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Revista Radis Comunicação e Saúde

 
Livro reúne reflexões e interfaces entre comunicação, informação e saúde

“Comunicação, mídia e saúde” é, simultaneamente, marco de celebração e janela para o futuro. Motivados pelas comemorações dos 30 anos do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), os organizadores Cristiane d’Avila e Umberto Trigueiros reuniram “um time de autores a nos presentear com reflexões inovadoras, instigantes e de grande qualidade científica". Embora uma publicação comemorativa, nos advertem, está voltada para o “ensino e a pesquisa sobre comunicação e informação” e suas interfaces com a saúde. Mas, tempo de enaltecer é tempo de vigiar.
Não sem contradições e conflitos, foram sendo criados espaços para a comunicação em sua articulação com a saúde. A própria emergência do Sistema Único de Saúde (SUS) e a definição da “participação como eixo estruturante de suas ações, posicionaram a comunicação no centro do seu projeto: sem comunicação não há genuína participação e sem participação não se efetivam alguns de seus importantes princípios”, como destaca o prefácio, nos mostram que, seja a construção do sistema de saúde brasileiro, seja a interface Comunicação e Saúde, não estamos diante de projetos acabados. Antes, são bases sobre as quais é preciso avançar. Com essa mirada, a obra, naquilo que marca as três décadas do Icict, anuncia o 30º aniversário do SUS, trazendo reflexões que extrapolam a perspectiva utilitarista com que a comunicação era tomada.
Quando trabalhos como “Quando o vírus, bactérias e mosquitos chegam ao notíciário” (de  Wagner de Oliveira) e “Epidemias midiáticas, a doença como um produto jornalístico” (de Cláudia Malinverni e Angela Cuenca) colocam em cena algumas das formas pelas quais a imprensa põe em evidência determinadas expressões, mediando o debate sobre a forma como a saúde pública deve ser vista pela população, o que nos mostram é um falso debate. Na verdade, não há apenas um conjunto de notícias e reportagens, mas uma ação política deliberada por parte dos jornais, tomando claramente uma posição na direção de contribuir para o desmanche daquilo que o SUS enseja.
Olhar semelhante está contido em “A retórica da medicalização e a justificativa moral para a cirurgia bariátrica nos relatos de celebridades” (de Igor Sacramento e Wilson Borges). O que nele aparece valorizado é a forma pela qual a retórica da medicalização (presente em outros dispositivos midiáticos) defende e valoriza certa linha do discurso de promoção da saúde que qualifica a busca por tais cirurgias como escolha saudável. Entretanto, há resistências e outras formas de ver o processo. É o que está presente em “Perspectiva comunicacional de telessaúde como oportunidade de empoderamento” (de Angélica Silva). Neste trabalho, defende-se que o estudo de telessaúde pelos campos da informação e da comunicação pode contribuir para que seu significado seja ampliado e a população, empoderada.
Preocupações com a comunicação entre população e profissionais de saúde são o eixo central de “Análise crítica das Novas Diretrizes Curriculares Nacionais para cursos de Medicina: a concepção de comunicação, cultura e contextos” (de Adriana Aguiar, Wilson Borges e demais autores). Há neste trabalho uma viragem na forma como a relação Comunicação e Saúde é incorporada na formação médica no Brasil. Se antes a “competência em falar” era valorizada, com a nova normatização, cultura e contexto passam a ser noções centrais nesse processo de comunicação. O que tais diretrizes anunciam, subrepticiamente, é que outros saberes devem ser valorizados. Afinal, tudo aquilo que ouvimos, lemos, assistimos conformam a maneira como agimos no mundo.
Ainda que não exclusivamente, um dos grandes dispositivos mediadores entre os atores sociais e o mundo é o jornalismo, especialmente pela forma como narra questões do cotidiano de uma maneira pretensamente distanciada. Entretanto, especialmente a partir de certa popularização das chamadas tecnologias digitais, o jornalismo parece estar entrando em xeque. Essa é a questão central de “O jornalismo e seu labirinto” (de João Figueira) e de “Indagações à identidade jornalística na era do virtual e da cultura da rede" (de Fernanda Lopes). Nestes capítulos, os autores refletem sobre um conjunto de transformações que “tira da imprensa” o lugar de grande referência de produção e disseminação da realidade.
Encerrando o livro, “Literatura brasileira e comunicação: das cartas modernistas às redes sociais” (de Cesar Lima), contempla formas pelas quais a literatura brasileira “se reiventou”, para sobreviver nos últimos cem anos. A porta aberta, seja por este último capítulo seja pelos que o precederam, parece querer nos dizer alguma coisa. Num momento histórico marcado por várias novidades e muitas incertezas, “Comunicação, mídia e saúde” nos provoca a pensar em alternativas para o futuro. Para nós, quanto mais nebuloso é o dia, maior é a certeza que em breve o sol poderá voltar a raiar.

Wilson Borges
Wilson Borges é pesquisador do Icict/Fiocruz