Portal ENSP - Escola Nacional de Sa??P??ca Sergio Arouca Portal FIOCRUZ - Funda? Oswaldo Cruz

Radis na rede

Reportagens

Resistência a toda prova

Data de publicação: 
01/08/2016

A terra de chão batido deu lugar às casas ocupadas por moradores da Vila Autódromo, zona oeste do Rio de Janeiro. Ali moravam cerca de 700 famílias em casas situadas na faixa entre o muro do Autódromo Internacional Nelson Piquet e a Lagoa de Jacarepaguá. O tempo trouxe a padaria, um pequeno comércio, oficina mecânica e botecos. Uma pracinha era o ponto de encontro das crianças. Mas quem hoje anda por lá, se depara com o vazio. Quase nada resta da comunidade que se tornou o símbolo da resistência contra a remoção forçada, realizada pela prefeitura sob o argumento de viabilizar acessos ao vizinho Parque Olímpico, e preservar as áreas ambientais no entorno da lagoa.

 
Para essa comunidade, desde sempre o futuro esteve ameaçado. Começou com o avanço do mercado imobiliário sobre a Barra da Tijuca, também na zona oeste, na década de 1990; depois vieram alegações de que as pessoas estariam em área de risco, que causavam dano ambiental. Nada disso retirou os moradores, que lutavam pelo direito de permanecer, já que possuíam o título de Concessão de Direito Real de Uso, do Governo do Estado. Em 2009, o Rio foi eleito cidade-sede dos Jogos de 2016 e a comunidade não cabia no figurino. A partir de 2014, casas começaram a ser destruídas de forma arbitrária e seus moradores receberam algum tipo de reparação. Quem saiu deu adeus, quem ficou sofreu pressões, ameaças, enfrentou o corte frequente de serviços públicos. Sem as casas, a prefeitura aterrou a beira da lagoa ampliando o Parque Olímpico. Após os Jogos, ali vão surgir edifícios residenciais e comerciais, destinados a famílias mais abastadas que os moradores que deram vida ao lugar. 
 
Em 2013, Radis registrou a luta dos moradores (edição 129) e conversou com Altair Antunes, presidente da Associação de Moradores. Em julho, retornou à comunidade para conferir o que aconteceu. A aridez toma conta de tudo. O autódromo sumiu, bem como a casa que um dia fez a alegria de Altair e de sua família. Um lado da Vila virou asfalto. No outro, há caminhões, operários, poeira e obras. Quatro casas ainda estavam em pé, duas delas com moradores, mas a demolição batia em suas portas. Hoje, uma cerca divide o projeto olímpico da realidade que soterrou muitas histórias de vida. Frases escritas nos muros, como “A minha casa foi feita para morar e não negociar” e “Nem todos têm um preço”, contornam o espaço e mostram a razão da luta travada. 
 
Vinte famílias conseguiram ficar e serão reassentadas em casas construídas pela prefeitura. Durante as obras, decidiram esperar ali mesmo, em containers, pois tinham medo de não mais voltar. A família de Maria da Penha Macena, liderança que emergiu no calor das remoções, foi uma delas. Após a perda da casa, ficou instalada na igreja construída pelos moradores, em 2006, e que ainda guarda uma parte de seus pertences. “Essa era uma comunidade boa. Todos tinham uma história de território, de cidade. Hoje temos isso aí. A comunidade acabou”, lamenta. “Tiraram nosso comércio, botaram ordem de choque aqui dentro, descaracterizaram a comunidade. Eles acham que pobre não tem o direito de ficar”, analisa. Dona Penha diz que o projeto prevê ainda quadra, centro cultural, duas escolas e a sede da associação de moradores, que também foi ao chão. Ao olhar mais para longe e ver o asfalto que toma conta do Parque Olímpico, dona Penha sorri e afirma que “vai virar tudo condomínio de luxo”. “Vamos ter novos vizinhos”, ironiza.
 
Para evitar as remoções, os moradores, assessorados por especialistas, criaram um projeto de reurbanização, que foi ignorado pela prefeitura. “Não houve acordo, apesar das promessas do prefeito Eduardo Paes de que manteria a comunidade”, diz a diarista. Em março de 2014, 150 famílias aceitaram ir para o conjunto habitacional Parque Carioca, a 1,5 quilômetro de distância. Se de um lado houve força, do outro houve resistência. Em março de 2016, em uma das investidas de desocupação de uma moradia, dona Penha teve o nariz quebrado pela Guarda Municipal. “Quando viram que não iam nos derrubar, começaram a bater”, relata. A demolição da casa de dona Penha aconteceu no Dia Internacional da Mulher (8/3). Mal houve tempo de tirar os pertences. “Foi tudo muito rápido”, recorda. Nesse mesmo dia, ela foi homenageada na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
 
Antes de ir para a Vila Autódromo, a paraibana Maria da Penha, que chegou ao Rio ainda pequena, morava na Rocinha, na zona sul da cidade. Veio junto com o marido Luiz Cláudio Silva, a sogra Agostinha, já falecida, e a filha Nathalia, e achou o seu chão. “Foi aqui que eu me enraizei e criei a minha história, estruturei a minha vida familiar e comunitária. Aqui você partilha tudo, alegria, tristeza, o pão. Para mim isso é viver bem. Essa é a vida da gente”, comenta. Educador físico, Luiz Cláudio mantinha um projeto comunitário de escola de futebol para crianças. Agora, há poucas crianças por lá.
 
Durante as remoções, os moradores, com apoio popular e de uma universidade, promoveram atividades de resistência por meio do “Ocupa Vila Autódromo”. Houve festivais, música e lançamento de livro. Em maio, foi inaugurado o Museu das Remoções. Feitas com materiais das casas demolidas, algumas das sete esculturas a céu aberto ainda resistem, como mostra Nathalia, estudante de Artes Cênicas. “O museu resgata a história da vila. A história de luta dessa comunidade”, conta. Ainda estavam lá, ao lado da igreja, a instalação com a tocha olímpica feita com destroços, restos do parquinho, que havia sido revitalizado por moradores em novembro de 2015, e as homenagens à dona Penha e Heloísa Helena Berto, a ialorixá  do candomblé Luizinha de Nanã, que foi hostilizada pelos agentes da Prefeitura por conta de sua prática religiosa. Luizinha mora agora em Guaratiba, perto da Vila Autódromo, onde tenta levantar a casa de Nanã.
 
A família de dona Penha recusou propostas pela sua casa. “Não me arrependo. Veja, felicidade não se vende e não se compra. Eu fico porque quero ser respeitada como cidadã dessa cidade”, assegura. Sobre a Vila, que não é mais a mesma, ela acha que nunca vai se acabar. E vê um outro sabor na nova casa. “Uma desenhei e construí; tinha uma história de partilhar. Essa vai ter o sabor de vitória, de uma cobrança que é o direito de ficar na sua terra”. 
 
Dona Penha acredita que a história da Vila Autódromo ensina uma lição para as comunidades e países que recebem megaeventos esportivos. “Para ter moradia, a gente tem que lutar, brigar, apanhar. Mas esse é um direito de cada cidadão. E os governantes devem respeitar o direito de quem mora na favela. Eles estão lá para trabalhar pelo povo. Não fazem favor algum”, completa. Olhando para o que restou, dona Penha ainda mantém a fé. “Eu olho e ainda fico bem. Nós podemos mudar o nosso país. Ainda tem jeito”, diz, abrindo um sorriso para a nova vida que vai acontecer no mesmo lugar que escolheu para viver.                                   
Autor: 
Liseane Morosini
Veja também: 

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
Image CAPTCHA
Enter the characters shown in the image.