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Revista Radis reportagens

Reportagens

A Casa é nossa

Data de publicação: 
01/10/2017
Mutirão na Casa de Parto aponta para valorização do parir natural e do direito de escolha da mulher
 (Foto: João Amorim)
 
O pessoal chegou cedo. Antes de oito da manhã, já se reunia no quintal da “casinha”, nome afetivo com o qual as famílias se referem à Casa de Parto David Capistrano Filho, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro. Naquele sábado nublado, um 19 de agosto de vez em quando salpicado por uma chuva fina, os voluntários do mutirão se preparam para assumir as tarefas de recuperação e reforma da unidade de saúde voltada para o parto humanizado, realizado exclusivamente por enfermeiras obstétricas: divididos em grupos, alguns se encarregam da pintura das grades e da reforma dos portões; outros cuidam da estrutura externa; crianças reviram a terra com as mãos e aprendem sobre o plantio de mudas, na extensa horta e jardim em torno da casa. 
Ao meio-dia, antes da pausa para o almoço, é hora de marcar o dia com o ato simbólico de abraço à Casa de Parto: de mãos dadas, crianças, mulheres e homens circundam a unidade, num gesto que demonstra o afeto da comunidade e dos profissionais por aquele espaço de saúde e que alerta para o descaso do poder público em relação à manutenção de uma iniciativa pioneira de promoção do parto humanizado. Fundada em 2004 por enfermeiras obstétricas, a Casa de Parto de Realengo — uma unidade do SUS — acolhe para o pré-natal e parto gestantes de baixo risco que desejam parir de forma natural, em um ambiente acolhedor — o nome “casa” não foi escolhido ao acaso, pois a proposta é construir um espaço que se aproxime ao máximo da ideia de “lar”. “Apesar de mais de 3 mil bebês nascidos na casa e nem um caso de morte, reconhecimento e premiações, a unidade sofre diversos ataques frequentemente. Afinal, romper com um modelo que tem como principal objetivo o lucro e a comodidade da categoria médica não é fácil”, declara Danielle Ramos, militante do movimento de mulheres Olga Benário e da ReParto (Rede de Apoio à Casa de Parto).
Durante a refeição comunitária, cada um pega seu prato e vai se espalhando pela área externa da casa, entre risos e conversas, e ao som de um grupo de músicos também voluntários. São na maior parte famílias que pariram na unidade e trouxeram seus filhos para ajudar no mutirão, num gesto de reconhecimento pelo projeto, além de pessoas que acreditam na proposta da Casa de Parto. “Quando você vê, num dia nublado, no sábado, pessoas que já tiveram seus bebês e retornam para garantir esse espaço, isso não tem preço”, pontua a diretora da casa, a enfermeira Leila Azevedo. Aquele foi pensado como um espaço de “mulheres para mulheres”, para garantir a autonomia e o direito das mães no pré-natal e no parto. “São dois pilares importantes. Para a mulher, é o empoderamento, o reconhecimento de sua feminilidade, de seus direitos. Para o profissional, é o direito de exercer com autonomia a sua profissão”, reflete. Segundo ela, a Enfermagem é uma categoria que se diz autônoma, mas na realidade enfrenta muitas resistências em outros espaços de saúde, principalmente nos hospitais, por causa da hierarquização e subordinação.
 (Foto: João Amorim)
 
A Casa de Parto é gerida totalmente por enfermeiras obstétricas: a equipe de saúde é formada por 20 enfermeiras (e um homem), 12 técnicas de enfermagem, uma assistente social e uma nutricionista. A condição para parir na casa é fazer todo o pré-natal na unidade e ter o parto classificado como de baixo risco. Para Leila, quando se fala em direitos da mulher em relação ao parto, inclui-se até mesmo a integridade física e o direito de escolher onde vai ter o seu filho, de que forma e com qual profissional. “Existe uma resistência médica tanto do profissional quanto do modelo biomédico de que as mulheres têm que ser submissas e que esse processo do parto tem que ser controlado através de intervenções, que são na maioria das vezes inadequadas e desnecessárias”, pontua. Para Leila, a Casa de Parto é um modelo que “rema contra a maré”.
Embora seja um espaço de valorização e empoderamento da mulher, Leila conta que ao longo do tempo percebe também o engajamento dos pais na defesa da Casa de Parto e do parir de modo natural. Também militante dessa questão, Téo Cordeiro, um dos integrantes do Grupo de Papais da Casa de Parto, conta que foi iniciativa dos pais a troca dos portões da unidade, que estavam danificados e deixavam as trabalhadoras e as famílias sem segurança. Promovido no mês de valorização da paternidade, o mutirão contou ainda com a distribuição da edição 179 da Radis, que aborda histórias de pais, dentre elas a experiência do Grupo de Papais de Realengo. A unidade também não conta mais com uma equipe de segurança, porque a prefeitura não renovou o contrato com a empresa responsável por esse serviço. Quem faz a vigilância do espaço atualmente é a Guarda Municipal. Desde 2015 também não há contratação de empresa para manutenção predial — tarefas simples como troca de lâmpadas são feitas com “vaquinhas” das famílias e dos profissionais. De acordo com relatos ouvidos por Radis entre os participantes do mutirão, as instalações prediais estão deterioradas e o gerador não funciona, o que implica na transferência das gestantes e puérperas quando falta luz na unidade.
O mutirão também marcou a criação da ReParto, uma iniciativa de famílias e profissionais de saúde voltada para a defesa da Casa de Parto e para propagar o seu modelo por todo o estado (até então a casa de Realego é a única no Rio de Janeiro). “O papel da Casa de Parto é mostrar na prática que é possível outro modelo de sociedade, que tratar mulheres e bebês com dignidade sem intervenções desnecessárias é muito simples e necessário”, defende Danielle. Mãe de Camilo, de 3 anos, e Havana, de 1, ambos nascidos na unidade, ela considera que a principal forma de se fazer escolhas conscientes e verdadeiramente autônomas é com informação. No pré-natal do seu primeiro filho, ela chegou até a “casinha” ainda sem conhecer muito bem a proposta do parto humanizado, mas foi envolvida pelo acolhimento. Passou então a se consultar na casa e frequentar as oficinas — e toda vez que tinha de ir “era uma alegria”. 
“Não se tratava simplesmente de um atendimento, mas da criação de um vínculo que é um diferencial na preparação pro parto”, conta. “O parto do Camilo foi bem demorado, fiquei 30 horas na casa até ele nascer e todo o carinho da equipe e principalmente da Leila, que em diversos momentos segurou minhas mãos e agachou pelos corredores comigo, fizeram com que eu me sentisse segura e confiante sobre meu próprio corpo”, narra. Para mulheres como Danielle, estar presente e lutar por aquele espaço é mesmo se sentir em casa.
Autor: 
Luiz Felipe Stevanim

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