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Reportagens

A pátria em cartazes

Data de publicação: 
01/05/2014

Fim de tarde do dia 15 de maio. Cerca de 1,5 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, cruzavam a Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em manifestação. “Copa pra quem?”, era a indagação nos cartazes; “ô-lê-rê / ô-lá-rá / A Rocinha quer saber / onde o Amarildo está?”, lembrava o moço do carro de som em referência ao desaparecimento do pedreiro Amarildo, depois que foi detido por policiais militares, em junho do ano passado; um Batman justiceiro subia o monumento a Zumbi dos Palmares para protestar por mais dinheiro para cultura, saúde e educação; embaixo, rodoviários e professores do município, em greve, juntavam-se ao ato.

 

Nas outras cidades-sede da Copa, a cena se repetiu. Conhecido como 15M e planejado por organizações populares e de juventude, os eventos marcaram o Dia Nacional de Lutas contra a Copa, e trouxeram uma pauta de reivindicações, entre elas, o fim das remoções, a desmilitarização da polícia, mais verba para a saúde pública, o fim das privatizações e dos subsídios aos planos de saúde e a garantia de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação pública. 

 

Com gritos de “Ei, Fifa, volta pra Suíça!” e cartazes de “Fifa, Go Home!”, os manifestantes exigiam ainda mais soberania durante a realização dos jogos, o que inclui o direito ao trabalho informal, prevenção efetiva à exploração sexual e pensão vitalícia às famílias dos operários mortos e incapacitados durante as obras da Copa — em todo o Brasil, são nove vítimas de acidentes de trabalho. Para os Comitês Populares, há um abuso da Federação Internacional de Futebol sobre as decisões no país. Talvez por isso, em bom inglês, exibiram faixas de “Unfair Players Fifa”, numa referência à expressão usada nos estádios de futebol quando o adversário não joga com as armas mais limpas.

Entre outras medidas, a Fifa estabeleceu uma espécie de zona de exclusão no entorno dos estádios, definindo como seu território tudo o que fica em um raio de dois quilômetros. Os produtos que estarão à venda e o direito de ir e vir nessas áreas são definidos pela Fifa. 

A Lei Geral da Copa, um dos alvos dos protestos nas ruas, proíbe o uso dos símbolos da competição em eventos de bares e restaurantes e dá à Fifa exclusividade sobre o uso de determinadas expressões, como Copa 2014, Brasil 2014 e Copa do Mundo, além dos nomes de todas as cidades-sede seguidas do ano, entre outras, cerceando a iniciativa de comerciantes e outros brasileiros que queiram lançar mão desses termos. 

 

Legado

 “Se podemos falar de um legado da Copa, seria o da resistência e do enfrentamento de contradições estruturais da nossa sociedade”, acredita Rud Rafael, do Comitê Popular de Recife. Algo como se a “pátria em chuteiras” — expressão cunhada pelo escritor Nelson Rodrigues (1912-1980) para se referir ao ufanismo e união nacional em torno da seleção verde-e-amarela — se transformasse também na pátria em cartazes, em faixas de protestos e em manifestações as mais diversas contra a violação de direitos.

 

Às vésperas da Copa, no início de maio, Belo Horizonte sediou o I Encontro dos Atingidos – quem perde com megaeventos e megaempreendimentos?, organizado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop), que reuniu representantes de comunidades tradicionais, desapropriados, população em situação de rua, trabalhadoras da construção civil e instituições ligadas à defesa dos direitos humanos. Do encontro, saíram com uma carta que reflete essa complexidade de temas e de lutas que vêm sendo enfrentadas e serão aprofundadas depois da Copa do Mundo. “O objetivo maior deve ser garantir transformações urbanas e culturais em favor de toda a população e exigir a transparência e a participação popular direta nas decisões que afetarão o futuro da cidade”, diz Lorena Dias, do Comitê Popular de Belo Horizonte.

 

Copa popular

No Rio de Janeiro, o Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas organizou a Copa Popular 2014, a exemplo do que aconteceu ano passado durante a Copa das Confederações. Trata-se de um campeonato de futebol que reúne, em campinhos de várzea, para jogar futebol, moradores de comunidades ameaçadas de remoção, torcedores, vítimas de violência policial, camelôs e apoiadores da luta. Com direito a drible, gol, torcida e taça para os campeões.

 

Em todas as cidades-sede realizam-se seminários, plenárias e outras atividades articuladas para dar continuidade ao debate durante e depois da Copa do Mundo, fazendo valer o que dizia uma das faixas no 15M do Rio: “Copa sem povo. Tô na rua de novo!”. Mário Campagnani, que integra o Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, diz que os comitês seguem com o objetivo de denunciar as violações que ocorrem para além dos megaeventos. “É uma postura crítica a todo um modelo de negócios onde a população fica excluída”, conclui. 

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