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O pai de Miguel e Lia

Data de publicação: 
01/08/2017
 (Pedagogia do exemplo: 
Téo ensina ao filho Miguel, de 4 anos, que homem também sabe cuidar | Foto: Eduardo de Oliveira)
 
Ele não precisou se fantasiar de pai. Esse é o enredo que escolheu para sua vida. Porém, houve uma ocasião em que Téo Cordeiro e outros amigos empunharam aquele estandarte que não era samba “para inglês ver”: reunidos em uma praça no Méier, bairro da zona norte carioca, na segunda-feira de carnaval, pais e filhos entraram na folia em celebração da paternidade e da vida. O bloco “Deixa que eu cuido” nasceu da ideia de que os homens levariam as crianças para brincar o carnaval, para mães e companheiras poderem aproveitar a folia “como elas quisessem”. Téo veio com seu fiel escudeiro, o animado Miguel, de 4 anos. Mesmo com todo o entusiasmo dos idealizadores e a divulgação no boca a boca e nas redes sociais, na hora da foto havia apenas uns “gatos pingados”, entre pais, filhos e uma mãe.
Téo conta esse caso sorrindo. É mais um indício de que a paternidade continua sendo vista como o lado B da história, como costuma dizer. Não para ele. Além de capoeirista e organizador de fanfarra suburbana, ele se descobriu pai e hoje se assume como dono de casa e cuidador de crianças. Pai que age como mãe? Ele discorda dessa ideia. “Não importa se sou pai ou mãe, sou cuidador. Eu decidi fazer isso na minha vida: cuidar de criança. Não existe esse negócio de ‘papel de pai’”, defende. Morador de Padre Miguel, na zona oeste do Rio, Téo é pai de Miguel e Lia, que ainda não completou um ano.
Na realidade, ele é também um pouco pai de outras crianças, pois faz parte de uma comunidade de amigos que se ajudam no cuidado com os filhos. O vínculo é reforçado pela atuação no Grupo de Papais da Casa de Parto David Capistrano, em Realengo, uma unidade do SUS formada principalmente por enfermeiras obstetras que trabalham com a promoção do parto humanizado e o direito de escolha da mulher. Quando decidiu engravidar, entre os 28 e 29 anos, junto com uma amiga e namorada, a Dani, Téo já conhecia e admirava a proposta da Casa de Parto, porque havia feito um estágio durante seu mestrado em Saúde da Família na Fiocruz. Então resolveram ter o primeiro filho em um lugar em que acreditavam. “Parto é isso. A Casa de Parto trabalha com a promoção da saúde, entendendo a mulher como um sujeito pleno de possibilidades e não como um ser doente”, relembra.
Dali foi um passo para ele e outros pais perceberem que o tema da paternidade continuava sendo uma questão secundária, o que reforçava a desigualdade de gênero. “Como em geral quem participa dos grupos de gestantes são mulheres, os homens ficam muito inibidos de se colocar”, ressalta. Com isso, as dúvidas dos futuros pais só aumentam, enquanto as mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelo cuidado com os filhos. A primeira versão do Grupo de Papais, do qual ele foi um dos fundadores, surgiu em 2015: a proposta era reunir homens que são ou seriam pais para falarem de suas inquietações, dúvidas e histórias. “O grupo começou com a ideia de fazer os homens se sentirem à vontade para falarem da sua condição”, recorda. Além de Miguel e Lia, ali nasceram outras experiências e projetos: o bloco de carnaval, amizades, festas de aniversários, mutirão de plantio de árvores e um compromisso político em defesa do SUS, da Casa de Parto e da igualdade de gênero.
Uma das fontes de inspiração do grupo é a metodologia da terapia comunitária (Radis 67), que busca valorizar a palavra do outro como forma de acolhida. “A terapia comunitária tem algo legal que é: eu não posso dizer o que você deve fazer. Eu posso contar a minha experiência e a partir dela você decide o que fazer”, relata Téo. Outro princípio é não revelar o que foi conversado entre os participantes do grupo: o que é dito ali, “morre ali”, como forma de estimular a abertura e a sinceridade. Miguel adentra correndo pela casa de Rafael, amigo de Téo e também membro do grupo, no Engenho Novo. Depois da insistência do pai para ele comer, o menino volta para a rua, onde brinca com Acauã, de 5 anos, filho de Tatiana, companheira de Rafael, e com Cavi, filho de uma amiga do casal. Assim é a rede de relações e amizade nascida a partir da experiência da paternidade, da maternidade e do cuidado.
Em sua trajetória como pai, Téo teve o seu olhar sobre o mundo modificado. “Nunca o cara que decide ser cuidador vai olhar para uma mulher cuidando da mesma forma. Muda a perspectiva”, ressalta. Segundo ele, cuidar de crianças pequenas é um trabalho importantíssimo para a humanidade e que precisa ser melhor valorizado. “Quando o homem faz isso, ele se percebe no lugar da desvalorização, que é um lugar que ninguém quer”.
Acordar cedo — pois Miguel “acorda com as galinhas”, às 5h30 —, planejar a alimentação, dar carinho, ser exemplo. São tarefas do dia a dia que Téo aprendeu fazendo. “De uma forma geral a gente é cuidado por mulheres: a mãe, a tia, a avó, a babá. Quando o pai se torna cuidador, é a primeira vez na vida que estamos lidando com essa história do cuidado”. A relação com os filhos e com outras crianças das quais também é um pouco pai mudou seus hábitos. “O meu teto agora é meia-noite. Não vou passar a noite acordado, bebendo, porque no outro dia vou ter que estar pronto para segurar essa onda”, enfatiza.
Para ele, a desigualdade de gênero se torna flagrante quando o casal tem filhos, por causa da sobrecarga da mulher. “A luta pela igualdade de gênero não está somente na reivindicação por políticas públicas. É uma luta que tem se voltado para dentro de casa, para mudar as relações cotidianas”, defende. Seu “nome de guerra” é Aníbal Tainha, pseudônimo com o qual assina as crônicas no blog “Filho do Pai”. Na apresentação, já deixa claro que “ser pai no Brasil é aproveitar os privilégios”. “A entrada definitiva das mulheres no mercado de trabalho poderia sugerir que estivéssemos vivendo uma redistribuição das tarefas diárias, como cuidar dos nossos filhos. Poderia. Porque para nós, papais, é só curtição. Jogar bola com a rapaziada, sair para tomar uma gelada, militar, e é claro estudar e trabalhar também”, ironiza. Depois de conversar com a Radis, na casa de Rafael, naquele sábado de junho, ele se despede para “render” a companheira em Padre Miguel no cuidado com a pequena Lia.
 
Autor: 
Luiz Felipe Stevanim
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