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Eu + 1 = MUITOS

Data de publicação: 
01/10/2017
Documentário narra jornada em saúde mental voltada para atingidos pela construção da hidrelétrica de Belo Monte
(Foto: Arquivo Lilo Clareto)
 
Há um sujeito e há um outro. E entre eles — entre nós — muito para ser feito. Primeiro houve seu João da Silva, pescador, e Eliane Brum, jornalista. Ele disse para ela: “Senhora, é doído. Você constrói tudo pra na hora da velhice dizer: ‘Tô sossegado, tenho uma casa, minha família toda estruturada’. Aí, você abre a mão assim e, xiuuuuu, é igual a uma poça d´água no meio da areia”. Seu João contava sobre como se sentiu quando soube que teria a casa incendiada na região do Xingu para dar lugar à Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Perdeu a voz, as pernas travaram, quis morrer em sacrifício no mesmo fogo que o expulsou da ilha juntamente com outras famílias. “Daqui pra frente eu só vejo escuridão na minha vista”, lamentou, depois de recuperar a fala. 
Mas foi justamente o testemunho dele o embrião de um movimento de voluntários — psicólogos, psicanalistas, psiquiatras e a própria jornalista — e muito mais gente em torno de uma rede de escuta, tratamento e documentação da dor dos atingidos pela polêmica megaobra. Intitulado “Refugiados de Belo Monte”, o projeto foi financiado coletivamente pela internet e culminou com a “Clínica de Cuidado”, uma experiência de atenção ao sofrimento psíquico daqueles que tiveram a vida marcada pela violenta expulsão do território e acabaram por perder referências afetivas, adoecer, definhar. Parte desse processo pode ser conferido agora no documentário “Eu + 1: uma jornada de saúde mental na Amazônia”, dirigido por Eliane Brum, disponível em plataforma digital desde setembro (https://goo.gl/eagF8B).
“Refugiados de Belo Monte” foi o nome escolhido para batizar todo o projeto porque seus idealizadores consideram que essas populações são refugiados dentro do próprio país, pessoas expulsas do lar sem direito a decidir sobre seu destino. Os profissionais envolvidos foram selecionados por currículo e passaram ainda por entrevistas, além de um processo de formação com aulas semanais, cursos e oficinas. No ano passado, durante algumas viagens, parte do grupo esteve em Altamira, a cidade paraense onde foram reassentados os ribeirinhos, para um reconhecimento do território. Em janeiro deste ano, a equipe completa com 18 profissionais desembarcou no local para 15 dias de uma maratona intensa no que foi intitulado de “Clínica de Cuidado” porque era exatamente de cuidado com o outro que o projeto tratava. 
Juntos, atenderam 62 casos em 171 sessões; realizaram 12 reuniões com movimentos sociais, rede pública de saúde mental, Ministério Público e Defensoria Pública; e organizaram quatro ações no território e cinco expedições pelo Xingu, inclusive para conhecer a barragem, episódio que deixou a equipe muda. “Aquilo era o horror do horror. É impronunciável a violência daquela barragem no meio do rio”, conta Maíra Brum Rieck, psicanalista que participou do projeto. No documentário, imagens do trajeto, as árvores secas, as ilhas queimadas, a floresta depauperada, revelam o cenário opressivo.
 
 (Foto: Lilo Clareto / Arquivo Clínica de Cuidado)

 

“Rastros de destruição”

O filme não tem como foco a fala dos próprios ribeirinhos — eles surgem com raras exceções, como quando Maria Francineide Ferreira diz que a equipe de saúde mental a ajudou “a achar a brecha da porta para sair de um lugar que não existe”, numa significativa metáfora para a imensa tristeza que se abateu sobre aquela população.  “Eu + 1” tem pouco mais de uma hora e meia de duração e é pela voz da equipe de escutadores que o espectador também se torna testemunha do sofrimento dos atingidos. São relatos fortes sobre “os rastros de destruição”, como afirmam ter ouvido de muitos ribeirinhos. “A vida não tá cabendo em mim”, escutaram de um pescador. E de outro: “A dor maior é a desimpaciência que acontece aqui dentro e me faz entrar no medo”.
Noemi Bandeira, psicóloga e doutoranda em saúde coletiva, sempre trabalhou com pessoas em situação de vulnerabilidade. Mas ela diz que ficou muito impactada diante da violência de Belo Monte com os ribeirinhos que perderam o lar em meio a natureza e hoje habitam as casas do Reassentamento Urbano Coletivo (RUC), nome dado aos conjuntos padronizados construídos para abrigar as vítimas da remoção. Durante um dos atendimentos, ela ouviu de uma senhora de 82 anos de idade: “Eu me criei andando”.  Agora, essa senhora tem medo de sair, e a pequena casa onde vive, em Altamira, é protegida por grades em todas as portas e janelas. Outra psicóloga envolvida, Vivian Karina da Silva, também encontrou relatos de trauma intenso e casos como o da garotinha que, desabituada ao trânsito, foi atropelada nas ruas do reassentamento e hoje tem marcas e cicatrizes em ambas as pernas. 
O documentário deixa ver ainda os desejos que motivaram esses profissionais de saúde a participar do projeto, seus próprios medos diante do desafio e o impacto da experiência na vida de cada um. A psicóloga Cássia Pereira ainda se emociona ao falar de uma audiência pública que aconteceu em novembro do ano passado, quando ouviu índios e ribeirinhos cantando o hino em defesa de sua terra. “Eles ainda acreditam. Eu também tenho que acreditar”. Ao voltar para casa em São Paulo, entre outras mudanças, passou a fazer parte do conselho do bairro onde mora. Também psicóloga, Flávia Ribeiro se envolveu com o projeto “movida por um ímpeto” e por acreditar na possibilidade da escuta clínica dentro de uma perspectiva de exploração social. Retornou de Belo Monte afetada pelo que viu e ouviu e ainda se preocupa com o fato de que as pessoas possam simplesmente se adaptar a uma nova realidade. “Por isso acho importante os movimentos de luta. É importante o movimento”, considera. 

Que nome tem?

Para a psicanalista Ilana Katz, idealizadora do projeto ao lado de Eliane Brum e do também psicanalista Christian Dunker, essa foi uma das experiências mais profundas que já vivenciou. Ela foi a Belo Monte motivada pela pergunta: “Que nome as pessoas dão para o seu sofrimento lá?” Ouviu como resposta que, para os ribeirinhos, o sofrimento tem nome de “cansaço”, “engano”, “traição”, “perder a casa”, “pescador sem rio”, “monstruosidade”, “buraco”, “esquecimento”, “fim”.  As pessoas queriam lhes contar como sobreviveram, falar de suas dores e do que também era importante para elas, sentir-se cuidadas. Para cada um dos profissionais, apesar do pouco tempo, era essencial o exercício da escuta.
A controversa obra de Belo Monte teve início em novembro de 2015 como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e foi anunciada pelo Governo Federal como a terceira maior usina em capacidade instalada de energia que levaria melhores condições sociais, econômicas e ambientais aos 10 municípios da região. Apesar do clamor dos ambientalistas e da comprovação de que boa parte das medidas de proteção da região não estavam sendo cumpridas, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concedeu a licença de operação à empresa Norte Energia S/A. Agora, no dia 13 de setembro, o Tribunal Regional Federal, em Brasília, ordenou a suspensão da licença, paralisando as obras até que seja promovida a readequação dos projetos destinados ao reassentamento urbano coletivo das pessoas que foram despejadas de suas casas. A decisão atende ao pedido feito pelo Ministério Público Federal em ação que teve início em 2015, quando começaram as construções. Mas ainda cabe recurso.
O documentário não entra em detalhes sobre toda a batalha jurídica que envolveu a obra. Mas não precisa. Os relatos falam por si e têm um tom político, de militância, uma contundente defesa de políticas públicas voltadas para a atenção ao sofrimento psíquico dentro do Sistema Único de Saúde. “Se for só eu, nós não vamos fazer nada. Se eu vou te convidar pra lutar contra alguma coisa, sou eu e mais um, você e mais um, aí a história segue”, diz um refugiado de Belo Monte, Elio Alves da Silva, numa fala encorajadora que bem explica o título do documentário e, melhor ainda, o espírito da Clínica de Cuidado. Para Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Belo Monte foi um “crime psicossocial”. “Isso é indignante. É a ausência de qualquer consideração sobre saúde mental. Nosso processo civilizatório não aprendeu nada”, protesta.
 
ESTA MATÉRIA FOI ATUALIZADA às 19 HORAS DO DIA 12 DE OUTUBRO PARA CORREÇÃO DA FOTO. A PRIMEIRA VERSÃO CONTINHA UMA INTERFERÊNCIA GRÁFICA REALIZADA PELA REVISTA QUE ENTENDEMOS TER ALTERADO DE MANEIRA INDEVIDA A IMAGEM ORIGINAL DO FOTÓGRAFO LILO CLARETO.
Autor: 
Ana Cláudia Peres

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