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Revista Radis pos_tudo

 

Pós-Tudo

Descolonizando a universidade

Data de publicação: 
01/02/2018
No Brasil de crescente desigualdade, inúmeras são as iniciativas bem intencionadas de luta contra as opressões sociais. Projetos, campanhas, atos públicos, abaixo-assinados e outras manifestações são organizados por movimentos e instituições na tentativa de enfrentar as mais diversas situações de vulnerabilidade. Nas universidades, as atividades de extensão e de pesquisa de campo cumprem esse papel, sendo um canal entre academia e sociedade.
Porém, como de boas intenções o inferno está cheio, precisamos nos perguntar a todo instante: o que realmente queremos com ações em prol das classes oprimidas? Nosso propósito com pesquisa e extensão é de fato emancipatório — no sentido freiriano — ou estamos apenas nos capitalizando para parecermos pessoas boas? Na “sociedade do espetáculo”, em que parecer é um valor cada vez mais cultuado, estas são questões relevantes — e extensivas a ações governamentais e movimentos sociais. 
Primeiro, precisamos compreender que a matriz de poder do sistema-mundo moderno é a colonialidade: somos classificados em superiores e inferiores por categorias impostas pelo colonizador europeu, branco, homem, proprietário, cristão, heterossexual e cisgênero, o que nos faz considerar, por exemplo, o branco superior ao negro, o homem superior à mulher e o não-índio superior ao indígena. 
Segundo, na esfera do saber, essa matriz é racionalista, universalista, eurocêntrica e androcêntrica: o conhecimento científico vale mais do que os outros, estudamos autores — predominantemente homens — europeus e importamos suas teorias para adaptá-las à nossa realidade, inferiorizando outras formas de conhecimento, como as artes e os saberes tidos por “populares” ou produzidos no que o centro do mundo designou de periferia. 
Nas universidades brasileiras, frequentadas em sua maioria pelas classes mais favorecidas, toda a estrutura é colonialista, baseada em currículos e práticas que espelham essa lógica: mestres detentores de conhecimento nos ensinam teorias e fórmulas a partir dessa epistemologia hegemônica, sem muito espaço para crítica e autonomia discente, insistindo no ultrapassado modelo de educação bancária, denunciado por Paulo Freire; as atividades de extensão e pesquisa de campo ainda são pouco valorizadas ou apenas cumprem metas institucionais de inserção social; epistemologias desviantes da ciência tradicional não são valorizadas e, por vezes, desconsideradas. 
Como aponta Márcia Tiburi, praticamos uma espécie de ventriloquacidade que nos faz repetir teóricos europeus e abdicar de uma fala própria, contribuindo para o que ela chama de “produção social da ignorância”: o fomento à naturalização do senso comum que separa teoria e prática, fortalece o coronelismo intelectual e mantem os outros saberes em seu “devido lugar”. 
Reproduzimos essa dinâmica em nossas ações, até mesmo nos projetos de pesquisa e extensão, sem percebermos que podemos ser tão colonialistas quanto nossos colonizadores. Incorremos nesse erro quando nos colocamos como donos(as) do conhecimento, tratando pessoas e grupos como objeto de estudo e usando o resultado de ações/investigações exclusivamente para mérito acadêmico: aplicamos questionários e entrevistas, registramos o que nos interessa e desaparecemos sem nenhum retorno aos “pesquisados(as)”. Ou quando anunciamos: “estamos aqui para dar voz a vocês”, sem a compreensão de que “dar voz” a quem sempre foi silenciado pelo poder hegemônico é um paternalismo que lhes retira a agência e reforça a subalternização. E, ainda, quando reforçamos a matriz patriarcal de poder que oprime as pessoas marcadas como mulheres, sem a compreensão da necessária intersecção entre gênero, classe, raça e sexualidade nas reflexões e práticas de luta.
Por isso, crítica e autocrítica são ferramentas prementes a todos nós. No Rio de Janeiro, o encontro “Para que e para quem servem as pesquisas acadêmicas sobre as favelas?”, em sua 6a edição, em  2017, pautou a impropriedade da academia em pesquisas sobre favelas e defendeu a descolonização do conhecimento. Na mesma linha, em evento realizado no Museu da Maré, no último novembro, a fala de uma moradora foi precisa: “Não precisamos de grupos que falem por nós, sabemos falar e nos organizar. Se querem participar, tem de ser de igual para igual”. Na academia, Boaventura de Sousa Santos defende uma ecologia de saberes representada pela “extensão ao contrário”, que leva às universidades as experiências de movimentos sociais e grupos oprimidos para um diálogo sem hierarquias. Do mesmo modo, várias autoras propõem novas metodologias a partir de uma perspectiva feminista que denunciam a colonialidade em torno das mulheres e de saberes comunitários, afros e indígenas do Sul Global: Maria Lugones, Rita Segato, Silvia Cusicanqui, Ochy Curiel, Espinosa-Miñoso, Lélia Gonzalez, Djamila Ribeiro e tantas outras.
Então, precisamos reconhecer nossos privilégios e entender que nossas práticas bem intencionadas também podem alimentar o jogo colonialista. Se queremos fazer pesquisa e extensão, que não seja apenas para cumprir as exigências do MEC ou para ter destaque na cena politicamente correta, devemos firmar relações horizontais e desconstruir a lógica hierárquica que valoriza nossos artigos Qualis A1 e inferioriza saberes tradicionais de mulheres indígenas. Se o intuito é transformar e descolonizar, as atividades devem ser planejadas e realizadas de forma conjunta, horizontal, participativa e dialógica, sem retirar o protagonismo de luta dos integrantes dos movimentos, sem despejar saberes acadêmicos superiores, sem silenciar mulheres e, sobretudo, sem pretender “dar voz” a quem sabe — e muito bem — falar por si.
 
Autor: 
Roberta Laena Costa Jucá
Roberta Laena é advogada, feminista, pesquisadora do Laboratório de Direitos Humanos da UFRJ e doutoranda em Direito pelo PPGD-UFRJ.