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No Tsunami da epidemia

Data de publicação: 
01/04/2017
Entrevista | Celina Turchi
 (Foto: Eduardo de Oliveira)
 
“Era uma situação excepcional, que exigia rapidez na elaboração e condução de investigações epidemiológicas”, descreveu a médica Celina Turchi, sobre os momentos intensos que viveu, do surgimento dos primeiros casos de microcefalia no país, em 2015, até o auge da epidemia, em 2016. Pesquisadora visitante do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM)/Fiocruz Pernambuco, Celina esteve no centro de importantes descobertas, em pleno “tsunami” causado pelo momento de emergência epidemiológica. Formada pela Universidade Federal de Goiás, com mestrado em epidemiologia na London School of Hygiene & Tropical Medicine e doutorado na Universidade de São Paulo, ela foi indicada pela revista científica Nature para a seleta lista dos 10 cientistas mais importantes de 2016 — o reconhecimento é fruto do trabalho que desenvolveu à frente do Grupo de Pesquisa da Epidemia da Microcefalia (Merg), em Pernambuco, pioneiro em publicar um estudo que comprovou definitivamente a relação entre o zika vírus e as alterações que hoje são chamadas de síndrome da zika congênita. “Sempre tive um interesse muito grande em pesquisas de doenças infecciosas. Fui professora por quase 30 anos e me aposentei, quando recebi o convite de vários grupos com os quais já tinha tido colaborado no Nordeste”. Foi assim que, em um momento em que pretendia descansar, a pesquisadora foi parar no meio de uma Emergência Sanitária de Interesse Global. Uma das convidadas para proferir a aula inaugural da Fiocruz, em março, no Rio de Janeiro, ela contou à Radis um pouco de sua experiência no enfrentamento da epidemia, quando também falou sobre trabalho colaborativo, a importância da comunicação e o papel da mulher na ciência brasileira.
 
Como foi iniciar um trabalho de pesquisa em pleno momento de urgência epidemiológica?
Logo no começo da epidemia, houve uma solicitação do Ministério da Saúde para que eu desse um parecer, de forma independente sobre um possível aumento de casos de microcefalia. Junto com alguns colegas, visitamos hospitais e entendemos de imediato que uma epidemia de tal dimensão [a pesquisadora respira fundo] iria demandar muita colaboração entre as instituições para conseguir entender e responder com rapidez. Então houve um investimento inicial de contratar grupos de pesquisa, regionalmente.  Fizemos no Aggeu uma espécie de sala de situação da epidemia de microcefalia, onde os projetos eram gestados e examinados seus primeiros resultados. Tivemos também uma oportunidade interessante, quando a secretaria de estado de Saúde [de Pernambuco] solicitou ao grupo que ajudasse nas análises de dados. Foi estabelecido um acordo de colaboração entre as instituições, o que permitia que os projetos fossem discutidos com a secretaria, gestores e médicos, e que a implantação das ações de pesquisa tivesse dupla função. A primeira era oferecer atendimento adequado às crianças e mães; a segunda, coletar dados. Os projetos foram alinhados com o protocolo da Secretaria de Saúde, que orientava procedimentos a serem tomados e, em seguida, discutidos com profissionais de saúde — com o cuidado ético e a preocupação de não duplicar esforços, nem submeter as famílias a procedimentos similares. Eu considero que fomos bem-sucedidos no esforço de articular quem fazia a pesquisa com quem fazia o atendimento. 
 
Que fatores favoreceram esta articulação? 
Eu avalio que foi a compreensão de que a situação de emergência era de tal monta que a articulação era essencial para que não se desperdiçassem recursos nem a oportunidade de prestar o melhor atendimento às famílias. Um problema emergente, com tal magnitude e transcendência, sensibilizou  gestores, profissionais da assistência, da vigilância, de laboratório e pesquisadores de diversas instituições, apontando para a necessidade de uma resposta conjunta e rápida. A experiência desses profissionais, a estrutura dos serviços e de laboratórios de referência favoreceu a articulação; o oportuno aporte financeiro do Ministério da Saúde e a rápida resposta dos comitês de ética viabilizaram a operacionalização dos primeiros projetos.
 
A senhora sente que participou de um momento histórico?
Dá para falar em pré-zika e pós-zika. É um marco referencial em relação ao conhecimento científico acerca dos defeitos congênitos; é comparado ao achado da rubéola. E o fato de ser uma doença congênita, transmitida por vetor torna o quadro muito preocupante.
 
Como você avalia o papel da mídia durante a epidemia? 
Houve muita ética e colaboração dos meios de comunicação. Havia uma preocupação em não causar pânico, as matérias eram veiculadas com respeito às famílias e crianças, e depois houve um interesse nacional. Depois do “tsunami” da epidemia de microcefalia, os profissionais foram abordados por um “tsunami” de jornalistas brasileiros e internacionais. O interesse era legítimo. Nosso dever, como pessoas de saúde pública, é informar. Pode ter havido, em um momento ou outro, pequenas matérias não tão adequadas, mas de uma forma geral acho que foi oferecida muita informação necessária que só poderia ser passada pelos meios de comunicação. 
 
Na aula inaugural, a senhora lembrou que foram as médicas pernambucanas Ana e Vanessa Van Der Linden, mãe e filha, as primeiras a observarem o aumento de casos de bebês nascendo com microcefalia. Qual a importância do profissional que atua na ponta para o sistema de vigilância? Naquele momento, ele funcionava bem?
Existia um sistema de informação para más-formações congênitas, mas não tinha como base a notificação universal. As médicas, ao perceberem uma situação inusitada, se dirigiram ao órgão de vigilância e comunicaram os casos. Foi o pontapé inicial para tudo que aconteceu em seguida. A partir dessa informação inicial, começaram a se levantar as primeiras hipóteses e um protocolo de investigação epidemiológica foi estruturado para levantamento informações que pudessem ajudar o enfrentamento do problema.
 
Como as autoridades sanitárias receberam a informação dada pelas médicas? Havia estrutura para enfrentar a situação? 
Sim, havia. A Secretaria de Saúde de Pernambuco tem profissionais altamente capacitados e com experiência em eventos inusitados. Em um curto espaço de tempo, os profissionais registraram a evolução crescente do número de casos e notificaram o Ministério da Saúde, isso numa questão de semanas. Nesse contexto, é importante registrar a contribuição da estrutura do Lavite [Departamento de Virologia do Instituto Aggeu Magalhães] na investigação de arboviroses e a do Laboratório Central de Pernambuco (Lacen) na investigação de outras infecções que podem levar à microcefalia. Profissionais da assistência, ensino e pesquisa, regionais e internacionais, trouxeram a estrutura de suas instituições para o enfrentamento da situação. Essa estrutura foi e continua sendo reforçada com aportes financeiros nacionais e internacionais a diversos projetos coordenados pelo Merg. 
 
Em fevereiro de 2016, a Organização Mundial da Saúde declarou que o aumento no número de casos de microcefalia por zika vírus constituía uma Emergência Sanitária de Interesse Global. Qual foi a repercussão para o andamento das pesquisas?
Esses decretos servem para facilitar abertura de canais e para que os recursos possam chegar de forma mais ágil. O fato de chamar atenção e estabelecer essa urgência do ponto de vista nacional e internacional foi muito importante para a articulação e para viabilizar não somente as pesquisas, mas também o atendimento e maior acúmulo de conhecimento na área.
 
Quais são as perspectivas atuais? Ainda há perguntas não respondidas sobre a epidemia?
Acredito que as perguntas ainda sejam múltiplas. Do ponto de vista epidemiológico, por exemplo, queremos saber qual é o risco em cada etapa gestacional, ou seja, em que semestre há maior risco de má-formação congênita. Isso é muito importante para o acompanhamento da gestante. Nós também queremos entender melhor a síndrome da zika congênita. Hoje se sabe que a microcefalia é apenas um dos seus aspectos. Queremos saber se existem outros cofatores — por exemplo, se a exposição prévia à dengue é um facilitador para a zika e para as suas formas graves. Em relação às crianças que nasceram de mães com o vírus zika, teríamos que acompanhá-las por um enorme período de tempo para verificar o desenvolvimento intelectual da criança, e perceber que outros problemas podem aparecer. No começo, por exemplo, chamava muita atenção nessas crianças a espasticidade [rigidez muscular] e a epilepsia. Já quando as crianças completaram um ano, observamos problemas de deglutição. Então existe um leque de alterações que tem que ser acompanhadas.
 
Em sua aula, você citou o Zika Plan. Como funciona?
É um consórcio europeu, com 25 universidades e institutos de pesquisa. Nesse consórcio, vários grupos estão estudando o desenvolvimento das crianças, outros estão acompanhando e avaliando as gestantes. O grupo do qual faço parte [Grupo de Pesquisa da Epidemia da Microcefalia (Merg)] estuda um conjunto de crianças que serão acompanhadas por pelo menos quatro anos, e também a coorte de gestantes que são recrutadas, testadas e verificadas para entendermos em que momento da gestação elas foram infectadas.
 
Você disse que o Aggeu Magalhães se transformou em um “quartel-general”, das pesquisas no mundo todo sobre a infecção. Como é fazer ciência fora do eixo Rio-São Paulo?
Acho que o “Brasil Rio-São Paulo” está mais na cabeça do Rio e de São Paulo do que na do Brasil como um todo. Eu reconheço Manguinhos como uma referência importantíssima e histórica, mas hoje a ciência é feita por meio de colaboração global. É importante ter, estrategicamente, institutos que possam responder a demandas regionais. Eu vejo excelentes centros e institutos de ponta em vários locais do país. Uma das principais referências em Infectologia, por exemplo, está em Belém do Pará, no Instituto Evandro Chagas. Nunca me senti excluída, mesmo trabalhando no Centro-Oeste ou em Pernambuco. É muito interessante deixarmos de achar que o Brasil é uma faixa do Atlântico.
 
Como você avalia o reconhecimento dado às mulheres cientistas no Brasil?
Nas áreas de educação e de pesquisa, as mulheres têm desempenhado um papel importante e recebem de suas equipes, geralmente, um tratamento respeitoso e correto. Os locais de trabalho talvez poderiam dar condições para que as mulheres trabalhassem com maior conforto, oferecendo lugares onde elas pudessem deixar as crianças, por exemplo. Do ponto de vista geral, eu não sinto que haja uma discriminação, pelo menos no Brasil, em relação às mulheres na área de Saúde. A formação na saúde é majoritariamente feminina, que eu saiba. Eu gosto de pensar que as equipes, sejam elas de homens ou de mulheres, têm que atuar de forma colaborativa e, se possível, com uma certa leveza. A competição é importante, mas as relações interpessoais têm que ser mantidas.
O que representou para a pesquisa brasileira a nomeação da senhora como um dos nomes mais importantes para a ciência no ano de 2016 pela revista Nature? 
Do ponto de vista da indicação, eu acho que é um reconhecimento dos cientistas brasileiros, de um grupo de pesquisadores em colaboração, de diferentes institutos, que estava no epicentro da epidemia. É dessa forma que eu vejo essa indicação, como um nome que representa um grupo. 
 
Que lições a emergência sanitária deixa para pesquisadores em saúde e para a sociedade?
Para pesquisadores, deixa a lição de trabalhar em colaboração. Se eu puder resumir, seria a capacidade de trabalhar articuladamente com instituições. E, para toda a sociedade, alerta que, sempre que somos confrontados por uma epidemia, vê-se que as iniquidades e desigualdades aparecem como um elemento de peso nessas tragédias. Há sempre um momento de reflexão sobre as dificuldades de controle e prevenção, principalmente em doenças vetoriais, frente à desigualdade de moradia e à falta de saneamento. O que chamamos de cidade são retalhos, ilhas de riquezas rodeadas por um mar de favelas. Esse é um cenário que a gente precisa desmontar e que precisa ser revisto, pelos custos, pelas vidas e pela tragédia.
Autor: 
Elisa Batalha
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