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Reportagens

Rio: cidade olímpica partida

Data de publicação: 
01/05/2014

A cidade-sede da final da Copa de 2014 sediará também as Olimpíadas, em 2016. Com 6,3 milhões de habitantes e um sem número de contradições, a cidade do Rio de Janeiro prepara-se para receber esses dois megaeventos. As obras anunciadas previam desde instalações esportivas e reforma do estádio do Maracanã, passando por projetos de mobilidade urbana com modernização e expansão do metrô, construção de corredores de ônibus e reforma do Aeroporto Internacional Tom Jobim, até projetos de reestruturação urbana. 

 

Tantos investimentos fizeram a prefeitura anunciar o projeto Cidade Olímpica, com o objetivo “de acabar com a cidade partida e levar dignidade à população”. Passados quatro anos, o Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas alerta para uma cidade cada vez mais desigual e faz críticas ao projeto que aponta como tendo sido marcado por exclusão e desigualdade social. “A gente não critica apenas a realização do evento mas o modelo de cidade que está sendo construído”, diz o comunicador Mário Campagnani, integrante do Comitê Popular do Rio, citando comunidades inteiras impactadas, caso do Morro da Providência, na região portuária, uma das áreas mais importantes da cidade e porta de entrada de visitantes; e do Metrô-Mangueira, ao lado do Maracanã. Ambas tiveram casas demolidas por conta das obras do Porto Maravilha e da instalação de um polo automotivo, respectivamente. 

Em Jacarepaguá, na Vila Autódromo (Radis 129), cerca de 500 famílias estabelecidas no local há mais de 20 anos estão ameaçadas de remoção. Segundo o Comitê, são 65 mil pessoas afetadas pelas remoções desde 2009. Na esteira do dossiê produzido pela Articulação Nacional dos Comitês da Copa, o Comitê do Rio também editou uma publicação envolvendo as questões de moradia, mobilidade, trabalho, esporte, segurança pública, informação, participação e economia na cidade. Nele, afirma que o que está ocorrendo no Rio é uma “violação do direito à cidade” e, como alternativa, propõe “um outro projeto olímpico, resultado do debate público e democrático, com a garantia de permanência de todas as comunidades e bairros populares situados nas áreas de intervenção em curso”.

 

Mobilidade urbana

De acordo com o Comitê Popular, em relação à mobilidade urbana, os ganhos foram muito pontuais. A prefeitura anuncia VLTs (Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), com seis linhas e capacidade para 450 passageiros e integração com ônibus, BRT (Bus Rapid Transit), trens, barcas, metrô, e ainda os projetos TransOeste, TransCarioca e TransOlímpica — corredores com capacidade para BRTs. “Essas obras não são para mobilidade mas para atender uma especulação imobiliária”, diz Mário, citando o caso da Vila Recreio, removida para a passagem da TransOeste, que fará a ligação da Barra da Tijuca com Santa Cruz e Campo Grande. ”A TransOeste não passou pelo local onde estavam as casas. Hoje, a região se transformou em terrenos abandonados ao lado da rodovia”, diz. “Nossa leitura é que há um processo de higienização e para invisibilizar essa parcela da população”. 

 

O dossiê Megaeventos e violações de direitos humanos no Rio de Janeiro defende que o acesso a melhores condições de mobilidade urbana não se restringe à localização. “Devemos considerar também itens como preço das passagens, oferta de modais diversificados, possibilidade de integração intermodal e, sobretudo, que as opções de mobilidade devem ser seguras e minimamente confortáveis”, aponta o documento.

 
Complexo Maracanã

 

Para o Comitê Popular do Rio, a cidade olímpica marcou ainda um gol contra ao descuidar do seu patrimônio esportivo e cultural. No entorno do Maracanã, há um complexo com equipamentos públicos que servem ao esporte, à saúde, ao lazer, à cultura e à educação, formado ainda pelo Estádio de Atletismo Célio de Barros, o Parque Aquático Júlio Delamare, a Escola Municipal Friedenreich e a Aldeia Maracanã, um centro cultural indígena instalado no prédio histórico do antigo museu do índio (Radis 123, 125 e 132). 

 

Originalmente, o edital de privatização elaborado pelo governo do estado do Rio de Janeiro indicou a demolição não apenas dos dois equipamentos esportivos, mas também da escola pública municipal e da Aldeia Maracanã, para a construção de um shopping e edifícios-garagem.

 

Depois de muita pressão popular, a Justiça concedeu liminar proibindo as demolições e a escola municipal foi tombada. Mas a situação dos equipamentos ainda preocupa: o Célio de Barros está fechado há mais de um ano, obrigando atletas a fazer seu treinamento em locais inadequados e prejudicando cidadãos que usavam o local para lazer e práticas de atividades físicas. O governo anunciou que será reaberto após a Copa do Mundo. O Parque Aquático Júlio Delamare também fechou as portas em 15 de maio, por conta dos jogos da Copa no Maracanã. A Aldeia Maracanã continua com a situação indefinida.

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