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Revista Radis sumula

Súmula

Violência e intolerância contra terreiros

Data de publicação: 
01/10/2017

A cena revela ódio e intolerância: em um vídeo, um homem identificado como sacerdote de uma religião de matriz africana é obrigado a destruir fios de contas e outros objetos sagrados, sob a ameaça de outro homem autodenominado traficante; em outra gravação, uma idosa é filmada sendo também forçada a destruir seus próprios objetos de culto, sob insultos e ameaças. Os dois vídeos circularam nas redes sociais em meados de setembro e se somam a um cenário de agravamento nos casos de intolerância contra as religiões afro-brasileiras, principalmente a umbanda e o candomblé: em dois meses, foram sete terreiros depredados em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense, como noticiou o jornal O Dia (7/9).
No último caso registrado na cidade, no início de setembro, o terreiro de candomblé Ilê Asé Togun Jobi foi totalmente destruído. A Polícia Civil investiga a ligação entre os crimes e a ação de traficantes vinculados a denominações evangélicas neopentecostais. De acordo com Ivanir do Santos, da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, o clima é de medo entre os adeptos das religiões afro-brasileiras e seus líderes não podem ficar calados diante do crescimento da intolerância religiosa, como informou O Dia em outra matéria (8/9). Na mesma reportagem, a socióloga Carolina Rocha, autora do livro “O sabá do sertão: feiticeiras, demônios e jesuítas no Piauí colonial”, explica que casos como esses são antigos; ela cita o exemplo de seguidores da umbanda e do candomblé no Morro do Dendê, na Ilha do Governador (RJ), que foram proibidos por chefes do tráfico de usar branco, cor sagrada para essas religiões.
A intolerância religiosa foi tema da Radis na edição 152: na reportagem de maio de 2015, a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Cristina Vital, apontou que, desde os anos 1990, com o crescimento do segmento evangélico neopentecostal, houve uma mudança no campo religioso brasileiro, “porque esse grupo tem um modo de atuação no espaço público que rivaliza por presença”. Autora do livro “Oração de traficante” (publicado em 2015 pela Editora Garamond), Cristina analisou em sua pesquisa as relações entre violência e religião nos territórios pobres do Rio de Janeiro.
Em mensagem publicada em sua página do facebook (13/9), a Casa de Oxumaré — um dos mais tradicionais terreiros de candomblé da Bahia — afirmou que “nossos corações, assim como de milhares de integrantes e adeptos das religiões de matriz africana, estão em prantos nos últimos meses com os periódicos ataques aos terreiros de umbanda e candomblé no estado do Rio de Janeiro”. Segundo o texto, a origem dos ataques é consequência da disseminação do ódio religioso por “falsos profetas criminosos”. Já para o babalaô Márcio de Jagun, é preciso se solidarizar com as vítimas e cobrar providências urgentes das autoridades, sem disseminar o terror e o medo. “Estou vendo religiosos de matrizes africanas apregoando ‘revanches’ e neopentecostais se sentindo estimulados a ‘mais ataques’. Aonde vamos chegar? Que tipo de sociedade queremos?”, declarou em sua página no facebook. Como sinal da luta por respeito a todas as religiões, representantes de diversas denominações se reuniram na praia de Copacabana, na 10ª edição da Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa (17/9). A maior parte vestida de branco, a manifestação reuniu cerca de 50 mil pessoas, segundo os organizadores.
 

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