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Revista Radis Comunicação e Saúde

 
Documentário exibido nos cinemas questiona modelo obstétrico que leva o Brasil a ser campeão mundial de cesarianas

Levar para a telona a causa do parto humanizado e atingir público mais amplo do que o do circuito de ativistas foi o que moveu a psicóloga, acupunturista e doula Érica de Paula e seu marido, o produtor e diretor Eduardo Chauvet, a realizar o filme O renascimento do parto, que entrou em exibição em circuito nacional nas salas de cinema brasileiras. “O audiovisual consegue fazer em poucos minutos o que precisamos de muitas horas em outras abordagens (palestras, textos etc). E possui alcance e impacto muito maior, ao unir palavras, música, imagens, emoção”, analisa Érica. Com visual caprichado, o documentário, de 90 minutos, emociona ao mostrar nascimentos entremeados a depoimentos de mães, pais e profissionais de saúde e pesquisadores sobre as causas dos altos índices de cesarianas do país, o que mais utiliza esse tipo de via de nascimento em todo o mundo. Atualmente mais da metade das crianças brasileiras nasce por meio da cirurgia. A incidência de cesarianas aumentou de 37,8% do total de partos, em 2000, para 52,3%, em 2010. A OMS recomenda que a taxa não ultrapasse os 15%, e alerta que o excesso aumenta a mortalidade de mães e de crianças (Radis 117).

“Trabalho com gestantes desde 2009, e sempre percebi que as mulheres careciam de informações de qualidade a respeito da gestação e do parto, muitas vezes sofrendo procedimentos desnecessários ou não tendo o seu desejo de parto normal atendido, mesmo em gestações absolutamente saudáveis”, conta Érica.
‘Crowdfunding’
O casal rodou o filme com recursos próprios, mas, na etapa de distribuição,  a opção encontrada para levantar o valor necessário foi o crowdfunding (sistema de financiamento coletivo, ver Radis 120 e 131). O filme acabou sendo recordista de financiamento coletivo no Brasil, atingindo o dobro da meta (um total de R$ 140 mil reais) em sete dias. “A ideia havia sido dada por centenas de pessoas que gostariam de colaborar com o projeto. Não fizemos com o objetivo de ajudar na divulgação, mas com certeza a campanha contribuiu nesse sentido, tanto para dar visibilidade à obra quanto para que muitas pessoas se sentissem também um pouco parte desse projeto. Hoje, temos quase 2 mil pessoas com esse sentimento de que o filme é delas também, de certa forma. Formou-se uma comunidade muito bonita em torno do documentário”, comemora Érica, coautora, produtora e roteirista do longa-metragem, que esteve em cartaz em 17 cidades brasileiras na primeira semana de setembro, com exibição seguida de debates em diversas ocasiões.
Érica, que é também coordenadora de grupos de apoio a gestantes em Brasília, considera que falta informação em saúde no formato audiovisual, em especial, sobre saúde da mulher. “O filme está suprindo uma grande demanda nessa área. Quanto mais informação tivermos, mais teremos essa noção de responsabilidade compartilhada com o profissional, o que poderia evitar muitos problemas”, conta ela, que pretende lançar o DVD assim que o filme sair de cartaz, para ser adquirido em sites de compras.
Intervenções desnecessárias
“O filme mostra a violência das intervenções desnecessárias praticadas nos hospitais do país e foca no parto domiciliar como alternativa a esse modelo perverso. Assistir ao documentário faz qualquer brasileiro, homem ou mulher, repensar sobre a forma com que estamos recebendo as crianças, os novos cidadãos do país”, comenta Maria do Carmo Leal, pesquisadora do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz)  e coordenadora do estudo Nascer no Brasil: Inquérito sobre parto e nascimento  (Radis, 117). Para ela, a visibilidade para a questão do parto pode colaborar muito com o movimento de mudança do modelo de atenção obstétrica. “O filme emociona e é uma ótima peça de propaganda do bom parto. Sem sofisticação, mas com bastante delicadeza e beleza, mostra que parir e nascer são dimensões da vida da mulher e da família que foram aos poucos sendo perdidos para as instituições de saúde”, analisa Maria do Carmo, ressaltando que, realizado com mulheres da classe média, o filme se constitui em uma mensagem positiva e de empoderamento da mulher.
Instituições públicas
A médica sanitarista compara a situação atual do parto com outra mudança de mentalidade, de retorno ao processo natural: “Como na campanha do aleitamento materno, o movimento de mudança da atenção ao parto será encabeçado pelas mulheres de melhor poder econômico e social, porque são as mais informadas. A pesquisadora, no entanto, aponta uma falta do filme: “Ficam de fora desse documentário as poucas e boas iniciativas que também ocorrem em algumas instituições públicas, como a Casa de Parto David Capistrano, em Realengo, no Rio de Janeiro, onde as usuárias do Sistema Único de Saúde têm partos tão bonitos como os mostrados no filme”.

Elisa Batalha