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Revista Radis Comunicação e Saúde

 
Livro aborda as relações e influências entre os campos da comunicação e da saúde

Nas dúvidas e relatos compartilhados por médicos e residentes em grupos de whatsapp; no dia a dia dos agentes comunitários de saúde, que atuam como mediadores entre os saberes populares e o conhecimento reconhecido pela Medicina; na luta pela garantia dos direitos à comunicação e à saúde para toda a população; nas cores e contornos que a epidemia recente de zika assumiu nas páginas dos principais jornais brasileiros; no modo como o consumismo de informações e a enxurrada de terapias alternativas na internet tem mudado a relação entre saúde e doença. O que há em comum entre todas essas questões é a necessidade de entender como as relações, práticas e saberes comunicativos se fazem presentes no campo da saúde. Mas não apenas isso: cada um desses exemplos aponta para a evidência de que ambas — Saúde e Comunicação — são campos cada vez mais imbricados, tema explorado no livro “Mediações comunicativas da saúde”, organizado por Igor Sacramento, pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), e lançado pela editora Multifoco em setembro.


Com a assinatura de 26 autores oriundos das áreas de Comunicação, Informação, Saúde Coletiva, Linguística e Educação, os 14 textos da coletânea abordam as mediações entre saúde e comunicação, que contribuem para modificar as configurações de cada um desses campos. Um dos pontos em comum que unifica as reflexões é a ideia de que a comunicação não é um mero instrumento de divulgação e propagação dos saberes produzidos pelo campo da saúde, mas possui elementos chave que definem e transformam as relações e as práticas presentes nesse setor na atualidade.


O conceito de mediação é o fio condutor que entrelaça as discussões suscitadas nas quatro partes da obra (“A questão das mediações”; “Políticas e práticas”; “Discursos jornalísticos”; “Internet e tecnologias digitais”). No texto introdutório, Igor serve-se desse conceito — conforme apresentado por Jesús Martín-Barbero, autor do célebre livro “Dos meios e das mediações” — para analisar as relações entre comunicação e saúde que perpassam temas variados, como a participação social, a formação profissional em saúde, o papel mediador desempenhado por médicos e agentes comunitários, o discurso jornalístico e o modo como as práticas cada vez mais mediadas pela tecnologia, principalmente pela internet, alteram o entendimento sobre saúde e doença. “A questão da mediação envolve, também, as práticas de construção de elos, nexos, vínculos, fluxos, trocas e misturas entre sistemas culturais distintos e seus respectivos grupos”, afirma o autor.


Um dos temas abordados é a atuação dos agentes comunitários como mediadores culturais nas práticas de promoção da saúde, no texto escrito por Ana Valéria Mendonça, Grasiela Pereira, Mariella Oliveira-Costa e Maria Fátima de Souza — essa perspectiva revela que a mediação não é uma prerrogativa apenas dos meios de comunicação, mas dos próprios profissionais de saúde e cidadãos, que contribuem com experiências dialógicas entre os campos da Informação, Comunicação e Educação em Saúde. Inesita Soares de Araújo e Wilma Madeira da Silva refletem sobre a relação entre comunicação e participação social a partir das conferências de saúde. Rodrigo Murtinho e eu abordamos as interseções entre as políticas públicas de comunicação e a saúde, levando em conta as tensões entre os interesses privados e o público, em temas como regulação da publicidade e democratização da radiodifusão. Wilson Couto Borges e Adriana Aguiar estudam o papel da comunicação na formação de residentes no Brasil. Entre outros temas explorados nos textos, estão as representações da saúde no discurso jornalístico, o consumo de informações online sobre o tema, a busca pela perfomance do bem-estar nas redes sociais e a articulação entre comunicação e educação na formação profissional em saúde.

Luiz Felipe Stevanim