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Revista Radis Comunicação e Saúde

 
Livro avalia política de saúde para populações do campo, das florestas e das águas
 (Foto: Valda Nogueira)
 
Organizado por Fernando Ferreira Carneiro, Vanira Matos Pessoa e Ana Cláudia de Araújo Teixeira, “Campo, Floresta e Água — práticas e saberes em saúde” é resultado de um processo conduzido pelo Observatório de Saúde das Populações do Campo, da Floresta e das Águas — Teia de Saberes e Práticas (Obteia), criado para monitorar e contribuir com a implementação e avaliação da Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo, da Floresta e das Águas (PNSIPCFA), criada em 2011. 
 
O Obteia integra um processo iniciado em 2004 com a criação do Grupo da Terra, um colegiado de gestão formado por representantes de diversas secretarias e unidades vinculadas ao Ministério da Saúde e por representantes da sociedade civil, responsável por definir as bases dessa política. A partir da constituição de uma teia de saberes e de práticas, o observatório é constituído por intelectuais e especialistas no tema; pesquisadores populares e lideranças de movimentos sociais e gestores e trabalhadores do SUS.
Construída com os sujeitos beneficiários da política pública (e não para ou sobre eles), a pesquisa que redundou no livro é a sistematização deste trabalho. Tendo como fundamento epistemológico as teorias do Sul, o projeto está assentado na ideia que ciência é política, e que todos os conhecimentos são incompletos e podem beneficiar-se da troca e do diálogo entre si. Fernando Carneiro explica que a metodologia se inspira em abordagens como a ecologia de saberes, de Boaventura de Sousa Santos, e o diálogo de saberes, de Paulo Freire, que adotam como preceito a relação sujeito – sujeito. Este princípio não é apenas ideológico, mas também adotado na prática da pesquisa, conduzida em todos os territórios com a contribuição de um pesquisador profissional e de um pesquisador popular, representante de populações do campo, da floresta e das águas.
A obra reúne um conjunto de estudos sobre a saúde no campo assinados por 69 autores, envolvendo 11 territórios do país, de norte a sul. As pesquisas foram orientadas por duas perguntas-chave comuns: o que ameaça e o que promove a saúde no território. Já o método de pesquisa é plural, e a sua definição se deu de acordo com o contexto e a cultura de cada local. O resultado são análises que vão além do registro, do relato e da denúncia, porque sistematizam novos conhecimentos e propostas concretas, construídos a partir do diálogo entre o conhecimento profissional e o popular. 
Um saber tecido a muitas mãos, com contribuições das universidades, de agentes de governo, de técnicos da saúde e, principalmente, dos sujeitos beneficiários da PNSIPCFA, observando que o seu conhecimento sobre a realidade local e o saber tradicional devem estar obrigatoriamente contemplados para uma efetiva política pública. Além de cumprir o objetivo de análise e monitoramento da política de saúde, a pesquisa resulta em uma ecologia de saberes sobre saúde no campo, e contribui teórica e metodologicamente para ampliar os conhecimentos sobre o tema, a partir de uma perspectiva descolonizadora.
O livro ainda comprova como é possível realizar uma pesquisa engajada, situada e comprometida com processos de emancipação social, sem abrir mão da objetividade e da densidade, características de um bom trabalho científico. O processo constitutivo e a riqueza de conteúdo fazem da obra uma referência indispensável a todos os que apostam na produção de uma ciência emancipatória, na teoria e na prática.
Carolina Niemeyer
Ao me cadastrar para receber gratuitamente a revista Radis, esperava receber informações independentes, que pudessem mostrar a cara do país despida de imposição doutrinária. Nas edições 179 e 180 ficou clara a ideologia partidária. Muito entristecido diante de tão grande saber manipulado por um establishment cujo objetivo é se locupletar em detrimento daqueles que estão morrendo na porta dos hospitais, que não têm educação de qualidade, que se escondem em suas casas por falta de segurança, etc. Onde estão os filósofos que apresentarão propostas a serem aplicadas para um futuro próspero para nossa Nação? Qual o motivo de estar por cima senão o de estender a mão?
  • Ronier Vaz dos Santos, Timóteo, MG.
R: Caro Ronier, obrigado por sua mensagem. Radis é pautada pelo entendimento de que a Comunicação é resultado de uma disputa de visões de mundo e a defesa da Saúde como direito de todos. Esclarecemos, portanto, que não há nenhuma imposição doutrinária, mas sim a defesa intransigente do Estado democrático que assegure Saúde, Educação, Segurança e demais bens de cidadania para todas e todos. 
Documentário mostra dinâmica de uma conferência nacional de saúde a partir do engajamento de três delegados
 (Cena de bastidores das gravações de "O que nos move" mostra o diretor de fotografia Paulo Lara, na gravação de imagens de Carlivan, uma das personagens / reprodução)
 
Eronides saiu do Rio de Janeiro para defender os direitos das pessoas com anemia falciforme; Michely deixou o Paraná a fim de lutar pela população negra; Carlivan viajou do Maranhão com a tarefa de apoiar as demandas das pessoas com deficiência. O ponto de encontro dos três foi Brasília, mais especificamente a 15ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em dezembro de 2015. No mar de gente de todos os sotaques e bandeiras que se cruzam nos corredores de um evento dessa dimensão, o recém-lançado documentário “O que nos move”, do Selo Fiocruz Vídeo, destaca o vai-e-vem desses três delegados de modo a abordar a dinâmica por trás da aprovação de cada uma das recomendações do controle social para a saúde do Brasil.
 
A direção é da jornalista e documentarista Daniela Muzi, pesquisadora do campo da Comunicação e Saúde, para quem era preciso mudar o foco da cobertura das conferências, geralmente centrada na gravação das plenárias e entrevistas com delegados e autoridades. “Há claro predomínio dos discursos de personalidades do campo da saúde, especialistas, pesquisadores, gestores. Mas quem já participou ou acompanhou um evento como esse sabe que há muito além das plenárias e muitas vozes nem sempre ouvidas. Realizamos um documentário que mostra as expectativas, tensões, conflitos, os olhares, não olhares, as falas e momentos de silêncio para tentar descobrir ‘o que nos move’ em defesa do SUS”, conta.
 
 (Michely e Eronides, dois dos conselheiros que foram personagens da produção / Fotos: Divulgação e Eduardo de Oliveira)
 
A abordagem, segundo Daniela, surgiu a partir da leitura de uma reportagem da Radis, “Muito prazer, delegadas!” (edição 158). A repórter Ana Cláudia Peres acompanhou em outubro de 2015 a participação das delegadas Erika Arent, Ana Cristina Engstron e Norma Maria de Sousa na 7ª Conferência Estadual de Saúde do Rio de Janeiro. Outra referência foi o “cinema direto”, tradição cinematográfica em que o documentarista acompanha a ação sem influenciá-la.
A equipe da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz, composta ainda pelo diretor de fotografia Paulo Castiglioni Lara e pelo técnico de som Marcos Renkert, acompanhou um delegado a cada dia da 15ª, todos eles representantes dos usuários. Montagem e finalização couberam a Gislaine Lima. “O documentário segue a ordem cronológica dos acontecimentos pelo ponto de vista dos conselheiros de saúde, sem nenhuma entrevista, apenas seguindo o desenrolar da ação”, explica Daniela. Assim, sem roteiro definido, a diretora buscou “ser menos protagonista e mais coadjuvante” na narrativa.
 
Não escapa ao registro cinematográfico a atenção dada na 15ª ao processo de impeachment da presidenta reeleita em 2014, Dilma Rousseff. No terceiro dia do evento, o então presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, hoje preso por recebimento de propina, aceitou o pedido de impedimento protocolado por partidos da oposição a Dilma. “A 15ª entrou para história, pois além de ter sido uma das conferências mais populares depois da 8ª Conferência, não discutiu apenas a saúde da população, mas também a saúde da democracia”, avalia a documentarista.
 
Bruno Dominguez