor e de significação. As coisas viram metáforas, símbolos e sacramentos e como tais falam e irradiam mensagens. E o ser humano pode apreendê-las (...) Por isso também cuidamos. Se não cuidarmos, as coisas perdem o seu caráter precioso e acabam na indiferença (...) a lei básica do universo e da natureza é a cooperação e não a competição. Tudo tem a ver com tudo em todos os momentos e circunstâncias. Nada existe fora da relação (...) a competição existe, mas dentro da lei básica da sinergia e da cooperação (ibidem).

Boff diz que a civilização da tecnociência trabalha e usa a força para dominar a natureza, transformando tudo em objeto (um Isso, nos termos de Buber), cujo valor é apropriado de forma utilitarista. Ele critica esse egoísmo contemporâneo e diz que é preciso que o homem encontre equilíbrio entre subjetividade e objetividade, trabalho e cuidado, a exemplo da própria vida biológica, que aprende continuamente “para se reproduzir através da troca de informações com o meio, e do diálogo com a natureza donde tirar seus nutrientes” (ibidem). Defende ainda maior centralidade para a dimensão feminina do cuidado, no homem e na mulher, resgatando “a capacidade de enternecimento, de pensar com o corpo, de sentir com integralidade e de captar o outro lado da realidade, sua dimensão espiritual” (ibidem). Em suas palavras, é preciso ao ser humano sentir-se Terra e sentir-se Céu:

Por sentir-nos filhos e filhas da Terra, vivenciamô-la como Mãe generosa. Ela é o princípio generativo. Representa o feminino que concebe, gesta, e dá à luz (...) sentir-se Terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade (...) humanos (...) microorganismos (...) insetos (...) Temos o céu dentro de nós. Ele representa a dimensão celestial de transcendência do ser humano. Sua capacidade de ir além dos limites da Terra (...) a emergência do princípio masculino, ordenador, rasgador de novos horizontes, errante e insaciável face a tudo o que está ao alcance de sua mão (Boff, 2000, pp. 74-80).

“O espírito em sua manifestação humana é a resposta do homem a seu Tu”, diz Buber (1977, fragmentos 49, 50). “(...) é a palavra (...) não está no Eu, mas entre o Eu e o Tu”, é comparável ao ar que se respira. É como a linguagem que não se encontra no homem, mas na qual o homem se encontra e em cujo seio fala. Em sua visão, é somente em virtude de seu poder de relação que o homem pode “viver no espírito”. Mas, em conformidade com sua definição de relação, Buber afirma que, quanto mais poderosa é a resposta, mais ela enlaça o Tu e o reduz a objeto: “Somente o silêncio diante do Tu, o silêncio de todas as línguas, a espera silenciosa da palavra não formulada, indiferenciada, pré-verbal, deixa ao Tu sua liberdade, estabelece-se com ele na retenção onde o espírito não se manifesta, mas está presente”[7].

Na visão de Buber, Deus não é um princípio, um ser ou uma idéia, mas “aquele que entra numa relação imediata conosco, homens, através de atos criadores, reveladores e libertadores possibilitando-nos, com isso, entrar em uma relação imediata com Ele” (ibidem, fragmento 1580).[8] Embora se tenha baseado no pensamento de Feuerbach para suas reflexões, Buber critica seu predecessor pela substituição que faz da relação com Deus pela relação ‘Eu-Tu’ (ibidem, p. xxv).

Buber refere-se a Deus como “o totalmente Outro” e à relação do homem com Deus como “absoluta”, “pura” e “perfeita”. Afirma que aquele que entra nessa relação não se preocupa com mais nada isolado, vê tudo no Tu. Mas declara que ver Deus separado do mundo ou no mundo são duas linguagens do Isso: “nada abandonar, pelo contrário, incluir tudo, o mundo na sua totalidade, no Tu, atribuir ao mundo o seu direito e sua verdade, não compreender nada fora de Deus, mas apreender tudo nele, isso é a relação perfeita” (ibidem, fragmentos 95, 96).

Por considerar que as idéias “não reinam acima de nossas cabeças, nem habitam nelas, mas caminham entre nós e se dirigem para nós”, Buber afirma que “aquele que profere o Eu separado, com inicial maiúscula (o Eu egótico), desvela a desonra do espírito universal”:

Porém, como soa de um modo autêntico e belo o Eu tão vivo e enérgico de Sócrates! É o Eu do diálogo infinito e o ar de diálogo que o envolve em todos os caminhos até diante de seus juízes e nos últimos instantes da prisão. Este Eu vivia na relação com os homens, relação que se encontrava no diálogo. Ele acreditava na atualidade dos homens e ia em sua direção. Assim, ele permaneceu com eles na verdadeira atualidade e esta não o deixa mais. A sua solidão não pode ser considerada abandono e quando o mundo humano permanece silencioso ele ouve o Demônio dizer Tu (ibidem, fragmento 80).

1.3. A arte do diálogo

1.3.1. Da retóricaà dialética

A retórica clássica – a arte de bem falar ou de persuadir – surgiu como um conjunto de técnicas utilizadas para a criação de discursos a serem proferidos ao vivo diante dos tribunais da Grécia antiga, passando daí a outras práticas discursivas cotidianas em que se argumentava em defesa de uma tese, como os discursos políticos das assembléias dos cidadãos gregos e os discursos de homenagem. Esses meios discursivos de atração, ou ação dos sofistas sobre um auditório, com o intuito de conquistar ou aumentar sua adesão às teses que se apresentam a seu assentimento são atacados por Platão e Sócrates, que contrapõem às astúcias e dissimulações da ‘má retórica’ os argumentos e o método do que consideravam a ‘boa retórica’, a dialética. Posteriormente, os discursos retóricos são detalhadamente estudados por Aristóteles, que atribui à retórica o estatuto de arte semelhante à dialética, cuja finalidade (da retórica) não seria a de persuadir, mas a de “aduzir provas e ensinar o possível” (Aristóteles, Arte retórica, I, II, IV).

O sentido original do termo dialética vem da etimologia da palavra, mas também da definição que lhe atribui Platão – a arte do diálogo – ao descrever o dialético como quem sabe interrogar e responder (Platão, Crátilo, apud Perelman, 1999, p.4) em busca da verdade, quem é capaz de provar as teses formuladas pelo interlocutor e de refutar as objeções que se opõem às suas; é o espírito crítico – como Zenão, Sócrates e Parmênides, postos em cena por Platão – que dá provas de seu domínio ao questionar os outros e ao fornecer respostas satisfatórias a suas perguntas (ibidem, p. 4).

Segundo o filósofo francês Chaïm Perelman, os raciocínios dialéticos, no Parmênides de Platão, opõem-se tanto às teses do senso comum quanto às hipóteses erigidas para sua negação, fornecendo o modelo que dá origem à dialética transcendental de Kant (século XVIII), cuja originalidade está na valoração da tese e da antítese como expressões de uma razão que ultrapassa os limites do conhecimento legítimo, obrigando o exame crítico das premissas implícitas em que coisas em si e fenômenos se encontram confundidos. Para Aristóteles, dialético é um adjetivo aplicável aos raciocínios. Ao contrário do raciocínio analítico, que pressupõe premissas verdadeiras por não as questionar, o raciocínio dialético não se desenvolve de modo automático (ibidem, p. 6).

Partindo da visão de Aristóteles, Perelman (ibidem, pp. 50-52) classifica três tipos de diálogo – erístico, crítico e dialético.

1)   Quando o desejo de vencer, de fazer deixar o adversário embaraçado e de fazer o ponto de vista pessoal triunfar constitui o único móbil dos interlocutores, encontramo-nos diante do gênero mais afastado das preocupações filosóficas, o qual recebeu o nome de diálogo erístico. No torneio erístico, trata-se unicamente de vencer o adversário, o que implica uma completa indiferença pela verdade. Assim é que Platão, em seu Eutidemo, o próprio padrão do diálogo erístico, faz Sócrates dizer por meio de Dionisodoro, o mais velho dos sofistas: “Predigo-te que este jovem, seja qual for sua resposta, será obrigado a contradizer-se” (Platão. Eutidemo, 275 a.).

2)   No diálogo crítico, trata-se de testar uma tese tentando mostrar a sua incompatibilidade com outras teses aceitas por quem a formula. A coerência interna é que fornecerá o critério para a investigação crítica; esta não supõe necessariamente a existência de vários interlocutores; cada qual pode examinar por conta própria as teses às quais estaria tentado a aderir, confrontando-as com as suas outras crenças, para ver se são, ou não, incompatíveis.

3)   O diálogo deixa de ser crítico para tornar-se dialético, e com isso adquire um interesse filosófico construtivo, quando, para além da coerência interna de seus discursos, os interlocutores procuram chegar a um acordo sobre o que consideram verdadeiro ou, pelo menos, sobre as opiniões que reconhecem como as mais sólidas (Aristóteles. Refutações sofísticas, 165 b.1-5). A busca da verdade, tal como a considera Platão, torna-se, em Aristóteles, uma argumentação a partir de proposições, não necessaria mas geralmente aceitas, cujas conclusões tampouco são evidentes, mas as mais conformes com a opinião comum (...) O diálogo filosófico por excelência é dialético: é ele que determina as características de um método dialético.

Já no final da Antigüidade, a retórica entra em descrédito, junto com a perda de poder das assembléias deliberantes. Com a cristianização do mundo ocidental e a idéia de que Deus é a fonte do verdadeiro e a norma de todos os valores, basta nele confiar – e na Igreja – para que se tenha a revelação do sentido das coisas. Na Idade Média, a retórica tornou-se a arte de apresentar verdades e valores já estabelecidos. Teses e opiniões controvertidas foram descartadas por indignas de serem científicas, atitude que se manteve com os paradigmas racionalistas e empiristas que dominaram a filosofia moderna. Apenas o Romantismo, no século XVIII, em nome da sinceridade e da espontaneidade, deixa de ver a retórica como técnica de composição e de ornamentação estilística.

Ao rever a história da dialética, evidencia-se um hiato entre as concepções antigas, sempre referentes ao método do diálogo, e as concepções modernas, que desenvolvem uma visão de que à tese e à antítese sucede uma síntese que une uma e outra (ibidem, pp. 8, 9).

Os discursos antitéticos são introduzidos por Platão em Fedro, diálogo consagrado à retórica. Mais tarde, em Kant (século XVIII), tese e antítese são submetidas ao tribunal da razão, que julga, de um ponto de vista crítico, tanto o dogmatismo como o cepticismo. Para Hegel (início do século XIX), seriam apenas momentos sucessivos no progresso em direção ao espírito absoluto, que garantiria a univocidade e a necessidade da evolução dialética. Com Hegel, esclarece-se o desenvolvimento imanente do conhecimento e o condicionamento histórico das idéias, mas a partir de Marx (século XIX) fica evidente a influência do fator social sobre a determinação do pensamento.

A revalorização da retórica vem de meados do século XX, puxada pelos estudos sobre a linguagem, vista então como forma indissociável do fundo, associada a pontos de vista, carreando classificações e avaliações.

1.3.2. Da demonstração à argumentação

Ao retomar e valorizar o estudo da retórica, contribuindo para uma teoria da argumentação, Perelman defende que a retórica não tem como objeto o verdadeiro, mas o opinável. Considera que esse estudo deve fugir à luta entre a lógica e a retórica – “uma transposição, em outro plano, da oposição entre a verdade e a opinião, característica do século V a.C.” –, superada pela introdução da noção de ‘juízo de valor’, que, segundo ele, não permite a subordinação da retórica à lógica(ibidem, p. 66). Trabalhando na fronteira da lógica e da psicologia, define como o objeto de sua reflexão “o estudo dos meios de argumentação, não pertencentes à lógica formal, que permitem obter ou aumentar a adesão de outrem às teses que se lhe propõem ao seu assentimento” (grifo do autor) (ibidem, p. 57). Entre outras questões, ele enfatiza a diferença entre a argumentação e a demonstração.

O exercício da argumentação, em sua visão, supõe um meio de comunicação e uma linguagem comum, sem o que o contato das mentes é irrealizável, e difere da demonstração, processo em que o diálogo é limitado pela força coercitiva da prova demonstrativa (ibidem, p. 304). Por demonstração, o autor define os meios de prova que possibilitam “concluir, a partir da verdade de certas proposições, pela de outras proposições, ou ainda, no terreno da lógica formal, passar, com a ajuda de regras definidas de transformação, de certas teses de um sistema a outras teses do mesmo sistema”. Comparando demonstração e argumentação, o autor afirma que somente esta última é dialógica. (ibidem, p. 369).

Outro aspecto analisado por Perelman é o papel da decisão na estruturação do conhecimento, a tomada de decisão. O momento do discernimento, afirma, só chega quando, com relação a um mesmo objeto, as opiniões se chocam, as aparências se opõem, as impressões deixam de concordar, versão bastante próxima de uma real troca. “A rejeição do absolutismo significa, acima de tudo, a rejeição do critério da evidência”, prossegue. “Mas significa, ao mesmo tempo, a reabilitação da opinião” (ibidem, p. 365), não havendo mais uma diferença absoluta de natureza entre opinião e verdade, mas sim de grau. Além disso, uma decisão tomada num processo de argumentação sempre poderá experimentar mudanças, já que a argumentação se insere num contexto perpetuamente modificável.

A temporalidade é a última característica que, segundo o autor, distingue radicalmente a argumentação – processo para o qual o tempo é primordial – da demonstração – para a qual, segundo Perelman, o tempo não tem a menor importância. Ele sustenta que, ao passo que a memória é suficiente para guardar uma demonstração, a argumentação deve ser vivida de novo.

Se a demonstração libertou-se do tempo ao isolar do contexto um sistema, tentou também libertar-se da influência do tempo sobre os instrumentos utilizados. Todo seu esforço no sentido da univocidade é uma maneira de cristalizar o tempo. O que equivale dizer que a demonstração se liberta da linguagem. Ela se torna somente linguagem, ou nem um pouco linguagem, como lhe aprouver, sendo esta fixada de uma vez por todas. Ela suprime a influência do símbolo sobre o simbolizado e reciprocamente. A argumentação, pelo contrário, é essencialmente um ato de comunicação. Implica comunhão de mentes, tomada de consciência comum do mundo tendo em vista uma ação real; supõe a linguagem viva, com tudo o que esta comporta de tradição, de ambigüidade, de permanente evolução (ibidem, p. 379).

1.4. A psicanálise e o resgate do diálogo

Nem todos os psicanalistas pensam que existe diálogo em psicanálise. Para muitos, o que existe é reflexo – o paciente vê-se no analista –, e o analista é rigoroso e científico quando funciona como um espelho, apenas monitorando as transferências, tirando conclusões, interpretando. E interpretando nas linhas daquilo que ele entenda que o paciente já está interpretando, embora não formule. A idéia tradicional, ou pura, da psicanálise, é aquela em que o analista se extingue para poder dar surgimento ao paciente, para ele se reconhecer.

Na visão de Lévy-Valensi, a comunicação durante o processo psicanalítico, em vez de realizar-se num contexto verbal de significações relativamente claras, aparece como espraiamento de uma linguagem cujo verdadeiro significado não é conhecido do sujeito que enuncia. Assim, o diálogo estabelece-se na resposta, na interpretação, que é comunicação no nível das significações escondidas e da desmistificação. Mas ela vai além e aposta que, no jogo da transferência e contra-transferência dos sujeitos presentes na situação terapêutica, há outro diálogo difícil de se captar, que se esboça na relação: o diálogo entre duas subjetividades radicais, que transborda dasduas séries de declarações presentes e não apenas  de uma, como usualmente se supõe (ibidem, p. 88).

É um diálogo convencionalmente assimétrico, na medida em que se pressupõe maior fala do sujeito que está sendo analisado, a objetivação de sua vida, e maior escuta pelo analista. O foco está no analisando. O pacto que se estabelece na terapia é aquele em que uma pessoa procura outra não em sua ‘outridade’, mas como um instrumento que lhe proporcione autoconhecimento. O paciente procura aquilo que ele já tem, que ele já é, mas a que não tem acesso; enquanto o analista ouve, entrega sua disponibilidade ouvinte, mas não se entrega como pessoa, não estabelece relação social efetiva nem se abre à intervenção de seus afetos. O paciente fala tudo o que quiser, e o analista ouve, mas não diz tudo o que lhe passa pela cabeça. Pelo menos essa é a proposta inicial, o ponto de partida assimétrico do jogo psicanalítico.

O diálogo psicanalítico é a meta para o que tende a interação analítica analista/analisando. Quer dizer, no início, a assimetria é muito maior. A análise vai-se desenvolvendo à medida que esta assimetria vai diminuindo. O paciente fala, fala, fala, fala, e o analista escuta, escuta, escuta, escuta, mas, na escuta do analista, estão presentes, de alguma forma, manifestações, sentimentos ou experiências do analista, que são úteis ao paciente e que o paciente começa a utilizar também. Então, com o decorrer do processo, o analista vai sabendo cada vez mais do paciente, mas, sobretudo, o paciente vai sabendo cada vez mais de si mesmo. O analista também vai-se revelando e, aos poucos, o analisando vai também conhecendo o analista (Chebabi, entrevista, mai. 2002)

A busca da terapia é motivada, muitas vezes, além de por mal-estar e sofrimento, por aquele momento em que a alienação do sujeito é tão intensa, que ela não se sustenta, em que a desconexão com o real se evidencia na frustração de expectativas e avaliações. Ninguém se aliena por completo e, paradoxalmente, a mesma alienação que leva ao monólogo facilita a abertura ao diálogo psicanalítico, na medida em que o sujeito, sem consciência do significado do que verbaliza e expressa, abre caminho à interpretação pelo analista.

Segundo Lévy-Valensi (1965, pp. 42, 62), o diálogo analítico começa com o sujeito alienado de sua subjetividade, e a própria subjetividade revela-se no duplo movimento de ocultação/manifestação da repressão e projeção, ou da transferência, reveladora pelo mesmo processo que dissimula, como uma criança que, para esconder algo em sua mão, cerra o punho e, por isso mesmo, denuncia o que quer esconder. Os sonhos também são valorizados no processo psicanalítico, porque constituem uma linguagem que revela, sob uma simbologia que Freud se empenhou em decifrar, aquilo que parece ocultar. Para o analista, o analisando sempre diz mais do que pensa, expressando em seu discurso uma significação que o supera. A intervenção do analista deve restituir ao texto do analisando sua integralidade, lendo nas entrelinhas, interpretando (ibidem, pp. 45-47).

No caminho do processo psicanalítico logo aparecem as barreiras constituídas pelas ilusões, ou erros subjetivos (ibidem, pp. 72, 73), a desconexão da objetividade do sujeito com sua subjetividade, cuja superação só o diálogo permite. Há o fenômeno da ‘fixação’ (ibidem), um ‘não desgrudamento’ do sujeito de um episódio ou de uma conjuntura de sua história de vida, e ainda a nostalgia, tendência à regressão a um estado original do indivíduo indiferenciado da mãe, a que Freud chamou de pulsão de morte.

O que a psicanálise diz é que todos vivemos uma espécie de nostalgia da época em que não tínhamos nenhuma consciência, nenhum transtorno pelo qual nos sentíssemos responsáveis, porque tudo era parte da condição de estar no ventre materno. Portanto, a humanidade sempre, em função disso, almejou uma outra vida, na qual haveria essa plenitude que já teria havido antes, no útero materno. Quer dizer, o céu é o útero materno. Por isso, a morte pode ser vivida como um bem (Chebabi, entrevista, mai. 2002).

Outro obstáculo ao desenrolar do diálogo é o narcisismo, o avançar do eu sobre o outro para fazer dele extensão de si. Como no mito de Narciso, que se apaixonou por sua imagem refletida nas águas do lago, o narcisismo é afogador. Os sujeitos humanos são essencialmente narcísicos, ou seja, “procuram bastar-se a si mesmos, manter-se alheios ao mundo real”, afirma o psicanalista Fábio Lacombe (1993, pp. 65-67). Ao contrário, dialogar – “relacionar-se”, segundo ele – é “submeter-se à possibilidade de transformações do estabelecido, do definido e do aparentemente seguro para o conhecimento próprio e do outro, é submeter-se a uma dinâmica cujas respostas podem momentaneamente se definir por esta ou aquela instância, mas nunca se reduzindo a qualquer uma delas” (idem, ibidem).

Na situação analítica, a transferência também representa um entrave ao diálogo e é igualmente superada por seu intermédio. Ela se dá quando uma situação presente ou nova é vivida de forma deslocada, como repetição das experiências já vividas, especialmente na infância; os personagens da infância ficam dentro do sujeito, que, inconscientemente, atribui às pessoas que não conhece características do conhecido na infância. A contratransferência ocorre quando o terapeuta embarca nesse jogo, assumindo o papel que a transferência do paciente lhe atribui, o que o deixa sem condições de interpretar. Também é o caso de quando ele tenta resolver seus problemas ou obter satisfações usando o paciente como um meio para isso. Nesses casos, nos termos de Buber, dir-se-ia que o outro é tomado como um Isso e não como um Tu, o que exclui a possibilidade de diálogo. Lévy-Valensi (1965, p. 161) argumenta, porém, que na situação psicanalítica, “a transferência, comunicação alienada, expressa ao mesmo tempo um esforço do sujeito em direção à comunicação”, e que está na interpretação do analista, livre da forma dominada da contratransferência, a resposta que conduz ao diálogo.

O desconhecimento da alteridade do outro é mais um desafio na busca do diálogo. Ninguém chega pronto para o diálogo, e, ao buscar o outro naquilo que ele é diferente, o sujeito se põe a rever o que pensa, vai-se encontrando, bem como o outro. Não que seja possível conhecer inteiramente o outro, como ele sente e percebe o mundo, na medida em que o outro em si é um mistério, e o outro da percepção é sempre o que se supõe que ele seja. Embora, para Platão, contemplar torne o sujeito da ação semelhante ao objeto da contemplação (Platão, Timeo, 90d. apud  Lévy-Valensi, 1965, p. 166) e, para o Budismo, exercer compaixão seja colocar-se no lugar do outro para melhor compreendê-lo e a seus sentimentos, Lévy-Valensi argumenta que colocar-se de fato no lugar do outro é uma impossibilidade (ibidem, p. 166). Como diria Buber, quando há diálogo, o Tu se apresenta em sua totalidade, mas o que o sujeito conhece é o ‘entre’, o outro da relação, não o outro em si. Chebabi observa que a dominação é uma tentativa de negar esse mistério: “daí a sedução da escravidão, tanto para o senhor quanto para o escravo. O escravo limita-se a saber o que é que o senhor deseja que ele seja, porque ele se sente mais seguro, mais amparado” (Chebabi, entrevista, mai. 2002).

 

1.4.1. Diálogo como tempo recuperado

Do “tempo alienado” (Lévy-Valensi, 1965, p. 197), que implica o não-reconhecimento da alteridade do outro e de sua própria subjetividade – transformando a comunicação em monólogo, e o diálogo em solipsismo (em que a única realidade no mundo é o eu) –, o sujeito é conduzido, pelo diálogo que se instaura no processo psicanalítico, para a construção de sua dupla história de enfermidade e cura, emergindo de suas “fascinações” (fixações em objeto e tempo passados, introjeções, etc.) (ibidem, p. 173) para uma consciência liberada, favorecida por um “tempo recuperado” e um “diálogo reaberto” (ibidem, pp. 122, 123).

Com Bergson, Lévy-Valensi sustenta que o tempo, mais do que o espaço, é que acolhe as questões relativas à distinção e união de sujeito e objeto. Para ela, a ‘salvação’ do sujeito está em assumir seu destino em termos históricos, um devir criador, a historicidade do sujeito, “descobrindo sua aptidão para a comunicação com o objeto atual, com a presença do outro, no confronto com a exigência ética em que o interlocutor encarna o ‘mistério’ e a urgência” (ibidem, p. 196).

O tempo que escapava ao sujeito lhe é restituído, segundo Lévy-Valensi (citando Buber), quando o Eu e o Tu se encontram em sua relação fundamental. A autora associa o redescobrimento do “tempo próprio” à reassunção do próprio sujeito. O acesso ao presente não se dá sem o desprendimento do sujeito, que deixa de viver segundo o ponto de vista da transferência, projetando sobre o interlocutor presente uma imagem passada. Estar em relação com o outro implica a coexistência de uma subjetividade “assumida”, e esta se assume e se experimenta na história. O “tempo recuperado” é aquele em que o sujeito se abre para a invenção e a realização (ibidem, pp. 141, 196).

O que na psicanálise poderia ser considerado cura – superação das barreiras, distância abolida, tempo ‘presentificado’ – é o restabelecimento da comunicação dialógica. Restituir ao sujeito o tempo de sua história é uma abertura para o conhecimento – de si, do outro, do que é externo ao sujeito, do contexto. Em oposição à ilusão e ao erro subjetivo está o “vigor subjetivo”, conexão mais forte com a percepção que se tem do mundo. E é o diálogo que estimula o vigor subjetivo, que permite ao sujeito descobrir o que realmente sente, o que pensa em sua subjetividade, assim como o que é verdade e o que é engano no mundo que ele percebe.

O resgate da comunicação dialógica é também uma abertura para o amor, para a capacidade de amar. Se muitos ‘pacientes’ procuram a análise por ‘sofrer de amor’, frustrados com a impossibilidade da comunicação e do prazer em contatos puramente narcisistas com outros, a superação das satisfações ilusórias e a liberação da comunicação abrem perspectivas de encontro intersubjetivo, prazer sexual recíproco e diálogo amoroso (ibidem, p.151).

Restituída a história do sujeito em sua originalidade e singularidade,por meio do diálogo, Lévy-Valensi afirma que a cura na psicanálise – assim como a reabertura e o exercício do diálogo na comunicação – implica sempre acesso à realidade do tempo, do mundo e do próximo, compreensão calorosa do outro, abertura ao conhecimento e restituição da liberdade para viver, amar e criar de forma consciente, como destino assumido (ibidem, pp. 172, 203).

O diálogo, assim como a obra de arte, para Marcel Proust (2001, p. 163), permite também “a comunicação de nosso eu presente com o passado, do qual as coisas guardavam a essência, e com o futuro, onde elas nos incitam a de novo gozá-lo”.

No volume O Tempo Redescoberto, da obra Em busca do tempo perdido, Proust dialoga subjetivamente com o ambiente mediante o movimento do corpo e a percepção sensorial táctil e sonora. Encontra num passo em falso em uma pedra em desnível, na textura de um guardanapo e no som inesperado de uma colher tocando delicada louça aquilo que procurava com o uso da memória e da razão sem nunca encontrar: nítidas sensações de felicidade e momentos essenciais vividos no passado permeando inteiramente o presente. “Os dias escoados e o Tempo perdido” enfim redescobertos num “pouco de tempo em estado puro”, repartido “entre o dia antigo e o dia atual”. Possibilitadas por esse diálogo com sensações reais e involuntárias – assim como aconteceu quando sua memória afetiva fora acionada pelo gosto das pequenas madeleines mergulhadas no chá quente de tília –, as lembranças do quarto que ocupou na infância, em Combray, Paris, dos azulejos desiguais do batistério da Igreja de São Marcos, em Veneza, e do som de um martelo batendo na roda do trem que o conduzia à casa de praia em Balbec, na Normandia, onde se apaixonou pela primeira vez, levam o narrador a concluir que o material da obra literária está em seu passado, armazenado em si mesmo (ibidem, pp. 147-166).

1.5. A pragmática da comunicação humana

Se nem sempre há diálogo na comunicação humana e se ocorrem outras formas e gradações de comunicação não dialógicas, quando é que a comunicação acontece?

Na obra Pragmática da comunicação humana, que parte da compreensão de que perturbações psíquicas remetem a perturbações da comunicação entre o indivíduo portador do sintoma e seu meio, os americanos Paul Watzlawick, Janet Helmick Beavin e Don D. Jackson (2000, pp. 44, 45) argumentam que todo comportamento em uma situação interacional tem o valor de mensagem, ou seja, é comunicação. E acrescentam que, como o comportamento no ser humano não tem um oposto, um não-comportamento, isto é, o indivíduo não pode não se comportar, mesmo que ele tente, “é-lhe impossível não comunicar”.

Em entrevista ao Journal of Communication (vol.28, no.4, 1978), Watzlawick comentou o sentido do primeiro axioma de sua pragmática – “não se pode deixar de comunicar” – e a crítica de que estaria estendendo demais as fronteiras do significado de comunicação, lembrando uma experiência pessoal que viveu num encontro acadêmico, em que seu vizinho voltou ao quarto num intervalo (eles estavam hospedados em chalés, com dois quartos cada, num hotel nas Montanhas Rochosas americanas) e passou a fazer algo que parecia ser um sapateado: “dei-me conta de que ele não sabia que eu estava em meu quarto, mas este comportamento teve enorme influência sobre o meu, pois eu sabia que ele imaginava estar sozinho”. Watzlawick recorda que permaneceu estirado na cama, imóvel até que o vizinho saísse, pois caso fizesse algum movimento ele teria ficado constrangido: “havia ali, portanto, uma total ausência de intencionalidade, mas à medida que eu estava envolvido, a situação exercia grande impacto sobre meu comportamento e significava uma coerção” (Mattelart, 2000, p. 70).

Watzlawick integra o grupo de antropólogos, lingüistas, matemáticos e psiquiatras reunidos no Instituto de Psiquiatria Mental de Palo Alto, na Califórnia, a partir de 1942, e identificados como o ‘colégio invisível’ ou, simplesmente, a ‘escola de Palo Alto’. Sob a liderança de Gregory Bateson, afastam-se da hegemônica teoria matemática da comunicação de Claude Elwood Shannon, abandonando o modelo linear da comunicação e passando a trabalhar a partir do modelo circular retroativo proposto por Norbert Wiener, em que o ‘receptor’ tem papel tão importante quanto o do ‘emissor’ (ibidem, p. 67). Da mesma maneira, à noção de comunicação isolada como ato verbal consciente e voluntário, inspirada na teoria funcionalista da ‘escola de Chicago’ (da Mass Communication Research, de Robert Ezra Park e Harold Lasswell), a ‘escola de Palo Alto’ opõe a idéia da comunicação como processo social permanente que integra múltiplos modos de comportamento – a fala, o gesto, o olhar, o espaço interindividual –, sobrepondo a análise do contexto à do conteúdo (ibidem, pp. 29-37, 68, 69). A produção teórica do grupo trata a comunicação como um processo sistêmico de interações.

Para eles, o estudo da comunicação humana pode ser subdividido nas mesmas três áreas estabelecidas por Charles Morris, em Foundations of the Theory of Signs, e adotadas por Rudolph Carnap, para o estudo da semiótica pela teoria geral de sinais e linguagens: sintaxe, que abrange os problemas de transmissão de informação (código, canais, capacidade, ruído e redundância, por exemplo); semântica, cujo principal interesse está no significado dos símbolos da mensagem; e pragmática, que se ocupa da maneira como a comunicação afeta o comportamento. Esta última é a de maior interesse nesses estudos, que tomam os termos comunicação e comportamento como sinônimos (Watzlawick, Beavin, Jackson, 2000, pp. 18, 19).

1.5.1. Retroalimentação, metacomunicação e dupla vinculação

Os estudos da pragmática da comunicação identificam-se conceitualmente mais com a matemática do que com a psicologia – “por ser a matemática mais imediatamente interessada nas relações entre entidades e não na natureza destas” (ibidem, p. 20). Uma das características dessa visão é a intenção de mensurar, como nas funções matemáticas, as relações estabelecidas nos processos comunicacionais, como a retroalimentação: “sistemas interpessoais – grupos de estranhos, pares conjugais, famílias, relações psicoterapêuticas ou até internacionais etc. – podem ser encarados como circuitos de retroalimentação, dado que o comportamento de cada pessoa afeta e é afetado pelo comportamento de cada uma das outras pessoas” (ibidem, p. 28).

A analogia com a matemática também instrui essa linha de investigação científica, quando procura estabelecer a distinção entre usar a comunicação para comunicar e empregá-la para comunicar sobre comunicação, o que denomina “metacomunicação”. Diferente da matemática, que tem duas linguagens distintas (números e símbolos algébricos para expressar a matemática, e a linguagem natural para as expressões da metamatemática), a linguagem natural como veículo tanto da comunicação quanto da metacomunicação é considerada por esses pesquisadores um fator gerador de paradoxos e confusões. O axioma enunciado anteriormente neste texto é, portanto, metacomunicacional.

Utilizando exemplos da psicoterapia, os estudos da pragmática da comunicação revelam que, quando o indivíduo de comportamento esquizofrênico tenta não se comunicar – por meio do disparate, do silêncio, do ensimesmamento, da imobilidade ou de qualquer outra forma de renúncia ou negação –, ele se defronta com a tarefa impossível de negar que está comunicando e, ao mesmo tempo, negar que sua negação é uma comunicação. Há também exemplos nos quais, ao contrário do caso anterior, o esquizofrênico busca comunicar-se, mas se expressa numa linguagem tão contraditória, que abre ao ouvinte a escolha entre significados não apenas diferentes, mas até mutuamente incompatíveis, estabelecendo uma “comunicação patológica” (ibidem, pp. 46, 47, 66, 67).

Um enunciado que postule que algo é um gato e, simultaneamente, não é um gato, por exemplo, equivale a uma contradição, que pode ser rejeitada com facilidade. Uma afirmação como a de Hipócrates, de que “o semelhante cura o semelhante”, implica um paradoxo: “uma contradição que resulta de uma dedução correta a partir de premissas coerentes” (ibidem, pp. 169-172). Segundo a pragmática da comunicação, o paradoxo não só pode invadir a interação e afetar o comportamento e a sanidade mental, mas também desafiar a crença no que é coerente, sólido e universal.

Entre os exemplos de intervenção de um paradoxo na pragmática da comunicação humana, citados pelos autores, está uma injunção que exige um comportamento específico, que por sua própria natureza só pode ser espontâneo. Há diversos tipos de paradoxos, mas um protótipo dessas mensagens, segundo eles, é: “seja espontâneo”, como poderia ser “quero que me domines” (dito por um cônjuge ao outro, que é passivo). Em casos mais extremos, as mensagens paradoxais podem levar à situação de “dupla vinculação”, em que ocorre uma discrepância entre o que o sujeito ‘vê’ de fato e o que ‘deveria ver’ (ibidem, p. 192).

Os autores de Pragmática da comunicação sustentam que o mundo em que vivemos está longe de ser lógico e que estamos todos sujeitos a duplas vinculações, mas que, quando a exposição à dupla vinculação é duradoura, especialmente na infância, não se tratará de um trauma isolado, mas de um padrão definido de interação. A partir do momento em que esse padrão começa a atuar, inicia-se um círculo vicioso que torna indefinida a origem e perpetua a patologia na comunicação: “o duplo vínculo não causa a esquizofrenia”, mas sempre que a dupla vinculação é o padrão predominante a patologia está presente.

1.6. A comunicação que encerra o diálogo

Se as definições de diálogo tendem a uma convergência, como a questão central da comunicação humana, vínculo entre o eu e o outro, encontro recíproco, interação máxima entre as partes, verdadeira troca e compreensão de sentidos por linguagens diversas, o mesmo não ocorre com as conceituações de comunicação. No campo da comunicação coexistem hoje paradigmas, teorias e modelos explicativos sobre o fenômeno, historicamente construídos por influência de, ou influenciando, diferentes momentos das teorias de outros campos do conhecimento e diversos estágios da ‘evolução’ tecnológica. Neles, comunicação é traduzida como sendo desde o processo mais estritamente dialogal até as mais diluídas formas de troca ou transmissão de informações.

No amplo espectro de conceitos de comunicação, o presente trabalho identifica-se com aquele que ‘encerra’, no sentido de ensejar ou conter como questão central, o diálogo, tal como trabalhado nos tópicos anteriores deste capítulo. Conceito que não é exclusivamente sinônimo de diálogo, embora também o seja, mas que o tem como possibilidade presente ou desejada, origem e fim que ensejam incompletudes e gradações – margem de incerteza que dá sentido a um estudo sobre interatividade e busca de diálogo:

Diz-se comunicação quando se quer fazer referência à ação de pôr em comum tudo aquilo que, social, política ou existencialmente, não deve permanecer isolado. Isso significa que o afastamento originário criado pela diferença entre os indivíduos, pela alteridade, atenua-se graças a um laço formado por recursos simbólicos de atração, mediação ou vinculação (Sodré, 1996, p. 11).[9]

Se, como propõe Muniz Sodré, comunicação é colocar em comum, diálogo é, analogamente, o movimento do sujeito para alcançar o objeto, apresentar-se a ele e conhecê-lo, superando as barreiras (ruídos de toda ordem) da comunicação. Se comunicação é atenuar a separação, diálogo é, dialeticamente, uma abertura para o outro, uma abertura do outro. Enquanto a comunicação, aqui, procura o denominador comum, o diálogo, sem deixar de ser comunicação, busca radicalmente a abertura e o reconhecimento da diferença.

Em obra posterior, ao buscar um “fio condutor do sentido pertinente à variedade das ações sociais”, que perdure política e existencialmente na contemporaneidade “de ritmos velozes e mercadologicamente obsessivos”, Sodré chega a uma síntese, “o núcleo teórico da comunicação”:

a vinculação entre o eu e o outro, logo, a apreensão do ser-em-comum (individual ou coletivo), seja sob a forma da luta social por hegemonia política e econômica, seja sob a forma do empenho ético de reequilibração das tensões comunitárias. Não se trata, portanto, de vinculação como mero compartilhamento de um fundo comum, resultante de uma metáfora que concebe a comunicação como um receptáculo de coisas a serem “divididas” entre os membros de um grupo social. Vinculação é a radicalidade da diferenciação e aproximação entre os seres humanos (Sodré, 2002, p. 223).

Uma segunda consideração sobre os conceitos de comunicação e diálogo aqui escolhidos é sua aplicabilidade, tanto para os modelos ditos lineares de comunicação – que caracterizam igualmente as concepções que orientam a produção na comunicação de massa e algumas das teorias que lhe são críticas – quanto para os modelos circulares, em rede, ou sistêmicos – próprios do campo da cibernética, da pragmática da comunicação e dos estudos culturais e de produção de sentidos sobre as mediações sociais contemporâneas. A abrangência do conceito de Sodré é evidente. Porém, mesmo a filosofia do diálogo de Buber, aqui acrescida dos desdobramentos trazidos pela psicanálise, aparentemente circunscrita aos mitos religiosos criacionistas, ao pensamento da origem e do fim, evolução e continuidade, pode ser transposta para o ambiente da descontinuidade, da visão sistêmica do mundo, na medida em que se substitua o princípio de nascimento e origem pelo de transformação. Como nascimento e morte são, no limite, transformação, mesmo os conceitos de separação e atração buberianos, de fundamentação religiosa judaico-hassidista, renovam-se constantemente. Onde Buber vê separação original e encontro final, onde a psicanálise vê a nostalgia do ventre materno e a cura pela recuperação do vigor subjetivo e da capacidade de comunicar e amar, não há contradição em vislumbrar contínuos e multigraduais movimentos de afastamento e atração.

Importa, nos próximos capítulos, localizar e analisar as gradações de interações assimétricas e compreender como as estratégias que se revelam nesses processos comunicacionais se articulam com processos sociais, econômicos e culturais.

O sentido de me reportar aqui à pragmática da comunicação é, principalmente, o de me valer de seu axioma – “é impossível não se comunicar” – para trabalhar o vasto campo entre uma comunicação dialogal e uma monológica, em que se insere a comunicação com interatividade, e, ainda, lidar com diferentes graus de interatividade existentes, além de ter como referência sua formulação sobre o duplo vínculo, para, numa transposição ao ambiente da comunicação de massa, enfocar a existência de mensagens duplas e contraditórias acerca da possibilidade de contato, interatividade ou diálogo.

Retomar a escola de Palo Alto é também estabelecer um contraponto, por exemplo, com o valioso pensamento crítico de Jean Baudrillard, sobre velhas e novas estratégias da comunicação de massa, quando ele enuncia seu conceito de “incomunicação” ou “não-comunicação” e decreta que a troca, via meios de comunicação, é impossível. Embora formulado em termos da comunicação interpessoal, o pensamento de Palo Alto permite algum nível de transposição para a situação da comunicação de massa: quando assisto a alguém se comportando dentro da caixa da tevê – ainda que num código unilateral –, quando ouço as mensagens do rádio – mesmo não falando com o locutor – ou quando leio no jornal sobre acontecimentos, comportamentos, atos, falas ou ações, eu interpreto de alguma forma essa informação. E, embora não seja diálogo, isso é comunicação em algum grau.

Antecipando questões do próximo capítulo: ao estabelecer um monólogo diante de seu público ou, eventualmente, simular maior participação, não estaria a mídia revelando implicitamente seus propósitos? Ao se mostrar unilateral e simuladora, não estaria a mídia comunicando algo?

Quando transposta para o campo da comunicação de massa, a abordagem da escola de Palo Alto, evidentemente, coloca em xeque o conceito de “não-comunicação” de Baudrillard. Um monólogo – não apenas no teatro, mas também no cinema, no rádio ou na tevê – é comunicação. Da mesma forma, o silêncio do ‘emissor’ – aquilo que não é dito ou sobre o que nada se diz – e a interdição da resposta do ‘receptor’ – própria da unilateralidade dos meios de massa – têm valor de mensagem, ainda que sendo a confirmação da pura negação do outro – do não-diálogo. Aqui, portanto, a distinção entre comunicação e não-comunicação torna-se diferença de grau de comunicação entre o diálogo e o monólogo. Onde Baudrillard enxerga a “incomunicação”, vejo, com os autores pragmáticos citados, comunicação sim, mas aquela que ‘encerra’, no sentido de pôr fim ou impedir, o diálogo.

No próximo capítulo, vou examinar também conceitos de interatividade e a forma pela qual essa possibilidade vem sendo ofertada ou prometida ao público pela mídia. A visão crítica de Baudrillard seguirá relevante, como contraponto a outras abordagens mais ‘integradas’ sobre os fenômenos associados à cibernética, à internet e a este novo momento dos processos midiáticos.

2. Comunicação de massa e interatividade

In`ter.ac`tive

1. new technology that will change the way you shop, play and learn

2. a zillinon-dollar industry (maybe)

Newsweek

Com o número cada vez maior de mecanismos que permitem a interatividade, é cada vez mais o telespectador que determina o que vai aparecer na tela.

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho

A comunicação interpessoal e presencial contém a promessa do diálogo, a possibilidade da troca e da interpenetração dos discursos e dos sentidos entre os envolvidos no processo. Ainda assim, existe incerteza. A tentativa de compreensão do que o outro diz, de estimativa da sinceridade, é uma busca constante.

A comunicação a distância diminui a troca, aumenta ainda mais a incerteza. Nos processos tradicionais de comunicação de massa, a troca é abolida, e a ‘emissão’ e a ‘recepção’ são radicalmente dissociadas. Instala-se a “não-comunicação”, segundo Jean Baudrillard (apud Sodré, 1981, pp. 25, 26),[10]o “monopólio da fala”, na expressão de Muniz Sodré.[11]

Com o desenvolvimento da cibernética, a digitalização crescente de dados, textos, imagens e sons, a expansão e digitalização dos sistemas telefônicos e a tendência à convergência das mídias, tanto pela veiculação por um ciberespaço mundial unificador de redes produtoras/receptoras quanto pela fusão das máquinas de recepção, a internet projeta seu padrão interativo como referência para a chamada nova mídia,[12]e surge a promessa de maior interação entre os apartados ‘emissor’ e ‘receptor’ – como retratam as duas definições de interatividade em epígrafe, publicadas com formato de verbete de dicionário na matéria de capa da edição de 31 de maio de 1993 da revista americana Newsweek (apud Jensen in Mayer, 1999, p. 160). Na primeira, interatividade é apresentada como nova tecnologia que vai mudar o modo de as pessoas fazerem compras, jogarem e aprenderem, constituindo-se uma promessa sedutora para o ‘usuário-consumidor’. Na segunda, interatividade é apresentada como uma mina de ouro para os empresários da mídia e de negócios que dependam da comunicação a distância com os clientes. Essas tecnologias suscitam novas interpretações e debates sobre o código unilateral da tradicional mídia de massa, como tornam evidente as declarações, também em epígrafe, do ex-vice presidente da Rede Globo de Televisão, ‘Boni’, em entrevista à revista Veja (15/06/1999, p. 119).

Para além do aspecto técnico – da reciclagem tecnológica dos meios de comunicação de massa –, a convergência das mídias é a expressão visível de um processo sem precedentes de concentração e fusão de capitais e empresas controladoras de sistemas de telefonia, provedores de internet e produtores e veiculadores de todos os tipos de mídia, cujas origens, bem como os desdobramentos econômicos e políticos, não podem ser colocadas fora do contexto dos diagnósticos, análises e cenários.

Este capítulo, no entanto, limita-se a analisar algumas conceituações de comunicação de massa, ciberespaço e interatividade, com o objetivo de melhor compreender os argumentos que sustentam visões otimistas ou críticas quanto ao presente e ao futuro próximo dos tradicionais meios de comunicação de massa, no que se refere a seu grau de interatividade.

Ao longo dos próximos tópicos, serão abordados a estratégia de apropriação dos meios de produção da mídia em contraposição à proposta de desarticulação de seus códigos, o padrão interativo implícito nas mídias digitais e os graus de interatividade em rádio, tevê e jornal. O texto confronta as visões de Pierre Lévy e Jean Baudrillard, traz contribuições de Janet Murray e Jens F. Jensen sobre interatividade no ciberespaço, e de Wilson Dizard Jr. sobre a nova mídia interativa. Contrapõe também as opiniões de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho e Muniz Sodré, e conclui com uma breve análise da interatividade prometida pela mídia brasileira.

2.1. Crítica da comunicação de massa

2.1.1. “Onde está a resposta?”

No dia 19 de agosto de 1999, como parte das comemorações pelos 30 anos da TV Cultura, a emissora de São Paulo reapresentou o programa Vox Populi, gravado em 1978 com a cantora Elis Regina. Entre números musicais (alguns de 1973) e uma entrevista recheada de questões e opiniões datadas (trejeitos e expressões próprios daquela época também), impressionou em especial – além da bela voz da intérprete, eternizada nas gravações – a participação de um homem simples da periferia de São Paulo. Abordado na rua, ele perguntou à cantora se ela poderia se apresentar no ginásio próximo à casa dele, acrescentando uma intenção de diálogo: “alô... como é que eu vou saber se ela aceitou?” e, olhando para o repórter e a câmera de tevê, perguntava: “onde está a resposta?” Ao ver a gravação, Elis deu boas gargalhadas e chorou de emoção.

Passadas mais de duas décadas de expansão e afirmação do poder do sistema televisivo, é improvável encontrar algum brasileiro nas metrópoles que não tenha aprendido como funciona a tevê. Mas continua atual o que a espontaneidade daquele homem fez transparecer: a incompletude da tevê como um meio de realização do simples e essencial desejo humano do diálogo.

2.1.2. Assaltar a mídia ou sabotar o código?

Remonta aos estudos da década de 1970 o conceito de que não seria possível à tevê estabelecer uma comunicação dialogal com seu público. Afirma Sodré  (1981, pp. 9, 10) que:

Na sua mais profunda natureza, o medium televisivo requer o silêncio do telespectador (...) condenado ao estatuto da moderna produção monopolística, a uma relação social que o define como mero usuário: desde bens de consumo materiais e culturais até mesmo a palavra irrespondível de um Outro confundido com o código da ordem produtiva.

A impossibilidade do diálogo por intermédio da tevê, de acordo com essa abordagem, seria inerente a seu próprio código – incluído aí o estilo de imagem notificador, remoto e unilateral da tevê – articulado com outras formas de monopólio existentes na sociedade. A recusa ao diálogo seria, portanto, mais do que um impedimento técnico, uma intenção motivada pelo papel de aparelho ideológico do Estado, aqui visto, em última instância, como representante dos interesses do mercado e do capital, em oposição ao universo social do trabalho e aos vínculos comunitários.

Segundo essa visão, caberia à tevê, como um sistema associado aos demais sistemas hegemônicos na sociedade, filtrar ou fazer calarem as diferenças culturais regionais ou étnicas, assim como as expressões culturais de setores sociais e políticos já excluídos ou marginalizados, ou que deveriam vir a sê-lo.

Desde seu surgimento, pouco mudou a tevê tradicional em relação a sua unilateralidade, o que mantém bastante atuais as análises feitas nas décadas de 1970 e 1980. Mesmo o advento do videoteipe, do videocassete,[13]das câmeras portáteis e da tevê a cabo[14]não resultou numa revolução semelhante ao acesso democrático e politicamente organizado aos meios de comunicação como defendia o escritor e filósofo alemão Hans Magnus Enzensberger, que em sua conferência Elementos para uma Teoria dos Meios de Comunicação propunha o uso emancipador dos meios, o que implicaria:

a) programas descentralizados (ao invés de submetidos a um controle central);

b) cada receptor, um transmissor em potencial (em vez de um emissor e muitos receptores);

c) mobilização das massas (e não imobilização de indivíduos isolados);

d) interação dos participantes, feedback (em vez de conduta passiva frente ao consumo);

e) processo político de aprendizagem (contrário ao processo de despolitização);

f) produção coletiva (em substituição à produção por especialistas);

g) controle socializado por organizações autogestoras (em lugar do controle exercido por proprietários e burocratas) (Enzensberger apud Sodré, 1981, pp. 34, 35).[15]

Enzensberger estava convencido de que o controle exercido pela classe dominante por meio da indústria da consciência não tinha bases sólidas e de que as novas técnicas eletrônicas não impunham “uma contradição essencial entre o emissor e o receptor”, permitindo vislumbrar uma reestruturação: “pela primeira vez na história, os meios de comunicação possibilitam a participação em um processo produtivo social e socializado, cujos meios práticos se encontram nas mãos das próprias massas”. Acreditava que a televisão, por ser “um meio de comunicação eminentemente participatório”, teria um papel libertador nesse processo (Enzensberger apud Matuck, 1995, p. 33).

As formulações de Enzensberger, assim como as de Michael Shamberg – que em seu livro Guerrila Television defendia a socialização da informação e da cultura com a transformação de cada ‘receptor’ em, simultaneamente, um ‘emissor’ (Shamberg apud Sodré, 1981, p. 43) –, além de terem resultado em algumas das estratégias de utilização da internet, continuam hoje inspirando movimentos sociais, organizações não governamentais e setores excluídos diversos em sua luta pela democratização do acesso aos meios de comunicação de massa.

Na verdade, o pretendido assalto aos meios de produção de tevê nunca se concretizou,[16]e seu domínio continua nas mãos das elites econômicas. Mas o engano desse pensamento, segundo Sodré, é que os que ele denomina “neo-iluministas” se preocuparam apenas com a mudança de conteúdos, deixando de lado o questionamento do código erigido sobre a unilateralidade da comunicação e do processo de significação.

É preciso perceber, ele adverte, que “o verdadeiro ato político consiste em quebrar a estrutura da informação, enquanto instância unilateral e unívoca do discurso, introduzindo a ambivalência no circuito”. E sustenta que o controle da fala não é exercido por uma “consciência manipuladora”, cuja substituição superaria a separação entre  ‘emissor’ e ‘receptor’, mas pela própria “forma instituída pelo medium, que elimina a relação concreta de troca comunicacional em favor de uma ordem abstrata e unívoca, regida por um código que não admite ambivalência ou transgressão” (ibidem, p. 42).

Uma hipótese de transgressão ocorreria se um apresentador de programa televisivo sobre esportes radicais, ecoturismo ou que abordasse os benefícios das caminhadas para a saúde do corpo resolvesse, por exemplo, dirigir-se ao telespectador e, em vez de lhe sugerir não sair do lugar porque o melhor viria depois dos comerciais, dizer-lhe: não assista à continuação do programa após o comercial nem à edição da próxima semana, porque, sentado aí no sofá, você não sentirá o prazer e o saudável equilíbrio que as atividades que mostramos podem proporcionar; assistir à televisão é incompatível com sua saúde e com a vivência concreta de estar em outros lugares. Numa edição de 2002 do programa Provocações, da TV Cultura, de São Paulo, o apresentador Antônio Abujamra, também diretor de teatro, fez um comentário semelhante à hipótese acima: “não respondemos a telefonemas e fax, não mostramos livros nem divulgamos eventos, não falamos sobre nenhum e-mail recebido, e as pessoas continuam assistindo ao programa e enviando mensagens”.

De qualquer modo, mesmo que o fictício apresentador de esportes tivesse libertado o telespectador do sofá ou a provocação de Abujamra tenha desafiado a passividade do telespectador, essas ações ainda não representariam transgressão equivalente a uma ruptura com a unilateralidade.

Também fora da ordem do código televisivo, a ambivalência aparece como correlato de gratuidade na comunicação, no contexto da formulação de Sodré. “Comunicar-se verdadeiramente é tentar superar as barreiras da incomunicação, as restrições do código, e dar curso livre à vivência”, diz o autor. Ele defende que isso só pode se dar num “espaço de troca dialética” e exemplifica:

Quando duas pessoas conversam despreocupadamente (o bate-papo ocioso) ou quando pesquisam uma verdade através do diálogo (...) os discursos se penetram, os significados se atraem e se repelem, mas sempre num solo comum e ambivalente, onde os termos polares não podem ser positivados pela distinção radical entre produtor e consumidor ou entre emissor e receptor (ibidem, pp. 50, 51).

Ao atualizar o debate sobre a mídia à luz das inovações tecnológicas dos anos 90, Sodré identifica o surgimento de um campo comunicacional de produção de bens simbólicos e culturais que denomina “tecnocultura”, gerado pela aliança da economia de mercado e das “tecnologias do conhecimento” (dispositivos resultantes da apropriação dos avanços tecnológicos pelas ciências da comunicação e da informação, e capazes de produzir e transmitir comunicação) com os meios de comunicação de massa tradicionais e as variadas formas comunicacionais do presente tecnológico, “os rizomas, próprios ao espaço que vem sendo progressivamente criado pelas redes telemáticas” (ibidem, p. 8).

Nessa perspectiva, a atual e freqüente promessa de maior interação com a comunicação de massa não impede a possibilidade de as tecnologias interativas serem utilizadas apenas como uma estratégia para readaptar o público, uma simulação para manter o código unilateral inalterado em sua essência.

Segundo Sodré, os tempos atuais caracterizam-se pela doutrina da economia social de mercado atuante nos países industrializados ocidentais, para a qual “a esfera econômica continua sendo fundamental, mas deve priorizar o ‘supra-econômico’ (ética, estética, cultura), a fim de obter uma espécie de síntese entre a compensação social e a liberdade para as forças do mercado”. Enquanto as práticas partidárias experimentam um “tropismo para o centro (ideologia adequada ao gerencialismo tecnoburocrático)”, a mídia “simula uma socialidade centrista”, ocupando o lugar de “dispositivo estratégico nesse modelo socioeconômico”, por funcionar como “megamáquina de organização e coordenação das preferências e decisões populares na direção de uma consciência comercialista, capaz de otimizar o consumo suntuário” (ibidem, p. 76).

A ‘comunicação’ criada pela mídia, na opinião do autor, simula uma fraternidade intercultural e interclassista baseada numa realidade social, política e econômica que parte dos setores tecnoburocráticos dirigentes e incide sobre os afetos, as pulsões e as atitudes dos dirigidos/consumidores:

Os consumidores são colocados numa posição passiva, aqui entendida não como ausência de atividade mecânica (na verdade, os usuários do espaço cibernético ou mediático podem ser bastante ativos do ponto de vista gestual e cerebral), mas como a impossibilidade de fazer discriminações, julgamentos de princípio, ou de tomar decisões essenciais. Os fluxos mediáticos imobilizam o sujeito num lugar marcado, entregando-o ao puro jogo perverso de pulsões.

Esses fluxos são socialmente diferenciais e concentram a capacidade decisória nos diversos estratos do estamento tecnoburocrático dirigente, outorgando-lhes o poder de administrar as condições em que se dá o debate público.

É uma ilusão supor que o poder dessa avançada esfera tecnológica esteja acima das diferenças reais de classe ou de apropriação da renda nacional. Num país de capitalismo periférico, a mídia e as indústrias culturais podem eventualmente estimular o consumo da massa, fazendo crer a todos que este é o caminho para uma verdadeira democracia social (ibidem, pp. 76, 77).

2.2. Do analógico ao digital

2.2.1. Internet, ciberespaço e interatividade

Na década de 1940, Norbert Wiener introduziu o conceito de cibernética para definir a teoria do funcionamento de certos tipos de sistemas naturais ou artificiais, auto-reguláveis por meio de comunicação, controle e feedback. Ele especulou sobre a comunhão entre homem e máquina, imaginando uma situação em que o indivíduo poderia ser transportado, ou transmitido, de um continente a outro, por meio do telégrafo. (Wiener, apud Rabaça, Barbosa, 1998, p. 129) Apesar de o imaginário das décadas subseqüentes apontar para uma redefinição tecnológica dos sistemas informacionais, pode-se dizer que as características e a velocidade dessa ‘revolução digital’ nos anos recentes, exceto pelo transporte ‘físico’ dos homens, suplantaram muitas previsões sobre o futuro da comunicação.

Ao se indagarem, no final dos anos 80, se o crescente emprego de computadores pessoais por indivíduos em suas casas e o uso extensivo de sistemas de informação baseados em computadores na sociedade bastariam para criar nova mídia de massa, Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach (1993) concluíram que não. Acreditavam que, mesmo que a ‘alfabetização com computadores’ se tornasse universal, e ainda que em toda casa houvesse um computador conectado a “imensas” redes, seria difícil ver como um sistema assim poderia ser utilizado pela maioria dos cidadãos, obter apoio financeiro, atrair anunciantes ou oferecer serviços que pudessem interessar a audiências numerosas e heterogêneas.

A essência da comunicação de massa, como agora a conhecemos, é que comunicadores profissionais operam a mídia visando ao lucro, disseminando o conteúdo por audiências grandes e heterogêneas em bases mais ou menos contínuas. Uma rede de computadores, na qual as pessoas enviem mensagens umas para as outras, é um processo de todo diferente (...) Para o usuário eventual, que redige mensagens para saudar parentes, tagarelar, marcar um encontro, ou indagar acerca do preço da borracha, uma rede imensa pareceria ter poucas vantagens com relação à telefônica já existente (ibidem, p. 355, 356).

Os professores americanos não imaginavam a amigabilidade que as novas máquinas e programas viriam a alcançar, os limites a que a internet chegaria, o volume de dinheiro envolvido nos negócios em torno do nicho planetário dos computadores e da rede e, menos ainda, a velocidade com que tudo isso ocorreria. Subestimaram também o interesse e a capacidade de usuários do mundo inteiro em ‘tagarelar’ e ‘navegar’ noite adentro, compulsivamente. Mas, ao considerarem “mais provável” a possibilidade de uma nova mídia de massa surgir pelo acoplamento de computadores com variantes modernas da tevê por cabo, eles apontaram um aspecto importante do ponto de vista da maior interatividade: a continuidade do atual sistema de forma associada à nova mídia e a incorporação das inovações tecnológicas e da dinâmica interativa que ela traz.

Se há 50 anos via-se a tecnologia analógica[17]da tevê como uma técnica avançada e a proposta mais sedutora do sistema informativo congregado por jornais, revistas, rádio, discos e livros, é certo que hoje esse posto é ocupado por mídias mais atraentes como a internet e outras formas de compartilhamento de dados e informação digitalizada.[18]

Arena simultaneamente de sonhos coletivos e do temor de pulverização do social na individualização, o ciberespaço é objeto de estudo de Janet Murray. Nesse território digital com geografia própria, no qual todo lugar é aqui e todo momento é agora, e em que se experimenta tanto a troca imediata de documentos quanto a visita aos mais remotos sítios, a autora defende a passagem de uma narrativa aditiva das tecnologias de representação do real (como, em sua opinião, se fazia no início do cinema, quando se juntavam fotografia e teatro, e hoje ainda se faz, quando apenas se justapõem diferentes tecnologias digitais no ciberespaço) a uma expressiva (Murray, 1997, pp. 65-94).

A autora exemplifica uma narrativa expressiva “mais desejável, verdadeira, prazerosa” e, principalmente, “mais interativa”: numa narrativa da web ou numa novela de televisão, o produto digital mais sofisticado teria links “quentes” para que o clicar, movido pela curiosidade, permitisse livre acesso ao videoclipe da história, a respostas sobre roteiros e personagens, a rever detalhadamente acontecimentos passados da trama, à separação de registros de som etc. (ibidem, p. 68).

Murray identifica o hipertexto[19]e as simulações[20]como os dois formatos mais promissores para uma narrativa digital e avalia que o poder e a forma da arte narrativa eletrônica serão determinados pela qualidade e variedade das lentes, pela mobilidade da câmera e pela editabilidade do filme.

A autora relaciona (ibidem, pp. 71-89) quatro propriedades essenciais dos ambientes digitais. Eles são:

1)   Processuais – pela possibilidade de programação e definição de habilidades para executar regras.

2)   Participatórios – por permitirem que se introduzam ‘comportamentos’ em sua programação e que se obtenha resposta, como nos videogames.

3)   Espaciais – por representarem espaços navegáveis, função em que os novos ambientes digitais são cada vez mais poderosos.

4)   Enciclopédicos – pela habilidade de armazenamento de informação, em que os computadores são a mídia com maior capacidade já inventada.

Para ela, as duas últimas propriedades ajudam às criações digitais atuais parecerem tão exploráveis e extensas, o que permite dizer que o ciberespaço é imersivo; as duas primeiras são responsáveis pela maior parte do que se quer dizer quando se usa a expressão interativo.

O editor e pesquisador dinamarquês Jens F. Jensen destaca que os conceitos de interatividade surgem como extensão de um anterior, o de interação, que, por sua vez, tem significados variados em campos diversos do conhecimento, como na sociologia – relação entre duas ou mais pessoas que, numa dada situação, adaptam mutuamente seu comportamento e suas ações – nos estudos culturais de comunicação – processo que ocorre entre receptores, de um lado, e a mensagem da mídia, de outro – e na informática – estilo de controle que é exibido por sistemas interativos.[21]Ele prefere usar o termo interação, como no sentido sociológico, para ações de indivíduos mutuamente interdependentes em comunicação não mediada – porque entende que é possível haver comunicação sem interação (ouvindo rádio e/ou assistindo a tevê), mas não interação sem comunicação – e reserva o conceito de interatividade para se referir ao campo da mídia e da comunicação mediada (Cf. Jensem in Mayer, 1999, pp. 165, 166, 182).Nesta dissertação, o termo interação aparece com certa freqüência e flexibilidade semântica também para relações mediadas, assim como o termo participação, sendo o sentido de ambos atribuído de acordo com o contexto de sua utilização.

Para chegar a um conceito de interatividade, o autor se reporta, em seu artigo ‘Interactivity’ – Tracking a New Concept in Media and Communication Studies, a dezenas de definições que lidam com o termo como “protótipo” – em que interatividade chega a ser definida como quaisquer “ações entre humanos e a máquina [computador]” (Cf. Goertz, 1995, apud Jensen in Mayer, 1999, p. 170) –, “critério” – aqui definindo até como “o diálogo recíproco entre o usuário e o sistema” – ou “continuum” – em que interatividade é situada em diferentes graus e dimensões. Num aspecto, a maioria das formulações converge: a interatividade apresenta-se em graus diversos. Jensen (in Mayer, 1999, p. 183) define-a como “a medida do potencial de capacidade [habilidade] da mídia para deixar o usuário exercer influência no conteúdo e/ou forma da comunicação mediada”.[22]

Jensen (idem, ibidem) divide seu conceito em quatro subconceitos ou dimensões, correspondentes a diferentes padrões de comunicação:

1)   Interatividade transmissional – a medida da capacidade potencial da mídia de permitir ao usuário fazer escolhas numa corrente contínua de informação em mídia unidirecional sem canal de retorno e, portanto, sem a possibilidade de fazer pedidos (são exemplos tevê e rádio tradicionais, teleconferências, multimídia, teletexto, sistemas multicanal etc.).

2)   Interatividade consultacional – a medida da capacidade potencial da mídia de permitir que o usuário escolha, por iniciativa própria, entre uma seleção de informações pré-produzidas em mídia bidirecional com um canal de retorno (vídeo on demand, serviços de informação on-line, enciclopédias em CD-ROM, fontes de consulta de informação on-line comoFTP, WWW, Golpher etc.).

3)   Interatividade conversacional – a medida da capacidade potencial da mídia de permitir ao usuário produzir e transmitir sua própria informação em um sistema de mídia bidirecional, seja por arquivamento ou em tempo real (telefone, videoconferências, correio eletrônico, listas de correspondência, grupos de notícias, ICR etc.).

4)   Interatividade registracional – a medida da capacidade da mídia de registrar informação de... ou por meio de... e/ou responder à necessidade ou à ação do usuário, seja quanto à capacidade explícita de o usuário escolher o método de comunicação, seja quanto à capacidade intrínseca do sistema de ‘sentir’ e adaptar automaticamente (sistemas de enquetes, agentes inteligentes, guias inteligentes, interfaces inteligentes, registro de conexão em sistemas de computador etc.).

Este trabalho encampa o conceito geral de Jensen e utiliza suas subdimensões como referência para a analise do que ocorre na comunicação de massa, adotando também as sintéticas categorias de interatividade forte e fraca.[23]

2.2.2. Da sedução à inteligência coletiva – Baudrillard versus Lévy

Crítico dos meios de comunicação de massa tradicionais, Pierre Lévy aposta numa interatividade forte possibilitada por redes digitalizadas. Por outro lado, Jean Baudrillard estende a crítica que faz à mídia tradicional aos mecanismos de feedback a que recorre, por exemplo, a televisão. E não vê a existência de interações verdadeiras nos jogos e redes digitais.

Lévy classifica as técnicas de controle das mensagens em somáticas, midiáticas e digitais, sendo as primeiras as que “implicam a presença efetiva, o engajamento, a energia e a sensibilidade do corpo para a produção de signos”. Para ele, ao fixarem e reproduzirem mensagens a fim de assegurar-lhes maior alcance, melhor difusão no tempo e no espaço, as tecnologias midiáticas passam a emitir as mensagens mesmo na ausência do corpo vivo dos destinatários. Afirma também que a mensagem mediada não está mais em interação constante com a situação em que deve adquirir sentido: “a mídia constitui uma tecnologia molar que age sobre as mensagens a partir de fora, por alto e em massa” (Lévy, 1998, pp. 51, 52).

Baudrillard diz que a televisão – “medium frio e de dissuasão das massas” –, ao tentar “reaquecer” acontecimentos – também frios, por efeito da “simulação” ou do filtro da mediação –, busca o acréscimo de mídias suplementares “para ponderar o efeito por feedback: pesquisas imediatas sancionando o efeito maciço da emissão e o impacto coletivo da mensagem, quando, bem entendido, essas pesquisas verificam apenas o sucesso televisual do próprio medium”. O autor vê nos recursos interativos utilizados pela televisão ou mesmo pelas rádios – incluídas as redes piratas e alternativas – um “gigantesco” processo de simulação, um jogo de adesão lúdica à informação, sutis mecanismos de encenação da comunicação: “imensas energias desdobradas para manter a pulso esse simulacro, para evitar a de-simulação brutal que nos colocaria em confronto com a realidade evidente de uma perda radical de sentido” (Baudrillard, 1991, pp. 184-186).[24]

Para Lévy, a informática é uma técnica “molecular” que permite engendrar e modificar as mensagens que reproduz e difunde “melhor do que a mídia clássica”, com total controle de sua microestrutura: “o digital autoriza a fabricação de mensagens, sua modificação e mesmo a interação com elas, átomo de informação por átomo de informação, bit por bit”. Com as potencialidades e qualidades do hipertexto, das bases de dados, sistemas especialistas, tabuladores, simulações interativas e outros “mundos virtuais”, o autor acredita que o digital “reencontra a sensibilidade ao contexto das tecnologias somáticas, ao mesmo tempo em que conserva a potência de gravação e de difusão da mídia” (Lévy, 1998, pp. 53, 54).

No espaço das redes, Baudrillard vê apenas um up grade tecnológico, atualização e ampliação da simulação que já denunciava no espaço da mídia analógica. Nas redes, “onde reina a pura digitalidade”, o autor não identifica o aparecimento do sentido regulado pela polaridade dos termos e das oposições distintivas. “Uma estrutura, uma sintaxe, um espaço de diferença ainda é tudo o que regula o diálogo do signo (significante/significado) e da mensagem (emissor/receptor)... o bit já não é uma unidade de sentido, mas uma pulsação sinalética”, diz. Para ele, ao substituir a dualidade e a polaridade discursivas (Baudrillard, 1991, p. 187),[25]a digitalidade informática retira radicalmente o propósito e o sentido da linguagem, enquanto assume o domínio das mídias, das redes e das massas (massas receptoras ou conectadas, vistas por ele também como ‘meio’) (ibidem, pp. 187, 188.).

O tratamento “molecular” da informação, segundo Lévy, abre um ciberespaço que interconecta virtualmente todas as mensagens digitais, multiplica os captores, generaliza as interações em tempo real: “o ciberespaço tende a reconstituir em escala mais ampla o plano, o continuum indivis, o caldo vivo e flutuante que unia os signos e os corpos, como os signos entre si, antes que a mídia isolasse e fixasse as imagens”. Para o autor, o ciberespaço permite conceber formas de organização econômica e social centradas numa “inteligência coletiva” (Lévy, 1998, pp. 15, 25)[26]e na valorização do humano. Ele acredita que “organizações inteligentes na massa” e grupos “auto-organizados”, ou “moleculares” realizarão o ideal da democracia direta acompanhada por computador, uma “democracia molecular”, uma “ágora virtual” (ibidem, pp. 54-60).

Esse grupo conectado ao vídeo, contesta Baudrillard, “é apenas o seu próprio terminal”, que se registra, auto-regula-se e se auto-gere eletronicamente – “autoligação e auto-sedução”. Em sua visão, o grupo é erotizado e seduzido por si mesmo, num jogo narcísico. “A partir de agora, nas próteses informáticas e nas redes eletrônicas de auto-regulação, cada um de nós vai deslizar no fio de uma pulsão de morte[27]e precipitar-se na sua imagem”, prediz Baudrillard, associando o conceito de narciso ao de narcose: “narcose eletrônica, eis o risco último da simulação digital” (Baudrillard, 1991, pp. 187-190). No limite, postula, tornam-se inúteis as funções constituintes da vida humana:

Quando o mundo ou a realidade encontram no virtual seu equivalente artificial, tornam-se inúteis. Quando a clonagem basta à reprodução da espécie, o sexo se torna uma função inútil. Quando tudo pode ser cifrado em códigos numéricos, a linguagem se torna uma função inútil. Quando tudo pode resumir-se no cérebro e na rede neuronial, o corpo se torna uma função inútil. Quando a informática e o automatismo maquinal bastam à produção, o trabalho se torna uma função inútil. Quando, na ‘memória da água’, a transferência da onda eletromagnética produz os mesmos efeitos que a própria molécula, esta se torna inútil. Quando o tempo e todas as suas dimensões são absorvidos pelo tempo real, este se torna uma função inútil. Quando reinam as memórias artificiais, nossas memórias orgânicas se tornam supérfluas (aliás, vêm desaparecendo progressivamente). Quando tudo se passa entre terminais interativos na tela da comunicação, o Outro torna-se uma função inútil (ibidem, p. 46).

O destino reservado para todas essas coisas é sua sobrevida artificial, diz Baudrillard: “como fetiches de reserva (...) do real, só resta a realidade virtual; do outro, só uma forma espectral”. Mas, “indegradáveis”, elas continuam a existir “como as extremidades fantasmas de um membro amputado”, adverte, apocalíptico:

Os mortos, mesmo virtuais, se vingam. O tempo abolido no tempo real se vinga sob a forma de milenarismo delirante ou de procura desesperada pelas origens. A Natureza, reduzida a uma fonte de energia, se vinga sob a forma de catástrofes naturais. O corpo exorcizado no virtual se vinga sob a forma de virulência e de patologia auto-imune. A alteridade arrestada volta sob a forma de ódio, de racismo e de experimentação mortífera. O real apagado por seu duplo é um fantasma potencialmente perigoso (ibidem, pp. 49, 50).

2.2.3. A nova mídia

A distinção entre mídia antiga e nova para os meios de comunicação de massa impressos e eletrônicos feita por Wilson Dizard Jr. inclui na segunda categoria a televisão de alta definição, transmissões radiofônicas digitais, computadores multimídia, sistemas de distribuição multiponto, CD-ROM, aparelhos de fac-símile de última geração, bancos de dados portáteis, jornais eletrônicos portáteis, livros eletrônicos, redes de computadores para consumidores, redes de videotextos, telefones inteligentes e satélites de transmissão direta de televisão para as residências ou filmes para as salas de cinema. O telecomputador, uma junção das tecnologias de televisão e do computador, seria a síntese da fusão maquinal, fornecendo serviços de mídia de ponta nos lares (Dizard, 1998, p. 22).

Em sua definição, a nova mídia não é uma extensão apenas linear da antiga, com seus produtos unidirecionais entregues por uma fonte centralizada – jornais, canais de tevê ou estúdios de cinema. Uma das principais diferenças destacadas por ele é que a nova é crescentemente interativa, “com ligações on-line com o provedor de informações, permitindo que os consumidores escolham quais recursos de informação e entretenimento desejam, quando os querem e em qual forma” (ibidem, pp. 28, 29).

Em meio à acelerada mudança provocada pela convergência tecnológica digital e o uso do computador como instrumento primordial da comunicação a distância, o autor enxerga ainda muitos anos de sobrevida para a mídia tradicional no contexto da comunicação de massa norte-americana, desde que essas organizações se adaptem às realidades tecnológicas (digitalização, padrões do computador e da internet) e econômicas (concentração de capital e sinergia de meios e produtos) em modificação. Os sistemas de tevê a cabo e via satélite, por assinatura, devem continuar a expandir-se, segundo sua avaliação (ibidem, pp. 25-27, 41, 42).

Dizard trabalha principalmente com exemplos do que se poderia chamar de uma interatividade fraca: mecanismos interativos possíveis de serem assimilados pela mídia tradicional ou mesmo exclusivos da nova, mas que representam apenas aumento de opções, escolha entre alternativas preexistentes, seleção individual, acesso por intermédio de portais. Alguns desses serviços já existentes, como os canais pay-per-view, nem chegam a atrair um grande público.

Prevê, contudo, que as fusões tecnológicas do telefone, vídeo e tráfego em redes eletrônicas integradas nos Estados Unidos abrem perspectivas para a intensificação da oferta de serviços que ele denomina mídia interativa (MI, na sigla da indústria eletrônica). Alguns exemplos de informação e entretenimento de acordo com a demanda, relacionados por Dizard, são compras a domicílio, banco pessoal eletrônico, acesso direto a programas interativos de educação e treinamento. Os produtos mais promissores de MI são os jogos interativos de computador, que passariam a ser oferecidos via tevê a cabo ou circuitos telefônicos, atendendo a uma geração de jovens americanos que cresceu “pilotando” tais jogos (ibidem, pp. 28, 30).

A rápida expansão da internet em todo o mundo, incluindo o Brasil, interligando em rede computadores de uso individual em locais de trabalho, instituições de ensino e residências – território sagrado do domínio da tevê –, pode não representar uma ameaça imediata à mídia tradicional, por sua incapacidade de alcançar os vastos mercados consumidores caracterizados pela exclusão social e pelo baixo poder aquisitivo. Não obstante o recente incremento nos sistemas de telefonia e o aumento de microcomputadores ligados à internet, a realidade econômica e social brasileira não aponta para a democratização do acesso à rede para a maioria da população. O próprio uso individualizado do computador ainda representa uma barreira para a coletivização da nova mídia. Ao contrário, a tevê coletiviza ou desindividualiza o ritual de assistir à programação, tendo o grupo familiar como o receptor por excelência.

No Brasil, a concorrência entre a nova mídia e a tradicional só se dá, em certa medida, no segmento de maior acesso aos bens de consumo, responsável pela multiplicação geométrica da fortuna das empresas ligadas à produção e venda de equipamentos e programas de informática ou que já comercializam ou anunciam pela grande rede. Embora, em alguns momentos de sua história, a tevê aberta brasileira tenha feito opção por uma programação para um público restrito e com maior poder de compra, a programação e publicidade têm sido direcionadas, nos anos recentes, para as vastas parcelas da população com baixo e médio poder aquisitivo, que formam a maioria do público telespectador.

O novo padrão digital e interativo representa para a mídia tradicional brasileira, portanto, algo a ser incorporado para prolongar sua sobrevida como principal sistema associado ao sistema econômico hegemônico na sociedade. Mais do que isso, o novo sistema não configura concorrência exógena, mas um novo produto – recheado de outros produtos – introduzido na vida social pela mesma ordem que domina tanto as relações econômicas mundiais quanto os sistemas de comunicação já existentes.

Considerando os sistemas de informação interligados ao sistema econômico – o que equivale dizer, hoje, a economia de mercado –, o papel condicionador de necessidades e de desejos da população que o sistema capitaneado pela tevê desempenha tem sido especialmente caro ao Estado brasileiro, na condição de  síndico dos interesses do capital. Todo o investimento e a concentração de capital na mídia tradicional também não fazem antever um rápido abandono das posições estabelecidas pelas corporações que dominam o setor, articuladas financeira, ideológica e até familiarmente com as elites estabelecidas. O que se prenuncia sim é uma forte tendência à associação dos capitais que têm seus investimentos voltados para a mídia tradicional com os de suas subseqüentes tecnológicas, acompanhando a tendência mundial às megafusões de empresas, num processo acelerado de oligopolização e monopolização do mercado mundial.

2.3. Interatividade na comunicação de massa brasileira

Em meio à redefinição informacional tecnológica em curso, o papel dos meios de comunicação tradicionais brasileiros pouco mudou em relação ao código pautado na unilateralidade da comunicação. Rádios, tevês e jornais apresentam algumas mudanças tímidas em função do padrão internet, recorrendo principalmente ao uso do telefone,[28] cujo sistema expandiu-se no final da década de 1990. Embora seja importante avaliar as alternativas e inovações técnicas que permitam maior interação, assim como o uso que a mídia tradicional delas passa a fazer, não se trata de enfocar aqui os aspectos técnicos da interatividade, da troca de sinais ou informações entre um ‘emissor’ e seu ‘receptor’, mas, a partir da observação e análise crítica das práticas existentes, avaliar se e o quanto as mudanças ocorridas podem alterar a comunicação unilateral tradicionalmente exercida na direção de uma comunicação dialogal. O foco de análise deste trabalho está na mídia impressa, como veremos no próximo capítulo; antes, porém, examinemos alguns aspectos da relação de outras mídias com seu público, para contextualizar as promessas de interatividade ou participação e o que de fato é ofertado.

2.3.1. Rádio – interação ou segmentação?

Em sua origem, o rádio era um veículo de comunicação bidirecional utilizado para fins militares e para navegação. “Quando foi instituído comercialmente como Radio Music Box, tornou-se um veículo de difusão de massa que não permitia retroalimentação a partir de receptores” (Matuck, 1995, p. 15).

Na década de 1920, Bertold Brecht via no rádio um potencial inexplorado, capaz de revelar os fatos sem a intermediação de agentes, tornando as instituições transparentes à opinião pública. O rádio deveria servir aos interesses dos trabalhadores e não aos dos fabricantes de receptores, das emissoras ou do Estado. Convencido de que o novo meio de comunicação de mão única seria usado como instrumento de poder da classe dominante, ele propunha:

A radiodifusão deve ser convertida de um sistema de distribuição em um sistema de comunicação. A radiodifusão poderia ser o mais maravilhoso sistema público de comunicação imaginável, um gigantesco sistema de canais; poderia ser, quer dizer, se não apenas fosse capaz de transmitir, mas também de receber, de fazer o ouvinte não apenas escutar, mas também falar, para conectá-lo ao mundo e não para isolá-lo (Brecht apud Matuck, 1995, pp. 17, 18).

Introduzido no Brasil, nos anos 20, o rádio só foi conhecer seu ouvinte em meados da década de 1930, quando a legislação permitiu a comercialização da programação e surgiram os programas de auditório, que buscavam maior identificação com o público (consumidor) e aumento da audiência. Essa incipiente participação do ouvinte coincidiu também com a determinação do Estado Novo, do presidente Getúlio Vargas – que em 1934 instituíra o programa A Voz do Brasil –, de usar essa mídia como veículo prioritário de propaganda política e controle da sociedade, a ponto de decretar, em 1940, a encampação da Rádio Nacional, que desde 1936 apresentava os principais programas de auditório do país.

Nos anos 40 e 50, a época de ouro do rádio brasileiro é marcada pela consolidação dos musicais, o surgimento das radionovelas e dos noticiários. O rádio deixa de ser ouvido coletivamente nas salas das sociedades e clubes criados para a aquisição dos aparelhos receptores nos primeiros anos de sua implantação, para reinar absoluto nas salas de visita e no imaginário das famílias brasileiras. A participação do público faz-se pela presença nos auditórios, pelo culto aos astros da época e pelo consumo dos produtos divulgados nos reclames. É verdade que o rádio sempre possibilitou o diálogo da imaginação e da emoção a partir das imagens produzidas na mensagem radiofônica. Mas a interação com o público não estava presente.

Curiosamente, foi com a chegada da tevê, na década de 1960, que, entre outras mudanças, o rádio foi buscar maior aproximação com seu público. Dada a migração de seus profissionais, estrelas, programas de maior sucesso e, principalmente, da publicidade para a tevê, já não era mais possível ao rádio manter produções tão caras quanto as do período anterior. Gradualmente, as emissoras se direcionaram para a execução de discos e fitas gravadas, serviços de utilidade pública, atendimento às necessidades regionais de informação, uso de linguagem mais coloquial, a intensificação do radiojornalismo e um processo crescente de especialização – ou segmentação –, procurando cada emissora seu público específico. Essa guinada do rádio nos anos 60 e 70 coincidiu com a introdução de equipamentos mais leves, para transmissões volantes e ao vivo, o surgimento das rádios FM e a comercialização dos aparelhos receptores transistorizados e portáteis, permitindo ao rádio acompanhar o ouvinte onde quer que estivesse.

O rádio perdeu para a tevê o lugar de destaque na sala da família brasileira, mas encontrou novo espaço na vida de seu público, aproximando-se dele por meio da segmentação de programação e audiência, interagindo com o ouvinte, fazendo-se presente em lugares e atividades em que era possível ouvi-lo, mas não assistir à tevê. O mais ‘interativo’ dos três grandes meios de comunicação de massa não foi sempre assim, e sua opção por maior proximidade com o público veio justamente por adaptação aos novos tempos do domínio da tevê.

A característica do rádio como bom vendedor de produtos com baixo custo operacional também não é uma questão de escolha, mas um dado de realidade. Como primo pobre da mídia de massa, o rádio consumia, em 1997, apenas 5% da verba publicitária nacional, segundo documento da União de Redes de Radiodifusão pela Democracia (Unirr), organização que reúne centenas de rádios, especialmente as de baixa potência. O documento “Contra a hegemonia do mercado mundial, Radioapaixonados pela Democracia”, da Unirr, afirma que “qualquer ação democratizante do espectro radioelétrico deve passar por revigorar economicamente o rádio”.

As rádios de baixa potência – ‘livres’, ‘piratas’ ou ‘comunitárias’ – estão no extremo oposto ao da atual concentração em sistemas de exploração comercial das rádios. Embora presente também nas grandes redes e emissoras comerciais, o uso de dispositivos de interatividade com o público representa um elemento vital para as rádios populares, como afirma Félix Guattari, ao avaliar a experiência das rádios italianas:

O ponto mais importante para os animadores das rádios livres populares é aquele que permite ao conjunto dos meios técnicos e humanos estabelecer um verdadeiro sistema de feedback entre os ouvintes e a equipe que o realiza (Guattari apud Ortriwano, 1985, p. 34).

A presença da voz do ouvinte nos programas populares e noticiosos das rádios comerciais brasileiras é freqüente, mas nem sempre os regionalismos, as culturas minoritárias e os interesses políticos das classes economicamente subalternas estão presentes nessa participação. Não seria a aparente interatividade do rádio comercial, na verdade, apenas um caminho para facilitar a segmentação de público – de mercado, portanto –, estratégia distinta da busca da diversidade de vocalizações e de compartilhamento do poder sobre as mensagens nesse meio?

Outra barreira à interação está na falta de acesso aos recursos tecnológicos mais simples, como evidencia o relato encontrado no Projeto de Avaliação do programa Tem Saúde no Ar, que era transmitido aos sábados, das 12 às 14 horas, pela Maré FM, rádio comunitária localizada no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro: “Procuramos imprimir um caráter interativo ao programa, mas o contato telefônico com os ouvintes é difícil, poucos são os domicílios com telefones particulares e o serviço da central telefônica que atende a região é precário”. Legislação restritiva e dificuldades de financiamento podem ser outras formas de ‘calar o ouvinte’. O programa, produzido em convênio com o Núcleo de Estudos Locais da Fundação Oswaldo Cruz (Elos/Ensp/Fiocruz), foi ao ar entre 1996 e 97, até a rádio comunitária de baixa potência ser fechada pelo Ministério das Comunicações e o projeto ter seu financiamento, pela Kellog Foundation, suspenso.

2.3.2. Tevê – metamorfose ou mimetismo?

Só mais recentemente, a tevê, que ocupa o topo da cadeia nos sistemas de comunicação de massa, começa a experimentar mais sistematicamente alguns recursos de interatividade disponíveis. Ao mesmo tempo, acordos entre corporações internacionais que administram a tevê a cabo e a internet vêm sendo anunciados com freqüência, confirmando as expectativas de uma sobrevida da mídia tradicional, associada à nova mídia, e a tendência à unificação de diversas mídias em rede.

Em setembro de 1999, por exemplo, o conglomerado Viacom, dono dos estúdios Paramount e de empresas em atividade no Brasil, como a rede de videolocadoras Blockbuster e a MTV, anunciou a compra da rede de tevê CBS, líder de audiência nos Estados Unidos. A Viacom controlava na época 34 estações de tevê, 163 rádios, a maior central de out-doors daquele país e uma editora de livros, além de ter presença importante na internet, com alguns dos sites mais visitados. Mesmo após incorporar a CBS, passando a ter 41% da audiência de rádio e tevê dos 98 milhões de residências americanas, o grupo ainda se manteve menor do que a Time Warner, a líder das comunicações no mundo (Veja, 15/06/1999, p. 132).

Em janeiro de 2000, outra nova megafusão reuniu a Time Warner – dona da rede de televisão CNN, de revistas como a Time e a Fortune e da gravadora Warner – com a American Online (AOL), maior provedor de internet americano e com valor de mercado superior ao dobro do que correspondia à primeira: 200 bilhões de dólares. “No auge da euforia da Internet, a fusão foi saudada como o marco inicial de uma ‘era’ ou ‘século’ da informação”, relembra a revista Veja, ao noticiar, em janeiro de 2003, a crise que baixou em 70% o valor das ações da AOL Time Warner em conseqüência do estouro da ‘bolha’ de valorização dos papéis da ‘nova’ economia, da desaceleração da economia americana, de prejuízos consecutivos da AOL e de fortes indícios de irregularidades na contabilidade do grupo, denunciados pelo jornal Washington Post e investigados pelo governo americano. Com a conseqüente destituição do fundador da AOL, Steve Case, da presidência do conselho de administração de todo o grupo, a fusão permaneceu, mas sob a hegemonia da ‘velha’ economia (idem, 22/01/2003, pp. 86, 87).

Na televisão brasileira, a participação do público a distância[29]– por telefone nos pioneiros Sem Censura, da TVE (desde a década de 1980, com perguntas e comentários) ou Você Decide e Intercine, da Globo (desde o início da década de 1990, com escolhas plebiscitárias entre opções predefinidas) – generalizou-se na programação de todas as emissoras nos anos recentes – com o acréscimo, em alguns casos, do acesso por computador. Emissoras, como a Rede TV, passaram a colocar dezenas de milhares de linhas telefônicas à disposição das ligações dos telespectadores por meio da tecnologia TeleTV, acionada pelo serviço 0900. Até a audiência do programa Puro Êxtase, da CNT, que trazia anúncios de tele-sexo, aumentou com um quadro em que a apresentadora respondia às curiosidades do público (cinco pontos na audiência contra os nove do Programa do Jô, da Globo, no mesmo horário).

Das tevês abertas, a Rede Globo foi a que deu mais sinais de estar interessada no filão. A promessa de interatividade como formato da tevê do futuro e presente já nos dispositivos atuais dos programas ‘interativos’ apareceu de forma curiosa num episódio de Você Decide, intitulado “Escrito nas estrelas” (29/09/93), em que a protagonista tinha que decidir, com a ajuda dos telespectadores, se embarcava ou não com um extraterrestre para uma viagem de férias e prazer ‘intergalático’, que duraria 100 anos terrestres. Num dos principais diálogos antes de o público ‘tomar sua decisão’, a pacata funcionária de cartório Margarete perguntava ao ET: Será que daqui a 100 anos vai ter novela? Ao que Ubik respondeu: Daqui a 100 anos os espectadores vão participar da novela, eles vão se identificar com os personagens e fazer eles agirem de acordo com suas próprias emoções... já tem um programa parecido assim na tevê. (Mello, 1996, pp. 18, 19).

Estudo sobre o Você Decide, realizado entre 1994 e 1996 por Paula Martinez Mello, pontuava o fato de que, enquanto dois milhões de telespectadores assistiam ao programa, uma central telefônica da Telesp, alugada pela Globo, recebia apenas 60 mil chamadas simultâneas, sendo que havia dificuldades técnicas para o registro de ligações que não fossem de São Paulo, Brasília e Belo Horizonte (ibidem, pp. 15, 16).

Depois de reunir material publicado na imprensa sobre o programa, analisar detidamente ‘dispositivos de enunciação’ presentes em dezenas de episódios, também exibidos para grupos de discussão, e entrevistar profissionais envolvidos com a produção, a pesquisadora concluiu que, no Você Decide, a representação de realidades e as trocas simbólicas são substituídas por uma interatividade movida por ‘simulacros’:

Se, com a televisão tradicional, as pessoas eram condenadas a ouvir para não falar, no Você Decide as pessoas são incentivadas a falar para não serem ouvidas, ou ainda, são induzidas a crer que estão falando para se calarem (ibidem, pp. 12, 16, 92).

No final dos anos 90, o programa Fantástico testou algumas estratégias, desde a escolha via telefone da reportagem a ter prosseguimento na semana seguinte até a leitura de e-mails dos telespectadores sobre os números em que o renegado mágico “Mr. M” revelava os truques de outros ilusionistas. “Vai procurar sua turma, Mr. M”, “estamos com você, Mr. M”, recitava o apresentador Cid Moreira, emprestando sua voz empostada aos telespectadores e, assim, produzindo a ilusão da participação.

Na primeira edição do programa No Limite, em 2000, a Globo pretendia combinar o formato reality show, com câmeras ligadas 24 horas por dia (e edição posterior) e a escolha pelo público, por telefone, dos vencedores do desafio proposto. Mas o dispositivo de participação do público foi abandonado.

A escolha do vencedor pelo público foi adotada no reality show Casa dos Artistas, do SBT. Batendo índices semanais de audiência em 2001, o programa chegou a sua noite final (16/12/2001) ‘encenando’ votação do público, por telefone, que elegesse o artista que deveria permanecer na ‘Casa’ e receber um prêmio em dinheiro. Enquanto milhões de telespectadores tentavam ligar para dar sua opinião, o apresentador Sílvio Santos pinçava algumas ligações, necessariamente distribuídas por diferentes regiões do país e alternando, convenientemente, a tendência dos votos de forma a prolongar ao máximo a expectativa da eliminação dos concorrentes e o tempo televisivo, que coincidia, em seus intervalos comerciais e duração dos blocos, com a programação da principal emissora concorrente. Os votos seguiram empatados até quatro dos cinco necessários para cada definição, resultando numa escolha final que favoreceu uma desconhecida e desafortunada atriz que, ao longo do programa, viveu uma paixão pelo jovem roqueiro rico, filho de um senador e da então prefeita de São Paulo.

Na segunda série da Casa (19/05/2002), os votos necessários para eliminar os concorrentes finais subiram para 20, e, contrariando a tendência da enquete on-line via internet (dos 187 mil votos computados pelo provedor UOL, 67 mil optavam pela vitória de um dos cinco finalistas, e apenas 12 mil pelo menos cotado), a ‘escolha’ dos votos pela produção apontou o menos provável, com participações escolhidas, mais uma vez, de forma a manter o suspense e com perfil descentralizado regionalmente (Natal/RN, Campinas/SP, São Paulo/SP, Macapá/AP, Guarajuba/BA, 13 de Maio/RS, Jundiaí/SP, Conceição/MG, Vitória/ES, Campos/RJ, Salvador/BA, Belo Horizonte/MG, Porto Velho/RD, novamente São Paulo/SP, Penedo/AL, Juiz de Fora/MG, Itaquecetuba/SP, Curitiba/PR, Contagem/MG, São Gonçalo/RJ, novamente Campinas/SP e Rio/RJ). A representatividade percentual das opiniões pela interatividade estava evidentemente comprometida, mas o que impressionava era o desejo de ‘conversar’ com o apresentador, o que era aproveitado para produzir efeito de aproximação com o público e, portanto, segmentação de audiência – a exemplo do recurso utilizado no rádio. A conversa com os que tinham sua ligação selecionada fluía, produzindo, por transferência, efeito de ‘diálogo’ para os demais telespectadores: “Qual a sua idade? Quem está assistindo ao programa com você? ...como vai seu sistema nervoso? ... nunca ouvi falar da sua cidade... parece que é a primeira vez que uma ligação vem daí...” improvisava o apresentador; “somos 70 amigos reunidos aqui para assistir a seu programa... estamos torcendo... estou nervosa... beijo... venho tentando ligar há muito tempo... manda um abraço para a minha mãe, Silvio”, respondiam os telespectadores.

Quando a Globo adotou a escolha pelo público da eliminação de participantes no reality show Big Brother Brasil, em 2002, além das barreiras representadas pelo acesso regionalmente diferenciado das ligações ao sistema de contagem eletrônica de votos,[30]a interferência da edição de imagens e dos comentários do apresentador no resultado das votações foram freqüentes. Na primeira eliminação (05/02/2002), bastou que o apresentador Pedro Bial dissesse que a decisão seria São Paulo contra o Paraná, para que os votos desfavoráveis computados contra o paulista Caetano passassem, entre um programa e outro, de 68 para 55% e os da paranaense Helena, de 34 para 45%, quase revertendo o desfecho que se anunciava provável. Na exclusão final, aproveitando uma reação de desespero e choro do participante Kleber pela perda de uma boneca feita de sucatas, a emissora não se conteve em editar e repetir intensamente a cena, relegando outros dois concorrentes a edições desfavoráveis e ampliando a preferência do publico ‘interativo’ que definiu a vitória do ‘personagem’ Kleber ‘Bam-Bam’, que logo ocupou o lugar efêmero de atração infantil da tevê, a exemplo do ganhador da primeira edição argentina de Gran Hermano, o professor de educação física Marcelo Corazza, que se transformou em apresentador do programa infantil Megatrix. (Net TV, mar. 2002, pp. 36, 37)[31]

No geral, porém, a participação transferencial do telespectador, pela presença do público nos auditórios, acabou suplantando as alternativas ‘interativas’ na tevê aberta brasileira. Nos anos 90, vários programas de auditório adquiriram tom mais participativo, como o Programa Livre, do SBT, originalmente conduzido por Serginho Groisman. Com a deixa “fala garoto” o apresentador permitia aos adolescentes, presentes no estúdio, atuarem em nome do telespectador, perguntando o que quisessem ao convidado. Uma das entrevistas destacou-se por ‘tirar do sério’ o ex-presidente da República deposto, Fernando Collor, com perguntas desconcertantes. Os adolescentes foram menos condescendentes com o entrevistado do que a mídia que, à época, abrira capas e páginas de destaque para a cobertura de sua provinciana festa de 50 anos e o anúncio de seu retorno à vida política, rejeitado nas urnas pelos eleitores de São Paulo, em 2000, e de Alagoas, em 2002.

No final da década de 1990 e nos primeiros anos da atual, surge uma infinidade de novos programas trazendo cada vez mais o telespectador para o foco das câmaras, sempre no estilo da invasão consentida (ou não, no caso das ‘pegadinhas’) da privacidade e intimidade ou do ‘mundo cão’ em que a exposição de infidelidade conjugal, brigas de família e outras formas da miséria humana são oferecidas em carne e osso, em programas de apresentadores ‘sádicos’ como Márcia, Ratinho, Leão, João Kleber, Faustão, entre outros. Para simular uma ‘identidade’ com o público e segmentar a audiência, a tevê aberta acabou privilegiado, em detrimento das tentativas de interatividade, a intensificação da atuação sobre a imediatez da vida cotidiana, sob a ótica do “grotesco chocante”:

Esta é a modalidade dominante nas programações televisivas para a grande massa – permite encenar o povo e, ao mesmo tempo, mantê-lo a distância. Dão-se voz e imagem a energúmenos, ignorantes, ridículos, patéticos, violentados, disformes, aberrantes, para mostrar a crua realidade popular, sem que o choque daí advindo chegue às causas sociais, mas permaneça na superfície irrisória dos efeitos (Sodré & Paiva, 2002, p. 133).

2.3.3. Tevê a cabo – diversidade ou “mais do mesmo”?

O surgimento da tevê a cabo foi recebido como auspicioso tanto pela possibilidade de acesso democrático à diversidade de produção e conteúdos quanto pela condição técnica de se superar a unilateralidade do código televisivo, introduzindo dispositivos de comunicação bilateral.

Ao relatar a experiência das tevês a cabo nos Estados Unidos, Melvin DeFleur e Sandra Ball-Rokeach contam que os primeiros anos da nova mídia foram de pouco crescimento. Em 1975 (25 anos após o início das operações) apenas 12% dos lares americanos assinavam um dos 3.550 sistemas de tevê a cabo. A partir daí, com a supressão de diversas regras que tolhiam as possibilidades comerciais e a liberdade de programação – inseridas na legislação por pressão das grandes emissoras comerciais – e a junção da tecnologia do satélite de comunicação com a tecnologia do cabo, o número de casas ligadas à tevê a cabo cresceu, chegando a 45% das residências americanas, em 1987.

O desapontamento dos assinantes com a qualidade da programação, não muito diferente do que se tinha nas emissoras convencionais, foi, segundo os dois autores, outra razão para que a tevê a cabo não vencesse facilmente a concorrência com a transmissão pelas redes. A televisão a cabo depende do mesmo sistema de apoio de anunciantes da programação de rede, que visa sobretudo, segundo os autores, “ao nível socioeconômico de médio para baixo da sociedade, cujo poder aquisitivo total supera o dos outros níveis”. Assim, o conteúdo da tevê a cabo “não se acha em um nível de gosto diverso; é apenas mais, ainda do mesmo” (DeFleur & Ball-Rokeach, 1993, p. 133).

No Brasil, o que se viu na implantação do sistema de tevê a cabo foi um verdadeiro assalto às possibilidades democratizantes vislumbradas pela geração de estudantes e profissionais de comunicação que, na década de 1980, acorria a Brasília para tentar influir na regulamentação do novo meio. O poder já instalado no sistema televisivo nacional – no início dos anos 90, apenas nove famílias dominavam 90% do sistema de comunicação brasileiro (Costa, 1991, p. 233) –, aliado ao capital internacional, assegurou o espaço da tevê por assinatura aos mesmos grupos que dominam a mídia nacional e internacional, constituindo alguns latifúndios naquela nova mídia e oferecendo uma programação que, essencialmente, não difere tanto da que é veiculada pela tevê aberta.

A criação da tevê com comunicação em dois sentidos, que poderia vir a ser uma mídia mais interativa,[32]também caminhou lentamente nos Estados Unidos, onde o primeiro sistema implantado (1977) não oferecia mais do que a possibilidade de o usuário responder a consultas da tevê utilizando um teclado. Além de pouco atraente como instrumento de interatividade, esse sistema bidirecional permitia o controle sobre que programas estavam sendo recebidos, o que motivou críticas contra a invasão de privacidade e a possibilidade de controle social. DeFleur e Ball-Rokeach afirmam que a mesma crítica acompanhou a implantação de sistemas com tecnologia mais moderna no Japão (1978), na Inglaterra (1982) e na França (1984). Neste último, uma rede de cabos de fibra ótica operada pelo governo francês em Biarritz, conectava um sistema que combina tevê, telefone e um microcomputador, instalados nas residências (DeFleur & Ball-Rokeach, 1993, p. 363-365).

No sistema de tevê a cabo brasileiro, salvaguardaram canais para o Legislativo (local e federal), um para a comunidade e um para as universidades. Nas outras modalidades de tevê por assinatura (transmitidas via satélite), porém, a legislação não assegura a participação dos canais ditos não comerciais.[33]Quanto ao perfil da programação, a definição dos professores americanos é aplicável ao caso brasileiro. No geral, há apenas maior quantidade de opções semelhantes.

Até 2002, as emissoras da tevê por assinatura ainda não apostavam fortemente na interatividade com o telespectador, mesmo limitada ao uso do telefone, e-mail ou enquetes de site. As operadoras apenas ofertaram dispositivos para a reserva de pacotes opcionais de programação, como o sistema pay-per-view, solicitados por telefone ou no site da internet, na maioria dos casos, e também por comandos de controle remoto, num sistema combinado com o telefone. Entre os canais, as opções variavam da possibilidade de comentar a programação, como na TV Senado: “dê a sua opinião sobre as atividades do Senado e os discursos dos senadores – ligue 0800.., das 8 às 22h, de segunda a sexta”, à participação na escolha dos melhores videoclipes da temporada, como na MTV e no Multishow.

Há casos como a ‘interatividade’ proposta pelo 60 Minutes, prestigioso programa da tevê americana ‘requentado’ pela GNT. Em edição dedicada à questão do Oriente Médio (11/04/2002), em que o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, aparecia focalizado em primeiro plano e tratado respeitosamente pelo entrevistador, enquanto o chefe da autoridade palestina Yasser Arafat mal consegue concluir suas respostas a perguntas formuladas em tom inquisidor e o secretário de Estado americano, Collin Powell, declara que tem interesse igual pela vida dos dois povos, a pergunta interativa essencial é dirigida ao público por uma apresentadora brasileira: os Estados Unidos são importantes para a paz no Oriente Médio? Mais esclarecedora e relevante do que essa possibilidade de interação para o público brasileiro, só mesmo a enquete da semana anterior: Qual o maior problema dos Estados Unidos? Resultado apurado no site da GNT: 75% – lixo atômico, 25%  – dificuldade para conter imigrantes ilegais.

A MTV revelou-se uma exceção, com um ‘padrão interativo’ permeando quase toda a programação, desde a escolha dos melhores videoclipes (Disk MTV e Top MTV, via telefone, Control Freek, via internet) até as conversas informais do apresentador com os telespectadores por telefone (Teleguiado), ao estilo dos programas de rádio. Atraente para o público jovem por sua temática – relações sexuais, doenças sexualmente transmissíveis, comportamento, dúvidas, inseguranças e tabus –, o Erótica MTV (mais tarde substituído pelo Peep MTV) permitia a participação do telespectador por telefone, fax e e-mail, levantando questões, dando opiniões e tirando dúvidas. Outro formato utilizado (Super Nova e Uá Uá), permite a alguns telespectadores, via fone e e-mail, tanto escolher clipes quanto emitir opinião sobre os temas em debate no programa.

Algumas das apostas mais ousadas – chegando próximo ao conceito da interatividade registracional, não fosse pela barreira da escolha centralizada – foram o programa Resposta MTV, em que a emissora aceitava propostas de telespectadores, via internet, para os temas, participantes e locações dos debates, e o interprograma Voz MTV, em que os telespectadores encaminhavam vídeos de produção caseira para serem exibidos durante a programação. De qualquer maneira, programas de auditório ou gravados na praia e em outras locações ao ar livre são tão freqüentes quanto aqueles que permitiam alguma interferência do telespectador.

Embora atraentes, do ponto de vista da possibilidade de participação, os mecanismos de interatividade consultacional oferecidos pela MTV não permitem escolhas individuais, mas, a exemplo de outros formatos já descritos (Você Decide, Big Brother Brasil etc.), apenas participar de uma soma de votos que resultam numa ‘escolha coletiva’. Quanto à interatividade conversacional de outros formatos, a realização do desejo de participação do telespectador acaba funcionando como uma loteria, em que há uma possibilidade percentualmente remota de ser escolhido ou, assim como acontece desde os primeiros programas de auditório, por efeito de ‘transferência’ em relação aos ‘iguais’ que são vistos participando.

2.3.4. Jornal – filtro ou permeabilidade?

Os jornais brasileiros, mais do que a mídia televisiva, sempre apresentaram maior permeabilidade a expressões de diferentes setores, mesmo que se mantendo afinados com suas linhas editoriais e interesses de estruturas políticas e econômicas de poder ou anunciantes. A visão de classe, os interesses comerciais e a orientação editorial dos proprietários ou dirigentes dos jornais e revistas não se limitam aos editoriais, mas permeiam toda a discursividade dos veículos (da escolha dos temas, fontes e enfoques aos critérios de destaque e espaço dos assuntos, escolha de imagens), transbordando sobre as possibilidades de feedback, como um filtro, agindo seletivamente até sobre a carta do leitor.

Na França, o jornalista e professor na Universidade de Paris VIII Serge Halimi destaca a situação peculiar do Le Monde Diplomatique, no qual – segundo declarou em conferência promovida pelo Jornal do Brasil no Rio de Janeiro, em 1998 – as pressões de mercado são confrontadas pelo fato de os próprios leitores e os jornalistas que escrevem no periódico (Halimi entre eles) deterem cerca de 40% das ações da empresa (20% cada segmento). Além disso, apenas 25% da receita da publicação vem da publicidade; 75% de seus recursos advêm das vendas em banca e assinaturas.

Outra alternativa de acesso ao jornal por parte do leitor é a figura do ombudsman – o ouvidor público da tradição dos serviços públicos escandinavos, incorporado pela imprensa americana nos anos 60 –, instituída numa redação brasileira pela primeira vez na Folha de S. Paulo, em 1989. Caio Túlio Costa, ombudsman da Folha entre 1989 e 1991, atendia e respondia aos leitores (por telefone, carta ou pessoalmente), realizava uma análise interna diária no periódico e assinava uma coluna dominical em que tornava públicas as críticas à Folha.

Em seu relato sobre essa experiência, Costa diz que uma mesma reclamação chegava a ser apresentada por 50 leitores num mesmo dia. Dos telefonemas recebidos, 84% eram de queixas, 40% das quais contra o enfoque de notícias e editoriais, e 16% eram divididos entre sugestões, elogios, convites para entrevistas ou palestras. Ao contrário do ele previa, não eram aposentados, mas sim estudantes os que mais procuravam o ombudsman (12%), seguidos pelos industriários e comerciários (11%), professores universitários (9,5%), comerciantes (6,5%), executivos e consultores (6%), aposentados (6%), advogados (4,5%), donas-de-casa (4,5%) etc. (Costa, 1991, pp. 28, 29).

Os jornais são permanentemente modificados pela tecnologia, e, nas últimas décadas, computadores em rede interligaram as editorias entre si, a redação ao setor gráfico-industrial, o jornal diretamente às agências de notícias internacionais. Gráficos, redatores, revisores, diagramadores e até correspondentes são funções extintas ou em extinção. O repórter trabalha cada vez mais via telefone, fax, correio eletrônico e consultas à internet, enquanto os colunistas freqüentam cada vez menos as redações.

Para o leitor ‘com tela’ (diferentemente do que ocorre com os ‘excluídos digitais’), essas mudanças também significam poder acessar o jornal via internet ou chegar com mais facilidade às seções de cartas dos periódicos. Há revistas que publicam o endereço eletrônico dos leitores junto com suas cartas, permitindo o contato direto entre os leitores. Mas um fenômeno especialmente interessante é a possibilidade de os leitores encaminharem mensagens diretamente aos colunistas, colaboradores regulares e editores dos jornais, via e-mail, que se vem transformando em hábito crescente.

Nos diários de grande circulação, uma das contribuições mais relevantes dos leitores é a correspondência do gênero Queixas do Povo, título de uma seção que o Jornal do Brasil já manteve e que foi objeto de pesquisa do historiador Eduardo Silva. Tratava-se de ouvir “o discurso dos sem voz”, diz o autor que estudou as queixas publicadas pelo jornal entre 1900 e 1910, contendo reivindicações e protestos da gente simples, que ajudavam a interpretar o meio social (Silva, 1988, p. 26).

Nos jornais que estão adotando a prática de acrescentar o endereço eletrônico ao lado das colunas ou artigos assinados, o e-mail estaria alterando o fluxo normal da correspondência dos leitores, estabelecendo outros parâmetros. Os leitores que endereçam carta à direção do jornal querem vê-la publicada por um motivo prático, para que provoque algum resultado, já o e-mail enviado para o colunista não tem essa mesma finalidade de divulgação, registrava, em 1999, o ex-colunista do Jornal do Brasil, Moacir Werneck de Castro: “resulta sobretudo de uma necessidade de empatia, é como que uma conversa a dois, um desabafo”.

O uso que os colunistas podem fazer desse novo canal aberto com o leitor também oferece possibilidades diversas. Em crônica publicada em O Globo (30/09/1999), Miguel Falabella apelava para uma parceria com os leitores. Depois de explicar que está encontrando dificuldades de arranjar patrocínio para montar Os monólogos da vagina, devido ao título, ele pedia aos leitores que respondessem, por e-mail, se deixariam ou não de assistir a um espetáculo por causa desse título e (em ambos os casos) por quê. Realizada sua pesquisa particular, ele acrescentou os e-mails ao projeto e finalmente conseguiu recursos para produzir sua peça.

Para Werneck de Castro, o e-mail do leitor anônimo gera um retorno inesperado para o colunista à revelia do controle da direção da redação e, embora não tenha poder bastante para alterar a linha editorial dos jornais, pode fazer diferença no espaço de uma coluna. Em seu artigo publicado no Jornal do Brasil (15/06/1999), Werneck de Castro admite que foram os e-mails recebidos (alguns do exterior) que o levaram a persistir durante várias semanas nos comentários contra “a absurda, covarde e criminosa guerra da Otan contra a Iugoslávia”, depois convertida “numa paz dos cemitérios, com o rendoso negócio da reconstrução das ruínas”.

As possibilidades de interação diretamente com as editorias ou com os profissionais – e não com o veículo de comunicação indistintamente –, valorizando a abertura de pequenos canais de ‘conversação’ nas brechas da mídia, parecem ter tido papel especialmente importante nos últimos anos, quando a imprensa brasileira aderiu majoritariamente ao propalado ‘pensamento único’ neoliberal, estabelecendo simbiótica aliança entre os interesses dos donos da mídia, do governo brasileiro e do capital transnacional.

Como afirma Halimi, o ‘pensamento único’ não pretende ser uma doutrina – “proclama-se como uma verdade, como as leis físicas e biológicas” – e nisso encontra a força de sua influência. Ele tem suas origens nas instituições financeiras e de comércio multilaterais e internacionais e traduz, segundo Ignácio Ramonet, “em termos ideológicos e com pretensão universal os interesses do capital internacional”. Halimi acrescenta que esse pensamento acaba sendo reproduzido tanto pelos donos da mídia quanto pelos “barões” do jornalismo e até pelo mais iniciante repórter; aos quais, em conjunto, o jornalista francês chama de “os novos cães de guarda”, em alusão à expressão cunhada por Paul Nizan, em 1932, para criticar o envolvimento dos filósofos de sua época com as “impurezas de seu tempo” (Halimi, 1998, pp.13, 66-68).

A crítica de Halimi procede também no Brasil, segundo crônica de Luís Fernando Veríssimo, publicada em O Estado de São Paulo (30/08/98) e citada na apresentação do livro de Halimi, na qual dizia que nas redações de jornal circulavam com freqüência histórias “sobre pressões de anunciantes e de Brasília” para maneirar as críticas e controlar a resistência ao pensamento único. “Isso quando a imprensa precisa de pressões para exercer a sua vocação oficialista e sua adesão entusiasmada ao pensamento único. Nunca se viu um clima parecido de prepotência”, surpreendia-se Veríssimo (apud Halimi, 1998).

A mídia impressa é sem dúvida unilateral em sua forma de transmissão, porém, mais do que a televisiva, permite enxergar um sistema de comunicação de forma menos monolítica e as possibilidades de se trabalhar em zonas imprecisas e não totalmente controladas. Exemplos meritórios foram todas as alternativas encontradas durante a ditadura militar no Brasil, mediante a atuação em veículos alternativos ou mesmo nos jornais comandados pela burguesia nacional, majoritariamente aliada ao regime de governo, mas plena de idiossincrasias e contradições internas. Informações importantes para o conhecimento das arbitrariedades daquele regime e para a formação de uma consciência crítica acabavam chegando, de tempos em tempos, ao público. É certo que as alternativas de canais para a entrada e saída de informação se opunham a uma censura oficial e não a um código comunicativo unilateral dado. Mas a censura é irmã siamesa da unilateralidade do código, como nos revela Sodré, retomando Baudrillard:

Na relação instituída pelos modernos meios de informação, falar é um ato unilateral. Sua regra de ouro é silenciar ou manter a distância o interlocutor (...) Em seu ensaio Requiem pour les Media, Jean Baudrillard desenvolve esse ponto de vista. Para ele, o que caracteriza os veículos de massa é a sua não-comunicação, entendendo-se comunicação como troca, isto é, como reciprocidade de discursos – fala e resposta. Responsabilidade (não moral ou psicológica), mas possibilidade de responder estabelecida pela correlação pessoal dos sujeitos na troca discursiva, é o traço básico do verdadeiro processo de comunicação. Os media, a relação informativa, ao estabelecerem o monopólio do discurso, eliminam a possibilidade de resposta e erigem um poder absoluto, inédito na História: a hegemonia tecnológica do falante sobre o ouvinte (Sodré, 1981, pp. 25, 26).

Para Sodré, o texto de Baudrillard peca apenas por não destacar as contradições e a diversidade existentes no interior do aparelho ideológico informativo. “Sua exposição deixa supor a existência de uma unidade global no efeito de dominação”, diz Sodré, “passando ao largo das contradições entre os componentes do sistema informativo, por exemplo, entre os audiovisuais e os impressos”. Ele acrescenta que o que se convencionou chamar de ‘liberdade de imprensa’ – prerrogativa de empresas de jornalismo e não de jornalistas, como freqüentemente é referido fora do âmbito da comunicação – é exatamente a “multiplicidade de opiniões e pontos de vista (ou seja, a multiplicidade de fontes informativas)” resultantes dos “conflitos gerados pelos diferentes interesses das frações da classe dirigente” (ibidem, p.26).

2.3.5. Crítica da interatividade – Sodré versus Boni

Mecanismos de ausculta do público podem ser o ponto de partida para a constituição de uma comunicação interativa, mas podem também ser utilizados para legitimar opções previamente definidas pelos donos da mídia. Ao comentar a programação da televisão brasileira e o ressurgimento dos programas de auditório, em entrevista à revista Veja, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni), ex-vice presidente da Rede Globo, faz uma análise que é expressão do novo discurso oficial dos dirigentes da mídia televisiva:

Antigamente, a televisão se impunha ao gosto do telespectador e ditava moda. Hoje em dia, com o número cada vez maior de mecanismos que permitem a interatividade, é cada vez mais o telespectador que determina o que vai aparecer na tela (Veja, 15/06/1999, p. 119).

Os aparatos tecnológicos a serem desenvolvidos nos próximos anos afetarão muito a relação entre o telespectador e a tevê, na opinião de outra influente personalidade da produção televisiva, o holandês John de Mol, criador do programa Big Brother:

Prevê-se que todo telefone celular trará uma microcâmera acoplada – e isso abrirá muitos horizontes para a tevê. Atualmente, estamos trabalhando em novos programas nos quais o espectador participará utilizando esse equipamento (idem, 22/01/2003, p.12).

Em outro trecho de sua entrevista à revista Veja, de Mol supõe que o interesse acadêmico por centenas de modelos de programa criados por ele nos últimos anos – alguns replicados no Brasil como No Limite, Fama, Acorrentados e Amor a Bordo – ocorre porque “os intelectuais adoram tecer páginas e páginas sobre os mecanismos psicológicos que levam as pessoas a se comportar dessa ou daquela maneira diante da câmera”. E desdenha: “não me interesso por estes assuntos, porque não tenho a mínima propensão para a divagação teórica”. O produtor não enxerga que a crítica relevante não está contida na rotina interna ou nas ‘personagens’ dos programas. O que interessa é que a hiper-exposição de suas cobaias humanas voluntárias e as simulações de interatividade revelam menos a respeito daqueles participantes – meras extensões simbólicas da mídia – do que da essência e dos mecanismos da máquina televisiva, das intenções que levam a tevê e o mercado a utilizar essas estratégias comunicativas.

Considerando que a sociedade brasileira, em particular, vive um permanente conflito de interesses de classes, a participação ou ‘interatividade’ na comunicação de massa tende a ter uma função para os grupos econômica e ideologicamente dominantes, diferente do que para aqueles excluídos do exercício do poder e da fala.

É uma ilusão supor que o poder dessa avançada esfera tecnológica esteja acima das diferenças reais de classe ou de apropriação da renda nacional. Num país de capitalismo periférico, a mídia e as indústrias culturais podem eventualmente estimular o consumo de massa, fazendo crer a todos que este é o caminho para uma verdadeira democracia social (Sodré, 1996, p. 77).

Segundo Sodré, a comunicação criada pela mídia é uma rede socializante que simula uma fraternidade intercultural e interclassista, baseada em fluxos sociais, políticos e econômicos de decisão. Em sua visão, o controle das populações não se dá mais pelas antigas estratégias de imposição ideológica, mas pela exposição de um universo imagético sedutor. Ele observa, contudo, que as massas expostas a esse fluxo da cultura impregnada e regulada pela mídia não são tão amorfas quanto se acreditava e teriam aprendido, em suas práticas reais de comunicação, a jogar com o efeito simulador dos veículos.

2.4. Muito aquém da interatividade

A interatividade forte, com reflexos num aprofundamento da democracia, mesmo que possível, como aposta Lévy e descrê Baudrillard, é horizonte distante no Brasil, diante das limitações da infra-estrutura de comunicações e do pouco acesso por parte da população em geral aos meios computacionais. Havia em 2000, segundo cálculos do Ibope,[34]4,8 milhões de brasileiros usuários da internet, e um limite ao crescimento desse número mais adiante, por conta da pauperização da população.

De qualquer forma, para refletir sobre a proposta de “democracia digital” apresentada por Lévy, vale lembrar os resultados da maior experiência com tevê a cabo interativa nos Estados Unidos, que teve lugar em Columbus, Ohio, de 1977 a 1985. Além da diversidade de canais, sistema pay-per-view e programação de excelência para crianças, o serviço conhecido como Qube também oferecia ‘democracia eletrônica’: permitia que os assinantes votassem eletronicamente nas questões nacionais e locais do dia, sendo os resultados transmitidos instantaneamente para as reuniões da Câmara de Vereadores da cidade. Quando o Qube fechou, vítima da má resposta dos telespectadores, uma das principais queixas era a de que as empresas administradoras do serviço tinham um banco de dados computadorizado com informações detalhadas sobre os hábitos televisivos do cliente, monitorados a cada dois minutos, registrando os canais assistidos e o último botão de resposta apertado. Contratualmente, essas informações poderiam ser vendidas pela empresa que explorava o serviço, a Warner Amex (de propriedade da Warner Communications e da Amex Cable, uma filiada da American Express) (Dizard, 1998, pp. 94, 95).

As questões do acesso e da privacidade não são, contudo, os únicos obstáculos no caminho da ‘democracia digital’. O questionamento de Baudrillard vai além, ao não supor presente nas redes digitais a sedução da ambivalência. O acesso a textos, imagens e sons digitalizados não substituiria, assim, as sensações e percepções possíveis com a presença do corpo – o próprio e o do outro – nem a emoção, os insights e a vivência dialética que a participação política direta no cotidiano ou em macroacontecimentos pode trazer. Em síntese, Baudrillard discorda de que as redes digitais possam, como na expressão de Lévy, resgatar a experiência da comunicação somática.

O segundo aspecto em discussão é a interatividade fraca presente nas previsões apresentadas por Dizard para a nova mídia e na construção do ciberespaço descrita por Murray. Certamente, toda forma de ampliação dos dispositivos de participação, superação de distâncias, aumento de acesso e multiplicidade de escolhas é bem-vinda. Jogos com melhores efeitos de simulação e narrativas expressivas, na acepção defendida por Murray, com diversidade de leituras, escolhas e caminhos na fruição da arte, tornam mais prazerosas e estimulantes a interface com a máquina e as mensagens que ela medeia. Para melhor avaliar a interatividade na mídia tradicional, cabe estabelecer uma comparação com as situações de jogo, como expressão do aprendizado e transformação social, movimentação lúdica das peças, criação conjunta de regras, partilha na experiência cultural, intervenção em acontecimentos e no rumo da vida. Diante de uma situação apresentada como interativa pela mídia, vale indagar se há, por parte do público em geral e de cada um, intervenções significativas na definição da programação, pautas, conteúdos, abordagens e nos códigos unidirecionais.

A terceira questão é a ampliação dos padrões de participação na mídia tradicional, apresentada mercadologicamente como ‘interatividade’. Como exemplo dos limites dessa interatividade ofertada na televisão brasileira, relato um episódio que parece ter escapado à crítica dos colunistas que escrevem sobre tevê. O fato ocorreu no programa Vitrine, da TV Cultura – totalmente estruturado a partir das tecnologias da comunicação e da oferta de dispositivos de interatividade com o público[35]–, ao transmitir em flashes, ao vivo, a inauguração do Credicard Hall de São Paulo, em 1999. Embora desse ao telespectador a impressão de estar assistindo, simultaneamente, a tudo que se passava nas entrevistas de estúdio e no show de João Gilberto e Caetano Veloso, Vitrine não mostrou a seu público – por efeito do filtro da edição instantânea de imagens ou escolha da direção do programa, comprometida com a parceria estabelecida para a transmissão com a administradora de cartões de crédito – o fato mais importante daquela noite: João Gilberto parou de tocar, despejando críticas contra as instalações da nova casa de espetáculos e foi intensamente vaiado, enquanto Caetano Veloso partia em sua defesa, criticando o público. A cena lembrou antológico confronto, na década de 1960, entre Caetano e patrulhas ideológicas de esquerda, que lotavam as arquibancadas do Maracananzinho, num Festival Internacional da Canção. Mas o público ‘interativo’ do Vitrine só foi informado dos acontecimentos pelos telejornais de outras emissoras, naquela madrugada, ou pelos jornais, no dia seguinte.

Pode ser que, como nova estratégia comunicacional, a mídia tradicional esteja se movimentando no sentido de responder à expectativa de ‘consumo’, por parte do público, de um padrão interativo como o da internet; ou, simplesmente, aumentando o grau de ‘sensação’ de participação em seus veículos, antecipando-se ao impacto que as mudanças tecnológicas aportam. Mas o que existe até agora é a oferta de dispositivos ainda transferenciais (cf. Jensen, op. cit.), maquiados como consultacionais ou conversacionais segundo a conveniência mercadológica do momento ou, simplesmente, quando potencialmente interativos, sujeitos aos mesmos controles e interdições de poder da tradicional comunicação linear e centralizada. Participação sem interação de fato, simulação. Na mídia brasileira – assim como na americana, pelo que descreve Dizard – a oferta de interatividade ainda continua muito aquém da promessa do ‘emissor’ e do desejo do ‘receptor’, deixando cada um em seu isolamento original.

Enquanto dispositivos supostamente interativos são cada vez mais ‘disponibilizados’ ao público da velha mídia, ‘recauchutada’ e ainda vigorosa, e a promessa de interatividade permanece condicionada à chegada de uma mídia realmente nova, a carta do leitor ao jornal – tradicional forma de interação do público com o meio tido como dos mais unilaterais – vem sendo quase inteiramente substituída pelo correio eletrônico, um instrumento típico do padrão digital e interativo da internet.

Se, para o jornal, o e-mail tende a funcionar apenas como um novo suporte para a mensagem, para os articulistas, colunistas e comentaristas que escrevem nos jornais, segundo comentários freqüentemente publicados, um novo tipo de relação com o leitor pode estar sendo estabelecido.

Que diferença há entre o e-mail e as formas anteriores de contato? Quem os envia e para quê? Que influência têm no texto publicado? Como isso modifica a relação entre o leitor e o colunista? É interatividade? Permite diálogo? Essas são algumas das perguntas que os próprios colunistas respondem no próximo capítulo.

3. Leitores, e-mail e colunistasde jornal

O e-mail é como que uma conversa a dois (...) gera um retorno inesperado, quebrando o controle que as direções dos jornais sempre puderam exercer sobre a opinião dos leitores

Moacir Werneck de Castro

Num estudo, como este, que busca compreender o que está em questão quando a mídia promete e o público deseja mais interatividade, o comentário de Werneck de Castro sobre a diferença entre as tradicionais cartas de leitores e as possibilidades abertas pelo advento do e-mail como forma de comunicação direta com os jornalistas, reforçado pela infinidade de vezes, nos anos recentes, em que sugestões e opiniões de leitores são citadas nas colunas de jornal, soa como inspiração e desafio para a análise do fenômeno do e-mail no cotidiano das redações e na produção discursiva das colunas de jornal. Resolvi, então, conferir o que pensam outros colunistas. Do plano inicial de ouvir alguns jornalistas cariocas resultou uma pesquisa bem mais abrangente, com questionários enviados a centenas de profissionais em todo o país, obtendo retorno de uma amostragem diversa em perfil editorial e temático e rica em elementos para a análise aqui proposta.

Examinadas criticamente as modalidades de diálogo e de interatividade na comunicação interpessoal e de massa, nos capítulos anteriores, este será todo dedicado à apresentação da pesquisa. A seguir, a descrição da metodologia utilizada na obtenção dos dados para análise, detalhes sobre o universo pesquisado e os temas que integram o questionário, o perfil dos colunistas que participaram da pesquisa, os percentuais das tabulações e correlações das respostas, a interpretação dos cruzamentos dos dados e dos comentários feitos pelos respondentes e algumas considerações sobre o conjunto dos resultados apresentados.

3.1. Metodologia

Com o objetivo de traduzir a visão dos colunistas sobre o contato com seus leitores, especialmente via e-mail, e empreender uma análise sobre as possibilidades e limites da interatividade existente nesse processo, um conjunto de questões foi encaminhado, utilizando o próprio recurso do correio eletrônico, a profissionais que emprestam seu texto jornalístico ou literário a colunas, artigos e comentários em jornais de todo o país. A opção pelo meio eletrônico e não por entrevistas presenciais surgiu durante o processo de seleção da amostra, quando se definiu pela extensão da consulta a profissionais de outros jornais fora do Rio de Janeiro, ao contrário do inicialmente previsto, ampliando tanto o número de respondentes quanto as possibilidades de comparação e compreensão das questões em discussão, numa dimensão que enfocasse grande parte da imprensa nacional. Além disso, o método colocaria em teste o próprio meio de comunicação utilizado.

A coleta dos dados para análise seguiu e adaptou metodologia de pesquisas de survey baseada em distribuição e recebimento, via correio convencional, de questionários auto-administrados a serem respondidos por uma amostra de respondentes dentro de um universo a ser pesquisado (cf. Babbie, 1999).

Por se dirigir a um universo de profissionais de imprensa, embora com um corte mais específico e colhendo opiniões e depoimentos sobre temas diferentes, a presente pesquisa procurou adotar metodologia o mais semelhante possível àquela aplicada por Pery Cotta, em Mídia e Sociedade – aproximações e afastamentos: um estudo sobre o jornalismo reflexivo,[36]em função dos bons resultados obtidos pelo autor e da possibilidade de, ao longo de futuras consultas semelhantes, poder contribuir para um aperfeiçoamento do método e o estabelecimento de parâmetros de comparação. Houve a precaução, no entanto, de fazer algumas alterações e correções de procedimentos, em parte aconselhadas pelo próprio autor – como a apresentação de menor número de perguntas (41 em seu estudo, 25 neste) –, e de formular as questões de modo a torná-las quantificáveis e passíveis de maior número de cruzamentos estatísticos, que resultassem em novos dados e novas análises, sem deixar de apresentar perguntas abertas, que permitissem outras análises qualitativas, preservando o caráter híbrido da pesquisa (quantitativo e qualitativo).

3.1.1. Questionário

O primeiro passo foi construir um questionário apropriado aos objetivos da pesquisa. Focando as questões mais relevantes e realizando pré-testes, o total inicial de 40 perguntas foi reduzido para 25, incluindo uma questão de avaliação do questionário pelos respondentes.[37]Numa primeira parte, as perguntas permitem caracterizar o perfil dos respondentes e de suas colunas. Na segunda, o questionário argüi sobre os temas centrais da pesquisa, buscando revelar as opiniões dos colunistas sobre desejos e interesses presentes nos contatos entre leitores e colunistas; peculiaridades inerentes à troca de e-mails em comparação com tradicionais recursos de carta, telefone e fax, e o perfil dos que deles se utilizam; a presença das sugestões e opiniões de leitores nas colunas; assuntos mais freqüentemente abordados; visões sobre interatividade e diálogo na mídia e, em especial, nas colunas de jornal. Perguntas semelhantes aparecem de forma recorrente, para permitir melhor avaliação. A versão integral do questionário pode ser conferida no Anexo 1.

3.1.2. Distribuição e acompanhamento

O segundo passo foi a realização de um levantamento de 211 colunistas que divulgam seus e-mails em suas colunas nos jornais de maior circulação em diversos estados, aos quais foram acrescidos outros 12 e-mails não pessoais, como os das seções de cartas ou de editorias.[38]

Em seguida, uma primeira mensagem explicando os objetivos da pesquisa e apresentando o questionário, incluído no corpo do e-mail para evitar arquivos anexos, foi enviada e, duas ou três semanas depois, uma segunda e última correspondência de acompanhamento seguiu para os que ainda não haviam respondido, contendo basicamente as mesmas informações e também o questionário completo. O número de correspondências normalmente sugerido é de até três: a de apresentação e duas de acompanhamento (Babbie, 1999, pp. 251-253), mas o baixo índice de respostas após a segunda mensagem já indica que, na comunicação eletrônica, quem não responde à primeira mensagem dificilmente o faz nas tentativas seguintes, e esse fenômeno em si já representa uma informação relevante para a pesquisa.[39]Para reforçar a proximidade com o entrevistador, o nome de cada colunista foi incluído no início das mensagens encaminhadas.[40]Houve 18 casos de endereços não encontrados, quatro de colunistas que informaram não pretender responder ao questionário (um não recebido a tempo de ser contabilizado nas totalizações) e quatro de aviso de posterior envio das respostas, o que não aconteceu (ficando todos também excluídos das totalizações). Aos que responderam, mensagens de agradecimento foram enviadas, incluindo comentários ou explicações, quando solicitados.

O método de pesquisa adotado revelou-se bastante adequado para alcançar uma amostra de amplitude nacional, em tempo relativamente curto – menos de dois meses entre o início de junho e o final de julho de 2002[41]– e com a objetividade e profundidade necessárias à consolidação e análise das respostas obtidas. A tabulação, totalização e posterior cruzamento das respostas às perguntas fechadas e a comparação dos comentários suscitados pelas perguntas abertas permitiram a visualização de tendências gerais ou de parte dos colunistas na interpretação e forma de aproveitamento do contato com os leitores, assim como a percepção de pontos de vista individuais que contribuíram para uma análise mais completa do objeto da pesquisa, incorporando ambigüidades e subjetividades que os resultados apenas quantitativos não revelam.

3.1.3. Retorno e perfil dos colunistas

As fontes de dados da pesquisa que embasa o presente capítulo são as respostas ao questionário enviado, por e-mail, para um total de 223 colunistas, articulistas ou comentaristas de 14 jornais em oito estados: Zero Hora, no Rio Grande do Sul; Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo, em São Paulo; O Globo, O Dia, Jornal do Brasil, Extra e O Pasquim 21, no Rio de Janeiro; Correio Braziliense, no Distrito Federal; Estado de Minas, em Minas Gerais; Correio da Bahia e A Tarde, na Bahia; Diário de Pernambuco e Jornal do Commercio, em Pernambuco; O Liberal, no Pará.

Entre os jornais que receberam mais de 19 mensagens com o questionário (os demais receberam abaixo de 11 mensagens), O Globo foi o que apresentou maior índice de resposta (26%), seguido pelo Zero Hora (25%), Folha de S. Paulo (21%), Jornal do Brasil (16%), O Dia e Estado de Minas (ambos com 12%).[42]

Com a devolução de 38 questionários respondidos[43]e três mensagens em que o colunista se recusava a responder a esse tipo de pesquisa ou se dispunha a uma entrevista pessoal – o que foi gentilmente descartado, para manter o mesmo critério de ‘escuta’das fontes –, a pesquisa alcançou o índice de retorno de 18,4%, tendo em vista que, nesse tipo de pesquisa auto-administrada, a recusa é uma forma de resposta.[44]Outras cinco mensagens recebidas após a tabulação, se contabilizadas, elevariam esse índice para 20,6%. De qualquer forma, o retorno médio baixo, comparado com o que usualmente ocorre com pesquisas via correio convencional, confirma o que apontam estudos comparativos entre as duas formas de pesquisa, como os de Kawak e Radler (2000), que obtiveram  índice de respostas de 42% para correio e 27% para e-mail, ou Guterbock, Meekins Weaver e Fries (1999), com 48% e 37%, ou Medlin, Roy e Ham Chai (1999), com 47% e 28%. Ao analisar tal redução de índices, Crawford, Couper e Lamias (2001, p. 146) concluem que interfere sobre a decisão de responder “a crescente impaciência” dos usuários de correio eletrônico com a “sobrecarga de interações” na rede.

O perfil dos colunistas respondentes é predominantemente masculino (76%), com mais de 40 anos de idade (62%), mais de 20 de profissão (54%) e menos de 10 como colunista (70%, sendo 40% com menos de cinco anos de coluna).[45]As colunas semanais são escritas por 60% desses profissionais, e as diárias por 29%.[46]Quanto à temática das colunas, nem sempre o entrevistado se encaixava na categorização da pesquisa, optando, por exemplo, por dizer que escreve sobre rádio ou música, em vez de se incluir na descrição genérica de cultura, que ficou com 24% das respostas, seguida por temas diversos (16%), economia e política. A maioria dos que responderam tem seu endereço eletrônico divulgado ao lado da coluna há menos de quatro anos (70%),[47]o que significa ter vivido a experiência anterior de assinar coluna sem divulgar e-mail e, portanto, ter elementos para estabelecer comparações.

3.2. Análise dos resultados

3.2.1. A busca do contato

Uma das preocupações da pesquisa foi estabelecerrelações entrea correspondência por e-mail do leitor com o colunista e as formas preexistentes de contato, como a carta, o fax e o telefone, buscando identificar diferenças no volume ou conteúdo de mensagens, no perfil do leitor que delas se utiliza, na forma como o colunista se coloca acessível às diversas formas de contato e no aproveitamento do conteúdo da mensagem por e-mail em comparação com o das demais.

A maioria dos colunistas que responderam ao questionário não tinha noção (ou não respondeu a essa pergunta) de quantas cartas, fax e telefonemas são recebidos semanalmente. Segundo os que responderam, o número de cartas e fax nunca é superior a 20, enquanto o número de telefonemas só ultrapassa essa faixa em um terço dos casos.[48]

Quanto ao número de e-mails, porém, quase todos os colunistas têm uma estimativa: metade recebe acima de 20 mensagens por semana, sendo que 22% das colunas (concentradas na Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil, O Dia, O Globo e Zero Hora) registram mais de 100 e-mails por semana.[49]O tempo de profissão ou de atuação como colunista dos respondentes não se mostrou relevante na quantidade de cartas, fax, telefonemas ou e-mails recebidos.[50]Por outro lado, a observação do tempo de divulgação do e-mail na coluna revelou que o número de e-mails recebidos tende a aumentar progressivamente conforme a ampliação do tempo em que o endereço do colunista é conhecido.[51]

Fazendo o cruzamento de outros dois grupos de questões, observa-se uma leve tendência a maior índice de resposta ao leitor quando o colunista recebe menor número de e-mails. Dos colunistas que declaram responder a todas as mensagens, 55% recebem menos de 20 e-mails por semana, enquanto os que dizem responder apenas a algumas estão dispersos nas várias faixas: 30% estão entre os que recebem menos de 20 mensagens, 30% entre os que recebem de 21 a 50, 20% de 51 a 100, e 20% entre aqueles com mais de 100 mensagens.[52]

3.2.2. Quem responde às mensagens

Em 92% dos casos, quem lê os e-mails é o próprio colunista,[53]e 97% das respostas são enviadas pessoalmente por eles.[54]Do total de colunistas, 60% dizem que respondem a todos os e-mails, e 37% apenas a alguns.[55]A comparação entre a freqüência atual de resposta a e-mails hoje e aquela de resposta a cartas, fax e telefonemas antes e depois do advento do e-mail mostra que o padrão se mantém e depende mais do perfil do colunista do que do tipo de suporte tecnológico.[56]O que se pode constatar a partir das respostas dos colunistas sobre as diferentes formas de contato antes e depois do e-mail, em que a variação de mudança de comportamento se mostrou sutil, é que o índice declarado de resposta a fax e cartas está em torno de 56%, enquanto o que corresponde a telefonemas se eleva para cerca de 82%.[57]Evidentemente, esses números referem-se aos colunistas que se dispuseram a responder à pesquisa. Pelo que diz o colunista Maurício Pessoa de Faria (Estado de Minas), a maioria dos profissionais tende a não responder aos leitores: “Quando respondo, sempre recebo de volta a informação de que sou dos poucos que assim se comporta, uma pena”.

Rosane de Oliveira (Zero Hora), além de divulgar seu e-mail, tem o telefone publicado nas páginas do jornal. “Pelo telefone às vezes não consigo dar ao leitor o retorno que ele espera”. Depois do fechamento do jornal, ela responde aos e-mails “com mais calma” e utilizando critérios bem definidos. “Infelizmente não consigo responder a todos, e os que escrevem regularmente sabem que nem sempre terão resposta, mas não desistem”, diz Rosane, que às vezes envia uma mensagem padrão, desculpando-se por não responder sempre de forma personalizada. Primeiro ela responde aos pedidos de informação e às críticas duras, “desde que não sejam grosseiras – palavrão e coisas pesadas, simplesmente descarto”. Aos comentários sobre assuntos diversos, responde agradecendo e perguntando se gostariam de vê-los publicados na seção do leitor. Aos elogios, costuma responder com uma mensagem curta de agradecimento. Cartas do exterior, em que brasileiros pedem explicações mais minuciosas sobre a situação política são respondidas quando há mais tempo livre, e as requisições por parte de estudantes de comunicação de entrevistas por e-mail, visando a trabalhos escolares, são transformadas em convite para uma conversa pessoal, “que é para eles treinarem técnica de entrevista”.

3.2.3. Perfil do leitor

Para 64% dos respondentes, o perfil do leitor que envia e-mail é diferente daquele dos que utilizam outra forma de contato.[58]A primeira distinção feita pelos colunistas é econômica e social. Embora considere que o e-mail é apenas “mais um veículo para o contato que sempre existiu entre o leitor e o colunista”, o baiano Sérgio Mattos (A Tarde) afirma que “o aceso à internet ainda é muito incipiente, e esse fato torna o usuário parte de uma elite, portanto, integrante de uma casta diferente dos leitores sem acesso”. Léo Montenegro (O Dia) recebe cerca de 40 e-mails e 20 cartas por semana e defende ponto de vista semelhante: “as cartas que recebo são de leitores mais humildes e sem acesso a computador”. “A única diferença é social”, argumenta um colunista da Folha de S. Paulo, que pediu para não ser identificado: “geralmente, os que mandam cartas hoje vivem em áreas mais carentes da cidade”. Regina Teixeira da Costa (Estado de Minas) diz que o leitor que envia e-mail “tem nível socioeconômico mais alto”, e o que telefona “muitas vezes não tem recursos”, o que acaba sendo um parâmetro para ela decidir a forma de encaminhar a demanda de acompanhamento psicanalítico que sua coluna “Em dia com a Psicanálise” suscita. Cíntia Moscovich (Zero Hora) também insiste na diferença de poder aquisitivo dos remetentes de e-mails: “obviamente, é o tipo de leitor mais abonado; isso se torna evidente”.

O segundo corte é etário. Helena Chagas (O Globo e globo.com) – que inicialmente considerou “similares” os leitores que utilizam e-mail e outras formas de contato, assim como aqueles que lêem o jornal impresso e os que o acessam na internet – acredita que “quem lê coluna política em jornal normalmente tem acesso à internet”, mas avalia que o leitor que lê a coluna da internet – e que, segundo ela, envia mais e-mails – é “mais jovem”. “O leitor que envia e-mail é mais jovem e mais sofisticado”, acrescenta Daniel Castro (Folha de S. Paulo), “o que manda carta é mais agressivo e ‘povão’ (pede informações sobre aspectos populares não abordados na coluna)”.

A terceira distinção diz respeito ao nível de instrução. O leitor que faz uso de e-mail é “mais culto, crítico, observador e deseja manter um contato mais rotineiro”, acrescenta Wagner Seixas (Estado de Minas). Além da diferença econômica, esse leitor tem, na visão de Adenirson Lage (O Liberal), “nível de instrução mais elevado e é mais esclarecido”.

A função atribuída pelo leitor ao e-mail caracteriza, segundo os colunistas, uma quarta distinção. O leitor remetente de e-mail é mais breve e escreve com mais constância do que o das cartas, compara José Roberto Torero (Folha de S. Paulo). Ele elogia mais do que critica, assegura Arthur Dapieve (O Globo): “no tempo das cartas, o sujeito precisava estar imbuído de uma ira santa para sentar, escrever a mão, providenciar o envelope, levar ao correio, selar etc. Ou seja, quase toda carta era crítica. Hoje não, mudou-se o foco”.

Editora de política, com artigos diários no jornal e comentários na tevê, Rosane de Oliveira (Zero Hora), com mais de 20 anos de profissão, arrisca uma síntese do perfil do leitor. Os que só querem ser ouvidos ou têm uma mensagem positiva telefonam, diz: “eles são mais emocionais, querem expressar o que sentem, às vezes apenas dizer que se identificaram com a coluna”. Já os que escrevem são mais críticos e querem influenciar, afirma: “os que ofendem (sim, eles existem) invariavelmente escrevem e, em geral, usam pseudônimo”. No início, segundo ela, os leitores mais velhos só faziam contatos por telefone ou carta, mas agora muitos usam e-mail. Marcelo Auler (O Pasquim 21) acrescenta outra característica. Para ele, não há o hábito de os leitores de um jornal semanal darem retorno ao autor: “quando escrevia colunas diárias em O Dia, havia maior interação”.

3.2.4. Mais próximos, com o e-mail

Um dos consensos entre os colunistas é a constatação de que o uso do e-mail aproxima mais o leitor do colunista do que a carta, o fax ou o telefone: 89% afirmam que sim[59]e, destes, coerentemente, 91% lêem pessoalmente e 97% respondem pessoalmente às mensagens.[60]“O e-mail é mais imediato”,[61]“é mais fácil de ser acessado e mais ágil”,[62]“não requer transpor inibições que de outras formas teria de enfrentar”,[63]tem uma “carga de informalidade grande”,[64]“aproxima, porque facilita a resposta”,[65]sintetizam os colunistas.

São poucos os que não percebem maior aproximação com a utilização de e-mail (11% das respostas). “O uso do telefone é o que mais aproxima, mas pode ser inconveniente, criar ligações indesejáveis”, compara um colunista, para, em seguida tornar-se mais específico: “a vantagem do e-mail é que ele permite uma comunicação eficiente, objetiva e rápida, além de servir de documento. E mantém um distanciamento saudável, porque bloqueia eventuais suspeitas de intimidade entre colunista e leitor”. “Por telefone ou por e-mail o contato é mais direto, informal e, portanto, mais eficaz”, equipara outra colunista.

O percentual de mensagens respondidas pelos que consideram que o uso do e-mail aproxima mais, contudo, não é tão alto. O cruzamento de dados mostra que 64% dos colunistas respondem a todas as mensagens, e 33% apenas a algumas.[66]Correlacionando e analisando os dados desse mesmo grupo, verifica-se que 26% deles utilizam muito as contribuições para suas pautas, 64% pouco, 10% nunca;[67]27% admitem já ter mudado de opinião, 73% não.[68]

Embora considere que o e-mail aproxima mais, Marina Lemle (Jornal do Brasil) faz questão de lembrar que o correio eletrônico “é só mais uma mídia”. Escrevendo semanalmente sobre internet, ela assegura que “quando as pessoas passarem a fazer mais coisas pelo computador do que pelo telefone ou pessoalmente, vão ver que dá na mesma, só é mais prático”. Walter Sebastião Barbosa Pinto (Estado de Minas) acrescenta que, além de ser uma forma de comunicação mais fácil “na rotina agitada e pesada de repórter”, o e-mail possibilita dar “mais atenção” ao leitor e responder com “o cuidado necessário”.

Outra opinião relevante é a de Fritz Utzeri (Jornal do Brasil): o e-mail “é mais interativo, permite a resposta, o que nem sempre é possível em se tratando de cartas”. Responsável pela introdução do e-mail nas colunas quando foi diretor de redação do Jornal do Brasil, no final da década de 1990, ele manteve durante cerca de quatro anos a coluna dominical “Conversa com o leitor”, em que comentava, respondia e publicava na íntegra opiniões de leitores, que eventualmente chegavam a debater entre si os temas no espaço da coluna.

Durante a campanha presidencial de 2002, pouco antes de ter sua coluna suspensa pela direção do jornal, em julho, Fritz enviou e-mails para os candidatos com três perguntas síntese sobre a possibilidade e erradicação da miséria no Brasil, no espaço de uma geração, batizando a iniciativa com o sugestivo nome de “Garrafas ao mar”. Enquanto os candidatos não respondiam, os leitores aproveitavam para apresentar suas próprias respostas, que eram publicadas, constituindo um debate. Na quinta semana de tentativas, a primeira garrafa que ‘veio dar na areia’ era do candidato Ciro Gomes. No texto transcrito na íntegra, o candidato entrou no clima de ‘proximidade’ instituído pelo e-mail: “Apesar de ser seu leitor assíduo, só hoje recolhi uma de suas garrafas (...) permita-me dizer-lhe (...) Ufa! Tinha muita coisa mais para falar, especialmente (...) Demorei um pouco a responder porque quis fazê-lo pessoalmente e não através de assessores. E aí, só nas pontas de madrugada. Um abraço (...)”.Na semana seguinte, cinco leitores já retomavam o espaço da coluna, comentando as propostas do candidato. Mas o colunista queria mais: “Ciro respondeu à garrafa e os (e)leitores comentam. É deles a coluna hoje. Foram só 28 respostas, o que – segundo meus registros – indica pouca motivação.”

3.2.5. “O primeiro leitor a gente nunca esquece”

Mais da metade dos colunistas (58%) que responderam ao questionário se lembram de algo surpreendente ou interessante ocorrido no contato com os leitores via e-mail. Alguns deles se dispuseram a relatar esses episódios, o que nos dá oportunidade de penetrar um pouco mais o tipo de relação que se estabelece entre as duas partes.

As histórias vão desde o animado leitor que pedia “estilo menos conciso” ao objetivo Fernando Calmon (Diário de Pernambuco), em sua coluna sobre indústria automobilística, combustíveis e lançamentos de produtos, até alguns episódios desagradáveis de ‘atração fatal’. “Um de meus leitores passou a perseguir-me com e-mails diários, mandados a qualquer hora do dia ou da noite, com abordagens pessoais”, relata a colunista de política Helena Chagas (O Globo). “Recebi uma ameaça de morte, pelo fato de eu ser judia; aliás, ameaça de morte a mim e a todos os judeus do mundo; não foi ameno”, relembra Cíntia Moscovich (Zero Hora).

Wagner Seixas (Estado de Minas) relata ter identificado pessoas sobre as quais não tinha mais informações, ter recebido grandes pautas e furos jornalísticos, além de críticas e elogios de pessoas influentes.

Arthur Dapieve (O Globo) diz que, constantemente, se relaciona com uma pessoa durante anos, por e-mail, e nunca a conhece pessoalmente. “Acho isso interessante, porque assinala a existência de um espaço público (o da coluna) e um espaço privado (o da vida aqui fora)”, comenta o colunista. Algumas vezes, porém, desenvolve-se “quase uma amizade” entre leitor e colunista, diz o comentarista esportivo José Roberto Torero (Folha de S. Paulo): “uma leitora chegou a fazer um site sobre mim”. Maurício Pessoa de Faria (Estado de Minas) também sabe o que é isso: “uma leitora escrevia diariamente porque julgava estar envolvida com o autor dos textos, imagine”. Marina Lemle (Jornal do Brasil) recebe mais releases e pedidos de divulgação: “comentários, elogios e reclamações, pura e simplesmente, são raros. Mas quando acontecem são ótimos, viramos amigos”.

Algumas vezes, a relação já começa mal. Apesar da indignação por ter sido ofendido “gravemente” num e-mail, Mário Marcos de Souza (Zero Hora) respondeu ao leitor, criticando-o, entre outras coisas, por não ter assinado a mensagem. O leitor identificou-se como médico e reiterou seus argumentos. Na tréplica, Mário discorreu sobre a relação entre leitores e colunistas e, na última mensagem do leitor, veio a surpresa: “ele me pediu desculpas, admitiu que estava errado e se confessou um novo fã”. Há histórias em que o final não poderia ser mais feliz para o leitor: “contratei três leitores-internautas para a equipe de Esporte da Folha de S. Paulo”, relata um colunista que preferiu não ser identificado. Outro colunista que pediu sigilo sobre a fonte, responsável por coluna de música na Folha de S. Paulo, relata a descoberta de um amigo sumido, a escolha de um novo integrante para uma banda e a formação de uma nova banda em função do que foi publicado na coluna. Tudo mediado pelo contato via e-mail.

“O primeiro leitor a gente nunca esquece”, relembra a editora de política e comentarista de tevê Rosane de Oliveira (Zero Hora). O primeiro comentário sobre sua estréia na coluna veio de Roma, por e-mail. “Como o texto era bom, e a coluna, uma novidade para mim também, mandei uma longa resposta”, conta. Para sua surpresa, era de um advogado de 23 anos – “eu achava que advogados sempre escreviam em juridiquês”. Passaram a trocar mensagens, e, na primeira visita a Porto Alegre, ele foi visitá-la. “Hoje é um bom amigo. É o único que conheço pessoalmente (descontadas as figuras públicas com quem tenho contatos profissionais, naturalmente)”.

Em outra história curiosa, uma senhora de 84 anos ligou para Rosane, dizendo que tinha gostado muito da coluna que abordara a morte da professora Geisa, no episódio do ônibus 174. Leitora assídua, ela passou a ligar com freqüência, para comentar os textos ou sugerir temas. Um dia Rosane ficou doente, e a leitora se preocupou, achando que ela tinha saído do jornal, mas soube que se tratava apenas de um problema de garganta. Quando retornou ao trabalho, a colunista recebeu outra ligação: a leitora queria levar um chá especial à redação. Como a senhora morava longe, a jornalista agradeceu e declinou da oferta, mas teve que se comprometer a tomar o tal chá. “Creio que nos grandes jornais isso não é possível, mas nós somos um jornal regional, e os leitores sentem-se meio íntimos. Talvez porque, durante um tempo, Zero Hora adotou o slogan “você, dono de um jornal”, conclui a editora.

O envolvimento com o leitor não se limita aos temas da coluna, por um lado, ou à invasão da vida particular, por outro, e nem é exclusividade de jornais regionais. Caio Túlio Costa (ex-Folha de S. Paulo) relata que um leitor de uma pequena cidade mineira, de tanto acompanhar e comentar seu trabalho, tornou-se o que ele chamou de ombudsman do ombudsman, conquistando, além de uma sólida relação, um capítulo inteiro do livro O relógio de Pascal, em que o jornalista analisa sua experiência como o primeiro ouvidor da imprensa brasileira: “O cartesiano de Muzambinho: a história de Maurício Thomaz, o crítico do ombudsman” (Costa, 1991, pp. 69-79).

3.2.6. “O leitor quer atenção”

À pergunta sobre o que leva o leitor a fazer contato, os colunistas, podendo indicar mais de uma opção, responderam que as motivações principais são: que o colunista conheça sua opinião sobre o texto publicado (74%) e “ser ouvido” pelo colunista (68%). Também é majoritário o entendimento, por parte dos colunistas, de que os leitores não esperam que suas opiniões sejam publicadas (82%), influenciem as opiniões dos colunistas (76%) e, menos ainda, sejam confrontadas com as de outros leitores (95%). Os respondentes dividem-se quanto à intenção do leitor de reforçar o ponto de vista do colunista (58% acham que sim; 42%, que não), de que ele retorne a mensagem ou ligação (53% sim, 47% não) ou de que o conteúdo da mensagem influencie a escolha dos assuntos abordados (53% sim, 47% não).[69]

O depoimento de Daniel Castro (Folha de S. Paulo), que escreve diariamente sobre televisão e cultura no caderno Folha Ilustrada, é bastante preciso na descrição e avaliação do contato com o leitor. Ele recebe cerca de duas cartas, cinco fax, centenas de telefonemas e mil e-mails por semana. Segundo sua opinião, quase todos os telefonemas são de relações profissionais (fontes, assessores de imprensa, personagens da notícia), raramente de leitores. Quanto às cartas, “são sempre de leitores insatisfeitos com informações publicadas”, diz. O principal canal de comunicação com o leitor é sem dúvida o correio eletrônico, garante. Dos e-mails que recebe toda semana, “uns 800 são lixo de todo tipo, de corretor de seguro a assessor de imprensa tentando emplacar nota que não se encaixa no perfil da coluna”. Dos que ele considera leitores de fato, diz receber cerca de 30 por semana: “esse número aumenta muito quando publico informação equivocada ou polêmica. Em tempos de paz, os leitores escrevem para elogiar ou pedir mais informações sobre o que foi publicado na coluna”.

Entre outros interesses do leitor, Sérgio Mattos (A Tarde) destaca a divulgação de eventos e queixas contra matérias ou notas de coluna com as quais não concordam. Nesse caso, o colunista diz que, em vez de responder, publica a reclamação com as devidas correções. Além de influenciar seus artigos sobre economia, Maurício Pessoa de Faria (Estado de Minas) diz que o leitor também quer “se sentir importante, quando suas opiniões são acolhidas”. Na maior parte das vezes, o que o leitor deseja “é ajudar de alguma forma, sacando uma informação ou acrescentando uma nova à que foi publicada”, pensa Mário Marcos de Souza (Zero Hora). O comentarista esportivo gaúcho tem notado, ao longo do tempo, que o que mais gratifica o leitor é a resposta ao e-mail. “Mesmo quando discorda de uma opinião, mesmo quando é grosseiro por algum motivo, ele acaba mostrando sua satisfação por ter recebido atenção”, declara, “e muitos, quando retornam agradecendo a atenção, citam outros colunistas que não dão importância a suas mensagens; por isso, respondo a todos, até aos grosseiros”.

Algumas funções identificadas não se destinam a alguma participação na construção ou no debate das idéias ali expressas, mas ao estabelecimento de uma comunicação paralela entre leitor e colunista. Muitas vezes, os leitores querem “pedir informação complementar ou opinião”[70], ou solicitar “ajuda para trabalhos escolares”.[71]Certa vez, depois de conversar longamente com um leitor que reclamava de sua conexão à internet, a colunista de informática conseguiu perguntar o que poderia fazer por ele na coluna. A resposta do leitor foi breve: “queria apenas saber o que ela achava do ocorrido”.[72]

3.2.7. Pautar ou não pautar

Perguntados sobre a utilização das sugestões e opiniões dos leitores para pautar suas colunas, 28% dos colunistas que responderam ao questionário dizem as utilizar muito, 64% pouco e 8% nunca.[73]

Comparando o aproveitamento de opiniões e sugestões recebidas via e-mail, para pautar artigos e colunas, com as que chegam via carta, fax e telefone, os entrevistados tendem a considerar que a utilização é equivalente: 59% das cartas; 57% dos fax e 68% dos telefonemas.[74]Quando essa comparação é feita apenas entre os que mais utilizam os e-mails para a pauta, aumenta o percentual dos que consideram equivalente a origem (e-mail ou carta) para o aproveitamento de sugestões e opiniões (78%), enquanto os que pouco utilizam tendem a se dividir a esse respeito (41% deles acham que aproveitam mais sugestões de e-mails do que de cartas, 50% afirmam que é equivalente).[75]A proporção é semelhante quanto à comparação com colaboração por fax: quem aproveita muito considera equivalente (63%), quem utiliza pouco se divide (30% desses colunistas fazem mais uso das sugestões que lhes chegam via e-mail do que via fax, e 55%, de forma equivalente).[76]No caso das sugestões via telefonema, o primeiro grupo mantém a avaliação (63% de seus elementos usam igualmente), mas o dos que utilizam pouco sinaliza que há aproveitamento equivalente (68% deles pensam assim).[77]

Cada interpretação apontada no primeiro parágrafo do tópico anterior merece atenção, tanto do ponto de vista do que os colunistas declaram ser suas próprias expectativas (ver adiante, no tópico 3.2.9) quanto da correlação que se pode fazer entre a expectativa identificada pelo colunista na iniciativa do leitor e o encaminhamento que, de fato, dá à mensagem recebida.

Cruzando o número dos que acham que os leitores fazem contato para que haja um retorno com o daqueles que respondem aos e-mails, verifica-se que, coerentemente, 72% desses entrevistados respondem a todos os e-mails, enquanto 28% respondem apenas a algumas das mensagens. Entre os que não acreditam que o leitor tenha expectativa de resposta, o percentual dos que respondem atodos os e-mails cai para 50%; dos demais, 45% respondem apenas a alguns, e 5% nunca respondem.[78]

Entre os que declaram responder apenas a algumas mensagens, poucos explicitam seus critérios. Pedir informações complementares, elogiar ou criticar os textos da coluna, “expondo educadamente os pontos de vista”,[79]podem ser fatores motivadores. “Costumo ignorar e-mails agressivos, apócrifos, de contas de servidores gratuitos, porque imagino que podem ser de profissionais ligados à indústria objeto de meu trabalho tentando me influenciar”,[80]explica um dos colunistas. Nesse caso, além do critério mais óbvio de recusar a mensagem apócrifa, uma curiosa modalidade de barreira se manifesta: a rejeição ao e-mail oriundo de provedores gratuitos da internet, tomados como indício de pouca confiabilidade.

O outro cruzamento revela que, dos colunistas que interpretam a intenção do leitor que se corresponde por e-mail como um desejo de influenciar a escolha dos assuntos abordados na coluna, só 24% utilizam muito as sugestões ou opiniões recebidas para pautar as colunas, 65% pouco, e 12% nunca. Curiosamente, entre os que dizem não acreditar ser essa a intenção do leitor, o percentual correspondente a muita utilização sobe para 32%, a pouca utilização se mantém no mesmo patamar (63%), e a não-utilização fica em 5%.[81]

Dos que acham que o leitor faz contato para que o colunista conheça sua opinião, a maioria (67%) declara utilizar pouco as sugestões e opiniões contidas nos e-mails recebidos para pautar suas colunas; 22%, utilizar muito; e 11%, nunca. Já os que não compartilham dessa avaliação utilizam até mais as opiniões e sugestões de pauta: 44% muito, 56% pouco.[82]

Outra correlação de dados mostra que 44% dos que consideram que o leitor queira influenciaras opiniões expressas nos artigos e colunas utilizam muito as sugestões e opiniões para pautar a coluna, e 56%, pouco. Entre os que discordam dessa suposição, a redução de pontos percentuais faz algum sentido: 22% utilizam muito, e 67% pouco, 11% dos quais nunca utilizam.[83]

Quando a interpretação é a de que o leitor deseja que sua opinião seja publicada, as opiniões e sugestões pautam muito as colunas em 29% dos casos e pouco em 71%; o percentual cai para 28% (muito) e 62% (pouco) quando o colunista não considera ser essa a intenção do leitor.[84]

E que influência têm as opiniões dos leitores na visão dos que as utilizam para pautar suas colunas? Dos colunistas que declararam utilizar com muita freqüência as sugestões e opiniões dos e-mails de leitores para pautar suas colunas, 60% também admitiram que, alguma vez, os argumentos dos leitores já fizeram com que mudassem de opinião sobre algum tema. Isso não significa que aqueles que pouco utilizam se deixem influenciar menos. Deles, 71% admitem já ter mudado de opinião.[85]

É alto também o índice dos que fazem uso das contribuições dos leitores na seleção da pauta e que, tendo mudado de opinião, declaram essa mudança em sua coluna. Dos que mais utilizam 67% já trataram da mudança de opinião nas páginas dos jornais; dos que pouco utilizam, esse percentual sobe para 80%.[86]

3.2.8. A voz do leitor na coluna

Agrupando todos os questionários respondidos (excluídos dois, que não informaram sobre este ponto), vê-se que 28% dos colunistas publicam com muita freqüência as opiniões dos leitores, 47% com pouca, e 25% nunca publicam.[87]Perguntados sobre qual era a freqüência de publicação das opiniões de leitores antes da divulgação do e-mail, 15% dos colunistas informaram que era muita (redução de 13 pontos percentuais), 47% pouca (manutenção do percentual) e 35% que nunca publicavam (10 pontos percentuais a mais).[88]Três colunistas não souberam responder, e um argumentou não ser possível a comparação, porque sua coluna sempre divulgou o e-mail.

Isso mostra que, em função da utilização do e-mail, a opinião do leitor está mais presente nos artigos e colunas de jornal. Houve redução de 10 pontos percentuais em meio aos colunistas que nunca publicavam as opiniões dos leitores e aumento de 13 pontos percentuais no número dos que passaram a publicar com muita freqüência.[89]

Analisando a freqüência com que as opiniões dos leitores são publicadas, constata-se que, dos colunistas que acreditam que o leitor faz contato para influenciar a escolha dos assuntos abordados, 33% publicam muito, 39% pouco e 28% nunca publicam. Entre aqueles que não consideram ser esse o desejo do leitor, o percentual dos que publicam muito cai para 17% (menos 16 pontos, o que faz sentido), o dos que publicam pouco sobe para 56%, e o dos que nunca publicam permanece em 28%.[90]

No caso dos colunistas que supõem que o leitor escreva para influenciar as opiniões expressas nos artigos ou colunas, 22% divulgam muito o ponto de vista do leitor, 33% pouco, e 44% nunca o fazem. Daqueles que julgam não ser essa a intenção, o aproveitamento das mensagens é até maior: 26% publicam muito, 52% pouco, e 22% nunca publicam.[91]

Nem sempre o desejo do leitor manifestado por suas opiniões corresponde ao que o colunista lhe oferece como espaço ou atenção (ausculta), ou seja, o fato de imaginar que o leitor queira influenciar a pauta não faz, necessariamente, com que o colunista paute sua coluna pelas sugestões recebidas. O mesmo ocorre com a possibilidade de influenciar as opiniões expressas na coluna. No cruzamento das respostas sobre o interesse do colunista no contato e o uso que faz das mensagens, porém, o resultado é mais coerente. Quem considera que esse seja um bom meio para pautar geralmente usa mais as sugestões. Quem valoriza a correspondência como veículo para conhecer o que pensam os leitores também publica mais essas opiniões.

Outra comparação possível envolve a periodicidade das colunas – semanais e diárias. Antes da divulgação de seu correio eletrônico, 15% dos colunistas semanais publicavam as opiniões dos leitores com muita freqüência, 50% com pouca, e 35% nunca publicavam; depois, 23% com muita, 50%, com pouca, e 27% nunca. Dos colunistas diários, antes da divulgação do e-mail, 18% publicavam muito, 36% pouco, e 36% nunca publicavam; depois, 36% muito, 27% pouco, e 36% nunca.[92]Também aqui se verifica que o percentual subiu oito pontos na presença muito freqüente da opinião dos leitores nas colunas semanais após a divulgação do e-mail, paralelamente, o percentual dos que nunca publicavam baixou oito pontos. No caso das colunas diárias, a comunicação via e-mail fez dobrar o percentual de publicação das opiniões dos leitores, subindo 18 pontos, segundo os entrevistados. O percentual dos que nunca publicavam, porém, permaneceu inalterado.[93]

Para verificar a existência de coincidência entre aqueles que utilizam sugestões e opiniões para pautar suas colunas e os que se dispõem a publicar o pensamento do leitor, esses dois grupos de respostas foram cruzados, revelando que entre os que utilizam muito as mensagens para a pauta, 40% também publicam as opiniões com muita freqüência, 30% com pouca, e 30% nunca publicam. Entre os que pouco utilizam a opinião de leitores na pauta, só 14% as publicam muito, 59% pouco, e 27% nunca.[94]

Os resultados da pesquisa indicam que o advento do e-mail estimulou os colunistas ao aproveitamento das opiniões de leitores: antes da divulgação de seus e-mails nas colunas, dos que utilizam muito as mensagens para a pauta, apenas 11% também publicavam as opiniões com muita freqüência, 56% com pouca, e 33% nunca publicavam. Entre aqueles que pouco as aproveitam na pauta, o percentual dos que publicavam as opiniões com muita freqüência era semelhante (14%), com pouca, menor (43%), mas o dos que nunca publicavam chegava a 38% (11 pontos acima dos 27% atuais).[95]

Os relatos dos articulistas e colunistas que trabalham no jornal Zero Hora são unânimes em apontar uma política editorial assumidamente favorável à participação do leitor. Segundo Gilberto Leal, o diário gaúcho trabalha com o conceito de que o leitor é o dono do jornal e sugere aos colunistas responder a todas as mensagens. O jornalista relata que o jornal e cada editoria em particular têm um “conselho do leitor”, que se reúne uma vez por mês, para “discutir o produto e fazer sugestões”. Os comentários são publicados nas colunas “opinião do leitor” de cada caderno, e os leitores também podem sugerir pautas. Rosane de Oliveira confirma que Zero Hora tem uma política de aproximação com o leitor e, durante algum tempo, adotou o slogan ‘Você, dono de um jornal’. “Publicamos nossos telefones e atendemos nós mesmos quando tocam, publicamos nosso e-mail e estimulamos a participação do leitor nas páginas; as opiniões dos leitores sobre o jornal são encaminhadas pelos editores para a seção chamada ‘Sobre ZH’ e, se é apenas uma opinião genérica, vai para a seção ‘Palavra do leitor’”. Além disso, quando é aceita uma pauta sugerida por leitor, ela é publicada sob um selo e a frase ‘esta reportagem foi sugerida pelo leitor fulano de tal’, relata: “Zero Hora não nos obriga a adotar um padrão de comportamento. Nosso colunista mais lido (Paulo Santana), por exemplo, não tem condições de ‘falar com os leitores’; então ele fala pela coluna.”

3.2.9. “Sentir o pulso do leitor”

Na perspectiva do colunista, para que serve o contato com o leitor? No caso de Marcelo Auler (O Pasquim 21), serviu para ganhar um Prêmio Esso de jornalismo, com matéria apurada a partir de informação passada por um leitor anônimo, quando trabalhava na revista Veja.

Ao serem perguntados sobre para que servem as mensagens e ligações dos leitores, do ponto de vista dos colunistas, os respondentes, podendo indicar mais de uma função, disseram que lhes interessa saber: como os leitores estão interpretando o texto (83%), o que eles pensam (69%), se estão lendo a coluna (61%) e sobre o que eles querem que escrevam (42%). Menos citadas foram as funções de utilização das opiniões dos leitores para: reforçar o discurso do colunista (11%), publicar as opiniões dos leitores (8%) e contrapor as opiniões com as de outros leitores (8%).[96]A comunicação com leitores “tem muito pouco resultado na pauta da coluna; serve mesmo é para orientar, avaliar a aceitação do trabalho”,[97]funciona como “uma sinalização sobre a correção da abordagem feita pela coluna e sobre o interesse despertado por determinado assunto”,[98]opinam dois colunistas. Serve para “sentir o pulso do leitor”, sintetiza outro experiente articulista.[99]

Alguns se empolgam com as possibilidades do e-mail, como o colunista de automobilismo e economia Gilberto Leal (Zero Hora), que recebe cerca de 80 telefonemas e mais de 200 e-mails por semana. “A e-mailmania é a nova onda das assessorias de comunicação; substituiu o papel na releasemania. A tecnologia facilitou o contato, permitindo o envio do material (texto, som e imagem) em tempo real de qualquer local do mundo”, diz, embora reconheça, em seguida, que a “onda” prejudicou em parte seu trabalho, ao facilitar o envio da mesma mensagem para múltiplos endereços: “aqui no Zero Hora, às vezes, um release chega para mais de 20 jornalistas”. Maurício Pessoa de Faria (Estado de Minas) valoriza as opiniões dos leitores – “sempre as utilizo para rechear os comentários” –  e assegura também que sempre se vale das “sugestões pertinentes” para pautar sua coluna. As contribuições dos leitores servem para confirmar, acrescentar e retificar pautas, define Walter Sebastião Barbosa Pinto (Estado de Minas).

Entretanto, o fato de 92% dos respondentes não considerarem que as mensagens servem para publicar as opiniões dos leitores não impede que 23% deles publiquem essas opiniões com muita freqüência e 48% com pouca freqüência.[100]Desses mesmos colunistas, 26% utilizam muito, e 65% utilizam pouco as contribuições dos leitores para pautar suas colunas; 63% admitem ter mudado de opinião em função dos argumentos dos leitores, e, nesses casos, 72% deles dizem ter abordado essa mudança na coluna.[101]

3.2.10. “Tem razão, o leitor”

Os resultados da pesquisa estimam ainda a influência que o leitor exerce sobre a opinião do colunista. Quando perguntados se argumentos de leitores já os fizeram mudar de opinião, 66% do total de respondentes admite que isso já ocorreu. “Rendo-me sem preconceitos a argumentos mais convincentes”, diz Samuel Celestino (A Tarde). “Não vejo nenhum problema nisso. Só não mudam de opinião os teimosos”, assume o colunista de esportes Marcos Caetano (Jornal do Brasil). “O jornalista não é dono da verdade... e as informações, interpretações e dados do leitor podem contribuir para a mudança de enfoque”, completa Sérgio Mattos (A Tarde).

Dos que admitem ter sido convencidos pelos leitores, 77% já trataram dessa mudança em suas colunas.[102]De um modo geral, a atitude descrita pelos colunistas é a de simplesmente corrigir na coluna algum erro apontado pelos leitores. “Eventualmente, o leitor pode expor uma opinião e influenciar, mas não necessariamente gerar uma publicação na coluna; pode ocorrer o contrário: evitar alguma publicação”, esclarece Daniel Castro (Folha de S. Paulo).

Demonstrando fair play em sua coluna esportiva, Mário Marcos Souza (Zero Hora) conta que já iniciou o texto várias vezes com a expressão “tem razão o leitor tal...”. Antônio Carlos Miguel (O Globo) também admite: “já corrigi alguma informação, dando crédito ao leitor que me alertou do erro”. Regina Teixeira da Costa (Estado de Minas) segue a mesma conduta: “quando prestei informações imprecisas e fui corrigida por leitores, felizmente, agradeci publicamente e relatei o fato”. Wagner Seixas (Estado de Minas) também admite com tranqüilidade publicar mudanças de opinião quando comete “equívocos de informação e deslize de opinião” ou quando a opinião alheia prevalece sobre a sua. Autor de pequenas histórias cômicas do cotidiano na coluna O avesso da vida, Léo Montenegro (O Dia) sempre recebe queixas sobre o tratamento que dá a determinados personagens e também admite já ter sido convencido pelos leitores e publicado, então, a mudança de opinião.

3.2.11. Leitor versus leitor

A possibilidade do debate de idéias expressas pelos leitores no espaço das colunas também foi objeto da pesquisa. Apenas 8% dos colunistas que responderam ao questionário acreditam que as opiniões expressas nas mensagens de leitores servem para contrapor opiniões de outros leitores, e todos eles confirmam já ter publicado essas diferentes visões em suas colunas. Curioso é que um quarto dos demais 92%, que não pensam assim, também afirma ter aberto seu espaço no jornal para o debate entre leitores.[103]Embora não julgue que o leitor espera ver suas opiniões sobre artes plásticas em debate com a de outros leitores na coluna, Walter Sebastião Barbosa Pinto (Estado de Minas) confessa que “infelizmente” isso ainda não foi possível em sua coluna, mas que, “sem demagogia”, acharia “ótimo” que viesse a acontecer.

O debate entre os leitores nas colunas diárias ou semanais é evento relatado por 29% dos respondentes.[104]“Não é raro alguém apresentar outro ponto de vista senão conflitante, diferente, que vale a pena ser compartilhado com outros leitores”, declara Arthur Dapieve (O Globo). “Já houve polêmica acerca da desvalorização do real e do confisco praticado pela então ministra Zélia Cardoso de Mello”, relembra Maurício Pessoa de Faria (Estado de Minas), que acolheu o embate de opiniões em sua coluna. “Geralmente, quando o assunto extrapola o espaço da coluna, o debate é transferido para o espaço editorial do caderno, enquanto a coluna segue seu ritmo natural”, relata Sérgio Mattos (A Tarde). Segundo ele, quando a polêmica entre dois leitores se estende em demasia, o caso é dado por encerrado, sugerindo aos leitores “que procurem outro espaço para chegar a uma conclusão ou resolver seus respectivos problemas”.

3.2.12. Violência e outros temas

Duas situações de violência ocorridas nos últimos anos, cuja veiculação ao vivo pela tevê e a intensa cobertura posterior pelos jornais acabaram por torná-las um evento também midiático – nos quais os meios de comunicação não apenas noticiaram, mas também fizeram parte dos acontecimentos –, foram citadas como assunto abordado inúmeras vezes, tanto por colunistas quanto por leitores. Dos colunistas que responderam ao questionário, 62% escreveram sobre o atentado ao World Trade Center, em Nova Iorque, em 11 de setembro de 2001, e 24% também trataram do cerco ao ônibus 174, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em junho de 2000.[105]Quanto aos leitores que fizeram contato com os colunistas, 46% deles se manifestaram sobre o atentado de 11 de setembro, e 23% sobre o ônibus 174.[106]As respostas ao questionário deixam transparecer uma convergência entre a abordagem dos temas pelos articulistas e pelos leitores: 67% dos colunistas que escreveram sobre o 11 de setembro dizem que seus leitores também trataram do tema, assim como 67% dos que escreveram sobre o 11 de setembro e o ônibus 174 confirmam que seus leitores também abordaram ambos os temas.[107]Apesar da freqüência com que os dois assuntos estiveram presentes na mídia, particularmente nas colunas dos respondentes e também nas mensagens dos leitores, 73% dos colunistas entrevistados não publicaram as opiniões de seus leitores sobre o tema, 24% dizem ter publicado comentários de leitores sobre o 11 de setembro, dos quais 3% também sobre o ônibus 174.[108]Alguns dos respondentes ressaltaram, no entanto, que temas como o ônibus 174 e o 11 de setembro foram muito veiculados e debatidos, até pelos leitores, também, em outros espaços do jornal, como os editoriais e as colunas de cartas dos leitores.[109]

Para Sérgio Dávila (Folha de S. Paulo), o e-mail foi crucial na cobertura do ataque ao World Trade Center, assunto mais comentado nas cerca de 500 mensagens que declara responder semanalmente. Foi por e-mail que pôde saber e divulgar que um brasileiro de sobrenome árabe havia sofrido maus-tratos na alfândega americana. Residente em Nova Iorque e responsável pelas colunas Netcétera, na Folha Ilustrada, O Rei de Nova York, no UOL News, e NYTV, na TV Folha, seu envolvimento com o tema acabou resultando no lançamento de um livro: Nova York – antes e depois do atentado.

Numerosos outros temas estão entre os assuntos preferidos dos leitores que fizeram contato com os colunistas nos últimos anos. Em comum, têm o fato de estarem vinculados à temática predominante de cada coluna. Na lista dos mais freqüentes dentro da temática cultural estão os reality shows, conteúdos de novelas, bailes funk, música pop ou eletrônica e discos raros. Quando se ataca lançamento fonográfico de grupos para adolescentes, como fez Antônio Augusto Sampaio (A Tarde), o risco é tornar-se inimigo público sob uma avalancha de e-mails: “despertei a ‘ira’ de garotas fanáticas que não aceitam que se fale de seus ídolos pré-fabricados” relembra o crítico. A respeito de esportes escreve-se aos colunistas sobre resultados de jogos, mas em ano de tetracampeonato, o tema campeão foi a Copa do Mundo.

Em política, prevaleceram mensagens sobre ataques terroristas, conflito palestino-israelense e críticas aos políticos brasileiros. Em economia, a macroeconomia e a crise econômica internacional (especialmente a da Argentina), casa própria, fundos de pensão, cotação do dólar, escândalos financeiros nacionais (como as ‘falcatruas’ dos bancos Marka e Fontecindam) e polêmicas econômicas regionais (como a desistência da Ford em instalar uma fábrica no Rio Grande do Sul).

Muitas vezes o assunto preferido do leitor é ele mesmo: infidelidade, educação dos filhos, sexualidade, condição feminina, busca de tratamento analítico são temas freqüentes na coluna-divã de Regina Teixeira da Costa (Estado de Minas); enquanto as consultas de caráter pessoal rivalizam com a curiosidade sobre terrorismo, crise internacional e Copa do Mundo na coluna de astrologia de Bárbara Abramo (Folha de S. Paulo).

Outras, entretanto, o assunto do leitor é o colunista. Das críticas sobre a qualidade do texto ou opinião às declarações de empatia e concordância: um dos maiores índices de retorno foi obtido por Rosane de Oliveira (Zero Hora) quando ela criticou em sua coluna o fato de o formulário simples do Censo perguntar quantos banheiros tinha sua casa e não se seus filhos estavam na escola ou em que série estavam. Adenirson Lage (O Liberal) viveu notoriedade oposta: certa vez foi “achincalhado” em um e-mail amplamente divulgado por um político, contrariado com as críticas do colunista por ter bloqueado a carreata de um adversário político.

3.2.13. Diálogo e interatividade segundo os colunistas

Com o objetivo de estabelecer um denominador comum para o uso da palavra diálogo, tanto pela pesquisa quanto pelos colunistas, uma definição provisória foi apresentada no questionário: diálogo pode ser definido como a questão central da comunicação humana, vínculo entre o eu e o outro, encontro recíproco, verdadeira troca e compreensão de sentidos por linguagens diversas. Com essa definição concordaram inteiramente 65% dos colunistas, e, em parte, 32%, enquanto 3% simplesmente discordaram.[110]A partir dessa informação preliminar, foi possível apresentar outras perguntas e estabelecer outras relações.

Dos colunistas que concordaram inteiramente com a definição de diálogo apresentada, 86% consideram haver diálogo entre a mídia e o público, e 73% que é diálogo a comunicação por e-mail entre leitor e colunista, tendo 18% afirmado que, nesse caso, não há diálogo, mas sim uma simulação de diálogo. Dos que se afinam apenas em parte com a definição, 90% acreditam que há diálogo entre mídia e público, e 70% entre leitor e colunista, 10%, porém, julgando que, nesse caso, não há diálogo, mas sim uma simulação.[111]

Com o mesmo objetivo, este conceito provisório de interatividade também foi apresentado aos colunistas: ação mútua, simultânea ou não, entre humanos, máquinas ou humanos e máquinas, que permita a alteração do curso dos acontecimentos, a qualquer tempo, em qualquer direção, por qualquer das partes, num processo bi ou multilateral de comunicação.

Dos 52% que se disseram inteiramente de acordo, 93% consideram que há interatividade entre mídia e público, e 71% que é interatividade a comunicação por e-mail entre leitor e colunista, com 18% sinalizando que, nesse caso, o que ocorre é uma simulação. Dos 42% que concordam em parte com a definição, também 93% acreditam que há interatividade entre mídia e público, e 71% entre leitor e colunista via e-mail, sendo que 21% pensam que, nesse caso, não há interatividade, mas uma simulação.[112]

Cruzando as respostas sobre os dois conceitos, constata-se que 88% dos que concordaram inteiramente com uma definição também concordaram inteiramente com a outra. Entre os que concordaram em parte, a coincidência de opinião cai para 57%.[113]Há grande convergência de opinião também quanto à relação da mídia com o público: 96% dos que julgam haver diálogo também acreditam que há interatividade.[114]

No geral, 83% dos respondentes consideram que há diálogo entre mídia e público.[115]Quando se busca especificar essa avaliação, porém, as opiniões se dividem: 81% afirmam que há diálogo entre os jornais e o público, 78% também por meio das publicações on-line, 74% do rádio, 56% da tevê, 41% das revistas.[116]

Em relação à interatividade, as respostas indicam ocorrência semelhante: 92% consideram que há interatividade entre a mídia e o público por meio das publicações on-line, 85% do rádio, 69% dos jornais, 54% da tevê e 46% das revistas.[117]Para José Roberto Torero, da Folha de S. Paulo, há alguma interatividade em todas, mas pequena: “os meios de comunicação não são meios de comunicação do leitor, mas para o leitor”. A respeito do contato entre leitor e colunista, ele considera que “raras vezes dá-se o diálogo; há mais dois monólogos”.

Segundo a opinião de 68% dos colunistas que responderam ao questionário, a comunicação entre leitor e colunista via e-mail é uma forma de diálogo, mas para 8% deles não; 16% vêem com desconfiança a relação que se estabelece e afirmam que o que há é uma simulação de diálogo.[118]Por outro lado, 74% dos respondentes consideram interatividade essa forma de comunicação que se estabelece, 9% dizem que não, e outros 11% concordam que não, mas identificam que há uma simulação de interatividade.[119]Cruzando esses dados, observa-se que a visão de que há diálogo coincide com a de que há interatividade em 88% dos casos, assim como a de que não há ou de que há simulação coincide em 50% das assertivas.[120]

Se tomarmos aqueles que julgam haver interatividade entre mídia e público, 79% deles também afirmam que é interatividade a comunicação entre leitor e colunista, via e-mail.[121]Há “uma interatividade ainda muito pequena” entre mídia e público, sugere Daniel Castro (Folha de S. Paulo), que afirma, no entanto, não haver diálogo entre as partes, mas uma simulação.

Entre os que consideram haver diálogo entre mídia e público, 80% também entendem como diálogo a comunicação entre leitor e colunista via e-mail. Dois terços (67%) dos que acusam a existência de uma simulação entre a mídia em geral e o público também identificam essa estratégia na comunicação via e-mail com os colunistas de jornal.[122]

Instado a comentar livremente a interatividade na mídia, Wagner Seixas (Estado de Minas) a considera aquilo que “dita” sua forma de escrever as crônicas: “em muitos casos é possível formar uma opinião garimpada de várias outras”. O crítico de arte Walter Pinto (Estado de Minas) julga superficial e “tola” a “baixa” interatividade permitida por meios técnicos diante da “alta” interatividade e da “abertura para a inscrição do espectador” permitida pela obra de arte. Para Marina Lemle (Jornal do Brasil), que escreve sobre internet em sua coluna, interatividade é “troca entre humanos através de máquinas”, enquanto Antônio Fagundes (Zero Hora), que trata das tradições gaúchas, objeta exatamente a inclusão da ação de máquinas na definição de interatividade: “essa ação é essencialmente humana”.

Para Sérgio Mattos (A Tarde) a interatividade está crescendo cada vez mais. “Principalmente porque a audiência hoje é quem determina o sucesso do programa de tevê, de rádio ou a circulação de um jornal ou revista. É necessário compartilhar e interagir para criar fidelidade na audiência. Creio que está havendo uma mudança de comportamento por parte da imprensa no que diz respeito ao tratamento dispensado a seu público”, diz o baiano que, curiosamente, respondeu não considerar diálogo nem interatividade a comunicação entre o leitor e o colunista via e-mail, mas sim uma simulação de diálogo e de interatividade. Sob um enfoque transmissional, “em que o usuário faz escolhas numa mídia unidirecional” (conforme exposto no capítulo anterior), ele defende seu ponto de vista:

A interatividade se dá em vários planos que não são considerados aqui. Por exemplo, o leitor interage com o veículo ‘X’ ou ‘Y’ por motivos ideológicos, simpatia com a linha editorial etc. O leitor também interage sem se manifestar fisicamente (por e-mail, carta, fax, telefone etc.); ele se manifesta deixando de ouvir aquela emissora, não sintonizando aquele canal de tevê ou deixando de comprar aquele jornal ou revista que tem publicado coisas de que ele não gosta. Portanto, para verificar se realmente o processo de interatividade está existindo, amadurecendo ou crescendo entre a audiência e veículos ou jornalistas seria necessário também abordar os telespectadores, radiouvintes e leitores. Tentar identificar algum fato que tenha levado um veículo à perda de audiência devido à opinião/linha editorial/ou programação adotada.

Ao comentar a possibilidade de diálogo com a mídia, Mário Marcos de Souza (Zero Hora) coloca a questão passando ao largo das páginas do jornal: “Há diálogo, desde que o colunista retorne a mensagem. O e-mail é o grande canal atual de comunicação com meus leitores”. Adenirson Lage (O Liberal) afirma que “se a mídia não motivar um diálogo com o público, seja por meio do veículo que for, não está atingindo seu objetivo, não está repercutindo, então não vale a pena se perder tempo”.

A colunista-psicanalista Regina Teixeira da Costa (Estado de Minas) não crê que haja interatividade entre ela e o leitor: “não me coloco pessoalmente, nem sempre respondo àquilo que demandaram, fico na posição de analista e, portanto, na posição de uma neutralidade necessária para produzir efeitos de trabalho naquele que demanda”. E vai além, numa visão que, em parte, diverge tanto de Buber quanto de seus colegas psicanalistas citados no primeiro capítulo:

Não creio na reciprocidade nas comunicações, nem mesmo na linguagem direta; sempre há um imaginário perpassando nossas comunicações que as tornam singulares e que mostra que não há paridade subjetiva entre dois sujeitos e dois desejos, cada um tem seu modo de pensar. Verdadeira troca é impossível, pois nem mesmo sabemos a verdade toda sobre nós, portanto não há totalidade possível.

O também colunista-psicanalista Luis Alberto Py (O Dia) recebe cerca de quatro cartas e seis e-mails semanalmente e responde a duas delas em sua coluna dominical Mistérios da alma, em que trata de “emoções e vida”. As que não são publicadas também são respondidas: “sinto-me na obrigação de tentar ajudar todos os que me procuram. Pelo menos enquanto estiver dentro das minhas possibilidades de tempo”. Quando perguntado sobre histórias mais marcantes no contato com os leitores, concluiu: “muita coisa... daria um livro”.

O fato de a pesquisa ter sido feita por e-mail possibilitou registrar um pouco mais sobre a própria forma de contato que é objeto do trabalho. Ao comentarem esta pesquisa, vários colunistas elogiaram a escolha do tema – “vibrante”, “toda semana recebo gente querendo saber mais sobre meu trabalho, mas ninguém parece se importar com esse retorno dos leitores” – ou o modelo de questionário – “bastante abrangente”, “excelente” – o que não impediu a pesquisa de enfrentar ruídos, barreiras na comunicação. “Peço desculpas pelas respostas, certamente fora do lugar”, lamentou o colunista cujos óculos se haviam quebrado. Outro discordou da redação na definição de diálogo – “o certo é entre mim e o outro, e não entre eu e o outro” – não percebendo que o ‘eu’ aqui (precedido de artigo) é uma categoria e não o pronome pessoal. Mas o importante a registrar nesse caso é o quanto esse detalhe interferiu na comunicação: a partir daquela questão, as demais passaram a obter respostas lacônicas ou nenhuma resposta. Na ‘mineirice’ de outro colunista, nova barreira na hora de optar entre ser citado ou não como fonte – “difícil responder, né? Depende de como e em que contexto!” – deixando sem resposta a pergunta.

3.3. O leitor e o editorialista

Antes de passar aos comentários finais deste capítulo, relato um exemplo de contato via e-mail meu com um leitor, simultâneo ao desenvolvimento desta pesquisa. Em agosto de 2002, como responsável pela revista Radis,[123]especializada em saúde pública e ciência e tecnologia em saúde, assinei o editorial Nosso candidato é o cidadão, comentando a matéria principal, que tratava da sucessão presidencial. Pouco tempo depois, um e-mail iniciou uma pequena troca de mensagens que ilustra bem o desejo do leitor de, acima de tudo, estabelecer diálogo com o articulista. Para além das estatísticas e opiniões dos colunistas, examinemos aqui, pelo menos um exemplo completo de contato estabelecido pelo leitor. Transcrevo, a seguir, o editorial e, com autorização do leitor, que continuo não conhecendo pessoalmente, as críticas iniciais e as mensagens subseqüentes.

Em suas mãos, a primeira revista Radis, concebida com o mesmo carinho e seriedade que as 172 edições de Súmula, Tema, Dados, Proposta e Jornal do Radis. Mais que a fusão das revistas anteriores, com maior flexibilidade editorial e gráfica, esperamos que ela seja uma alternativa de jornalismo em saúde pública e ciência e tecnologia com a voz dos atores sociais, acadêmicos e políticos no campo da saúde e muita participação dos leitores. Escreva, telefone, envie e-mails: comente nossas reportagens, dê sua opinião sobre as questões em debate, sugira novos temas e matérias, troque informação com os outros leitores, exerça seu direito de comunicar.

Por falar em direitos, você sabia que pode escolher entre seis candidatos à Presidência da República? Ao publicar propostas para a Saúde de todos e não apenas dos ‘principais’ candidatos, a Radis o faz conscientemente, não só porque, sendo um organismo de Estado, a Fiocruz não pode privilegiar candidaturas, mas também porque queremos expor a parcialidade da mídia, que sempre usou estratagemas para ‘vender’ seus candidatos e agora inova com o procedimento indecente de cobrir e realizar debates com apenas alguns concorrentes à Presidência e aos governos estaduais, sob o silêncio da Justiça Eleitoral.

A saúde da população depende de todas as ações que resultem em melhor qualidade de vida, além de pressa e aperfeiçoamento na implantação do Sistema Único de Saúde. A receita de secretários de saúde de todo o país, reunidos em Blumenau/SC, é assegurar recursos ao SUS, apoiar os municípios e gerir o sistema juntamente com trabalhadores e usuários. Está em suas mãos também, leitor – cidadão e eleitor –, a oportunidade de votar (ou não) em presidente, governador e parlamentares comprometidos com este objetivo (Radis, ano 1, no. 1, ago. 2002, p. 3).

A crítica enviada pelo leitor – um pesquisador em saúde pública da Fiocruz que, a seu pedido, será aqui identificado pelas iniciais S.R. – chegou em uma mensagem enviada ao endereço eletrônico do Programa Radis, setor que coordeno e que é responsável pela edição da revista, tendo como assunto “Para Rogério Rocha (CONFIDENCIAL)”:

(24/09/2002) Caro Rogério,

Queria estar escrevendo para o seu e-mail pessoal, mas não consegui identificar qual seja, por isso escrevo para o do Radis (desculpe-me, pois esta carta seria confidencial). Peço-lhe que entenda as críticas que vou fazer como críticas fraternais de quem, como você, está interessado em fazer o melhor trabalho e em preservar a instituição.

Fiquei preocupado com o teor do seu editorial, publicado neste primeiro número de Radis. Acho que você tem todo o direito a ter suas posições políticas (como qualquer um), mas acho que é necessário algum cuidado quando escrevemos um editorial de uma publicação que é de uma organização como a Fiocruz (como você bem disse, um organismo de Estado).

Explico-me: ao assinalar ironicamente que é possível votar em seis candidatos a Presidente da República e não apenas nos “principais” candidatos você atinge violentamente a mídia como um todo ao assinalar como “indecente” a realização de debates apenas com os principais concorrentes à presidência e aos governos estaduais. Não estou aqui para defender ‘a’ ou ‘b’ mas assinalar que, por coerência, você também deveria ter criticado com igual virulência os coordenadores do Radis que publicaram o Proposta n. 19 (reproduzido na contracapa dan.1)[124]que “Com base nos números divulgados pelos principais institutos de pesquisa de opinião na semana de 18 a 23 de outubro, o Radis ouviu os 10 candidatos mais bem colocados em relação às suas propostas para a saúde ...”.

Por maior empatia que se possa ter pelo PCO e o PSTU o que os tira da tevê e dos debates é uma lei eleitoral que calcula o tempo na tevê baseado na representatividade que os partidos tenham tido na última eleição – tenho a certeza de que você sabe disso. Se a lei é injusta, critique-se a lei e lute-se para mudá-la. Se as empresas de televisão se utilizam deste artifício legal para organizarem debates mais ágeis (por terem menos participantes) e, portanto, mais agradáveis ao público, devemos mostrar aos leitores as conseqüências de uma lei eleitoral falha (?) que distribui o tempo de exposição dos candidatos baseado na proporção de eleitores que apoia(ra)m o seu partido.

Seu editorial, em minha opinião, deseduca o eleitor, pois não o informa adequadamente para que ele reflita e tire suas conclusões. Você induz, com informações parciais, o leitor a uma conclusão. Isso, em um veículo de comunicação de um “organismo de Estado”, é muito grave em minha opinião. Acho que o nosso papel deve ser o de estimular o pensamento crítico do indivíduo através de ampla informação, considerando todos os lados interessados. Em minha opinião, nada é mais revolucionário que a educação e nosso país carece de publicações de massa (como eu vejo a Radis) que procurem realmente educar o povo. Nesse sentido, as observações contidas no “Recado final...” são perfeitas, razão pela qual eu vejo o que critiquei no editorial como um excesso “verbal” isolado. Daí porque achei relevante te “dar um toque”.

No mais, parabéns pelo número 1. Acho que a fusão dos diversos periódicos do Radis realmente conferiu agilidade na divulgação das informações ao reunir seus diferentes tipos.

Um grande abraço e sucesso nos seguintes.

S. R.

Embora expressamente confidencial, o e-mail foi ‘filtrado’ não pela direção do veículo, como relata o colunista Moacyr Werneck de Castro, citado no início deste capítulo, mas pelos encarregados da triagem das mensagens recebidas pela revista, que leram seu conteúdo, repassaram o e-mail e pressionaram pela publicação da mensagem. Dias depois, enviei resposta ao leitor:

(21/10/2002) Caro S.R.,

Em primeiro lugar, me desculpe a demora da resposta. As atividades no Radis, na Asfoc[125]e no mestrado estão me sobrecarregando.

Obrigado pela crítica dura, mas respeitosa. Sei que não se escreve editoriais sobre questões polêmicas impunemente e tenho que estar aberto à divergência.

Seu desejo de confidencialidade é que não foi alcançado, motivando algum constrangimento parcialmente contornado, mas tenho que estar preparado para isso também.

Premido pelo pouco espaço, talvez eu tenha sido realmente simplista nas afirmações do editorial, mas ele não tem existência autônoma na revista – que complementou o tratamento que demos ao tema – e espero, aqui, apresentar a você o pensamento que está por trás daquelas afirmações.

Para começar, asseguro que os argumentos não foram motivados por interesses político partidários – que, no meu caso, estão representados no segundo turno –, mas sim pelo exercício da crítica ao comportamento do poder judiciário frente ao poder de ‘agendamento’ da atenção exercido pela mídia, durante as campanhas eleitorais.

A legislação que impõe a divisão do tempo de forma proporcional ao coeficiente de votos dos partidos ou coligações se refere ao horário gratuito, portanto, não justifica o comportamento da mídia. O acompanhamento da cobertura jornalística ou debates nas concessionárias públicas de rádio e tevê requer interpretação e ação por parte da Justiça Eleitoral para evitar favorecimentos e garantir ampla informação. E aí, tanto faz se a sistemática omissão atinge dois candidatos esquerdistas à Presidência, ou uma candidata verde do PV e outro direitista do Prona ao governo estadual. A crítica à Justiça Eleitoral vem da compreensão de que a ela caberia não apenas agir quando acionada pelos partidos, mas tomar a iniciativa de sinalizar e evitar os favorecimentos. Entre os cargos proporcionais é mais difícil pela quantidade (a Globo, por exemplo, pode dar amplo destaque ao Arthur da Távola, em detrimento do Bispo Crivella, sem ser notada), mas com apenas seis candidatos à Presidência não há dificuldade de acompanhar.

Quanto à definição pela mídia de quem deve ou não ter cobertura jornalística ou participar de debates, o risco é o da utilização de seu poder para a cristalização de realidades dinâmicas. A gente pode até concordar, a princípio, que um candidato com alto percentual de intenções de votos é mais notícia que o último colocado, segundo os institutos de pesquisa. Mas também é verdade que ser notícia constante na tevê é uma das maneiras de obter intenções de voto. Para imaginar o que pode acontecer com esta naturalização da tendência de cobrir os principais candidatos, faço um exercício com situações passadas. Este critério poderia ter facultado à mídia não cobrir candidaturas com baixíssimo índice nas pesquisas em início de campanha, como a de Lisâneas Maciel e Brizola, em 1982 (frente à dianteira de Sandra Cavalcanti e Miro Teixeira); de Sinval Palmeira e Fernando Gabeira, em 1986; de Luíza Erundina, em 1988 (?); de Roberto Freire (com Arouca na vice) e Ronaldo Caiado, em 1989. O próprio Collor, antes de ser catapultado pela Veja, TV Globo e outros veículos era um desconhecido, ou, a considerar critérios de coeficiente eleitoral de seu partido, o PRN, inexpressivo.

Portanto, a crítica à mídia enfoca a mudança de um tipo de manipulação em que os veículos tomavam partido acintosamente de um ou outro candidato – já abordado por tantos estudos de comunicação –, por outro, de novo tipo, em que o tempo é cronometricamente dividido entre os candidatos mais fortes, mas o veículo vai adquirindo a prerrogativa de ignorar o direito ou a representatividade dos minoritários – que ela (e os institutos de pesquisa, que, em geral, integram o sistema midiático), aos poucos poderá determinar quem são.

A questão é que, com os precedentes atuais e a forma natural como têm sido aceitos, estamos caminhando não para uma situação como a francesa, em que mesmo o cidadão de dupla nacionalidade residente no Brasil recebe em sua casa o programa e a biografia de todos os candidatos em que pode votar, mas para uma ‘americanização’ do processo eleitoral, em que o debate se restringe aos republicanos e democratas, como se não houvesse, na última eleição, por exemplo, um candidato como Ralph Nader – figura respeitável, pioneira na defesa dos direitos civis e do consumidor na década de 1960 e representante hoje dos verdes e de parte da intelectualidade daquele país. A maioria do eleitorado americano provavelmente nem ficou sabendo de sua candidatura, não por falta de consistência ou representatividade, mas porque estava fora do ‘agenda setting’ da mídia.

Por fim, a justa observação sua quanto ao Jornal Proposta, em 1989. Dizer o quê? Talvez esta não fosse uma questão tão relevante para o olhar de então, num momento em que o fato de uma eleição direta para presidente depois da longa noite da ditadura já era, por si, motivo de festa. Com as dificuldades operacionais de cobrir 26 (?) candidatos, apresentar 10 diferentes propostas para a saúde já era um feito. Mas hoje, podemos e precisamos estar atentos ao aperfeiçoamento do processo, críticos às distorções menores, menos perceptíveis e que possam representar tendências, ao longo do tempo, contrárias à democracia e ao interesse público.

Como você bem definiu, “estimular o pensamento crítico através de ampla informação, considerando todos os lados interessados” tem sido a marca da história do Programa Radis. Mas é nossa função editorial também, como veículo que não tem a suposta (e inverídica, segundo os estudos sérios de comunicação) neutralidade da mídia tradicional, opinar em defesa do interesse público.

Muitas vezes, além de veicular informações, o Radis ousou criticar ou denunciar irregularidades de entidades privadas (desmandos e aumentos de planos de saúde, indústria farmacêutica etc), ou organismos estatais (secretarias de saúde vendendo vacinas à população, órgãos governamentais descumprindo a Constituição). O tipo de comunicação em saúde que fazemos também nos coloca no lugar de um observatório da imprensa nesta área e mais de uma vez identificamos movimentos da imprensa para forçar o noticiário sobre certas doenças, motivados pelo lançamento de determinado medicamento, ou a insistência em usar mazelas hospitalares para desestabilizar a implantação do SUS[126]ou a descentralização financeira do sistema, que poderiam resultar em melhoria da assistência. Como o espaço editorial é, por definição, um espaço opinativo, corre sempre o risco de carregar nas tonalidades da tinta aqui ou ali. Mas reparos atentos como o seu são sempre bem-vindos.

S.R.,

O texto escrito às vezes gera incompreensão por faltar-lhe inflexões e o olhar da conversa presencial. Se alguma linha acima der a impressão de restrição aos seus argumentos ou ironia na apresentação dos meus, saiba que não há. Na verdade gostei da oportunidade de falar mais sobre uma questão que me é cara a um interlocutor que diverge, mas, acima de tudo, mostra interesse no tema e apreço pelo conjunto do trabalho que temos (aqui, falo também pelos que me antecederam na coordenação) realizado nestes 20 anos de Radis, contra todas as dificuldades e descontinuidades institucionais.

Outra coisa: apesar do caráter inicialmente confidencial, quero saber se você deseja que sua mensagem seja publicada na seção de cartas, seguida de uma resposta nossa.

Um grande abraço,

Rogério

Fique à vontade para me procurar a qualquer tempo:

Meu e-mail: (...) Tel. do Radis: (...) Celular: (...)

A resposta veio em seguida, explicitando a intenção do leitor e abrindo caminho para nova troca de mensagens:

(24/10/2002) Caro Rogério,

Obrigado por seu e-mail.

Acho que a única coisa que eu discordo em seu e-mail é quando você fala que nós discordamos.

Minha motivação naquele e-mail (posso até ter sido infeliz no que escrevi, sem ser claro o suficiente) era proteger a instituição de acusações de partidarização ou coisas assemelhadas. Acho que a crítica tinha que ser destinada à lei eleitoral, que serve de escudo para atitude das tevês, por exemplo. No mais concordo contigo, embora sem as palavras que achei panfletárias demais para uma publicação oficial.

Não escrevi para publicar em lugar nenhum e acho que publicar agora não contribui em nada para o Programa Radis, para você, para mim ou para a comunidade que lê a revista Radis.

Peço-lhe desculpas por não ter sido confidencial como gostaria, mas acredito que isso também não cause dano a você. No máximo, acredito ter despertado algumas iras santas contra mim... *risos* mas tudo bem. Queria que fosse confidencial pelo respeito que tenho ao seu trabalho e não queria parecer estar querendo prejudicar o trabalho. Além do que, achava que a crítica tinha que ser privada mesmo, já que foi feita exatamente por achar que você a entenderia.

No mais, sigamos com cuidado, pois daqui pra frente a barra das cobranças será mais pesada, já que estaremos mais ainda na vitrine e a direita estará à nossa porta (ou melhor, na nossa janela, nos observando) e não podemos dar mole.

Um grande abraço,

S.R.

Minha tréplica:

(25/10/2002) Caro S.R,

Você está certo. Os próximos anos serão de aprendizado: defender posições sem excessos e sem adesismos, encontrando o equilíbrio e sem excluir ninguém dos debates e das soluções. Na Asfoc temos discutido muito isso. E aqui no Programa Radis, o C. já está brincando com essa história ser ou não vidraça, em sua charge da página 3, da Radis no. 3.

Abraço,

Rogério

E a mensagem final do leitor, às vésperas do segundo turno das eleições:

(25/10/2002) Caro Rogério,

Não vi ainda o jornal com a charge do C., que costumam ser ótimas. Vou olhar.

Acho que vai ser muito duro para muita gente daqui da nossa “casa” seguir tranqüilamente respeitando os divergentes. Essa clareza do papel institucional e o pessoal vai ser um desafio.

No domingo confirmamos e corremos pro abraço.

Abraços,

S.R.

3.4. Para além da interatividade

Constatação unânime é a de que, depois do surgimento do e-mail, o número de cartas diminuiu drasticamente na maioria dos jornais. Um diretor do Jornal do Brasil declarou, certa vez, que recomenda atenção quase reverencial aos últimos missivistas que ainda endereçam suas cartas, algumas ainda manuscritas, à redação. Como dispositivo técnico de interatividade com o jornal impresso, porém, o e-mail pouco difere de carta, fax ou telefonema. Na medida em que a interferência não se dá diretamente no ‘veículo’ ou na ‘mensagem’, o código unilateral do medium jornal está mantido, e a forma de interatividade não pode ser caracterizada como nenhuma das quatro dimensões estabelecidas por Jensen (transmissional, consultacional, conversacional ou registracional) nem na modalidade genérica de fraca, segundo distinção que aporta Vaz e descreve Dizard, também no capítulo anterior.

No entanto, entre os muitos resultados e considerações apresentados ao longo da análise da pesquisa, alguns dos aspectos e questões importantes revelados sobre o contato via e-mail entre leitores e colunistas devem ser retomados e destacados.

Em primeiro lugar, fica evidente a função mercadológica de ‘disponibilizar’ interatividade. “Todos procuram a interatividade na mídia” diz um colunista. “Se uma mídia não ouvir seu público vai à falência”, prevê outro. Para a maioria dos entrevistados, a troca já existe e até mesmo o diálogo (93% deles consideram que há interatividade entre mídia e público, e 86%, que há diálogo). Para um número bem menor, ela não ocorre ou é pura simulação. De qualquer forma, exemplos como o do jornal gaúcho Zero Hora, que assumiu como política editorial a abertura à participação do público no trabalho de suas editorias, mesmo dentro das limitações examinadas neste capítulo, mostram que o leitor responde favoravelmente a esse movimento do jornal, o que se traduz em maior ‘fidelidade’ do ‘leitor-consumidor’, como é do interesse comercial da empresa de comunicação.

A segunda questão diz respeito ao processo de trabalho do profissional de imprensa que assina uma coluna (71% dos entrevistados acreditam que há interatividade entre colunista e leitor, 73%, que há diálogo). Mas o que teria de fato mudado? Na abertura de suas caixas postais eletrônicas para o público, os colunistas dizem constatar que, na profusão de e-mails, a maioria é “lixo” – releases desinteressantes, propaganda de toda ordem e até ‘correntes’ eletrônicas. Evidencia-se também, tanto pelos resultados quantitativos quanto pelos qualitativos desta pesquisa, que uma rica interpenetração de discursos e de proposição de pautas está à disposição dos colunistas que queiram fazer uso delas e que isso foi significativamente potencializado pelas facilidades técnicas e operacionais, pela informalidade e pela confidencialidade do correio eletrônico, embora deva-se destacar que a descrição do perfil dos usuários mais freqüentes do e-mail aponta para uma segmentação desse leitor (diferente dos demais leitores, de acordo com 64% dos entrevistados), segundo distinções econômicas, sociais, de instrução, idade e localização regional. Ainda assim, a maioria dos colunistas (83%) assume que a principal utilidade desse contato é saber como os leitores estão interpretando seus textos.

A terceira questão refere-se ao que essa mudança representa para o leitor. Se sua relação com o jornal não se alterou objetivamente, na medida em que a unilateralidade no processo comunicacional impresso está mantida, os depoimentos de colunistas mostram que o contato entre leitores e colunistas pode elevar o grau de participação para além da interatividade transmissional, criando um canal que, por facilitar significativamente a resposta, ‘tende’ a uma interatividade conversacional.

Uma ‘conversa’ que aproxima mais o leitor do colunista do que por carta, fax ou telefone, segundo opinião de quase todos os colunistas (89%). Nem sempre, porém, a opinião do colunista sobre o que quer o leitor faz com que ele corresponda a essas expectativas, ou seja, o fato de achar que o leitor quer influenciar a pauta não faz com que o colunista paute sua coluna pelas sugestões recebidas (só 24% dos que pensam ser essa a intenção do leitor incorporam suas sugestões de pauta). O mesmo ocorre com a possibilidade de influir nas opiniões expressas na coluna (só 22% dos que interpretam assim o interesse do leitor publicam muito seu ponto de vista).

Alguns resultados mostram um incremento da participação do leitor nas colunas. É significativa a revelação da pesquisa de que, em função da utilização do e-mail, a opinião do leitor se tornou mais presente nos artigos e colunas de jornal, mesmo que a maioria dos colunistas (82%) considere não ser essa a principal intenção do leitor que envia uma mensagem. Com a generalização do uso do e-mail, houve redução de 10 pontos percentuais no índice dos colunistas que nunca publicavam as opiniões dos leitores e aumento de 13 pontos percentuais no número dos que passaram a publicar com muita freqüência (aumento que chegou a 18 pontos percentuais nas colunas diárias, as que mais se beneficiaram da agilidade do e-mail). Relevante também é o fato de 92% dos colunistas pesquisados considerarem que as mensagens não têm utilidade para a publicação de opiniões e, ainda assim, 23% deles as publicarem com muita freqüência e 48% com pouca. Também surpreende que 66% dos entrevistados admitam ter mudado de opinião diante de argumentos de leitores, e 77% destes tenham tratado dessa mudança em suas colunas.

Mas o aspecto definitivo e inarredável do ponto de vista da configuração da existência ou do grau de interatividade é o de que, nessa relação entre leitor e colunista, a prerrogativa da produção discursiva daquilo que é publicado permanece inteiramente nas mãos do segundo. O que não significa que não ocorra uma co-produção de sentidos na leitura e interpretação dos textos, mas isso é possível no mais monológico dos discursos e independe de recursos e dispositivos de interatividade que alterarem os códigos unilaterais da mídia, como busco aferir neste trabalho.

Uma quarta questão pode ser traduzida pela discussão de uma função fática do contato por e-mail em análise. Não exatamente aquela função de identificação buscada pelo jornal e outras mídias para a ‘captura’ de seus públicos, por meio de estratégias diversas de captação de atenção e construção de uma certa empatia com temas, abordagens e linguagem presentes na ‘mensagem’. A função aqui implicada é a de sociabilidade. A maior novidade possibilitada pela consulta aos colunistas de tão diferentes editorias, jornais e regiões do país é a verificação de que o fenômeno da introdução do e-mail nas colunas fez emergir, ou potencializou, um interesse latente – principalmente por parte do leitor, mas também do colunista – que alcança uma dimensão para além da interatividade com a mídia, o que inicialmente se apresentava como o foco da pesquisa.

Embora esteja claro o interesse de grande parte do conjunto de leitores e colunistas pela participação do público na ‘produção’ do texto que ‘vai para as bancas’, o desejo que se evidenciou foi o do contato, paralelo ao ‘meio’ jornal, da pessoa leitor com a pessoa colunista. Não há dúvida de que o contato é originado por meio da mídia e a partir de identificações, ou não, com o que ‘dizem’ as colunas. Acontece que, de acordo com o que relatam de forma recorrente os colunistas nos comentários livres de várias respostas ao questionário, mesmo que, na maior parte do tempo, instituídos nos papéis de ‘leitor-público’ e ‘colunista-mídia’, leitor e colunista tendem a uma troca que transborda as páginas do jornal. Alguns colunistas afirmam que o diálogo não se dá em suas colunas, mas na troca de mensagens com o leitor.

Interatividade é “quase amizade”, traduz um colunista em seus relatos. Para 74% dos entrevistados, o leitor quer que o colunista conheça sua opinião sobre o texto publicado, independentemente de que essa opinião convença o articulista ou de que ela seja publicada. O relato do leitor interessado em refletir sobre o editorial referente às eleições, a respeito do qual tinha reparos a fazer, só reforça outros exemplos apresentados pelos entrevistados em que a interação com o articulista está acima do interesse em publicar opiniões. Muitas das funções identificadas pelos colunistas não se vinculam diretamente aos textos jornalísticos – pedir ou dar informações e opiniões, por exemplo, buscar ajuda para trabalhos escolares ou solução de problemas, debater temas existenciais – ou referem-se a fatos conjunturais presentes no noticiário da mídia, mas não necessariamente abordados na coluna. “O que gratifica o leitor é a resposta”, explica um colunista. “O leitor quer atenção”, mencionam alguns dos depoimentos. O leitor quer mesmo é “ser ouvido” afirmam 68% dos colunistas que responderam à pesquisa. E os colunistas também, como ficou evidente em vários depoimentos. Ou, como diz Gerald Thomas (Jornal do Brasil): “nada somos senão seres que vagam pra lá e pra cá em busca de algum calor humano”.[127]

4. A cultura midiatizada

Colocai no meio de uma praça um poste coroado de flores, reuni ali o povo e tereis uma festa. Melhor ainda: convertei os espectadores em espetáculo, fazei deles atores, fazei que cada qual se veja e se goste nos demais para que deste modo todos se achem mais unidos.

Jean-Jacques Rousseau

As instâncias mediadoras tradicionais da vida na sociedade moderna – família, religião, escola, movimentos e organizações sociais, sindicato, empresa, partido político, entre outros locus de geração, manutenção, reprodução ou transformação cultural, econômica e social – experimentam, na contemporaneidade, um processo de hegemonia pelos padrões midiáticos de representação do convívio, em que a sociabilidade dá lugar à ordem da simulação dos vínculos de pertencimento e comunitários. Da mediação das relações entre indivíduos e grupos, chegamos à midiatização da cultura, em que o lugar e os modos de relação na sociedade tendem ao ambiente em que, gradualmente, tudo se processa segundo a lógica, os interesses e as estratégias de produção de sentido do universo midiático. Cada espaço na sociedade e cultura brasileiras – mesmo quando não há a presença concreta da comunicação de massa – parece, hoje, inexoravelmente perpassado ou sob a hegemonia da mídia.

Não se trata de ignorar a contribuição dos Estudos Culturais,[128] que, em suas análises sobre a cultura e a mídia, romperam com o reducionismo da determinação do econômico sobre o social e o cultural, próprio da ortodoxia marxista, resgatando o valor, a indissociabilidade e complexidade do social e do cultural. Aqui, não se referenda nem o determinismo tecnológico – como se evidencia no segundo capítulo –, nem o econômico sobre os processos culturais, mas, simplesmente, identifica-se a hegemonia da mídia nas mediações sociais brasileiras, no atual contexto histórico, enfocando mais os aspectos recorrentes e dominantes, sem desconsiderar – e em parte mencionando no subtópico A força do comum, mais adiante – as estratégias contra-hegemônicas existentes na sociedade e empreendidas por diferentes classes e grupos sociais, em suas diversas formas de mediação e negociação simbólica.

Após ter analisado formas de interatividade entre colunistas de jornal e seus leitores, no capítulo anterior, procuro, no texto que segue, tratar do contexto em que se dão as promessas de interatividade com os meios de comunicação, abordando outros processos de interação entre mídia e público, especialmente no caso da hegemônica tevê, considerando, com Muniz Sodré e Raquel Paiva, que a vida real e a realidade ‘espelhada’ na mídia são cada vez mais indissociáveis, por efeito das estratégias de regulação da primeira pela segunda, em nome do mercado e do capital. A captura da cultura popular pela mídia, o breve assalto aos meios de comunicação pelo fato inesperado – como nos episódios ‘11 de setembro’ e ‘ônibus 174’ – e a constituição do que Sodré chama de o “quarto bios”, o bios midiático, são alguns dos temas aqui abordados.

4.1. Da mediação à midiatização

O estudo da cinematografia de Hollywood costuma suscitar a discussão que questiona se os filmes ali produzidos refletem a sociedade norte-americana ou se a moldam e, por extensão, constroem em nós a visão que temos do modo de vida e dos valores americanos. A mesma reflexão aplica-se à mídia em geral, lá ou aqui. No Brasil, a questão é levantada com freqüência em relação à tevê. Segundo o senso comum e o discurso das empresas de comunicação, os meios são espelhos. Muniz Sodré e Raquel Paiva (2002, p.139) afirmam em O império do grotesco que “a tevê não é, como se costuma propalar, espelho de realidade nenhuma, exceto de si mesma (sic)”.

A identidade entre a mídia e público é percebida na vida cotidiana, quando, por exemplo, a tevê – a mídia hegemônica hoje – “incorpora-se à idéia que o indivíduo tende a fazer de si mesmo e de seus pares” (ibidem, p. 131), por regular ou interagir com os fluxos e conexões sociais que vinculam o indivíduo ao mundo.

Em maio de 2002, a Rede Globo de televisão antecipou para uma noite de quarta-feira a programação que fechava o horário noturno de sexta-feira, ‘transformando’ em sábado o feriado da quinta-feira e criando um ‘clima’ de domingo na manhã de sexta-feira (que não era feriado), para que os trabalhadores assumissem o posto de telespectadores, às sete horas, e assistissem ao início da Copa do Mundo. A festa coreana de abertura dos jogos, em 31 de maio daquele ano, brindou os ‘amigos da Rede Globo’ com narração do comentarista Galvão Bueno. Enquanto uns bonecos semelhantes aos infantis ‘teletubes’ dançavam no gramado, numa mistura de corso oriental com parada da Disney, ele explicava: “caras de computador, tevês, telefones, antenas parabólicas; a imagem de toda a modernidade que vem do céu”. E prosseguia, empolgadíssimo: “eles estão querendo passar a mensagem de que mesmo as mais altas tecnologias e os meios de comunicação mais modernos teriam que ter uma alma e ela estaria no início do mundo, na junção do in e do iang, o grande encontro das forças opostas, energia positiva e negativa, segundo eles, a origem do mundo”. E concluía sua síntese: “... todos falando a mesma língua, a do futebol, contribuindo para a paz mundial”.

Por sua vez, parte do público brasileiro correspondia aos investimentos da emissora, sendo eles próprios também ‘um pouco tevê’: nos estádios coreanos e japoneses que abrigaram a Copa, abastados patriotas que gastaram mais de US$ 6 mil para chegar ao outro lado do mundo seguravam cartazes nas arquibancadas com frases como “TV Globo Galvão, te curto de montão”, “Galvão, filma aqui”, “estou na Globo”, ou “a gente se vê pela Globo” (incorporando o slogan da emissora: “Globo, a gente se vê por aqui”). No Brasil, durante os jogos, centenas de ‘torcedores’ em torno de palanques armados pela Globo em vias públicas, restaurantes ou ginásios cobertos esperavam o sinal da transmissão e o acender dos holofotes para se acotovelar diante das câmeras e pular, simulando animação. Quando, acidentalmente, um flash de notíciamostrava os locais de concentração, antes da ‘preparação’, os torcedores ‘atores’ eram vistos sentados, bebendo suas cervejas (ou tomando o café da manhã, já que era madrugada), conversando, distraídos. Onde havia instalada uma câmera da Globo, como na Rua Alzira Brandão, no bairro da Tijuca, no Rio, a torcida gritava voltada para as lentes, toda vez que as luzes se acendiam, enquanto na praia de Copacabana, onde câmeras das redes BBC ou CNN, por exemplo, acompanhavam de longe a movimentação, a população reunida silenciava, sofria, se abraçava e explodia em comemoração, com os olhos fixos nos ‘telões’ com as imagens dos jogos.

Com o objetivo de ampliar sua audiência, ou o público leitor, a mídia acena com a possibilidade da participação do público como sujeito do espetáculo, para que cada um “se veja e se goste nos demais” (Rousseau, apud Sodré e Paiva, 2002, p. 109), produzindo o “fascínio estético das aparências” (Sodré e Paiva, idem, ibidem) e o controle da cultura popular (identificada com as classes economicamente subalternas) pela cultura oficial (ou dominante). Recurso semelhante sempre foi utilizado ao longo da história por forças concorrentes à hegemonia, como a Igreja, os colonizadores europeus, a burguesia industrial ou simplesmente o capital, com o desenvolvimento da chamada “sociedade de massa”, que ampliou, na segunda metade do século XX, a espetacularização do espaço público, por meio do rádio e, principalmente, da tevê.

No Brasil, esse processo se intensifica a partir de meados da década de 1960, impulsionado pela convergência dos interesses empresariais nacionais e transnacionais de expansão dos mercados consumidores com a estratégia da ditadura militar de despolitização do espaço público. Para consolidar-se como veículo de massa, a tevê segue os passos do rádio e adota como uma das principais estratégias a tradução para o espaço televisivo do éthos festivo e espontâneo do espetáculo e da praça pública, a informalidade na fala, a proximidade com o público do auditório, simulando proximidade com o público telespectador. Com os recursos tecnológicos de interatividade, um novo ciclo do mesmo dispositivo de ‘captura’ do telespectador instala-se. E amplia-se o slogan da emissora hegemônica de tevê: “Globo, cada vez mais, a gente se vê por aqui”.

Ao deslocar a discussão sobre a cultura dos meios de comunicação de massa para as mediações sociais, isto é, “para as diferentes temporalidades e para a pluralidade de matrizes culturais”, Jesús Martin-Barbero (1997, pp. 258, 259) cumpre seu intento de investigar os processos de constituição do massivo a partir das transformações nas culturas subalternas, abrindo a investigação “tanto à institucionalidade quanto à cotidianidade, à subjetivação dos atores sociais e à multiplicidade de solidariedades” que operam simultaneamente na sociedade. Estudos que autonomizam a ‘recepção’ podem, eventualmente, exacerbar ainda mais essa mudança de foco. Dado, entretanto, que, tanto nas formulações sobre a sociedade de massas, de meados do século passado, quanto nas recentes análises sobre o ambiente midiático, se constata a imbricação tanto dos meios lineares tradicionais quanto das redes digitais na função mediadora de família, escola e outras instâncias de sociabilização, os estudos sobre as possibilidades no campo das medições são insuficientes sem uma concomitante análise do papel que desempenham e das estratégias que adotam as forças detentoras da hegemonia na arena em que se processam as disputas de poder.

O encadeamento da cultura popular com a indústria cultural pode ser explicado como um processo em que as expressões simbólicas das classes economicamente subalternas, ao mesmo tempo em que vão perdendo seu enraizamento com o território, são retrabalhadas pelos diferentes dispositivos de comunicação massiva. Comprometida e imbricada com o comércio e a publicidade (leia-se, os interesses do capital acumulado), a comunicação de massa congrega “elites logotécnicas” (editores, jornalistas, produtores culturais) cujo conhecimento técnico se traduz em mecanismos de controle que estão a serviço das classes dirigentes, transformando as mais diversas categorias sociais em ‘público’, sob a bandeira uniformizante do consumo de massa (ibidem, pp. 109-111).

No interior desse quadro hegemônico, as instituições lúdicas da cultura popular tendem a ser expropriadas de sua fermentação alternativa ou de seu comunitarismo diverso em favor dos espetáculos urbanos, onde pontifica a mídia, impondo a imagem pública, forma acabada da mercadoria, como modo dominante de relacionamento entre os indivíduos e o mundo (ibidem, p. 117).

Segundo Sodré (2002, p. 21), a sociedade contemporânea (‘pós-industrial’) rege-se pela midiatização, “pela tendência à ‘virtualização’ ou telerrealização das relações humanas, presente na articulação do múltiplo funcionamento institucional e de determinadas pautas individuais de conduta com as tecnologias da comunicação”. Ao distinguir o termo “midiatização” de “mediação” e também de “interação” – que define como um dos níveis operativos do processo mediador – ele argumenta que, para inscrever-se na ordem social, a mediação se traduz em instituições ou formas reguladoras do relacionamento em sociedade. Tanto as instituições mediadoras quanto as linguagens investem-se de valores e normas institucionalizadas (orientações práticas de conduta) mobilizadores da consciência individual e coletiva, que legitimam e outorgam sentido social às mediações.

Já midiatização é uma ordem de mediações socialmente realizadas no sentido da comunicação entendida como processo informacional a reboque de organizações empresariais e com ênfase num tipo particular de interação – a que poderíamos chamar de “tecnointeração” –, caracterizada por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium. Trata-se de dispositivo cultural historicamente emergente no momento em que o processo da comunicação é técnica e industrialmente redefinido pela informação, isto é, por um regime posto quase que exclusivamente a serviço da lei estrutural do valor, o capital, e que constitui propriamente uma nova tecnologia societal (e não uma neutra “tecnologia da inteligência”) empenhada num outro tipo de hegemonia ético-política (ibidem, pp. 21, 22).

A mídia não se presta apenas a uma dominação cultural interclasses. Sendo ela mesma um sistema indissociável do mercado e do capital, busca regular toda a vida social. Sodré e Paiva lembram que a midiatização da vida social – que assume a participação na forma de controle do espetáculo popular pelo Estado e corporações empresariais, além de tender a reduzir tudo à imagem e trocar a visceralidade da mobilização social pela passividade visual – não é exclusiva do Terceiro Mundo e começa já no século XIX, com o crescimento populacional e o aumento das cidades, quando o poder do Estado passa a buscar o controle das manifestações populares – políticas ou culturais – não mais caso a caso, e sim no raio de ação da vida por inteiro (Sodré e Paiva, 2002, pp. 118,119).

Fazer a existência passar dos ciclos de vida e morte regidos pela comunidade para o império do trabalho morto incorporado nas máquinas a serviço do capital e do mercado é o percurso principal desse grande controle, que desemboca na existência artificializada pela mídia. Sociedade de informação quer dizer sociedade de sistemas totais (econômico-político, cultural, sócio-antropológicos) implementados por redes (cibernéticas) e imagens (ibidem, p. 119).

No ambiente midiático ou virtual, que artificializa existência e ambiência humanas, a imagem do acontecimento “faz-se passar por sua realidade, mas ficando ao largo da movimentação concreta e histórica dos corpos nos espaços humanamente marcados da cidade”, argumentam Sodré e Paiva. Recalcam-se historicamente a praça, a feira e a festa. No lugar da rica ambivalência existencial do símbolo (vida/morte, prazer/dor, conflito/paz etc.), “impõe-se a ordem industrial dos signos e dos objetos, regidos pelo estatuto da economia mercantil” (ibidem, p. 119).

O espetáculo sígnico ou imagístico da mídia contrapõe-se à teatralização coletiva e, sobretudo vivida (sic), do êxtase implicado nas expressões vitalistas da cultura popular, em que se mantém – assim como a obra-de-arte com referência ao sentido e à verdade – uma reserva ou um potencial de ações humanas (ibidem, p. 119).

4.1.1. Regulação e interação com os acontecimentos

Há vezes em que a interferência da mídia nos acontecimentos é explícita, sem a sutileza e complexidade do ambiente interpenetrado ou simulado. Em 11 de abril de 2002, na Venezuela, uma enorme orquestração de fatos foi produzida pela mídia local, em conjunto com setores militares e grupos empresariais descontentes com o governo do presidente Hugo Chávez, tendo ainda o apoio do governo norte-americano (segundo a imprensa daquele país). Depois de alguns lock-outs e passeatas da oposição em Caracas, cuja repressão pelas forças do governo provocou mortes e teve grande repercussão na mídia internacional, um golpe militar contra o Estado foi desencadeado, com rápida adesão e divulgação pela imprensa local da versão da renúncia do presidente e nítido apoio às forças golpistas, que romperam a ordem institucional e fecharam o Legislativo e o Judiciário. Não houve menção à resistência que tomava as ruas e construiu-se uma situação fictícia de ‘página virada’. No Brasil, a mídia apressou-se em repassar as notícias com o mesmo enfoque. Nem a imprensa, nem as autoridades legislativas e executivas se referiram ao acontecimento como um ‘golpe’, preferindo criticar o presidente Chávez e insinuar que, com suas atitudes e políticas, ele ‘pedira’ esse desfecho – as exceções foram o então presidente Fernando Henrique Cardoso e o Partido dos Trabalhadores, que divulgaram notas oficiais criticando a ameaça à ordem democrática no continente. Em menos de 48 horas, no entanto, a resistência da maioria da população, especialmente dos mais pobres e identificados com a “revolução bolivariana” conduzida por Chávez via voto, reverteu o golpe, libertando e reconduzindo a seu posto o presidente confinado.[129]

Nas edições imediatamente posteriores, as revistas semanais brasileiras de maior tiragem, que haviam praticamente comemorado o fato, mudaram o tom e já chamavam de conspiração e golpe contra a democracia a troca de governo que recebeu do Fundo Monetário Internacional (e não de um outro governo) a primeira mensagem oficial de reconhecimento. No entanto, apenas o diretor de redação da revista Época, Paulo Moreira Leite, teve a honestidade de fazer uma autocrítica:

A imprensa mundial foi apanhada no contrapé durante a crise na Venezuela. Época não foi exceção... Ao longo da semana leitores escreveram para se queixar de que, mesmo sem poder adivinhar o futuro, a revista poderia ter condenado o golpe de modo contundente. Época nunca manifestou nenhuma simpatia pelos conspiradores, mas aceita a crítica (Época, 22/04/2002, p. 18).

Nem a mais breve e superficial análise discursiva, porém, redime a revista Época. O tom supostamente legalista e democrático da semana seguinte – “De volta nos braços do povo”, “proeza igual só a de Perón”, “muita gente se precipitou ao comemorar... depois teve que engolir em seco o fracasso do golpe”, “qualquer mudança fora das regras do jogo merece repúdio” – não apaga as intenções e expressões impressas no noticiário da edição anterior: “Do palácio para a cadeia”, “Chaves é derrubado numa ação de militares e povo na rua”, “sua segunda aventura política terminou na madrugada de sexta-feira”, “o caudilho da boina vermelha se foi, mas os problemas que ele se propôs a resolver, de seu jeito destrambelhado, permanecem” (Época, 15/04/2002, pp. 66-69; 22/04/2002, pp. 18, 72-74).

Outro exemplo de gerenciamento explícito dos acontecimentos pela mídia – em parte, também um gerenciamento da mídia por interesses de Estado, com o objetivo de atenuar a repercussão de fatos graves – ocorreu em 11 de março de 2002, durante a invasão do território palestino, na Cisjordânia, pelo exército de Israel, que incluiu o ataque e destruição parcial das instalações da Autoridade Nacional Palestina, em Ramala, seguido de assassinatos e a destruição de centenas de residências em Jenin, e o cerco a outros centros urbanos, durante semanas, como em Nablus, Qalqilya e Belém, onde cerca de 300 pessoas se refugiaram na Basílica da Natividade, sitiada pelos tanques. O bloqueio por parte do governo israelense à cobertura dos acontecimentos pela imprensa estrangeira, alegando ‘motivos de segurança’, e os filtros e interpretações praticados pela imprensa israelense impediram que se tivesse, fora do local do conflito, uma idéia precisa da extensão das violências cometidas contra a população civil e suas residências, especialmente em Jenin, onde havia denúncias de massacres. A falta de provas documentais e os obstáculos antepostos pelos governos israelense e americano à visita ao local por observadores internacionais acabaram por dissuadir a Organização das Nações Unidas – ONU de pedir a punição aos crimes ali praticados pelo Estado de Israel (Jornal do Brasil, 16/04/2002, p. 8; 29/04/2002, p. 9).

O que acontece, porém, quando a realidade irrompe com toda a sua força o espaço midiático, sem aviso, sem roteiro e direção cenográfica por parte da mídia, sem intervalos para comerciais, impondo seu tempo e sua presença?

Todas essas características compuseram o evento comunicacional (além de político, religioso etc.) mais significativo desse início de século, produzido pela organização Al Qaeda, no dia 11 de setembro de 2001, ao atingir com dois aviões comerciais seqüestrados durante vôos domésticos americanos as torres gêmeas do World Trade Center, provocando milhares de mortes de civis e soldados do corpo de bombeiros, e o desabamento completo dos maiores edifícios erguidos em solo americano, símbolos, ao lado de Wall Street, do poderio do mercado financeiro mundial, plantados no coração da Ilha de Manhatan, em Nova Iorque.[130]

O acontecimento presenciado quase simultaneamente por bilhões de pessoas em todos os pontos do mundo em que chegam as imagens de tevê foi mais do que uma ação militar ou um conflito político internacional, daqueles que se vêem diariamente nos jornais matutinos ou telejornais noturnos, nem sempre explicados, mas sempre cuidadosa e convenientemente editados e narrados.

Outras ações violentas de larga escala mais graves já existiram na história, como o lançamento das bombas atômicas pelos Estados Unidos sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki ou o extermínio pela Alemanha de milhões de judeus, na Segunda Guerra Mundial. Sem a capacidade de imobilizar o inimigo, do primeiro exemplo de genocídio, ou de eliminá-lo por completo, como pretendido no segundo, mas com a potência de um acontecimento acompanhado on-line pelo mundo e recheado de referências simbólicas ao embate cultural entre o Oriente e o Ocidente (Nova Iorque como cidade síntese da cultura ocidental hegemônica); ao embate financeiro entre a periferia e o centro (o WTR como símbolo máximo, junto com Wall Street, do capitalismo financeiro mundial); e ao embate religioso entre os fundamentalismos muçulmano e cristão (Nova Iorque como ‘Meca’ judaico-cristã), o ataque de 11 de setembro foi, acima de tudo, um ato midiático de guerra.

Nesse exemplo extremo e completo – e igualmente complexo, razão pela qual não será analisado em profundidade no presente trabalho –, a mídia certamente não foi apenas espelho, mas parte integrante e determinante dos acontecimentos. A onipresença, instantaneidade e força da mídia foi usada pelos executores do atentado como multiplicadoras do efeito de demonstração de sua presença e força, e da vulnerabilidade do ‘império’ americano e de seus símbolos, vulnerabilidade até então insuspeita – pelo menos pela maioria dos próprios americanos.

Os efeitos de mensagem do atentado contra o domínio financeiro, cultural, religioso e bélico do ‘império’ americano foram imediatos, o que não impediu que a iniciativa e o gerenciamento da interpretação dos fatos e produção das notícias voltassem rapidamente ao controle de quem dispunha da maior força econômica, militar e, evidentemente, comunicacional. O acontecimento gerou incontáveis coberturas jornalísticas, intensa manifestação de opinião dos leitores, ouvintes e telespectadores da mídia, além de farta produção acadêmica e literária.

A maneira como a mídia, o governo americano e os interesses que ambos representam regularam e interagiram com a informação fez com que a presença concreta do inimigo externo em território norte-americano favorecesse os grupos conservadores daquele país, que acumulavam forças desde os anos 60 (em oposição aos movimentos pacifistas, liberalizantes dos costumes e defensores de direitos civis, que tiveram sua última expressão na Casa Branca na figura do ex-presidente Jimmy Carter, Prêmio Nobel da Paz em 2002) com Ronald Regan, nos 80, George Bush (o pai), nos 90, e George Walker Bush (o filho), desde as questionadas eleições de 2000. O impacto emocional do atentado e as interpretações subseqüentes, além de fortalecer o até então medíocre Bush, motivaram a maioria da sociedade americana a apoiar medidas retrógradas no âmbito interno, como a redução de direitos civis ou o controle da internet, e no âmbito externo, como a adoção de políticas ainda mais fundamentalistas, unilaterais e belicistas. Primeiro, o Afeganistão foi destruído e invadido, sob o argumento de caçar líderes da Al Qaeda e vingar-se do governo Taleban, que abrigou a organização terrorista naquele país. Na seqüência, vieram o recrudecimento da política de espionagem, assassinatos e dominação bélica no exterior e declarações unilaterais de guerra e ameaças de rompimento com a ONU, ações sempre devidamente apoiadas pela mídia americana.

No Brasil, pouco mais de um ano antes do atentado de 11 de setembro, um evento violento na cidade do Rio de Janeiro, embora com características diversas daquele, produziu também o efeito de captura do tempo e espaço da mídia por algumas horas. A mídia (equipes de tevê, fotógrafos e repórteres de jornal e rádio) foi personagem dos acontecimentos reais, e o ‘público’, personagem do espetáculo midiático. Assim como o episódio de 11 de setembro, o do ônibus 174 motivou interesse incomum dos leitores em escrever para as seções de cartas e para os colunistas, como se verificou na observação empírica dos jornais e foi confirmado pelos colunistas pesquisados, razão pela qual apresento a seguir uma análise do caso que envolveu a mídia, a sociedade e suas éticas.

4.2. Ônibus 174 – Uma tragédia carioca

Na tarde e noite de 12 de junho de 2000, um acontecimento violento num ônibus da linha 174, Gávea – Central do Brasil, no Rio de Janeiro, envolveu personagens e seguiu roteiro rumo a inexorável destino trágico, como numa tragédia grega, em que o mito se apresenta por mímesis: “a imitação de ações de vida que despertam terror e piedade”.[131] O mito nessa tragédia carioca foi um encontro, em situação limite, de diferentes éticas presentes na sociedade brasileira. Ética aqui entendida, essencialmente, como a forma pela qual o desejo de continuidade do grupo atravessa o indivíduo.[132]

Aparentemente, tudo começou quando um passageiro que saltou do ônibus denunciou à polícia que havia um homem armado a bordo. Uma patrulha da PM interceptou o veículo na Rua Jardim Botânico, altura do Parque Lage, iniciando-se, então, uma maratona em que Sandro do Nascimento, 21 anos, manteve 11 passageiros como reféns, enquanto tentava negociar com a polícia sua fuga. Durante angustiantes quatro horas e meia, ele ameaçou matar, entre outros, Luana Guimarães Belmonte, 19 anos, Janaína Lopes Neves, 23 anos, e Geisa Firmo Guimarães, 20 anos, que eram agarradas pelo pescoço e puxadas pelo cabelo ou pelo braço de um lado para outro dentro do ônibus, sob a ameaça de um revólver calibre 38. Janaína chegou a ter sua morte simulada no chão do veículo, cercado pela polícia, a imprensa e populares. No momento final e mais tenso do episódio, Sandro desceu do ônibus com a arma apontada para Geisa, quando o policial Marcelo Oliveira dos Santos, 27 anos, da tropa de elite da PM, partiu em sua direção atirando com uma submetralhadora. Sandro não sofreu qualquer ferimento, enquanto a passageira caía, atingida por quatro tiros,[133]morrendo a caminho do hospital. Ato contínuo, cinco policiais agarraram Sandro e o colocaram dentro de um camburão, partindo em direção ao Hospital Souza Aguiar, distante dali, onde ele chegou com o pescoço quebrado, morto por estrangulamento.

4.2.1. Violência e as éticas das personagens

Tudo parecia seguir uma predeterminação, como numa tragédia, em que mesmo o acaso da presença daquelas pessoas fazia sentido. Até algumas ações aparentemente sem nexo das ‘personagens’ dessa história encontram a razão de ser no éthosque a cada um envolve, que cada um integra e com o qual está comprometido. Um trágico choque de diferentes éticas particulares a grupos e indivíduos que coexistem numa sociedade partida e dividida em relação ao ‘bem comum’.

Herói trágico, ética da revanche

Filho de Clarice Rosa do Nascimento, morta a facadas e parcialmente degolada em sua presença quando criança, Sandro, aos 13 anos, pertencia ao ‘bando’ de 72 meninos e meninas de rua que se abrigava sob as marquises de edifícios próximos à Igreja da Candelária, no Centro do Rio, em julho de 1993, quando oito foram mortos por policiais enquanto dormiam.[134] Sem apoio efetivo de governos e organismos da sociedade – mesmo após a evidência do desamparo daqueles adolescentes após a chacina –, “Mancha”, como era conhecido na época, seguiu fazendo do crime meio e modo de vida. Preso, fugiu do reformatório; condenado, fugiu da delegacia. Ressurgiu epicamente num banal porte de arma denunciado por um anônimo a uma patrulha.

Colocado, de repente e mais uma vez, no centro da cena nacional, Sandro vive intensamente o reconhecimento[135] de si como o protagonista daquela tragédia. Encurralado e, provavelmente, drogado,[136] ele assume integralmente a essência e a face do mal na sociedade: humilha e ameaça ostensivamente suas reféns, vocifera contra a polícia, obriga uma das passageiras a escrever com batom no vidro do ônibus que é “louco”, que tem “um pacto com o diabo” e que vai “matar geral”, se não lhe fosse permitida a fuga.

Nas grandes cidades brasileiras, “o garoto negro e pobre é quase invisível” diz o ex-coordenador de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares (apud Roitman, 2000, pp. 60, 61)[137]. No ônibus 174, Sandro adquire, enfim, a visibilidade negada. Sua expressão alucinada, com o rosto negro, magro e desdentado, envolto com um pano e um boné, gritando e apontando sua arma contra a polícia na janela do ônibus virou um ícone da maldade e do terror na cobertura da imprensa e no imaginário da população – o negro mau e diabólico[138] –, dispensando o recurso da máscara de pano embebido em gesso, herdada dos primórdios da tragédia.[139] Sua face destacada de uma foto e usada como vinheta, junto à frase “Inferno no 174”, ilustrava toda a cobertura do caso pelo jornal Extra. Ao comentar o caso, Rosinha Matheus, esposa do então governador Anthony Garotinho, chegou a afirmar, que “pela foto, está claro que ele estava endemoninhado” (Xexéo, in Jornal do Brasil, 16/06/2000, p. B6).

A história de Sandro atingia o ponto de mudança – sua peripécia[140] – em que o drible à morte – o máximo de boa fortuna a que os seus iguais têm direito – cederia vez para o fim trágico, que ali ele desafiava mais uma vez, incorporando tudo de mau que lhe fora legado e atribuído. O herói da ética da revanche, da vingança contra todos, no ‘dia da caça’, despertando o terror. Mesmo assim, em meio a todo o clima de negação de qualquer valor virtuoso, ele apenas simula a morte da refém. Ameaça com o ‘mal’ total contra o ‘bem’ – na figura dos passageiros indefesos –, mas, na prática, impõe um limite, despertando piedade nas reféns mais assediadas por suas ameaças.

As vítimas e a ética solidária

Depois de arrastada de um lado para outro, Luana foi deixada de lado e passou a conversar com o agressor e as outras passageiras, buscando acalmá-los. Poucos dias após o incidente, a estudante de Comunicação publicou artigo nos jornais, confirmando suas ações durante o episódio, movidas por uma ética solidária. “Não desejava a morte de Sandro, preferia que ele nunca tivesse existido” (Jornal do Brasil, 14/06/2000, p.24), declarou, argumentando que ele também era uma vítima da sociedade.

Janaína – que, entre outros momentos de tortura, viveu a simulação de sua própria morte – pediu, enquanto pôde, que os policiais atendessem às exigências de Sandro, para poupar a vida de todos. No dia seguinte, a estudante de Administração declarou aos jornais que sentia “raiva e pena” de Sandro: “ele é um espelho do que a sociedade faz com pessoas como ele” (O Globo, 14/06/2000, p. 21).

Quem, no entanto, levada pelo acaso de estar na hora e no lugar ‘errados’, viveu a condição extrema da mudança trágica de sua vida em direção à má fortuna foi Geisa. Seu caminho cruzou com o de Sandro no momento da mudança de fortuna de ambos – peripécia e reconhecimento simultâneos:[141] ela, recreadora para meninos pobres da Rocinha; ele, ex-menino de rua; ambos buscando alternativa de vida para os que crescem pobres e marginalizados; ela trabalhando segundo a ética solidária e comunitária, ele vivendo segundo a ética do crime. No que parecia ser o momento final, ele sobrevive; ela, transformada em mártir, morre ‘em cena’ – uma catástrofe raramente presente nas tragédias, segundo Aristóteles (1998, X64).[142]

A polícia e a ética da punição

Ao determinar a morte da refém, com sua desastrada atuação no Jardim Botânico, a polícia é movida por sua ética de ‘justiceiros’, de combater ‘o mal’ com o mal, mesmo à custa da eliminação do ‘bem’. Uma ética da vingança, de eliminar bandidos – que não difere da ética da revanche do bandido, exceto pelo agravante de ser exercida em nome do Estado – incorporada pelo atirador despreparado que partiu para o frustrado ato ‘de heroísmo’ em que mataria Sandro num lance espetacular, mesmo sem necessidade e expondo a refém a grave risco. Mas o bandido sobrevive.

Aí entra novamente a polícia com a execução de Sandro, desarmado e sob custódia, em nome da ética da exclusão total – uma radicalização da exclusão social, punição sem julgamento e sem atenuantes, vingança, justiçamento, execução dos excluídos rebeldes.[143] A polícia não obedece inteiramente ao poder do Estado, não se sensibiliza com a voz da comunidade, não segue a lei e nem se pauta pelos princípios que dela emanam. Ela faz e segue suas próprias leis, segundo a ética privada do justiceiro, muitas vezes por interesses meramente pecuniários – conforme a ética da corrupção, do mercado na ilegalidade –, outras, por interesses pessoais ou de grupo de agentes policiais envolvidos com atividades criminosas – numa ética utilitarista ou individualista também num campo da ilegalidade. Mas sua existência nesses moldes, porém, tem amplo respaldo por parte da sociedade, da mídia e do Estado.

4.2.2. Mídia e sociedade – éticas do coro e da platéia

O que torna o episódio do ônibus 174 paradigmático é não só a extrema violência vivida por aquele grupo de pessoas nem as diferentes reações de cada um, mas, principalmente, o fato de tudo ter sido acompanhado por milhões de pessoas ao vivo pela tevê[144] e, posteriormente, pela imprensa, desencadeando amplo debate. A mídia ouviu governantes, personalidades, religiosos e especialistas em segurança, balística, medicina legal e direito. O assunto monopolizou editoriais, artigos de colunistas, enquetes on-line e uma avalancha de e-mails, faxe cartas de leitores que chegaram às redações desde os primeiros momentos após os acontecimentos e ocuparam espaço sem precedentes e por vários dias nas páginas dos jornais. Houve cerimônias religiosas e manifestações de rua. Desde o início dos acontecimentos mediados pelo coro[145] – composto principalmente pela mídia, mas também pelos curiosos que afluíram ao local e, ao final, chegaram a tentar linchar o assaltante –, foi como se nenhum segmento social tivesse deixado de acompanhar a tragédia ou reagir numa catarse[146] da platéia ­– composta pelo público da transmissão direta de tevê e rádio, assim como pelo que acompanhou ou interagiu com a repercussão da tragédia nas coberturas posteriores das emissoras de tevê e rádio, jornais e sites da internet.

A platéia frente à tragédia e aos personagens

Na platéia estavam presentes todas as éticas, do apoio ao justiçamento pela polícia à atitude solidária das meninas, além do conflito entre discutir ou ocultar as implicações sociais do caso. Também a ética da revanche contra a polícia, verbalizada em depoimentos para o documentário Ônibus 174, o filme – a realidade transcende a ficção, dirigido por José Padilha, quando um ‘assaltante profissional’ diz que, caso Sandro conseguisse atingir alguns policiais e escapar pela Floresta da Tijuca, atrás do Jardim Botânico, seria uma ‘festa’.

A atitude dos governantes diante dos fatos foi mais um indício do choque das diferentes éticas. Comportando-se como se fossem meros espectadores, pretendendo não ter responsabilidade com as causas ou o desfecho dos acontecimentos, dando declarações e agindo menos comprometidos com o interesse público do que com a imagem de seus governos, deixaram evidente seu compromisso com a ética da ocultação dos fatos e de suas causas, do ‘parecer ser’, do marketing acima de tudo.

Os leitores de jornal inundaram as seções de cartas, a maioria criticando a polícia: “o princípio que move a polícia carioca é o do extermínio e não o da preservação da vida”,[147] “depois de quatro horas de negociações, em apenas um segundo tiraram a vida de uma inocente”,[148] “a ação final da PM foi, no mínimo, desastrosa, pondo em risco a todos”.[149] Criticaram também as autoridades: “a segurança pública não é prioridade de nossos governantes”,[150] “os filhos de nossos dirigentes não andam de ônibus”,[151] “se a jovem fosse filha do governador, ainda estaria viva”.[152]

Em Aristóteles, toda tragédia tem seu herói, personagem que não deve ser nem muito bom, nem muito mau, que deve ser capaz de despertar piedade e terror com seu destino. Sandro seguiu sua peripécia evitando a inexorabilidade da morte violenta em assaltos, prisões e fugas, até o desenlace no ônibus 174, e encarna, nessa tragédia, a figura do herói que sobreviveu à miséria, à marginalidade, às execuções de meninos de rua por policiais, confrontando a sociedade publicamente com suas mazelas. Os leitores de jornal se dividiram em seus comentários sobre Sandro: “o que mais me incomoda é a preocupação que a imprensa tem com o delinqüente, como se fosse a vítima e não o algoz”;[153] “ele não nasceu assim. O que ele fez foi horrível. Horrível também foi o que fizemos com ele durante toda a sua vida”.[154]

Como vimos, com Geisa também ocorre a ‘mutação’ rumo à má fortuna. Seu encontro com a morte como antítese de seu movimento de busca de vida e ‘salvação’ para tipos como seu algoz naquele momento reveste-a de certa ‘subdivindidade’ que a determina como ser trágico.[155] Com sua morte, ela passa da condição de vítima à de mártir, na visão da mídia, endossada pela população nas cartas escolhidas para publicação nos jornais: “Ah, minha cara Geisa, como gostaria de dizer que sua morte não foi em vão. Como gostaria de dizer que seu sangue inocente lavou nossa inépcia para a civilização”,[156] “Geisa foi morta pelo bandido, pela polícia, pelo governador, pelo presidente, pela população, pela nação”.[157]

Um mês após o episódio, uma enorme mobilização em nível nacional reuniu vítimas da violência urbana e diversos setores da sociedade numa campanha denominada “Basta!”, catarse pela paz, que sinalizava de forma difusa o destinatário do protesto e o diagnóstico das origens da violência – ‘insegurança’ ou ‘sensação de insegurança’ para alguns –, obtendo apoio explícito de toda a mídia, empresários, governos e até da polícia.[158]

Na mesma época, porém, um tipo inverso de ritual catártico da platéia banalizava o sentido da tragédia: a caracterização, com casaco, boné e óculos, ‘de Sandro’ passou a integrar o rol de fantasias usadas por jovens da Zona Sul carioca que lotavam dezenas de ônibus, todos os finais de semana, para participar de concorridas raves[159] em Itaipava, na serra de Petrópolis. Durante a noite, de tempos em tempos, os ‘Sandros’ agarravam à força as meninas que passavam, simulando as cenas reais vistas na tevê.

O coro e a ética utilitária do espetáculo

Enquanto os jornais contribuíram para o debate na sociedade, com intensa cobertura e muitas páginas com diferentes opiniões de leitores e articulistas – chegando a haver reimpressões dos principais jornais cariocas no dia seguinte, o que não ocorria desde a morte da princesa Diana –, o mérito da tevê, destacado por muitas cartas aos jornais, foi manter as câmeras ligadas ininterruptamente (GloboNews e Record). O efeito da presença da mídia na cena, porém, gerou avaliações diferentes entre os leitores. Muitos consideraram que ela evitou uma ação da polícia que atingisse ainda mais reféns,[160] outros, que isso prolongou o impasse entre Sandro e a polícia. No documentário Ônibus 174, o filme – a realidade transcende a ficção, dirigido por José Padilha (2002), os depoimentos de policiais e cinegrafistas indicam que a presença da tevê teria motivado a intervenção, por telefone, de autoridades superiores ao comando da polícia no local, para que Sandro fosse poupado de uma morte ‘ao vivo’, o que impediu a ação dos atiradores de elite (snipers), que tiveram várias oportunidades de alvejá-lo, a partir das posições assumidas junto ao muro do Parque Lage. Abdicar dessa ação foi a maior crítica à polícia feita pelos ouvintes da rádio CBN, em enquete realizada no dia seguinte.

Rechaçando as câmeras a princípio, mas depois jogando com a presença da mídia, Sandro foi um dos que  mais contribuiu para introduzir o elemento da farsa naquele ‘espetáculo’. De tempos em tempos, lançava desafios à polícia e à mídia : “Isso aqui não é filme de ação não, aqui o bagulho é sério (...) Tá pensando que isso aqui é filme? Filme é o ‘caralho’, a chapa aqui é quente! (...) Isso aqui não é filme não... aqui acaba mal”. Fato é que o grau de tensionamento das diferentes éticas existentes na sociedade brasileira, refletido naquela tragédia, fez com que tudo transcorresse da pior maneira, sob a luz dos holofotes da mídia.

Superados os primeiros momentos de comoção, a mídia – em especial a tevê – passou a encenar a usual banalização da violência, mediante a espetacularização do acontecimento e da superficialidade na revisão do tema, além de retomar sua ética utilitarista e mercantil, incorporando os aspectos estéticos da tragédia como algum tipo de nova moda. No dia 29 de julho de 2000, o programa “Criança Esperança”, da Rede Globo, mostrou as cenas em que Janaína escrevia as palavras ditadas por Sandro, de forma invertida, para serem lidas de fora do ônibus. O apresentador elogiou a coragem e a destreza da jovem durante o ‘seqüestro’[161] e lhe pediu que escrevesse: “Criança Esperança – este programa é dedicado a Geisa”. Nada foi perguntado a Janaína. Ela nada falou. Nada foi mencionado sobre suas afirmações de que Sandro também era vítima. Logo ele, reconhecidamente menor abandonado, uma criança sem esperança, que sociedade e mídia viram sobreviver na Candelária e cujo destino não foram capazes de alterar.

Na seqüência da descontextualização do gesto de Janaína, também a publicidade fez uso da ‘nova grife’ da escrita invertida no vidro para vender serviços de telefonia e bancários,[162] confirmando de vez a ética da mídia comprometida com o interesse de mercado, acima de qualquer sentido humano da tragédia.

Toda tragédia, em Aristóteles, tem um , que se constitui de “todos os casos que estão fora da ação e, muitas vezes, dentro” dela, “até o lugar onde se dá o passo para a boa ou a má fortuna”, e um desenlace, que é “todo o resto da ação... do início da mudança até o fim” (Aristóteles, Poética, XVIII 105). Na tragédia carioca, o desenlace tem início no momento em que Sandro é identificado como ameaça e o ônibus é cercado, indo até o momento de sua morte, fora de cena. Mas a morte de Sandro sob custódia da polícia – cujos autores foram absolvidos pelo Tribunal do Júri, dois anos depois – tem menos a ver com o desenlace da tragédia do ônibus 174, do que com o em que estão as origens do que aconteceu naquele confronto. Ela é, de fato, expressão do dentro da ação. que expõe a realidade brasileira geradora de violência: não apenas aquela anômica – da inadequação ou ausência de leis e normas sociais – das ações de psicopatas, do ilegalismo, mas principalmente a violência institucional – invisível, mas estrutural – do estado de violência.

Chacina da Candelária, Ônibus 174... A continuidade da trilogia[163] está aberta para o próximo ato, dado que todos os ingredientes dessas tragédias ainda estão presentes na sociedade brasileira.[164] Mas o tríptico trágico é pouco para conter o drama real. Na grande e inconclusa tragédia brasileira, a ética da mídia – o coro que narra e gerencia a mímesis dos atos de vida da população, antes em seus ritos de representação, hoje midiatizando toda a cultura – parece estar inteiramente comprometida com a máxima de que o espetáculo tem que continuar.

4.3. O ambiente midiático

Ironicamente, todas as fotos e imagens do momento da morte de Geisa, diante do ônibus 174, trazem ao fundo, como uma lua, luminosa propaganda do UOL (Universo On Line), maior provedor brasileiro da internet, símbolo do virtual, de uma época em que tudo é mediado num ambiente em que a mídia parece substituir o real. Mesmo os fatos que repentinamente irrompam na realidade e no universo ‘paralelo’ da mídia, desorganizando momentaneamente a grade da programação – nos diversos sentidos a que se possa aludir –, rapidamente são absorvidos pelo ambiente midiático, quando não surgem já completamente imbricados com os códigos e linguagem da mídia, como os episódios do ‘11 de setembro’, deliberadamente, ou do ‘ônibus 174’, de forma espontânea.

Embora, no caso do ônibus 174, a maior parte da mídia brasileira tenha condenado a ética de justiçamento da polícia, problematizado a ética da vingança de Sandro e elogiado a ética solidária das vítimas, a tendência verificada é que, quando esse ou outros acontecimentos violentos freqüentes submergem sob a superfície do cotidiano, a mídia se volta majoritariamente para sua tarefa diária de contribuir para a produção do ‘caldo de cultura’ – desigualdades econômicas e sociais, desejo insaciável de consumo, massificação cultural vertical e desenraizadora de tradições – de onde emergem os novos ‘casos’, que a mesma mídia irá cobrir com a maior surpresa e suposta indignação.

Após o episódio de 11 de setembro, a mídia americana apoiou abertamente as ações de justiçamento contra a Al Qaeda, afegãos ou muçulmanos, ocultou as origens e contextos que motivam ações segundo a ética da vingança, assim como ocultou movimentos segundo ética solidária, que levaram milhões de pessoas em todo o mundo a participar de demonstrações pacifistas desde 2001, culminando com as megamanifestações em todos os continentes contra a guerra ao Iraque, em 15de fevereiro de 2003, minimizadas na cobertura da mídia para a população americana.[165] Também a BBC inglesa, no noticiário World This Week (8/3/2003), distorceu fatos ao relatar reunião dos países árabes, que se manifestou unânime contra o ataque ao Iraque, como um encontro dividido e “insuficiente para fazer o governo de Washington pensar de novo” e, principalmente, ao montar seqüência de imagens de uma reunião das Nações Unidas de forma a apresentar, após a fala do representante inglês, Jack Straw, favorável à guerra, um longo aplauso do plenário, quando a rara ovação – só registrada uma vez, no passado, após um discurso do sul-africano Nelson Mandela – fora, na verdade, motivada pelo discurso do representante francês, Dominique Villepin, veementemente contrário à guerra.

O papel mediador e constituinte da realidade que tem a mídia é, freqüentemente, simultâneo e inseparável dos acontecimentos. Ela atua diretamente sobre os fatos, interpretando-os ou mesmo produzindo-os. Ao interagir na realidade, em nome do capital e do mercado – mas sem assumir essa condição –, a mídia acaba revelando-se, refletindo fragmentos de si mesma. Ao incluir a presença ou participação do público – originalmente via a identificação com a platéia do rádio ou da tevê, depois via controle das audiências silenciosas por dispositivos de suposta interatividade –, a mídia tende a absorvê-lo como elemento do próprio discurso, linguagem e estética, obtendo um efeito de identificação com a mensagem por parte do público, semelhante àquela descrita de forma elitista e irônica por Rousseau, na epígrafe deste capítulo.

A tevê e seu público, por exemplo, mostram-se, em muitos momentos, semiologicamente indissociáveis. “Não existe mais diferença entre a televisão e o público depois de algum tempo”, pensa o psicanalista francês Jacques Lacan,citado por Sodré e Paiva (2002, p.131), ao identificarem como as representações sociais, no sentido de “forma de conhecimento a partir do senso comum e orientada para a figuração de uma realidade qualquer”, são incorporadas aos conteúdos discursivos da tevê:

As representações sociais resultam da ação comunicativa entre indivíduos e grupos: a força de seu trânsito social relativiza a dicotomia indivíduo/grupo. Ou seja, a representação social em vigor contém potencialmente a metáfora de um ‘corpo grupal’, apoiada em imagens e fantasias comuns a todos os membros da coletividade. Na sociedade midiatizada de hoje, a televisão, enquanto mídia hegemônica, tende a instituir-se como esse ‘corpo grupal’, reinterpretando semioticamente determinados discursos do senso comum e tornando-se, por força do mercado de consumo, mais assimilável pelo público do que verdadeiramente comunicativa.

Segundo Sodré, vivemos um momento em que os três gêneros de existência descritos por Aristóteles – o bios apolaustikos (vida prazerosa, agradável, do corpo, dos gozos), o bios politikos (vida da política, dedicada à excelência e que possibilita as demais formas de vida) e o bios theoretikos (vida contemplativa, da ética) (Aristóteles, 1999, fragmento 1096a)[166] – são mediados e influenciados em um novo ambiente simulado ao lado dos sistemas reais, uma esfera do ‘quase real’, o “quarto bios”, ordenado pela informação. Nesse “bios virtual”, a mídia sustenta-se pelo discurso da moralidade, determinando hábitos, costumes e modos de pensar segundo sua ética utilitarista e comprometida com o mercado e o capital (Sodré, 2002, pp. 21-27).

Ao descrever para seu filho Nicômacos cada ambiente em que se desenrola a existência humana a partir do bem e da felicidade aspirados pela comunidade, Aristóteles faz breve referência a uma “vida dos negócios”, que não constitui nenhum bios específico, por ser motivada por “alguma coisa mais” do que o bem e a felicidade, apontada como “algo violento” (Aristóteles, apud Sodré, 2002, p. 25).

Partindo-se da classificação aristotélica, a midiatização pode ser pensada como tecnologia de sociabilidade ou um novo bios, uma espécie de quarto âmbito existencial, onde predomina (muito pouco aristotelicamente) a esfera dos negócios, com uma qualificação cultural própria (a “tecnocultura”). O que já se fazia presente, por meio da mídia tradicional e do mercado, no ethos abrangente do consumo, consolida-se hoje com novas propriedades por meio da técnica digital (Sodré, 2002, p.25).

Resta saber se, nesse contexto, quando o fio da mídia se desliga, a única ética a vigorar é a do ‘cada um por si’ ou se ainda persiste a esperança na convivência e nas alianças comunitárias e solidárias.

4.3.1. Reflexão ética e a força do comum

A discussão sobre ética aqui estabelecida comporta um dilema: existe uma ética a ser resgatada ou há escolhas éticas a serem feitas? A perspectiva que se identifica no espírito comunitário não é, frente à crise ética na sociedade brasileira – considerada sua relação com o que se passa em outros territórios, populações e culturas, além do papel que nesse contexto desempenham os modelos econômicos, o poder do Estado e da mídia –, a de resgatar princípios de uma ética universal, valores ‘essenciais’ emanados de divindades, aristocracias, elites, Estados ou leis. A alternativa está no campo da escolha de princípios e valores solidários e humanos presentes na sociedade e em disputa por hegemonia contra outros diversos ou opostos, no campo da escolha por um agir ético, práxis[167]que alie a busca da autonomia e liberdade individual ao ‘bem comum’ emanado das classes sociais e das comunidades, construído nas trocas e nos vínculos da convivência.

Diante da injustiça social, da violência policial e da ideologia excludente ou silêncio cúmplice da mídia e das classes abastadas ou médias, as classes populares brasileiras ainda encontram formas diversas de sobreviver organizadas em comunidades – entendidas não como designação dada aos residentes de uma localidade ou como referência ‘politicamente correta’ aos moradores de favelas, mas como instância de coexistência e convivência de alteridades, comunidades unidas por vínculos reais, preservadas pela força do ser-em-comum.

Na obra O espírito comum, Raquel Paiva (1998, pp. 86, 87) defende que a comunidade é o que leva o indivíduo a inclinar-se para o outro, que ela “é capaz de colocar os sujeitos, que estariam encerrados em si mesmos, em relação”. Assim como, em Buber, o Eu constitui-se a partir da relação com o Tu, com o outro, é nas microrrelações da comunidade, e não no vasto e difuso coletivo humano da sociedade, que o indivíduo estrutura sua existência.

A perspectiva ética do ser-em-comum expressa-se tanto no pensamento e na ação quanto na arte. No documentário Notícia de uma guerra particular, de Walter Moreira Salles (1999), a ética comunitária manifesta-se na angústia e decisão das mulheres da favela Dona Marta, em Botafogo, no Rio de Janeiro, que, para impedir o espancamento ou a morte de alguns jovens, seguem de perto os policiais que os conduzem por estreitas vielas até o alto do morro. O cortejo tenso prossegue até que os policiais desistem e retornam às viaturas, no asfalto, levando os suspeitos presos, mas vivos. Na imagem das câmeras, a expressão de alívio dos moradores diante daquela pequena vitória do solidário: a arte feita sobre a realidade da comunidade apartada.

A ética comunitária dos excluídos está presente também nos desenhos e redações das crianças que freqüentam a Creche e Escola Meninos de Luz, que viveu um dia de terror em meio aos tiros entre policiais e traficantes numa invasão aos Morros do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, no Rio de Janeiro, em maio de 2000. São traços e palavras de meninos acostumados a ver outros meninos baleados pela polícia, mas que falam de amor aos familiares, de necessidade de paz, desejo de justiça, espírito de resistência e esperança, os valores mais virtuosos nos sonhos dos grupos familiares locais (Jornal do Brasil, 21/05/2000, p. 15). A arte imanente na comunidade sitiada.

Essa mesma ética é retratada nas imagens do videoclipe do grupo O Rappa, realizado para a música A minha alma (A paz que eu não quero).[168] No clipe, o menino Gigante – negro e de óculos, o menor de sua turma de vizinhos – se desgarra do grupo em meio ao tumulto de uma ação policial na favela e assiste, atento e atônito, aos policiais prendendo outras crianças e adolescentes e matando um deles atrás do ‘camburão’ com um tiro, enquanto a comunidade aflita reclama, corre para o local e inicia saque e depredação de lojas, vira e incendeia um carro, ameaça confrontar-se com policiais que brandem armas e atiram para o alto. Enquanto se desenrolam as cenas em preto e branco, segue o refrão: A minha alma está armada e apontada para a cara do sossego, pois paz sem voz não é paz, é medo (...) me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não me deixe sentar na poltrona, num dia de domingo..., fazendo a arte transcender a comunidade violentada.

Ao cobrir em suas manchetes e suítes os casos de violência passional ou interpessoal na urbis, a mídia parece instruir: tenha medo, mude-se ou trancafie-se dentro de casa, veja o mundo pela tevê e saia apenas para consumir o que estamos anunciando... no shopping mais próximo, com garagem e segurança. Em alguns momentos, porém, até mesmo as classes médias, tão ‘aclimatadas’ aos meios e modos da mídia e do mercado, apresentam espasmos de reação do ‘espírito comum’ contra o gerenciamento da mídia.

Na noite de 26 de abril de 2001, no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, a fonoaudióloga Márcia Maria Lopes Coelho Lyra, 43 anos, foi  barbaramente morta a facadas, depois de estuprada juntamente com sua filha de apenas 13 anos por dois assaltantes (um terceiro teria saído para sacar R$ 500,00 em um caixa eletrônico), enquanto seu filho de 15 anos e seu ex-marido eram mantidos amarrados em outro quarto da casa. Tudo se passou entre o meio da tarde e o início da noite, quando a ação dos agressores foi interrompida por vizinhos – desconfiados, eles chamaram a polícia, que foi ao local , efetuou alguns disparos, mas não evitou a fuga dos assaltantes (Jornal do Brasil, 28/04/2001, pp.1, 18; O Globo, 28/04/2001).

Ouvido o depoimento dos sobreviventes, constatou-se que o crime fora planejado e executado por Alan Marques da Costa, 18 anos, um pedreiro que trabalhava na reforma da residência há meses e era muito bem tratado e respeitado pela família, em especial por sua principal vítima. Outro envolvido foi o camelô Marcelo Melo Gonçalves dos Santos, 32 anos, padrasto da mulher de Alan. Primeiro a ser preso, na casa de uma parente, em Vila Kennedy, denunciado pela própria mulher ao saber do crime, Marcelo quase foi linchado pelos vizinhos durante a captura e, segundo a polícia, cometeu improvável suicídio, na cela em que passou a noite preso. Ninguém compareceu a seu enterro, no qual a recusa dos coveiros em sepultá-lo deixou o caixão exposto ao sol durante longo tempo. Alan, residente numa favela próxima ao local do crime, também teve sua prisão negociada por parentes, logo depois da morte de Marcelo. O terceiro membro do grupo, o vigilante desempregado Cláudio Márcio Baptista de Matos, 35 anos, responsável pelo roubo do dinheiro, entregou-se à polícia em 19 de junho de 2003 (O Dia, 03/05/2001, p. 11; O Globo, 04/04/2001; Povo, 20/06/2001, p. 7).

Por ser um acontecimento local, a morte de Márcia acionou de forma mais significativa instâncias mediadoras tradicionais e comunitárias mais próximas: tanto o bispo da igreja luterana do bairro, quanto o padre da igreja católica realizaram cerimônias religiosas e participaram de manifestações (a mãe da vítima, religiosa, rezou pelos assassinos); professoras da escola em que os adolescentes vítimas daquela agressão estudavam reuniram as crianças para conversar, expressar seus sentimentos por meio de atividades de arte e procurar as vítimas para consolá-las; parlamentares do Partido dos Trabalhadores (Márcia era assessora parlamentar na Assembléia Legislativa) acompanharam cada passo das investigações e envolveram-se com os desdobramentos da reação da comunidade do bairro; a Associação de Moradores de Santa Teresa convocou manifestações, reuniu-se com autoridades, propôs mudanças no policiamento do bairro e realizou uma infinidade de reuniões que possibilitaram, além da catarse, maior organização dos moradores para lidar com a superação da impotência diante da violência; até as famílias de dois dos três assassinos se sensibilizaram com aquele drama, condenaram a atitude de seus filhos e os denunciaram à polícia.

Apesar da superexposição do caso na mídia carioca e toda a comoção e repercussão gerada, a ação das instâncias mediadoras evitou que a população do bairro acompanhasse passivamente o noticiário do caso pela tevê ou jornais, trancada dentro de casa. Durante meses, no horário do Jornal Nacional das terças-feiras, dezenas de moradores viravam as costas para a tevê e iam encontrar-se no centro cultural do bairro para contar e ouvir suas histórias pessoais de violência, cobrar esquemas de segurança da polícia e autoridades, organizar simpósios sobre o tema e planejar iniciativas de convivência social que aproximassem ‘morro’ e ‘asfalto’ no bairro. Na Rua Laurinda Santos Lobo, locus do violento acontecimento, o fato levou as famílias de pelo menos 25 das 30 casas a se encontrar semanalmente na rua, para falar da tristeza e do medo que sentiram, da vontade e dos planos de se mudar para outro lugar, sobre alternativas de se obter mais segurança e sobretudo para conhecer pessoalmente os vizinhos – antes estranhos –, trocar nomes, telefones e e-mails num rito de compartilhamento da perda e do temor, de proteção mútua e resgate de parte do espírito de vizinhança perdido (Bondinho, jun. 2001, p.1). Para os moradores do bairro, a saída do trauma ocorreu pela redescoberta do vínculo comunitário.

No episódio do ônibus 174, a reação coletiva e a interpretação dos fatos pelos moradores da Rocinha, onde Geisa trabalhava, foi rapidamente abortada pelas autoridades. Seu marido e os familiares que vieram ao Rio foram isolados pela polícia e autoridades estaduais do contato com a comunidade (O Globo, 14/06/2000, p. 20),e o corpo da recreadora foi despachado para ser enterrado em Fortaleza, onde moravam seus parentes, evitando que os moradores do maior bairro popular carioca organizassem velório e manifestação, que já começavam a ser preparados (Goulard e Schimidt in O Globo,14/06/2000, p. 20). Somente dois meses depois, uma missa em homenagem a Geisa foi celebrada na Rocinha, pelo midiático padre Marcelo Rossi, dando por encerrada, oficialmente, a catarse no morro (O Globo, 07/08/2000,p. 11).

A estratégia de eliminação do protagonista violento é sempre um final conveniente para a maior parte da mídia, porque a ela não importa conhecer profundamente a fonte do desejo que elimina o objeto desejado (Márcia Lyra), do ódio e da vingança (11 de setembro), do caminho sem saída no choque das éticas (ônibus 174). Aos objetivos utilitaristas e mercantis da mídia interessa a construção de realidades que imobilizem o público, para obter permanente atenção, ou o domestiquem, para o exercício do consumo.

A referência a ficar sentado na poltrona, num dia de domingo, do refrão de A minha alma – que pode significar estar imobilizado para a vida diante de uma tevê –, é retomada em outra música do grupo O Rappa,O que sobrou do céu: faltou luz, mas era dia/ o sol invadiu a sala/ fez da tevê um espelho/ refletindo o que a gente esquecia...”Os versos de ambas as músicas soam como um apelo ao prazer e ao contato com o mundo real sem a intermediação da mídia, um apelo à troca presente na vinculação direta (o som das crianças brincando na rua... todas as ciências de baixa tecnologia, todas as cores escondidas nas nuvens da rotina), em oposição à entrega do corpo e da existência à inércia do sofá, enquanto a vida lá de fora é conformada e massificada pela mídia.

Sobre a tensão presente na relação entre a cultura das mídias e outras formas de existência e cultura na sociedade, alguns pensadores apresentam visão esperançosa, sem negar a força da mídia na disputa cotidiana de poder e hegemonia. O próprio Sodré, embora focalize a avassaladora midiatização do ambiente social, regulando todas as demais formas de vida, alerta, como já citado, que as massas já aprenderam a ‘jogar’ com as máquinas, além de frisar que:

O conceito de midiatização – ao contrário de mediação – não recobre a totalidade do campo social, e sim o da articulação hibridizante das múltiplas instituições (formas relativamente estáveis de relações sociais comprometidas com finalidades humanas globais) com as várias organizações de mídia, isto é, com atividades regidas por estritas finalidades tecnológicas e mercadológicas, além de culturalmente afinadas com uma forma ou um código semiótico específico (Sodré, 2002, p.  24).

Embora identifique que a partir dos anos 60 a cultura popular urbana foi tomada por uma indústria cultural estruturada, principalmente, sobre a tevê e a publicidade, “mitificando um ‘progresso’ tecnológico que nas condições econômicas das classes populares se traduz em desvalorização cotidiana de seus saberes e práticas”, Martin-Barbero (1997, p. 268) interessa-se por pensar os processos de composição social no interior dos processos de hegemonia e mantém a disposição de extrair as contradições dos esquemas para observá-las “enquanto se fazem e desfazem: brechas na situação e situações na brecha”, e cita Monsiváis (apud Martin-Barbero, op. cit., p.269) em sua análise dirigida à dinâmica dos usos:

A maneira e os métodos como as coletividades sem poder político nem representação social assimilam as ofertas a seu alcance, sexualizam o melodrama, extraem traços satíricos de um humor infamante, divertem-se e comovem-se sem se transformar ideologicamente, persistem na rebeldia política ao cabo de uma impressionante campanha despolitizadora, vivificam a seu modo a cotidianidade e as tradições, convertendo as carências em técnica identificatória (...). As classes subalternas assumem, porque não lhes resta alternativa, uma indústria vulgar e pedestre, e certamente a transforma em autocomplacência e degradação, mas também em identidade regozijante e combativa.

O geógrafo Milton Santos (2002, pp. 143-145) admite que o processo de globalização da informação e do dinheiro influencia “todos os aspectos da existência: a vida econômica, a vida cultural, as relações interpessoais e a própria subjetividade”, mas defende que os indivíduos não são igualmente atingidos pelo fenômeno, que encontra obstáculos na diversidade das pessoas e dos lugares. Ele acredita que a cultura popular é capaz de rivalizar com a cultura de massas e prevê um novo período histórico, que denomina “demográfico ou popular”, uma “reemergência das massas”. Identifica uma cultura de massas buscando hegemonizar e impor-se, mas também uma cultura popular que reage:

O primeiro movimento é resultado do empenho vertical unificador, homogenizador, conduzido por um mercado cego, indiferente às heranças e às realidades atuais dos lugares e das sociedades (...) Essa conquista (...) jamais é completa, pois encontra a resistência da cultura preexistente. Constituem-se, assim, formas mistas sincréticas, dentre as quais, oferecida como espetáculo, uma cultura popular domesticada associando um fundo genuíno a formas exóticas que incluem novas técnicas (...) Mas também – e felizmente – a possibilidade, cada vez mais freqüente, de uma revanche da cultura popular sobre a cultura de massa, quando, por exemplo, ela se difunde mediante o uso dos instrumentos que na origem são próprios da cultura de massas (...) exerce sua qualidade de discurso dos ‘de baixo’, pondo em relevo o cotidiano dos pobres, das minorias, dos excluídos, por meio da exaltação da vida de todos os dias (...) Os ‘de baixo’ não dispõem de meios (materiais e outros) para participar plenamente da cultura moderna de massas. Mas sua cultura, por ser baseada no território, no trabalho e no cotidiano, ganha a força necessária para deformar, ali mesmo, o impacto da cultura de massas (...) essa cultura da vizinhança valoriza, ao mesmo tempo, a experiência da escassez e a experiência da convivência e da solidariedade (...) realiza-se segundo níveis mais baixos de técnica, de capital e de organização.

Frente ao ordenamento imposto pela midiatização da cultura e aos fanatismos e fundamentalismos que levam à violência generalizada, emerge como uma alternativa o que o filósofo Gianni Vattimo (apud Paiva, 1998, p. 191) chama de “pensamento fraco” (pensiero debole), produções e estruturas de pensamento presentes na história da humanidade que, como explica Paiva (1998), não foram erigidas, em algum momento, como modelo hegemônico, permanecendo despojadas de força-motriz dentro da disposição desenvolvimentista do Ocidente e, portanto, obscuras, frágeis, ‘débeis’. Segundo a autora, resgatar essas formulações pode significar uma saída, mesmo porque “se já está tudo perdido”, não há nenhuma razão por que não serem tentadas outras opções até então desprezadas:

O projeto comunitário surge como mais um desses projetos abandonados, principalmente por sua incompatibilidade com a abstração formulada pelo capital. E neste momento, caracterizado pelo desencanto, principalmente por terem se perdido referenciais básicos de pertencimento do sujeito, a estrutura comunitária surge muito menos a partir de seu ideário do que como formulação capaz de viabilizar a existência humana (ibidem, pp. 138, 139).

Vattimo (1995, apud Paiva, 1998, p.191) defende também uma atitude de mais autonomia individual diante dos valores apresentados como supremos e absolutos. Ele entende que o sujeito ‘pós-metafísico’ das sociedades contemporâneas teve o espírito crítico substituído por “um vago sentimento de participação”, que a interpretação constitui a possibilidade inventiva e revolucionária do indivíduo no mundo e que “onde não existe interpretação, não existe subjetividade” (ibidem, p. 191). Argumenta, na esteira de Nietzsche e Heidegger, que aquilo que nos parece a verdade é uma interpretação e que a verdade não existe de forma objetiva em parte alguma, nem numa disciplina do diálogo, mas acontece no diálogo intersubjetivo.[169]

Em visita ao Brasil, em 2002, Vattimo declarou que prefere viver num mundo onde haja ‘interlocutores’. “É possível resolver todos os nossos problemas éticos com base no princípio do respeito à liberdade do sujeito efetivamente interpelável”, aposta o pensador italiano.

Considerações finais

O homem livre em nada pensa menos que na morte, e sua sabedoria é uma meditação não sobre a morte, mas sobre a vida.

Baruch Spinoza

(...) correndo mundo, seu Livro maior – A Ética – chegou às minhas mãos, numa pequena cidade do nordeste do Brasil, chamada Maceió. Parece incrível. Eu estava vivendo um período de muito sofrimento e contradições.

Logo às primeiras páginas, fui atingida. As dez mil coisas que me inquietavam dissiparam-se quase, enfraquecendo-se a importância que eu lhes atribuía. Outros valores impunham-se agora. Continuei sofrendo, mas de uma maneira diferente. E, desde então, desejo intensamente aproximar-me de você, como discípula e amiga. Este é o motivo por que lhe escrevo essas cartas.

Nise da Silveira

Mais de três séculos após a morte do filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677), ele e sua obra Ética, escrita ao longo de décadas, ressurgem como um ‘Tu’ buberiano nas Cartas a Spinoza da rebelde e delicada revolucionária da psiquiatria. Nise da Silveira conta-lhe sobre os que o citaram em poesia e novas teorias, desculpa-se por comentar suas decepções na vida – “Perdoa-me se toco em assuntos pessoais delicados (...) Mas se o faço é movida por um desejo de o conhecer melhor” (Silveira, 1999, pp. 26, 27)[170] – e relembra seus ensinamentos. A tréplica de Espinosa, acolhendo as cartas de Nise da Silveira, falecida em 1999 aos 94 anos, poderia estar na ‘proposição’ que o filósofo submetia à ‘demonstração’, há mais de 300 anos:

Somos afetados mais intensamente relativamente a uma coisa futura que nós imaginamos que sucederá em breve do que se imaginássemos que o tempo da existência está ainda muito longe do presente. Somos também afetados mais intensamente pela memória de uma coisa que imaginamos não ter passado há muito do que se imaginássemos que ela passou há muito (Epinosa, 2000, pp. 350, 351).[171]

O escritor, assim como um leitor que faz anotações sobre um texto, constrói um caminho para ser seguido, encontrado e compreendido. A visão de ‘presentificação’ do tempo trabalhada por Spinoza, posteriormente também destacada na filosofia do diálogo de Buber e implícita no ‘tempo recuperado’ do diálogo psicanalítico de Lévy-Valensi ou na ‘redescoberta’ do tempo perdido, em Proust, é o que acolhe o movimento apaixonado de Nise da Silveira em direção a seu mestre.

Esse diálogo por cartas ao longo do tempo entra nestas considerações finais como uma metáfora sobre as possibilidades do contato, quase uma alegoria, uma homenagem nostálgica em meio à discussão suscitada por estudos de comunicação que avaliam poder a fusão entre mídias novas e tradicionais, principalmente pelo efeito da interatividade digital, “provocar na cultura de massas tanto ou mais efeitos de transformação do que esta produziu nas formas eruditas e populares de cultura” (Santaella, 1992, p. 29).

No entanto, a observação de Spinoza sobre sermos ‘afetados’ por aquilo que “imaginamos que sucederá em breve” pode bem ilustrar a perspectiva que orienta significativa parcela dessas análises, como nos já citados Wilson Dizard Jr. e Pierre Lévy, em que as apostas na condição ‘redentora’ do digital precipitam conclusões otimistas e embotam a observação crítica sobre como tecnologias ‘potencialmente libertadoras’ são apropriadas pelos sistemas hegemônicos de poder na mídia, o que equivale dizer na política e na economia  mundiais.

Esta é uma primeira consideração que se faz necessária. Nossa perspectiva difere dos que preconizam, com a fusão de mídias, um novo híbrido humanizado e diverso do que seguem pretendendo para a sociedade os ‘donos’ da mídia. O digital não é técnica ou conceitualmente produzido por instâncias independentes do poderio midiático. Não há por que esperar que essas fontes de poder e dinheiro, instituídas como mídia, abdiquem de seu caminho inexorável à conquista de toda a hegemonia social possível. Estudos que se ocupam em ‘adivinhar’ cenários tecnológicos e as formas como nos relacionaremos com eles, quando realizados fora do âmbito estrito dos centros de ponta da produção tecnológica e sem o poder de orientar a concepção de novos produtos, resultam apenas em “doutrinas de acompanhamento técnico”, que, ao contrário de produzir pensamento crítico, “ajustam-se perfeitamente à visão midiática do mundo” (Sodré, 2002, pp. 240, 241).

A esperança, portanto, não está na tecnologia, por mais que bem-intencionados idealistas tenham desejado acreditar, cada um segundo o pensamento e frente à técnica de seu tempo. Assim como o crítico Brecht, em relação ao rádio, e os idealistas Enzensberger e Shamberg, em relação à televisão, autores como Lévy, mesmo que igualmente críticos em relação à mídia tradicional, fazem hoje desmedida aposta nos poderes do digital. Ao contrário, com Sodré, Paiva, Vattimo, Martin-Barbero, Santos e os poetas de O Rappa, nossa aposta é no humano.

Um segundo comentário diz respeito às premissas de que o diálogo é um desejo essencial do ser humano e que a interatividade é uma promessa de diálogo, seguidas da hipótese de que a promessa de interatividade por parte da comunicação de massa é uma renovada estratégia para reforçar o lugar da mídia na sociedade e nas culturas contemporâneas.

O breve panorama aqui apresentado sobre a utilização de mecanismos interativos na mídia tradicional, assim como a análise do apelo mercadológico em torno da participação do público, revela que a possibilidade de realização do desejo fundamental do diálogo por meio da interatividade ou da participação tem sido fartamente utilizada para dissimular a manutenção da unilateralidade na comunicação de massa brasileira.

Poder-se-ia até considerar que há um pequeno grau de interatividade que ‘tende’ à transmissional nos termos em que é definida por Jensen, mas essa categoria configurar-se-ia como mero exercício da escolha entre ligar e desligar um meio eletrônico, comprar ou não um impresso, cambiar canais com mais facilidade – atividade que gera apenas ‘sensação’ de movimento no aprisionamento inerte ao médium. Com ou sem interferência por parte do público, a interpretação ou produção de acontecimentos pela mídia é realizada de forma a não compartilhar a autoridade na produção de ‘verdades’, buscando cercear a co-produção de sentido na mensagem por parte do público, como analisado por estudos como os de Mello (“Você Decide”) e Mendonça (“Linha Direta”), ou como nos exemplos aqui citados de ‘escondimento’ de fatos pela mídia nacional ou internacional sobre a Venezuela, a Palestina ou as guerras contra o Afeganistão e o Iraque.

De qualquer modo, as formas de interatividade possibilitadas pelos padrões digitais, segundo Jensen – conversacional, consultacional eregistracional – decididamente continuam não incorporadas pela mídia tradicional, nem quando ela se empenha em apresentar-se mais participativa.

A terceira questão resulta da análise sobre a influência no texto dos colunistas de jornal provocada pelo contato por e-mail com os leitores. De fato, há uma mudança em curso na relação entre colunista e leitor, especialmente quanto ao maior retorno que o primeiro tem sobre a maneira como estão sendo lidos seus textos (sua principal função, segundo 83% dos colunistas). A interferência nos temas e opiniões presentes nos artigos e colunas, porém, é menor, segundo os resultados da pesquisa (28% dos declarantes informam publicar muito as pautas e opiniões dos leitores), do que a observação empírica dos jornais induz a pensar, talvez por conta de as referências aos leitores despertarem mais atenção e polêmica.

Na semana seguinte ao carnaval de 2003, por exemplo, o engano do cronista Artur Xexéo (O Globo, 05/03/2003, p. 8) ao chamar de Mar Morto o Mar Vermelho, cuja travessia pelos hebreus na fuga do Egito foi representada no desfile da Mangueira, valeu-lhe uma enxurrada de mensagens. A repercussão do fato foi ampliada, porque sua coluna seguinte iniciava com “O primeiro e-mail não demorou a chegar...”, abrindo todo o espaço da crônica às mensagens críticas (idem, 09/03/2003, p. 8).

Diante do fato de que a prerrogativa de decidir o que publicar permanece inteiramente sob o poder dos colunistas e do jornal – descaracterizando ou reduzindo drasticamente o grau da interatividade do leitor com o texto das colunas – e, ainda, diante da revelação da pesquisa de que o maior interesse de leitores e colunistas é a troca de opiniões e de atenção mútua, que ‘tende’ à interatividade conversacional paralela às páginas do jornal, duas considerações podem ser feitas. Primeiro, ao afirmar que há interatividade (71%) e diálogo (73%) no contato entre colunista e leitor, a maioria dos colunistas manifesta sua abertura pessoal para o diálogo, mesmo que paralelo às colunas, o que é meritório. Segundo, ao considerar que há interatividade (93%) e diálogo (86%) entre mídia e público, um número ainda maior de colunistas acaba reforçando o discurso ilusório e mercadológico, e a simulação de interatividade praticados pela mídia tradicional.

Mas qual o sentido que as pequenas aberturas à participação do público teriam do ponto de vista da cultura das mídias ou, melhor, na cultura brasileira perpassada, conformada e regulada pela mídia? Essa é a quarta questão que se apresenta. A função mais óbvia e já mencionada é mercadológica. ‘Vende-se’ ao público a sensação de obter a realização do desejo de troca recíproca constituinte do humano, além de poder ‘consumir’ um padrão semelhante à interatividade digital, modalidade informacional associada ao conceito de vida e comportamento ‘modernos’ e ‘globalizados’, conquistando sua atenção e sua disposição para o consumo.

Outro sentido é dado pela apropriação narcísica da existência do outro (público) exercida pela mídia. Acontecimentos como os do ônibus 174 e do 11 de setembro, em que a realidade irrompe brutalmente a pax midiática do ordenamento e gerenciamento da própria violência, são exceções a serem evitadas, algo como um incêndio no estúdio do telejornal durante a transmissão. Na seqüência, a mídia acaba se revelando na pressa em reordenar a seu modo a realidade que diz refletir. O lugar do outro na cultura midiatizada é o do ocultamento ou o da superexposição para silenciá-lo e negá-lo.

O percurso teórico e os exemplos aqui abordados mostram como a mídia interfere no social, interpretando e produzindo – mais do que espelhando – os acontecimentos, construindo uma imagem do real carregada de auto-reflexividade. Ao simular a participação, a mídia investe no pacto narcísico com o público, relação de confirmações mútuas que gira em torno do lucro simbólico que ambas as partes possam ter: o ouvinte, espectador ou leitor quer ver-se melhor na mídia, e ela se quer ver nele como o conteúdo e conceito do mundo. Ao impor o monólogo e simular interatividade, a mídia tradicional revela-se, comunica sua unilateralidade, sua centralidade, a exclusão do outro. Emite mensagens duplas, o ‘duplo vínculo’. Mas o público participante prefere não registrar, praticando o auto-engano, envolvendo-se numa relação patológica, uma comunicação esquizofrênica que lhe traz gratificação e identificação: ver-se na mídia. Nesse processo, renova-se, por intermédio da mídia, o cerne da estratégia mais geral de hegemonia do mercado e do capital: o domínio do poder por consenso.

Chega-se então à quinta e principal questão a ser considerada. Diante desse quadro, quais as alternativas? Em uma palavra: contra-hegemonia.

Se a mídia mantém sua unilateralidade e simula interatividade e participação, tendendo a absorver o público como elemento do próprio discurso e a ‘tornar mídia’ tudo que enfoca, o movimento contra-hegemônico consiste, mais do que em simplesmente combatê-la, em aprender a usá-la a sua revelia, confrontá-la consigo mesma – ‘jogar com as máquinas’, na expressão de Sodré.

A população brasileira aprendeu, ao longo dos anos, a pensar como a mídia. Seus códigos não são mais um mistério, como para aquele fã que desejava uma resposta imediata de Elis Regina. Se isso pode tornar o indivíduo dócil diante das grotescas ‘pegadinhas’ dos programas de tevê, também pode dar instrumentos às mediações sociais.

No conjunto das alternativas é preciso trabalhar com as contradições e brechas do sistema midiático tradicional e aprender a usar, quando necessário e sem ilusões de haver diálogo, os dispositivos de baixa e parcial interatividade disponíveis, contornando o gerenciamento da mídia. Associações de moradores,[172] escolares[173] e comunitárias, sindicatos[174] e movimentos sociais há muito vêm praticando a contra-hegemonia na comunicação, contornando barreiras ideológicas, aprendendo a pautar e usar o timing da mídia, além de criar seus próprios meios de comunicação. Algumas organizações e redes de amplitude internacional utilizam essas estratégias em suas atividades políticas, como a organização ecológica Greenpeace, o Movimento dos Sem Terra dos trabalhadores rurais brasileiros,[175] o movimento zapatista mexicano, as redes que organizam protestos antiglobalização e as recentes redes mundiais de movimentos e organizações pacifistas.

Se na ‘passividade do sofá’, diante das mídias tradicionais ou na ‘hiperatividade’ prometida pela fusão interativa com as novas mídias residem as estratégias da imobilidade no território, da captura do tempo e da exclusão do corpo, as contra-estratégias necessárias devem acrescentar ao inevitável convívio com essa realidade a preservação exatamente das dimensões de existência negadas.

No tempo real e na abrangência do território, a experiência humana coloca-se diante da possibilidade da surpresa, do registro das sensações diretamente pelo corpo. Alguém que tenha estado no encontro dos trio-elétricos na Praça Castro Alves, no encerramento do carnaval da Bahia, sabe a diferença entre uma imagem na tevê e a sensação da estrondosa usina de som reverberando nas costelas e entranhas, do odor geral e da presença compacta da massa humana. Segundo depoimentos de quem participou da festa de posse do presidente Luís Inácio Lula da Silva, em Brasília, a experiência presencial é insubstituível. Em sua primeira crônica de 2003, Emoções eu vivi, o colunista Zuenir Ventura (O Globo, 07/01/2003, p. 8) conta que circulou pelo gramado da Esplanada dos Ministérios, onde havia desde o início do dia, shows de artistas famosos:

Mas o show mais divertido foi dado por aquelas pessoas anônimas, militantes do PT ou não, às vezes meros simpatizantes, sozinhos ou em grupos, visivelmente pobres, de chinelo e camiseta, fazendo a própria festa, cantando, dançando e gritando (...) Sei que jornais e revistas fotografaram essas cenas, sei que a televisão mostrou quase tudo na hora ou depois. A exemplo do que ocorre nas Olimpíadas e na Copa do Mundo, o melhor lugar para ver a posse foi mesmo em casa, esparramado num sofá, comendo pipoca e tomando cerveja. Para ver simultaneamente esses espetáculos múltiplos, a televisão é insubstituível. Só ela é capaz da onipresença. Mas para senti-los, nada melhor do que o corpo presente. Não é que a televisão seja impotente para captar e transmitir a emoção – quantas vezes ela nos fez chorar – mas a vida real é sempre mais emocionante do que o mundo virtual. Ainda mais quando se sabe estar vivendo a emoção intransferível de um raro momento histórico.

Ter participado da festa da posse de Lula, assim como dos megacomícios finais pelas eleições diretas em São Paulo e no Rio, em 1994 – é ter realizado aquelas manifestações políticas inéditas. Por mais que haja identificação e emoção em assistir à ação política, ela só se completa com a presença do corpo. Na organização das megamanifestações pacifistas em todos os continentes, em 2003, as redes de organizações, movimentos e participantes isolados comunicaram-se intensamente pela internet e escolheram os locais e horários do dia que permitissem cobertura ininterrupta pela mídia em todos os países. Mas as manifestações só se fizeram fortes porque, na hora marcada, lá estavam milhões de pessoas, presentes numa quantidade sem precedentes em manifestações simultâneas e descentralizadas como essas. Quem apenas assistiu ao movimento pela tevê poderá ter-se emocionado, assim como quem viu as primeiras bombas americanas caírem sobre Bagdá. Mas quem esteve nas manifestações ou se envolveu direta ou indiretamente com o movimento terá lutado pela paz.

Frente à capitulação existencial induzida pelo ambiente midiático – o ‘quarto bios’ que gradualmente vai regulando a existência humana – as estratégias contra-hegemônicas traduzem-se no movimento vital de não se alienar do pensamento livre e crítico, de perceber e resgatar a agenda ocultada pela mídia, de fazer escolhas éticas, de refletir e agir simultaneamente para a invenção de novas ações políticas e comunicativas. Diante da ética utilitarista e mercantil da mídia, a opção pela ética solidária, do entendimento, da abertura de espaços à diversidade. Diante da discursividade narcísica da tevê, a construção do discurso instituinte do ser para chegar ao outro. Diante da pretendida morte da política, a assunção radical das alteridades que envolvem o contraditório político. Diante da indiferença esteticisada da cidade para com o cidadão, simbolizada pela atmosfera do shopping center, a reabertura para o meio ambiente – ecologia é diálogo. Diante do silêncio que o medo da violência gera na cidade, a redescoberta do espírito de vizinhança, do contato face-a-face com o desconhecido que mora ao lado – o ser-em-comum é objeto do vínculo interativo, é o cerne da comunicação.

Não se trata da assunção de uma ‘inteligência coletiva’ perpassada pela tecnologia, mas de pensamento e ação coletivos, práxis que permita lidar dialeticamente com as intenções por trás da oferta de participação do público, presença da audiência, pesquisas de opinião e outros dispositivos de suposta interatividade que visem substituir a voz da sociedade. Trata-se de contrapor à ideologia e às estratégias políticas da mídia outras estratégias inventadas, fundadas no espírito comum, na ética comprometida com o bem comum, com a ancestralidade comunal e o porvir de filhos e netos, com o sentimento de similitude e interdependência com todo o planeta. Para isso é preciso desnudar cada novo movimento da mídia, a cada momento, numa convivência flexível e crítica, com proximidade e, simultaneamente, distanciamento do ambiente mitiatizado. Com imersão radical no real, eticamente inspirado e impregnado do pensamento que se opõe ao controle das massas e dos indivíduos, é possível intervir politicamente, lidando com a força da mídia, do modo como ensinam os mestres das artes marciais orientais: usando a força do próprio adversário para desestabilizá-lo.

No Brasil e em outros países periféricos a maneira como as classes populares interpretam e retrabalham em suas mediações as mensagens dos meios unilaterais pode adquirir uma dinâmica transformadora. Martin-Barbero (1997, p. 258) propõe deslocar o debate dos meios para as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais, para as diferentes temporalidades e para a pluralidade de matrizes sociais. Milton Santos diz que, nas cidades, o tempo que vai comandar é o dos homens lentos e que o motor da história é a experiência da escassez dos pobres e miseráveis (apud Cordovil, in Jornal do Brasil, 24/09/1997, p. B2).

A esperança, portanto, diante da midiatização da cultura, está em aprender a jogar contra-hegemonicamente com as máquinas, em não abrir mão da existência no território, da experiência no tempo real, da vivência na presença do corpo; em apostar no vínculo do eu com o outro, no ser-em-comum, nas escolhas éticas pautadas no solidário e comunitário, no cuidado com o outro, com o ambiente, consigo mesmo; em abrir-se para comunicar, para o encontro amoroso, a descoberta da alteridade, para a busca radical, cotidiana e permanente do diálogo.

Referências Bibliográficas

ARISTÓLELES. Arte retórica e arte poética. Rio de Janeiro: Ediouro, s/data. (Coleção Universidade de bolso) 290p.

____. Poética. Lisboa: INCM, 1998. 316p.

____. Ética a Nicômacos. Brasília: Universidade de Brasília, 1999. 238p.

BABBIE, Earl. Métodos de pesquisas de survey. Belo Horizonte: UFMG, 1999.

BAUDRILLARD, Jean. A troca impossível. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. 154p.

____. Da sedução. Campinas: Papirus, 1991. 207p.

BOFF. Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999. 199p.

BUBBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 1977. 170p.

COSTA, Caio Túlio. O relógio de Pascal: a experiência do primeiro ombudsman de imprensa no Brasil. São Paulo: Siciliano, 1991. 263p.

COTTA, Pery de Araújo. Mídia e Sociedade – aproximações e afastamentos: um estudo sobre o Jornalismo Reflexivo. Orientadora: Ester Kosovsky. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO, 2001. Tese  (Doutorado em Comunicação e Cultura). 239p.

CRAWFORD, Scott D. et al. Web surveys: perceptions of burden. In Social Science Computer Review. Vol. 19 n. 2, Summer 2001, pp. 146-62.

DeFLEUR, Melvin L., BALL-ROKEACH, Sandra. Teorias da comunicação de massa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. 397p.

DILLMAN, Don A. Mail and internetsurveys: the tailored design method. New York: Wiley. s/d.

DIMBLEY, Richard, BURTON, Graeme. Mais do que palavras – uma introdução à teoria da comunicação. São Paulo: Summus, 1990. 215p.

DIZARD JR, Wilson. A nova mídia: a comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 327p.

ESPINOSA, Baruch de. Pensamentos metafísicos, Tratado da correção do intelecto, Tratado político, Correspondência. São Paulo: Nova Cultural, 2000 (Coleção Os pensadores). 560p.

ÉSQUILO, SÓFOCLES, EURÍPEDES. Tragédias: Prometeu acorrentado, Édipo rei, Medéia. São Paulo: Abril Cultural, 1980. 222p.

FONSECA, Eduardo Giannetti da. Auto-engano. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 269p.

FORD, A. La marca de la bestia: identificación, desigualdades e infoentrenimiento em la sociedad contemporânea. Buenos Aires: Norma, 1999.

HALIMI, Serge. Os novos cães de guarda. Petrópolis: Vozes, 1998. 150p.

JENSEN, Jens F. ‘Interactivity’ – Tracking a New Concept in Media and Communication Studies. In MAYER, Paul A. Computer media and communication – a reader. New York: Oxford University Press, 1999. pp. 160-187.

LACOMBE, Fábio Penna. O outro de si mesmo. InECO/UFRJ. Vol. 1, n. 3. Rio de Janeiro: Imago, 1993. pp. 63-73.

LESKY, A. A tragédia grega. São Paulo: Perspectiva, 1971. 254p.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço.São Paulo: Loyola, 1999. 212p.

LÉVY-VALENSI, Éliane Amado. El diálogopsicoanalítico. México: Fondo de Cultura Econômica / Panamericana, 1965. 222p.

MARTIN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia.Rio de Janeiro: UFRJ, 1997. 356p.

MATTELART, Armand & Michèlle. História das teorias da comunicação. São Paulo, Loyola: 2000. 220p.

____. Os novos paradigmas da comunicação. InLíbero, Ano III, Vol. 3 – n. 6. São Paulo, Fundação Cásper Líbero: 2o semestre 2000. pp. 4 – 17.

MATUCK, Artur. Opotencial dialógico da televisão: comunicação e arte na perspectiva do receptor. São Paulo: Annablume / ECA-USP, 1995 (Selo Universidade 33). 305p.

MELLO, Paula Martinez. Você decide – sim ou não à interatividade. Orientador: Muniz Sodré. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO, 1996. Dissertação. (Mestrado em Comunicação e Cultura). 101p.

MENDONÇA, Kleber. A punição pela audiência: um estudo do Linha Direta. Rio de Janeiro: Quartet, 2002. 152p.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. Ética e sociabilidade. São Paulo: Loyola, 1996. 290p.

ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no rádio: os grupos de poder e determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus, 1985. 117p.

PAIVA, Raquel. O espírito comum: comunidade, mídia e globalismo. Petrópolis: Vozes, 1998. 205p.

PERELMAN, Chaïm. Retóricas. São Paulo: Martins Fontes: 1999. 417p.

PIGNARRE, Robert. História do teatro. Mem Martins: Europa-América, s/d. (Coleção Saber n. 9). 138p.

PINTO, Milton José. Um olhar contemporâneo sobre a retórica clássica. InECO. Vol. 4, n. 3. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000. pp. 47-54.

PLATÃO. Diálogos: Mênon, Banquete, Fedro. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. (Clássicos de Bolso). 183p.

PROUST, Marcel. O tempo redescoberto. São Paulo: Globo, 2001. (Em busca do tempo perdido, 7) 303p.

RABAÇA, Carlos Alberto, BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de Comunicação. São Paulo: Ática, 1998. 637p.

ROITMAM, Ari. (org.).O desafio ético. Rio de Janeiro: Garamond, 2000. 115p.

SAMUEL, J. et al. An assessment of the generalizability of internet surveys. In Social Sience Computer Rewiew. Vol. 19, n. 2, Summer 2001, pp. 131-145.

SANTAELLA, Lúcia. Comunicação e Pesquisa: projetos para mestrado e doutorado. São Paulo: Hacker, 2001. 215p.

____. Cultura das mídias. São Paulo: Razão Social, 1992. 138p.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2002. 174p.

SILVA, Eduardo. As queixas do povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 157p.

SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. Petrópolis: Vozes, 2002. 268p.

____. Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999. 272p.

____. Reinventando a cultura: a comunicação e seus produtos. Petrópolis: Vozes, 1996. 180p.

____. O monopólio da fala: função e linguagem da televisão no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1981. 155p.

SODRÉ, Muniz, PAIVA, Raquel. O império do grotesco. Rio de Janeiro: Mauad, 2002. 154p.

WATZLAWICK, Paul, BEAVIN, Janet Helmick Beavin, JACKSON, Don D. Pragmática da comunicação humana – um estudo dos padrões, patologias e paradoxos da interação. São Paulo: Cultrix, 2000. 263p.

 

Outras fontes

Abrahim, Marília do Nascimento. O Globo. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000. Cartas dos leitores, p. 6.

Acessoon line sobe 400%. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 15 jun. 2000, p. 24.

AITH, Marcio. Marchas são ‘escondidas’ pela mídia americana. Folha de S. Paulo. São Paulo: 16 fev. 2003, Mundo, p. A16, 17.

Alcides,Sérgio. Folha de S. Paulo. São Paulo: 13 dez. 2002. Carta do leitor, p. A3.

Almeida,Magda de. O Globo, Rio de Janeiro: 16 jun. 2000, Carta dos leitores, p. 6.

AMERICANOS exigem vingança imediata. Extra. Rio de Janeiro: 13 set. 2001, pp. 1-15.

ASSIM ficou Nova Iorque. O Dia. Rio de Janeiro: 12 set. 2001, pp. 1, 7, 10, Caderno especial pp. 1-6.

Assimmorreu a professorinha Geisa. Extra. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, pp. 1, 3, 4-11.

Baggetti, Sonia.O Dia, Rio de Janeiro: 14 jun. 2000. Cartas na mesa, p. 8.

BARBÁRIE em Santa Teresa choca a cidade. O Globo. Rio de Janeiro: 28 abr. 2001, pp 1, 15, 16.

BARBÁRIE por 500 reais. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro; 28 abr. 2001, pp. 1, 18.

BASTA!: fugitivo faz passageiros de reféns em ônibus e pára a cidade. O Dia. Rio de Janeiro: 13 jun. 2000, pp. 1, 5-8, 12.

BRITO, Celso. 3o monstro se entrega. Povo. Rio de Janeiro: 20 jun. 2001. Polícia. p. 7.

BUCCI, Eugênio. A bandeira do MST vai à Palestina. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 4 abr. 2002. Caderno B. p. 7.

BUSH prepara a guerra. O Globo. Rio de Janeiro: 13 set. 2001, p. 1, Caderno Especial pp. 1-22.

CARIOCAS pedem mais uma vez pela paz. O Globo. Rio de Janeiro: 29 abr. 2001, pp. 1, 17.

CARVALHO, Adriana. A degola do czar da net. Veja. São Paulo: 22 jan. 2003, pp. 86, 87.

Carvalho, Marinilda. Entrevista com Pery Cotta, Observatório da Imprensa, jan. 2002. www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/iq010120026.htm.

CASSIA, Cristiane de, ALECRIM, Michel, ARAÚJO, Vera. Nem família aparece para enterrar assaltante.Globo. Rio de Janeiro: 04 mai. 2001, pp. 1, 15.

CASTRO, Moacir Werneck. Opinião. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 15 jun. 1999. p. 9.

CERQUEIRA, Sofia. Guerra Perdida: capitão do Bope sai e critica a polícia. Veja Rio. São Paulo: 14 mar. 2001, p. 8.

Chávezdiz que ‘milhões’ o defenderão. Folha de S. Paulo. São Paulo: 6 jun. 2002. Mundo, p. A12.

Cincomil pessoas rezam pela paz na Rocinha. O Globo, Rio de Janeiro: 7 ago. 2000, p. 11.

Contraa hegemonia do mercado mundial, Radioapaixonados pela Democracia. União de Redes de Radiodifusão pela Democracia – Unirr. Ouro Preto, 1997.

CORDOVIL, Cláudio. A escassez como motor da História. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 24 set. 1997. Caderno B, p. 2.

COUTO, José Geraldo. ‘Ônibus 174’ vai além da tragédia social. Folha de S. Paulo. São Paulo: 6 dez. 2002. Folha Ilustrada, p. E7.

UM CRIMINOSO de Santa Teresa morre na cela e outro é preso. O Globo. Rio de Janeiro: 1 mai. 2001, pp. 1, 11, 12.

DINES, Alberto. Os generais e as guerras. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 13 abr. 2002. Outras Opiniões, p. 11.

E agora? O carioca fez a sua parte, vestiu branco e pediu paz. Poucas autoridades apareceram. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro: 8 jul. 2000, pp. 1, 20-22.

Egitorestringe relações com Israel. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 4 abr. 2002. Internacional, p. 7.

EUA sofrem maior ataque da história. Folha de S. Paulo. São Paulo, 12 set. 2001, pp. A1-A31.

Um errofatal. O Globo. Rio de Janeiro: 13 jun. 2000. pp.1 e 15-21.

FALABELLA, Miguel. Um coração urbano. O Globo. Rio de Janeiro: 30 set. 1999. Segundo Caderno. p. 10.

FERRARO JR., Demerval. Big brother Brasil: da gaiola ao paraíso. Net TV. Rio de Janeiro: mar. 2002. Atualidade, pp. 36, 37.

FUSER, Igor. Do palácio para a cadeia: eleito há nove meses com 57% dos votos, Chávez é derrubado numa ação de militares e povo na rua.. Época. Rio de Janeiro: 15 abr. 2002. Mundo, p. 66-69.

____. De volta, nos braços do povo: numa proeza que lembra a carreira de Perón, Hugo Chávez retorna ao palácio 48 horas depois de ser deposto. Época. Rio de Janeiro: 22 abr. 2002. Mundo, p. 72-74.

Giusti, Marcos. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, A opinião dos leitores, p. 8.

GOULARD, Gustavo, SCHIMIDT, Selma. Terror: Grupo queria fazer velório na quadra da escola de samba na Rocinha, mas corpo foi para Fortaleza. O Globo: Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, p. 20.

Governodos EUA quer grampear a Internet. Folha de S. Paulo. São Paulo: 22 jan. 2003. Informática. p. F1, F3.

Guerraurbana – crianças de escola do Cantagalo transformam cenas de conflito no morro num pedido de paz. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 21 mai. 2000. p. 15.

HONEIFF, Nelson. Governo novo, nova televisão. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 31 dez. 2002. p. 11.

HugoChávez, el zambo: America latina integrada, o mundo deve ser pluripolar. O Pasquim 21. Rio de Janeiro: 28 jun. 2002. Entrevista, pp. 13-15.

Incompetênciae morte: quatro horas de terror, dois mortos e dúvidas. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 13 jun. 2000, pp. 1, 18-20.

Infernono 174: crueldade! Insegurança! Pavor! Uma inocente morta. Extra. Rio de Janeiro: 13 jun. 2000, pp. 1, 3-7.

Internautas: ação da polícia militar foi desastrada. O Globo. Rio de Janeiro: 15 jun. 2000, p. 18.

Israelaceita fim de cerco a Arafat. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 29 abr. 2002. Internacional, p. 9.

Israelamplia ataque e ocupa Belém. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 2 abr. 2002. Internacional, p. 1, 10, 11.

JB on line. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 15 jun. 2000. p. 1.

JOÃO Pedro Stédile: “É preciso ter relações éticas na imprensa”. Lide. Ano 4, n. 5. Rio de Janeiro: mai/jun. 2000. Entrevista, pp.12, 13.

Júrilivra policiais do caso ônibus 174: para juíza, laudo foi ignorado. Folha de S. Paulo. São Paulo: 12 dez. 2002. Cotidiano, p. C1.

Khair,Renato Isnard. Folha de S. Paulo. São Paulo: 15 dez. 2002. Carta do leitor p. A3.

LEITE, Paulo Moreira. Iguais e diferentes. Época. Rio de Janeiro: 15 abr. 2002. Carta do Editor, p. 18.

____. Golpes e Constituições.. Época. Rio de Janeiro, 22 abr. 2002. Carta do Editor, p. 18.

LOPES, Bruno. Apartheid digital. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 14 abr. 2003. Internet, p. 1.

Luzespela paz: Rio e mais 13 estados acendem velas em protesto contra a violência. O Globo. Rio de Janeiro: 8 jul. 2000, pp. 1, 12-19.

Magalhães,Mário. Folha de S. Paulo. Rio de Janeiro: 12 dez. 2002. p. A2.

Marcadospara morrer. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 19 jun. 2000. p. 1 e 18.

MARTHE, Marcelo. John de Mol – o grande irmão. Veja, São Paulo, 22 jan. 2003. Entrevista, pp. 8-13.

NATALI, João Batista. Ativistas criam forma alternativa de política. Folha de S. Paulo. São Paulo: 16 mar. 2003. Mundo, p.A20.

A novacara da TV. Veja. São Paulo. São Paulo: 15 jun. 1999. p. 119.

Oliveira, João Henrique Cavalcanti de. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, A opinião dos leitores, p. 9.

Ottati,Marília Aguiar Dias. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000. A opinião dos leitores, p. 9.

ParaLuana, seqüestrador foi vítima. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000. p. 24.

PINHEIRO, João, MÁIRAN, Paula. Filha de Márcia diz que pedreiro é o assassino. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 05 mai. 2001, p. 20.

PINTO, Manoel da Costa, MUNCINI, Maria Andrea. Gianni Vattimo – o niilismo como resistência. Folha de S. Paulo. São Paulo: 02 jun. 2002: Mais! p. 3.

PM provocou morte de refém e assassinou bandido. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, 1, 6, 21-28.

Políciaimpede contato com os parentes. O Globo. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, p. 20.

Policialacertou refém na cabeça e bandido foi asfixiado no camburão. O Dia. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, pp. 1, 8 – 12.

A questãodo Júri. Folha de S. Paulo. São Paulo: 15 dez. 2002. Editorial, p. A2.

Quantossão afinal nossos internautas? Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 29 jun. 2000. Internet. p. 3.

O Riocontinua a cidade maravilhosa. O Globo. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000. p 21.

ROCHA,Rogério Lannes. Nosso candidato é o leitor. Radis. ano 1, no. 1, ago. 2002. Rio de Janeiro: Fiocruz. Editorial, p. 3.

Roque, Átila ao JB on-line. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000. Cidade, p.22.

Rothen,Dalton Luiz de Luca. Folha de S. Paulo. São Paulo: 14 dez. 2002. Carta do leitor, p. A3.

SCHIMIDT, Selma. Garotinho: imprensa tem atração por violência. O Globo. Rio de Janeiro: 13 jun. 2000, O País, p. 8.

Segurançase constrói com vizinhança. Bondinho, Rio de Janeiro: Amast: jun. 2001, p. 1.

Sharonanuncia retirada parcial. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 16 abr. 2002. Internacional, p. 8.

Silêncioe luz: o Rio quer paz. O Dia. Rio de Janeiro: 8 jul. 2000. Caderno especial, pp. 1-12.

Sucessãode absurdos. O Globo. Rio de Janeiro:  14 jun. 2000, pp. 1, 6, 17-26.

Tavares, Franklin Maciel. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 16 jun. 2000, A opinião dos leitores, p. 10.

TERROR ataca os EUA. Jornal do Commercio. Recife: 12 set. 2001, pp. A1-A12, A16.

OS TERRORISTAS vão nos ouvir logo. O Estado de São Paulo. 15 set. 2001, pp. A1, A3, A17, Caderno Especial, pp. H1-H16.

TERROR sem limites. O Globo. Rio de Janeiro: Edição Extra 11 set. 2001, pp. 1-11.

TERROR suicida pára o mundo. O Globo. Rio de Janeiro: 12 set. 2001, pp. 1, 6, Caderno Especial, pp. 1-24.

THOMAS, Gerald. Vagando solitário pelo universo. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jan. 2003, Caderno B, p. B1.

Tiopolicial condena a ação da PM. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, Cidade, p23.

Transmissãoao vivo dá audiência. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 14 jun. 2000, p. 26.

35 bilhões: foi o que o grupo Viacom pagou pela rede CBS. Veja. São Paulo: 15 jun. 1999. p. 132.

VENTURA, Zuenir. Emoções eu vivi. O Globo. Rio de Janeiro: 07 jan. 2003. Segundo Caderno, p. 8.

XEXÉO, Artur. Para não dizer que não falei de Rosinhas. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 16 jun. 2000. Caderno B, p. 6.

____. Vale do Rio Doce na avenida é coisa de Trinta. O Globo. Rio de Janeiro: 5 mar. 2003. Segundo Caderno, p. 8.

____. Colunista assassina o Mar Vermelho. O Globo. Rio de Janeiro: 9 mar. 2003. Segundo Caderno, p. 8.

Zappa, Regina. Tempo de Cuidar, entrevista com Leonardo Boff. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 20 jun. 1999. Caderno B, p. 4.

 

Anexos

 

 


[1] Cf. entrevista concedida para efeito desta dissertação, no Rio de Janeiro, em maio de 2002.

[2] O hassidismo surgiu na Polônia, no século XVII. Buscava a renovação da mística judaica (Kabbalah), uma vida santificada na terra e a união com Deus, não admitindo divisão entre ética e religião. Ibidem, p. xxxiii.

[3] Ibidem. Cf Buber, essa imagem secreta de desejo permanece não como um desejo de volta, mas como a nostalgia da procura do vínculo cósmico do ser.

[4] Cf parágrafo 59 de Princípios da Filosofia do Futuro, de Feuerbach, citado na introdução à tradução brasieira de EU e TU.

[5] Buber estabelece distinção entre uma relação, em que há reciprocidade, e um relacionamento. Na estrutura dual do autor, usam-se relação para ‘Eu-Tu’ e relacionamento para ‘Eu-Isso’.

[6] Segundo o autor, “presença não é algo fugaz e passageiro, mas o que aguarda e permanece diante de nós. Objeto é estagnação, parada, interrupção, enrigecimento... desvinculação, ausência de relação, ausência de presença”. Para Buber, na medida em que o homem se satisfaz com as coisas que experimenta e utiliza, ele vive no passado, e seu instante é privado de presença. “O essencial é vivido na presença, as objetividades no passado.”

[7] Não está claro se, para Buber, sua afirmação de que “no princípio era a relação”, em que ele sinaliza que a relação original ou  vínculo indistinto é anterior a qualquer ação ou  linguagem do sujeito, entra em contradição com o versículo bíblico “no princípio era o verbo” (João 1:1), que conota a existência de uma ação – e, portanto, um sujeito da ação – original. Mas sua visão parece confirmar a interpretação de outro mito fundador judaico-cristão, a segunda ‘queda’, que se dá com a punição do homem pela ousadia em erguer a Torre de Babel, como sendo uma metáfora da linguagem como interdição na relação com Deus.

[8] Buber incluiu essa definição no post-scriptum redigido 34 anos após a primeira edição de Eu e Tu; criação, revelação e redenção são os três termos que encerram o núcleo da interpretação buberiana da palavra Deus, para ele, símbolo do encontro dialógico.

[9] Ao contrário de Buber, Lacombe e Chebabi, Sodré não utiliza a categoria relação como depositária dos laços mais estreitos da comunicação humana. Assim como Buber estabelece distinção entre relação e relacionamento, localizando apenas na primeira a reciprocidade, Sodré argumenta que a vinculação é da ordem do social e “núcleo objetivo da ciência da comunicação”, enquanto a relação é da ordem do societal e “socialmente gerida pelos dispositivos midiáticos e, portanto, pelo mercado” (Sodré, 2002, p. 233). Numa segunda leitura, porém, pode-se intuir que tanto a expressão vínculo, em Sodré, quanto relação, nos demais autores, têm aqui um mesmo sentido.  

[10] Em seu ensaio Requiem pour les media, um dos capítulos da obra Pour un critique de l’economie politique du signe (1972), Baudrillard argumenta que o que caracteriza os veículos de comunicação de massa é sua não-comunicação, entendendo-se comunicação como troca, reciprocidade de discursos – fala e resposta.

[11] A visão de que a mídia, a televisiva em especial, requer o  “silêncio do telespectador” é desenvolvida por Sodré em seu livro O monopólio da fala: função e linguagem da televisão no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1981. Na obra de meados dos anos 70, mas ainda atual em suas considerações sobre a mídia "tradicional" (televisão, rádio, jornais, revistas, discos, publicidade), o autor faz uma reflexão crítica sobre a função e a linguagem da tevê no Brasil, revê o papel do jornal e de outras mídias e destaca – desde a dialética de Platão – a questão essencial do diálogo.

[12] Cf. definição explicitada mais adiante neste capítulo, encontrável em Dizard, 1998, p. 14.

[13] Ressalvando-se, por exemplo, notícias sobre a existência de uma rede de salas de exibição de vídeos em Cuba, proporcionalmente vasta.

[14] Com as possibilidades que oferece de um maior número de canais, pulverizando a produção e diversificando a programação de tevê.

[15] Em 1970, Enzensberger publica, na News Left Review, o artigo “Constituents of a Theory of the Media”, em que critica a esquerda ocidental por não “compreender” o desafio lançado pela mídia eletrônica de se buscar criar uma “indústria da consciência” e por não ter uma estratégia em relação à mídia, além de criticar a nova esquerda, nascida nos anos 60, de ter reduzido a crítica à mídia a um simples conceito – o de manipulação”. Enzensberger, apud Mattelart, 1999, pp. 99, 100.

[16] Embora inúmeras experiências interessantes tenham sido empreendidas por  artistas ou produtores independentes, especialmente ao longo das décadas de 1970 e 1980, como instalações artísticas, vídeos experimentais, transmissões interativas e experimentos de desconstrucãoda linguagem televisiva, muitos dos quais relatados na obra O potencial dialógico da televisão, de Artur Matuck (1995).

[17] “Analógico é adjetivo aplicável a canal, meio de comunicação ou modelo que mantém uma relação de semelhança e de causalidade direta com os fenômenos que devem ser designados, calculados, ou transmitidos. Analógicos são disco de vinil, a máquina fotográfica, o instrumento com ponteiros e outros.” Sodré, 2002, p. 92.

[18] “Digital é o meio ou o intrumento representado pelos objetos em forma numérica: compact disc, computador, telégrafo, instrumentos de visualização por cifras.” Ibidem, p. 92.

[19] Segundo Janet Murray, o conceito de hipertexto evolui da sistematização do conhecimento humano infinitamente acumulado e organizado racionalmente, conforme proposta do pioneiro Vannevar Bush, em 1945, para um formato de sistematização por associação, como num labirinto, segundo a concepção de Ted Nelson, que cunhou a expressão hipertexto na década de 1960.

[20] A atração pela simulação por computador surge, ainda segundo Murray, como uma tentativa de representar a complexidade, desde que Norbert Wiener fundou a disciplina dos sistemas dinâmicos, em seu livro Cibernética, de 1948.

[21] Cf. definições reunidas por Jensen. In Mayer, 1999, pp. 165-169.

[22] Cf. Jensen, em tradução livre do autor da dissertação.

[23] A gradação de interatividade forte e fraca na forma como é utilizada neste texto (e que pode ser aproximada das subdimensões de Jensen, na medida em que o aprofundamento do grau das interatividades conversacional  e registracional caracterizariam a interatividade forte, e as demais, a fraca)  tem como base distinção traçada por Paulo Vaz, em conferência na ECO/UFRJ, jun. 2000.

[24] O argumento de Baudrillard refere-se criticamente à diferenciação clássica estabelecida por McLuhan entre meios quentes, de alta definição, e meios frios, de baixa definição – como classifica a tevê –, apresentada em Os meios de Comunicação como Extensões do Homem: “Os meios quentes não deixam muita coisa a ser preenchida ou completada pela audiência (...). Um meio frio dá muito mais margem ao ouvinte ou usuário. Se um meio é de alta definição, sua participação é baixa, se um meio é de baixa definição, sua participação é alta”. MacLuhan apud Matuck, 1995, p. 96.

[25] Baudrillard refere-se à relação dual como no potlatch (cerimonial) da língua melanésia (descrita por Malinowski) e à lógica interindividual (polaridade) da troca como na linguagem clássica (conforme estudada por Jakobson).

[26] Para Lévy, “as hierarquias burocráticas (fundadas na escrita estática), as monarquias midiáticas (‘surfando’ na televisão e no sistema de mídias) e as redes internacionais da economia (utilizando o telefone e as tecnologias do tempo real) só mobilizam e coordenam parcialmente a inteligência, a experiência, o savoir-faire, a sabedoria e a imaginação dos seres humanos”. É no espaço crítico e político da “mutação antropológica contemporânea” que ele vislumbra a invenção de “novos procedimentos de pensamento e negociação” que façam emergir “verdadeiras inteligências coletivas”. Ele acredita que se tornou impossível reservar o conhecimento a classes de especialistas e que “o conjunto do coletivo humano” deverá adaptar-se, aprender e inventar, por conta própria, para viver melhor “no universo complexo e caótico em que passamos a viver”.

[27] Sobre o conceito freudiano de pulsão de morte, ver tópico 1.4, no Capítulo 1.

[28] O contato com o radiouvinte por telefone iniciou-se junto com a segmentação de público e a adoção de linguagem informal e acessível, desde o surgimento da televisão – e o esvaziamento das receitas publicitárias no rádio –, fenômeno que coincidiu com o surgimento dos rádios portáteis transistorizados.

[29] É importante destacar que a participação presencial da platéia nos auditórios, em que os que ali estão deixam de ser público para se-tornar parte do espetáculo, existiu desde o início da tevê  brasileira.

[30] Embora, segundo a emissora, os votos computados na terceira edição do Big Brother Brasil, em fevereiro de 2003, já chegassem à casa dos quatro milhões.

[31] Sobre formas discursivas utilizadas pela tevê, em que “a ‘interação’ (proposta) é domesticada em ‘reação’, de acordo com o desejo da emissora”, ver Mendonça, 2002.

[32]A expectativa de interatividade com o advento da tevê a cabo é tal, que estudiosos sérios da comunicação, como Lúcia Santaella, continuavam, no início dos anos 90, a listar a tevê a cabo entre as novas mídia “altamente interativas e bidirecionais, implicando na escolha da informação pelo usuário”, juntamente com terminais domésticos de pubicação, videotexto, correio eletrônico, videocassete etc. Santaella, 1992, p. 29.

[33] Projeto da Lei de Serviço de Comunicação Social Eletrônica, encaminhado pelo Executivo ao Congresso, em 2002, engloba serviços de radiodifusão (tevê aberta) e cabodifusão (tevê a cabo, MMDS e satélite) e exige que os operadores em MMDS (sistema multicanal de distribuiçào de microondas) e DTH (direct to home television) passem a transportar canais que já são obrigatoriamente distribuídos por cabo, como os canais universitários e legistlativos, entre outros. Hoineff, In Jornal do Brasil, 31 dez. 2002, p.11.

[34]Os internautas brasileiros seriam, em maio de 2000, 10,5 milhões, de acordo com a empresa Yankee Group, que usou metodologia questionável, por se basear apenas em informações prestadas pelos provedores de acesso. In Quantos são afinal nossos internautas? Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 29 jun. 2000. Internet. p. 3. Três anos depois, 8,1% dos 170 milhões de brasileiros teriam acesso à internet, segundo cálculos da Fundação Getúlio Vargas. In Apartheid digital. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 14 abr. 2003. Internet. p.1.

[35] O programa da TV Cultura de São Paulo permite a participação do telespectador por telefone, e-mail, site, chat, fax, cartas, entrevistas de rua, entrevistas on line com imagem via provedores de internet.

[36] Tese de doutorado, orientada por Ester Kosovski, apresentada do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ/ECO. Rio de Janeiro: 2001-2. O trabalho apresenta e discute a visão dos profissionais atuantes na mídia sobre os efeitos da globalização, “buscando revelar compromissos e interesses das empresas jornalísticas, técnicas diárias dos seus profissionais, bem como entender o comportamento da imprensa, dentro do contexto social”, enfocando, em especial, a importância da prática de um “jornalismo reflexivo”. Embora diverso em seu objetivo e enfoque, o consistente trabalho de Cotta empresta à presente dissertação não apenas sua metodologia de survey por e-mail entre jornalistas, mas também um pano de fundo para as questões aqui abordadas, ajudando a descrever o contexto de um novo ambiente midiático em que se processam as relações da mídia com o mercado (economia e tecnologias, o capital enfim) e a sociedade.

[37] A redução do número de perguntas foi uma das principais sugestões dos respondentes da pesquisa realizada por Pery Cotta. A julgar pela absoluta ausência de queixas quanto à extensão do questionário da presente pesquisa, pode-se considerar que seu conjunto de perguntas e o tempo necessário para as respostas são aceitáveis para esse tipo de enquete. Outros comentários, quanto ao conteúdo das perguntas, podem ser conferidos ao longo do capítulo.

[38] A intenção de submeter o questionário a colunistas que, eventualmente, mantenham o hábito de receber as mensagens por meio dos canais tradicionais do jornal mostrou-se inócua, visto que nenhuma tentativa indireta de chegar aos colunistas resultou em resposta.

[39] Num único caso, uma terceira mensagem mais pessoal e insistente foi enviada, na esperança de um depoimento mais rico, na medida em que o jornalista Fritz Utzeri tinha o hábito freqüente de citar leitores em sua coluna. Graças a “uma manhã chuvosa de domingo”, a resposta enfim chegou.

[40]Esse recurso foi menos incisivo do que o utilizado por Pery Cotta, que relata ter feito ligações telefônicas para alguns dos eventuais entrevistados ou solicitado a indicação de novos nomes a serem procurados, ampliando de forma mais direcionada a amostragem inicial. Por outro lado, o procedimento adotado em sua pesquisa de mandar um aviso sobre o envio do questionário numa próxima mensagem – uma “carta prévia”, segundo a metodologia de survey – fez com que alguns jornalistas evitassem a mensagem seguinte, bloqueando o endereço do remetente, conforme relato do autor em entrevista a Marinilda Carvalho, do site Observatório da Imprensa, em janeiro de 2002. www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/iq010120026.htm.

[41] A primeira mensagem partiu no dia 5 de junho, e, no dia 13 de julho, 34 das 38 respostas obtidas já haviam retornado. O período da pesquisa coincidiu com a Copa do Mundo, dificuldade mencionada por alguns respondentes e que deve ter refletido de forma significativa nos atrasos ou impossibilidades de retorno, visto que vários colunistas que cobriram ou comentavam os jogos na Coréia e no Japão emendaram em um período de férias no exterior.

[42] Dois jornais incluídos na pesquisa estão ausentes na lista de respondentes: o Correio Braziliense, para o qual foram enviadas 11 mensagens em nome de seus colunistas, e o Correio da Bahia, para o qual foi enviada apenas uma mensagem em nome da coluna de cartas ao jornal, solicitando que o questionário fosse repassado aos colunistas, sem que tenha havido qualquer resposta ou confirmação de recebimento por parte do jornal. Os índices de resposta, recusa e não resposta por cada jornal estão na Tabela 12. Anexo 3, p. 12.

[43] A relação completa dos respondentes e respectivos jornais em que trabalham, excluídos os nomes dos que solicitaram omissão da fonte, pode ser consultada no Anexo 2

[44] Cf. Tabela 3. Anexo 3, p. 9. O percentual de respostas na pesquisa de Pery Cotta foi de 35% (60 retornos em 160 mensagens enviadas). Cotta, 2001, Anexos, p. II.

[45] Cf. tabelas 4-7, Gráfico 1.  Anexo 3, pp. 9, 10.

[46] Cf. Tabela 8. Anexo 3, p. 10.

[47] Cf. Tabela 9. Anexo 3, p. 11.

[48] Cf. tabelas 14, 15, 16. Anexo 3, p. 14.

[49] Cf. tabelas 17, 21. Anexo 3, pp. 15, 18.

[50] Cf. tabelas 22, 23, 24, 25. Anexo 3, pp. 19, 20.

[51] Cf. Tabela 26. Anexo 3, p. 20.

[52] Cf. Tabela 30, Gráfico 3. Anexo 3, p. 22.

[53] Cf. Tabela 100. Anexo 3, p. 56.

[54] Cf. Tabela 102, Gráfico 25. Anexo 3, p. 58.

[55] Cf. Tabela 101, Gráfico 24. Anexo 3, p. 57.

[56] Cf. tabelas 104-111, gráficos 26-28 (este último, em especial). Anexo 3, pp. 59-63.

[57] Cf. tabelas 112-117, Gráfico 29. Anexo 3, pp. 63, 64.

[58] Cf. Tabela 98. Anexo 3, p. 55.

[59] Cf. Tabela 63, Gráfico 17. Anexo 3, p. 40.

[60] Cf. tabelas 67, 68. Anexo 3, p. 42.

[61] Cf. opinião do respondente 6 (O Globo), que solicitou não citar fonte.

[62] Cf. opinião de Marcelo Auler (O Pasquim 21).

[63] Cf. opinião de Regina Teixeira Costa (Estado de Minas).

[64] Cf. opinião da respondente 35 (Jornal do Commercio), que solicitou não citar fonte.

[65] Cf. opinião de Maurício Pessoa de Faria (Estado de Minas).

[66] Cf. Tabela 69. Anexo 3, p. 42.

[67] Cf. Tabela 70. Anexo 3, p. 43.

[68] Cf. Tabela 71. Anexo 3, p. 43.

[69] Cf. tabelas 31-38, Gráfico 4. Anexo 3, pp. 23-25.

[70] Cf. opinião de Daniel Castro (Foha de S. Paulo).

[71] Cf. opiniões do respondente 6 (O Globo), que solicitou omitir fonte, e de Gilberto Leal (Zero Hora).

[72] Cf. depoimento do respondente 35 (Jornal do Commercio), que solicitou omitir fonte.

[73] Cf. Tabela 55. Anexo 3, p. 37.

[74] Cf. tabelas 52-54, Gráfico 14. Anexo 3, pp. 35, 36.

[75] Cf. Tabela 56. Anexo 3, p. 37.

[76] Cf. Tabela 57. Anexo 3, p. 37.

[77] Cf. Tabela 58. Anexo 3, p. 38.

[78] Cf. Tabela 40, Gráfico 5. Anexo 3, p. 26.

[79] Cf. Daniel Castro (Foha de S. Paulo).

[80] Cf. Daniel Castro (Foha de S. Paulo).

[81] Cf. Tabela 42, Gráfico 7. Anexo 3, p. 28.

[82] Cf. Tabela 41, Gráfico 6. Anexo 3, p. 27.

[83] Cf. Tabela 43, Gráfico 8. Anexo 3, p. 29.

[84] Cf. Tabela 44, Gráfico 9. Anexo 3, p. 30.

[85] Cf. Tabela 61. Anexo 3, p. 39.

[86] Cf. Tabela 62. Anexo 3, p. 39.

[87] Cf. Tabela 47, Gráfico 12. Anexo 3, p. 33.

[88] Cf. Tabela 48. Anexo 3, p. 33.

[89] Cf. Tabela 51, Gráfico 13. Anexo 3, pp. 34, 35.

[90] Cf. Tabela 45, Gráfico 10. Anexo 3, p. 31.

[91] Cf. Tabela 46, Gráfico 11. Anexo 3, p. 32.

[92] Cf. tabelas 49, 50. Anexo 3, p. 34.

[93] Cf. tabelas 49, 50. Anexo 3, p. 34.

[94] Cf. Tabela 59, Gráfico 16. Anexo 3, p. 38.

[95] Cf. Tabela 60. Anexo 3, p. 39.

[96] Cf. tabelas 85-91, gráficos 19, 20. Anexo 3, pp. 49-51.

[97] Cf. opinião de Daniel Castro (Folha de S. Paulo).

[98] Cf. opinião de Samuel Celestino (A Tarde).

[99] Cf. respondente 6 (O Globo), que solicitou omissão da fonte.

[100] Cf. Tabela 93, Gráfico 21. Anexo 3, p. 52.

[101] Cf. tabelas 95-97. Anexo 3, p. 54.

[102] Cf. tabelas 121-123, Gráfico 32. Anexo 3, pp. 67, 68.

[103] Cf. Tabela 94, Gráfico 22. Anexo 3, p. 53.

[104] Cf. tabelas 118, 120, Gráfico 30. Anexo 3, pp. 65, 67.

[105] Cf. Tabela 124 e Gráfico 33. Anexo 3, p. 69.

[106] Cf. Tabela 125. Anexo 3, p. 69.

[107] Cf. Tabela 127, Gráfico 34. Anexo 3, p. 70.

[108] Cf. Tabela 126. Anexo 3, p. 69.

[109] Cf. opinião de Sérgio Mattos (A Tarde). Vale registrar que a decisão de ouvir colunistas de jornais de todo o país – e não só do Rio de Janeiro, como pensado anteriormente, quando se cogitava de entrevistas presenciais – não evitou que uma pergunta sobre a repercussão de uma notícia local (o estupro e morte de uma moradora do bairro de Santa Teresa) permanecesse no questionário. A análise resultou que nenhum dos colunistas havia tratado ou recebido mensagens sobre o caso.

[110] Cf. Tabela 129, Gráfico 36. Anexo 3, p. 72.

[111] Cf. tabelas 130, 131, gráficos 37, 38. Anexo 3, pp. 73, 74.

[112] Cf. tabelas 132-134, gráficos 39-41. Anexo 3, pp. 75-77.

[113] Cf. Tabela 135, Gráfico 42. Anexo 3, p. 78.

[114] Cf. Tabela 137, Gráfico 44. Anexo 3, p. 80.

[115] Cf. Tabela 136, Gráfico 43. Anexo 3, p. 79.

[116] Cf. tabelas 138-142, Gráfico 45. Anexo 3, pp. 80-82.

[117] Cf. tabelas 143-147, Gráfico 46. Anexo 3, pp. 82, 83.

[118] Cf. Tabela 148, Gráfico 47. Anexo 3, p. 84.

[119] Cf. Tabela 149, Gráfico 48. Anexo 3, p. 85.

[120] Cf. Tabela 152. Anexo 3, p. 87.

[121] Cf. Tabela 150, Gráfico 49. Anexo 3, p. 86.

[122] Cf. Tabela 151, Gráfico 50. Anexo 3, p. 87.

[123] A revista Radis, editada pelo Programa Reunião Análise e Difusão de Informações sobre Saúde, da Escola Nacional de Saúde Pública – ENSP, da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, é sucedânea das revistas Tema, Dados e Súmula, além do Jornal Proposta, publicados desde 1982 e que, em 2002, receberam cinco dos 10 prêmios de melhores reportagens sobre saúde no Brasil, outorgados pela Organização Pan-Americana de Saúde – Opas, por ocasião das comemorações de seus 100 anos. A revista é enviada mensalmente para cerca de 40 mil assinantes entre profissionais e instituições públicas e particulares de saúde, conselhos e secretarias de saúde, todas as prefeituras e câmaras de vereadores do país, parlamentares, sindicatos urbanos e rurais, associações de moradores, instituições educacionais no Brasil e exterior, ongs, jornais e emissoras de rádio e tevê.

[124] Jornal Proposta, editado pelo Programa Radis em 1989, reproduzido na contracapa da Radis n. 1.

[125] Associação dos Servidores da Fiocruz, na qual exerço cargo de diretoria.

[126] Sistema Único de Saúde, criado pela Constituição de 1988, com base no princípio de que saúde é direito do cidadão e dever do Estado e que a saúde deve ser promovida respeitando os princípios de integralidade, universalidade e eqüidade, e estar submetida ao controle da sociedade.

[127] Gerald Thomas não foi incluído nos colunistas que responderam ao questionário – enviou mensagem avisando que não respondera à pesquisa por estar viajando. A citação foi retirada de sua crônica elogiosa ao filme  Deus é brasileiro, de Cacá Diegues (2003): “uma obra de arte (...) que não nos deixa esquecer, nunca, que nada somos senão seres que vagam pra lá e pra cá em busca de algum calor humano (no filme, até Deus precisa dele)”. Jornal do Brasil, 14 jan. 2003, p. B1.

[128] Inaugurados com as obras dos ingleses Richard Hoggart (The Uses of Literacy, 1957), Raymond Williams (Culture and Society, 1958) e Edward P. Thompson (The Making of the English Working Class, 1968), em que se rompe com a dissociação entre estudos sobre a cultura e a sociedade, e que tiveram no Centro de Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade de Birmigahm seu principal pólo de produção e difusão, especialmente sob a direção do jamaicano Stuart Hall, entre 1968 e 1979. Segundo Armand e Michèle Mattelard, a obra The Long Revolution, de Williams (1965), confirma uma dupla ruptura teórico-metodológica do grupo. “Em primeiro lugar, com a tradição literária que situa a cultura fora da sociedade, pondo em seu lugar uma definição antropológica: a cultura é o processo global por meio do qual as significações são social e historicamente construídas, a literatura e a arte são apenas uma parte da comunicação social. Ruptura, em segundo lugar, com um marxismo redutor: Williams posiciona-se em favor de um marxismo complexo, que permite estudar a relação entre a cultura e as outras práticas sociais; ele debate o primado da base sobre a superestrutura, que reduz a cultura, submetendo-a à determinação social e econômica.” Mattelart, 1999, pp. 105-109.

[129] O desfecho desse episódio não impediu que, meses depois, as mesmas forças voltasem à carga com novos lock-outs, passeatase greves, sempre com ampla cobertura pela mídia venezuelana e difusão, pelas agências de notícias internacionais, de imagens e versões unilaterais para todo o mundo, o Brasil incluído, tendo a maioria da imprensa voltado a reproduzi-las acriticamente. Dessa vez, porém, o movimento era mais amplo, com prolongados lock-outs e greves, em que os interesses internacionais (especialmente norte-americanos) e as condições de divulgação e convencimento das bandeiras da oposição/mídia se revelavam indissociáveis do descontentamento real de setores da população.

[130] Outro atentado simultâneo, de forte efeito simbólico, foi praticado contra o edifício sede do Pentágono, quartel-general da maior força militar do planeta, em Washington. Embora as imagens do prédio do Pentágono atingido e em chamas tenham sido divulgadas intensamente durante e após o dia 11 de setembro de 2001, as imagens que simbolizaram os acontecimentos daquela data foram as do choque do segundo avião e do desabamento das torres, acompanhadas ao vivo por bilhões de telespectadores em todo o mundo. Um terceiro teria sido evitado com a derrubada por caças da força aérea americana, de mais um avião de carreira seqüestrado, no estado da Pensilvânia (Folha de S. Paulo, 12/09/2001, 12/09/2001, pp. A1-A28; O Estado de São Paulo, 12/06/2001, ; O Dia, 12/09/2001, p. 1, Caderno especial 1-6; Jornal do Commercio, 12/09/2001, pp. 1, A3-A12, A16; O Globo, 12/09/2001, pp. 1, 6, Caderno especial 1-24).

[131] Para Aristóteles, a tragédia “é a imitação de uma ação”, que suscite “piedade e terror” e “que se executa mediante personagens que agem e que diversamente se apresentam, conforme o próprio caráter e pensamento”. O mito, para ele, é “a composição dos atos”, em que as ações são qualificadas pela diferença de caráter e pensamento. Por caráter, o autor entende “o que nos faz dizer das personagens que elas têm tal ou qual qualidade”; por pensamento, “tudo quanto digam as personagens para demonstrar o que quer que seja ou para manifestar sua decisão”. Aristóteles. Poética. VI 30 e XI 62.

[132] Segundo conceito de ética apresentado por Muniz Sodré, em conferência na Eco/UFRJ, mai. 2000.

[133] Um tiro do policial e três da arma de Sandro, segundo a perícia. “Saiba mais sobre o fracasso da ação policial”. O Globo. 14 jun. 2000. p. 18. No documentário Ônibus 174, diz-se que Geisa recebeu três tiros, um da arma do policial e dois da arma de Sandro.

[134] Sete anos depois, 40 dos sobreviventes haviam sido assassinados, cinco morreram de Aids, seis estavam presos, dois eram gerentes do tráfico, um estava doente, cinco tinham ‘vida digna’, quatro ainda viviam na rua. Jornal do Brasil. 19 jun. 2000. pp. 1, 18.

[135] Reconhecimento como “passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou a desdita”. Aristóteles, Poética, XI 61.

[136]As evidências de que ele estaria drogado, embora tidas como aspecto de destaque na argumentação de leitores e articulistas em suas avaliações a posteriori do fato, não chegaram a ser comprovadas pelo exame cadavérico, que priorizou identificar as razões de sua inexplicável morte após a detenção. Em depoimento ao documentário Ônibus 174, uma ex-moradora de rua que convivia com Sandro,  Cláudia ‘Macumba’, diz que “o normal de Sandro era cheirado” e que “para fazer o que fez, tava muito louco, pernoitado”.

[137] “Nós passamos por eles, nas ruas, com indiferença. Quando um deles se aproxima, portando uma arma e nos ameaçando, ganha visibilidade e conquista todos os atributos da presença. Em breve, a densidade ontológica alcançada pela imposição do medo lhe dará nome e status, ainda que os privilégios da identidade se radiquem na escala negativa, construída no mundo do crime. A dialética ardilosa faz com que a auto-estima se afirme pelo avesso, como a contrapartida da capacidade de despertar medo, como a contrapartida do reconhecimento obtido pela ameaça, como o subproduto de uma tangibilidade perversa.”

[138] Segundo Muniz Sodré, desde o início da escravidão moderna, o homem negro é aquele obrigado a realizar o desejo de outrem – o senhor: “Na prática, cumprir a vontade alheia é sujeitar-se à imprevisibilidade das representações que possam advir do descontrole ético das tarefas. Assim, o negro passa a ser representado ora como negro bom (em geral, infantilizado, subserviente, sorridente, nos termos da representação social do bom selvagem de Rousseau), ora como negro mau (animalizado, homicida, impiedoso, mais ou menos conforme os traços do selvagem Caliban, personagem shakespeareano de A Tempestade). A historiografia mostra como o lado demoníaco do senhor podia ser assumido por seu escravo negro. Além do trabalho cotidiano considerado indigno para o senhor, o escravo podia ser utilizado para encargos legal e eticamente condenáveis, como o assassinato, a tortura, a prostituição, etc. Desenvolve-se deste modo, ao longo dos tempos, uma imagem sombria e desfavorável que se incorpora às representações intelectualizadas e, subseqüentemente, ao senso comum das populações de cor clara”. Sodré, 1999, p.148.

[139] Segundo Robert Pignarre (s/d. p. 27), “ao contrário da máscara dos primitivos, que serve para manifestar o rosto do sobrenatural (e que é o rosto dos monstros), a máscara grega, afastando o bestiário fabuloso, deu à tragédia um rosto humano”.

[140]A “mutação dos sucessos no contrário” vivida pela personagem. Aristóteles, 1998, XI 60.

[141] Situação descrita por Aristóteles (1998, X 58) como do “mito complexo”.

[142] Nas tragédias gregas, as mortes geralmente ocorrem fora de cena e são narradas pelo coro, como quando a mídia noticiou a suposta morte de Janaína no interior do ônibus, ou de Sandro, no interior do camburão. A própria morte de Geisa não chegou a ser confirmada imediatamente, mantendo alguma semelhança com os crimes narrados nas tragédias. Mais sobre a morte fora de cena pode ser verificado, por exemplo, na tragédia Medéia, de Eurípedes (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, pp. 205-209).

[143] A conduta ilegal da polícia teve apoio, por exemplo, de 45,03% e foi condenada por 44,35% dos internautas que responderam à pesquisa do Jornal do Brasil (15/06/2000, p.1, 24) pela internet. Dos que acessaram a página do jornal, 28% endossaram a conduta da polícia em todo o episódio. Na enquete on-line realizada por O Globo (15/06/2000, p. 18), o percentual dos que aprovaram o assassinato de Sandro pelos policiais, justificando que “ele teve o castigo que mereceu”, ficou em 15%. Das 645 opiniões coletadas pelo Globo on, 11% elogiaram o procedimento adotado pela polícia em todo o episódio. Pesquisas como essas não podem ser interpretadas como expressão da ‘opinião pública’, mas são exemplos sintomáticos de um tipo de pensamento corrente.

[144]O canal a cabo Globo News entrou com um flash ao vivo às 15h e passou a transmitir direto a partir das 15:30h. A TV Record foi o único canal aberto a transmitir sem interrupções, a partir das 17:19h. A Globo transmitiu apenas flashes em meio à programação – “não podemos nos arriscar a exibir uma cena de explosão de sangue, pois havia muita gente vendo naquele horário”, explicou o diretor de produção e editorial da Central Globo de Jornalismo, Carlos Schröeder, ao jornal. A TVE, primeira a chegar ao local e que registrou com exclusividade a entrada de Sandro com vida no camburão, não dispunha de uma unidade para transmissão ao vivo no local. “Transmissão ao vivo dá audiência”. Jornal do Brasil, 14 jun. 2000, p. 26.

[145] A presença do público no local ou via tevê, através das câmeras e holofotes, não foi irrelevante no rumo dos acontecimentos daquele dia. O “canto em cena” do público local rompendo os cordões de isolamento e, segundo a polícia, tentando linchar Sandro, é usado como argumento dos advogados de defesa dos policiais, para justificar o assassinato do assaltante sob custódia policial, como “legítima defesa da sociedade”.  “O coro também deve ser considerado como um dos atores; deve fazer parte do todo, e da ação...”, Aristóteles, 1998, XVIII 110.

[146] Em Aristóteles, a catarse tem o efeito de “purificar os sentimentos de piedade e terror” presentes na tragédia, interpreta Eudoro de Souza, na introdução à tradução portuguesa de Poética. Ibidem, p. 99.

[147] Cf. mensagem do leitor Átila Roque ao JB on-line (Jornal do Brasil, 14/06/2000, p. 22).

[148] Cf. mensagem da leitora Marília do Nascimento Abrahim (O Globo, 14/06/2000, p. 6).

[149] Cf. mensagem do leitor Luiz Carlos Borges ao JB on-line (Jornal do Brasil, 14/06/2000, p.23).

[150] Cf. mensagem da leitora Tania Ramos de Moraes ao JB on-line (Jornal do Brasil, 14/06/2000, p. 24).

[151] Cf. mensagem da leitora Marília Aguiar Dias Ottati (Jornal do Brasil, 14/06/2000, p. 9).

[152] Cf. mensagem do leitor João Henrique Cavalcanti de Oliveira (Jornal do Brasil, 14/06/2000, p. 9).

[153] Cf. mensagem da leitora Sonia Baggetti (O Dia, 14/06/2000, p. 8).

[154] Cf. mensagem da leitora Magda de Almeida (O Globo, 16/06/2000, p. 6).

[155] Segundo Eudoro de Sousa, na introdução à tradução portuguesa da obra de Aristóteles (1998, p. 83), “é na tragédia e pela tragédia que o herói se reveste daquela subdivindade ou super-humanidade, que se determina como o ser trágico” e que "o herói não se determina a si mesmo como trágico, mas é por outrem determinado como tal”.

[156] Cf. mensagem do leitor Marcos Giusti (Jornal do Brasil, 14/06/2000, p. 8).

[157] Cf. mensagem do leitor Franklin Maciel Tavares (Jornal do Brasil, 16/06/2000, p. 10).

[158] A cobertura da campanha pela mídia incluiu, por exemplo, as seguintes  matérias: Luzes pela paz: Rio e mais 13 estados acendem velas em protesto contra a violência. O Globo, 8 jul. 2000, pp. 1, 12-19; E agora? O carioca fez a sua parte, vestiu branco e pediu paz. Poucas autoridades apareceram. Jornal do Brasil, 8 jul. 2000, pp. 1, 20-22. Silêncio e luz: o Rio quer paz. O Dia, 8 jul. 2000. Caderno especial, pp. 1-12.

[159] Festas que atravessam dias e noites, com música eletrônica e alto índice de consumo de drogas estimulantes.

[160] Julgava-se que, desligado o fio da mídia – o olho da sociedade naquele momento –, a polícia estaria mais livre para desvarios. Ironicamente, porém, nem a transmissão ao vivo impediu que ela agisse contrariando o bom senso e a lei.

[161] A maioria das notícias tratou como seqüestro a situação com reféns no cerco ao 174, embora especialistas ouvidos na época não usassem essa terminologia. O próprio documentário de Jose Padilha, que optou por não adotar a palavra seqüestro, acabou usando a legenda “o sequestrador”, para introduzir trechos em que conta a saga do menino que presencia o assassinato da mãe, sobrevive em ruas e cadeias de indescritível imundície e, pouco antes de sua morte, conquista uma ‘mãe’ no complexo de favelas da Maré, que o adota a ponto de comparecer a seu enterro, absolutamente só, enfrentando o escárnio e o ódio do coro e da platéia da tragédia.

[162] Primeiro foi a propaganda da empresa telefônica Intelig, com atores famosos escrevendo o número 23 invertido num vidro imaginário. Tempos depois, também o Banco Itaú adotou o mesmo recurso em campanha publicitária.

[163] Depois do drama épico dos poemas recitados em praça pública e dos ritos de representação do assassinato e desmembramento de Dionísio, a tragédia nasce por volta do ano 560 a.C. e chega ao ano 490 a.C. consagrando o drama constituído por uma trilogia ou tríptico de tragédias com o mesmo assunto, estrutura superada por Sófocles, o que retirou amplitude da tragédia, mas lhe atribuiu rapidez, condensando-a em algumas horas, “em que o destino ia descobrindo o seu jogo, através do precipitado desenrolar de uma vida”. Pignarre, s/d., p. 28.

[164] Enquanto o herói trágico do 174 – que havia sobrevivido à Chacina da Candelária, por estar dormindo sobre o telhado de uma banca de jornal – foi providencialmente assassinado, no episódio da Candelária, Wagner dos Santos, um dos então meninos de rua, outro herói trágico, sobreviveu depois de arrastado para dentro do carro dos policiais, baleado diversas vezes e jogado para morrer no Aterro do Flamengo. Hoje encontra-se exilado e protegido pelo governo suíço, vindo ao Brasil para depor, de tempos em tempos, como principal testemunha de acusação contra os policiais processados por aquele crime.

[165] Matéria do correspondente Márcio Aith afirma que as marchas pela paz foram ‘escondidas’ pela mídia americana. As redes abertas (ABC, CBS, NBC e Fox) teriam dado muito pouco destaque aos protestos e enfatizado as mobilizações de tropas no Golfo Pérsico e a ameaça de novo ataque terrorista em solo americano. Os canais a cabo especializados em notícias (CNN, Fox News, MSNBC e CNBC) demoraram para exibir imagens das manifestações e, sempre que o faziam, incluíam opiniões de convidados que criticavam o movimento pacifista. Enquanto a CNN internacional exibia as manifestações em suas transmissões para o resto do mundo, a CNN americana apresentava um programa especial de uma hora sobre as ramificações mundiais da Al Qaeda. Folha de S. Paulo, 16 fev. 2003, pp. A16, A17.

[166] Em tradução da Ética a Nicômacos a partir da versão inglesa de W. D. Ross realizada por Leonel Vallandro e Gerd Bornhein (São Paulo: Nova Cultural, 1987) as três formas de vida são a dos gozos, a política e a i; em tradução diretamente do grego feita por Mário da Gama Kury (Brasília: Fundação Universidade de Brasília, 1999) – segundo o qual a doutrina dos três tipos de vida pode ser atribuída a Pitágoras (século VI a.C.) – os três bios aristotélicos são a vida agradável, a política e a contemplativa. Sodré lembra que Platão fizera a distinção dos gêneros de existência no Filebo.

[167] Praxis entendida não como prática repetidora, mas como transformadora de relações, operando sobre sujeito e objeto.

[168] Faixa do CD “Lado B, Lado A”, vencedor do Prêmio Multishow de Música Brasileira 2000, dedicado pela banda ao ex-Coordenador de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luís Eduardo Soares. O videoclipe da música venceu também o Vídeo Music Brasil 2000, da MTV.

[169] Essas idéias foram apresentadas na conferência de Vattimo por ocasião da abertura do 11o Encontro Nacional da Compós (Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação), jun. 2002 e em entrevista à Folha de S. Paulo, 02 jun. 2002, Mais!, p. 3.

[170] Citações em epígrafe (cf. pp. 23, 106).

[171] A divergência de grafia do nome do filósofo holandês decorre da opção feita por esta dissertação pela forma Baruch Spinoza, sugerida por Koogan/Houaiss. Enciclopédia e dicionário ilustrado. Rio de Janeiro: Delta, 1995, em detrimento da grafia diversa apresentada na obra Baruch de Espinosa. São Paulo: Nova Cultural, 2000 (coleção Os pensadores).

[172]Na década de 1980, no Rio de Janeiro, moradores organizados transformaram movimentos comunitários e a proteção da flora e de encostas em causa ecológica urbana, conseguindo ampla cobertura e apoio da mídia durante os anos em que preservaram e reflorestaram os morros do Leme e dos Cabritos (Parque da Chacrinha), em Copacabana, e da Saudade, no Humaitá. Em Botafogo, as associações de moradores contornaram as restrições às organizações comunitárias ou o desinteresse em relação às questões de saúde ambiental, para conseguir expulsar do bairro uma poluente fábrica de cimento, com todo o apoio da mídia, na medida em que aspectos jurídicos e de ‘liberação’ do espaço urbano para empreendimentos imobiliários era enfocada. Na mesma época, a organização não governamental Ibase reunia lideranças comunitárias para conversas com jornalistas (media trainning) sobre como lidar com os diferentes tipos de mídia.

[173] Historicamente, o movimento estudantil sempre soube criar situações que gerassem repercussão para suas causas. Nos primeiros anos desta década, as associações de pais do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, contornaram o bloqueio às cartas e opiniões de entidades representativas e o desinteresse da mídia por greves em escolas públicas, com mensagens  redigidas coletivamente segundo objetivos comuns, e enviadas aos jornais isoladamente em nome de cada família, obtendo sua publicação.

[174] Em pleno Governo Fernando Henrique Cardoso e com a mídia afinada com o ‘discurso único’ liberal, que entre outros dogmas defendia Estado mínimo, desprestigiava servidores públicos e ignorava seus movimentos e demandas, a Associação de Servidores da Fiocruz – Asfoc conseguia realizar greves curtas e movimentos criativos e de impacto, passando exatamente as informações que desejava para jornais, tevês e rádios, na hora e no dia precisos, escolhendo os profissionais a contactar e a mensagem adequada para cada editoria, obtendo ampla cobertura para seus movimentos e concessões impensáveis para o governo da época.

[175] Ao mesmo tempo que realiza ocupações de terra e caminhadas para manter a reforma agrária na agenda política nacional, o MST encontra formas de articular-se com outros segmentos sociais na internet, em escolas e conferências; cria situações de identificação de sua causa tanto com o espírito dos primeiros kibutz, quando com a independência do povo palestino. Ocupa espaços na mídia, mas também se confronta eticamente com ela, como quando seus líderes se recusaram a dar entrevista à Rede Record, em 2001, em resposta ao tratamento recebido nos noticiários da emissora.

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
Image CAPTCHA
Enter the characters shown in the image.