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Revista Radis sumula

 
 (A hepatite A pode ser transmitida pela água ou pelos alimentos contaminados. Foto: agência brasil
 
Com transmissão pela via oral-fecal, a hepatite A foi noticiada no fim de 2017 e início de 2018 por conta do aumento do número de casos em São Paulo e no Rio de Janeiro: em 2017, somente a capital paulista registrou 694 casos, um terço das ocorrências em todo o país em 2015. Já no Rio de Janeiro, foram 119 pessoas infectadas pela doença (um aumento de mais de 10 vezes em comparação com o ano anterior) — a maioria dos casos se concentra na comunidade do Vidigal, favela da Zona Sul carioca. Como informou o site da BBC Brasil (10/1), os dois surtos de hepatite A — que vinha diminuindo o número de casos nas últimas décadas — parecem ter sido causados por fenômenos diferentes, de acordo com especialistas.
 Esse tipo de hepatite pode ser transmitida por contato direto entre as pessoas, pela água ou por alimentos contaminados, por mãos mal lavadas ou sujas de fezes e por objetos que contenham a presença do vírus. Como explicou a notícia da BBC Brasil, em São Paulo, a Secretara Municipal de Saúde atribui o avanço da doença ao sexo oral-anal sem proteção — embora a hepatite A não seja considerada uma infecção sexualmente transmissível, o contato com a região perianal ou com material que contenha resíduos de fezes pode gerar contaminação. Já no Rio de Janeiro, a causa mais provável é a presença do vírus na água, principalmente pela ocorrência em uma região pobre com deficiência no saneamento básico.
Ao analisar a água em 10 pontos próximos ao Vidigal, o Laboratório de Desenvolvimento Tecnológico em Virologia da Fiocruz encontrou a presença do vírus em três locais — em um poço, em um lote de água mineral e em um chuveirão da praia em frente ao morro do Vidigal, o que aumenta o risco de contaminação principalmente no verão. Como informou a Agência Brasil (10/1), os moradores devem manter cuidados preventivos como lavar as mãos e só utilizar água fervida ou filtrada para beber e preparar alimentos. A infecção — que ataca o fígado — geralmente é benigna em criança e mais grave em adultos, mas podem ocorrer formas fulminantes da doença, inclusive com risco de morte. Segundo a BBC Brasil, no Rio, ainda não houve complicações, mas em São Paulo quatro pacientes já foram levados à fila de transplante devido à doença, com duas mortes, o que não ocorria no estado desde 2012.
 
 (A hepatite A pode ser transmitida pela água ou pelos alimentos contaminados / Foto: agência brasil)
 
“Até o final do século passado a hepatite A na maior parte do Brasil era frequentemente adquirida na infância devido às precárias condições sanitárias e à falta de imunização. Como em crianças pequenas esta infecção costuma ser branda, muitas vezes o diagnóstico nem era conhecido, mas a imunidade deixada é permanente, dificilmente um número grande de susceptíveis chegava à idade adulta a ponto de aparecer um surto como este”, explicou à Radis Estevão Portela Nunes, vice-diretor de Serviços Clínicos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz). Segundo ele, a oferta de vacina para crianças e a melhoria nas condições sanitárias reduziu progressivamente o número de casos relatados, porém propiciou a existência de um aumento na população vulnerável, que não foi vacinada nem infectada na infância. “A introdução do vírus no meio através de alguma quebra de barreira das condições sanitárias acabou levando a este fenômeno atual”, disse o especialista. “O mais importante é que haja um esforço coletivo para enfrentar estas situações”, recomendou, lembrando que o poder público deve fazer sua parte — identificando e combatendo fatores associados à epidemia, orientando a população quanto às medidas de prevenção e avaliando a cobertura vacinal nas áreas vulneráveis —, e também a população, com a adequada higienização das mãos e o cuidado com os alimentos consumidos, avaliando-se a procedência e a higiene, para que diminuir o risco de disseminação da infecção.
 
Um estudo internacional realizado em cinco países europeus e no Brasil sobre a incidência de transtornos psicóticos constatou que homens jovens, minorias étnicas e moradores com baixos indicadores socioeconômicos têm maior propensão a apresentar um primeiro episódio psicótico. Segundo divulgou a Agência Fapesp (9/1), isso significa que esses grupos populacionais estão mais predispostos à manifestação inédita de transtornos mentais que incluem esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar e depressão com sintomas psicóticos, como alucinações, ideias delirantes e desorganização do pensamento.
“O estudo confirmou que a incidência do primeiro episódio psicótico varia muito entre grandes centros urbanos e regiões mais rurais e indicou que os fatores determinantes centrais para essa grande variação são, provavelmente, ambientais”, afirmou Paulo Rossi Menezes, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e um dos coordenadores da pesquisa no Brasil. Ao comentar os resultados, o pesquisador disse que, até o final do século 20, acreditava-se que os principais fatores etiológicos (origem e causa) desse tipo de transtorno seriam genéticos. “Mas os dados do estudo apontam que os fatores ambientais desempenham um papel muito relevante”, declarou.
Realizada em 17 centros urbanos e rurais dos seis países participantes entre 2010 e 2015, a investigação identificou 2.774 pacientes que apresentaram um primeiro episódio de transtornos psicóticos, dos quais, 1.578 eram homens e 1.196, mulheres, com idade média de 30 anos. As análises dos dados indicaram uma variação de oito vezes na incidência dos transtornos psicóticos entre as áreas estudadas. Enquanto em Santiago, na Espanha, a incidência foi de seis novos casos por 100 mil habitantes por ano, em Paris, na França, o número subiu para 46 novos casos anuais, também por 100 mil. Na região de Ribeirão Preto, onde o levantamento foi realizado no Brasil, a incidência foi de 21 novos casos por 100 mil habitantes por ano. 
Também foi constatada alta incidência de primeiro episódio psicótico em minorias étnicas e em áreas com menor porcentagem de casas ocupadas por seus proprietários. Para Menezes, isso sugere que as condições socioeconômicas das pessoas e do ambiente onde vivem têm papel importante. Os pesquisadores pretendem agora analisar os dados sobre o histórico de vida dos pacientes e compará-los com controles da população (pessoas que não apresentaram esse quadro) a fim de verificar os fatores de risco para o desenvolvimento de um primeiro episódio psicótico. 
A matéria da Agência Fapesp chama atenção ainda para o fato de que transtornos psicóticos são responsáveis por uma proporção significativa da carga global de doenças, em razão da incapacitação que causam. Os resultados da pesquisa, que no Brasil contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foram publicados em artigo na JAMA Psychyatry, renomada revista da Associação Médica Americana. 
 
O Ministério da Educação (MEC) aprovou (17/1) resolução que autoriza o uso do nome social de travestis e transexuais nos registros escolares da educação básica, uma antiga reivindicação do movimento LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais). Com a mudança, os estudantes poderão solicitar que as escolas usem seus nomes sociais, e não os que constam no RG, em documentos de identificação, listas de presença e outros documentos oficiais escolares, apontou o portal G1 (17/1). De acordo com a resolução, maiores de 18 anos podem solicitar o uso do nome social. No caso dos menores de idade, o pedido deve ser feito pelos pais ou responsáveis legais.
O MEC divulgou (17/1) que a norma busca propagar o respeito e minimizar estatísticas de violência e abandono da escola em função de bullying, assédio, constrangimento e preconceitos. Ao comentar a resolução, a presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Keila Simpson, afirmou que a exclusão sofrida pelas pessoas trans no Brasil também é visível no ambiente escolar. “Quem mais está fora desse espaço da escola é a população trans, porque a escola não se preparou para nos receber”, disse em entrevista para a Agência Brasil (17/1). 
A reportagem lembrou o caso recente vivido por uma estudante do Ceará que teve bastante repercussão na mídia no final do ano passado, quando a adolescente Lara, de 13 anos, ao se reconhecer como mulher, passou a sofrer preconceitos no ambiente escolar, sendo inclusive “convidada” a sair da Escola Educar Sesc, como narrou a reportagem. Segundo a mãe da estudante, Mara Beatriz, o nome civil da adolescente — masculino — era utilizado em todos os registros escolares escritos, como em provas e boletins. Além disso, a estudante não tinha acesso ao banheiro feminino e, para não usar o masculino, teve que se limitar a ir apenas ao banheiro da coordenação. 
“Era algo que causava muito sofrimento, porque antes aquele era um ambiente em que ela se sentia muito bem na escola, onde estudava desde os 2 anos de idade”, comentou a mãe, acrescentando que a escola inviabilizou ainda o direito de a adolescente ter o nome social garantido na carteirinha de estudante. Mara Beatriz usou as redes sociais e a imprensa para denunciar o caso. Segundo informou a Agência Brasil, diante da repercussão, o Sistema Fecomércio, que controla a escola, anunciou que havia ocorrido “uma falha pontual interna” e que o nome social da estudante havia sido regularizado em todos os documentos. A instituição se comprometeu ainda a estimular o debate sobre questões de gênero com toda a comunidade escolar e a adotar ações permanentes de combate ao preconceito.
A resolução que autoriza o uso do nome social havia sido aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em setembro de 2017, e aguardava a homologação pelo MEC para entrar em vigor. O texto determina ainda que as escolas de educação básica brasileiras, na elaboração e implementação de suas propostas curriculares e projetos pedagógicos, assegurem diretrizes e práticas com o objetivo de combate a quaisquer formas de discriminação em função de orientação sexual e identidade de gênero de estudantes, professores, gestores, funcionários e respectivos familiares.

Uma velha conhecida da saúde coletiva brasileira, a febre amarela voltou a ser motivo de preocupação no verão de 2018: um novo surto da doença já confirmou 130 casos, com 53 mortes, até 23 de janeiro. O retorno da doença no início de 2018 ocorre um ano depois do surto registrado no primeiro semestre de 2017, entre dezembro de 2016 e junho de 2017, em que foram confirmados 777 casos e 261 mortes — desde setembro, o Ministério da Saúde havia declarado o fim do surto, pois já não eram registrados novos casos desde junho. Mas as novas ocorrências da febre amarela em sua forma silvestre preocupam as autoridades pela proximidade com os grandes centros urbanos, o que representa o risco da doença voltar a ser transmitida pelo Aedes Aegypti, o que não ocorre no Brasil desde 1942. “Depois de muito tempo temos o surgimento de casos na vizinhança de regiões densamente povoadas e com cobertura vacinal inadequada. Antes os casos eram quase que restritos a viajantes que entravam em áreas de risco sem estar adequadamente vacinados”, explicou à Radis o médico infectologista Estevão Portela, vice-diretor do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz).
Os casos se concentram nos estados de Minas Gerais (com 24 mortes), São Paulo (23), Rio de Janeiro (7) e no Distrito Federal (1), segundo o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde de 23 de janeiro. O retorno da febre amarela aos noticiários e o repasse de informações desencontradas pelas redes sociais levou a população aos postos de saúde para se vacinar, mesmo em regiões em que ainda não há recomendação para a vacina. O governo brasileiro decidiu adotar a estratégia de fracionamento da dose, para imunizar mais pessoas na campanha iniciada em 25 de janeiro — a dose fracionada também é considerada eficaz, porém imuniza por menos tempo (8 anos). A vacina é a principal forma de prevenção, mas é preciso estar atento às recomendações sobre pessoas que não devem se vacinar e aos locais onde não há indicação para vacina.
Dose fracionada
Diante da necessidade de imunizar mais pessoas, principalmente em áreas muito povoadas, o Ministério da Saúde decidiu fracionar a dose aplicada na campanha de vacinação, a partir de 25 de janeiro, nos estados de SP, RJ e Bahia: ao invés de receber a dose inteira (0.5 ml), as pessoas nesses locais serão vacinadas com um quinto do padrão (0.1 ml). De acordo com a Agência Fiocruz de Notícias (11/1), esta é uma medida de emergência que pode ser utilizada na vacinação em massa para ajudar a controlar surtos em que é necessário fornecer uma grande quantidade de vacinas em curto espaço de tempo. Segundo estudos divulgados pela Fiocruz, uma dose cinco vezes menor que o padrão mantém a mesma eficácia de imunização. “O fracionamento já foi utilizado com sucesso em outras áreas devido a urgência em vacinar um grande número de pessoas. Mas a proteção não é para sempre e haverá necessidade de nova vacinação destas pessoas no futuro”, afirma Estevão Portela.
A vacina contra febre amarela existe desde 1937 e é produzida no Brasil pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz). É uma vacina feita com vírus vivos atenuados, a partir de ovos de galinha. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde, enquanto a dose padrão protege por toda a vida, a fracionada tem duração de pelo menos 8 anos. Todas as pessoas a partir de 2 anos de idade devem tomar a dose fracionada. Crianças de 9 meses a menores de 2 anos e grávidas, dentre outros poucos casos, devem tomar a dose completa. Segundo o Ministério, viajantes internacionais também recebem a dose padrão, pois o Regulamento Sanitário Internacional (RSI) ainda não autorizou a utilização da dose fracionada para a emissão do Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia (CIVP) — o viajante precisa comprovar que vai viajar.

Quem não deve se vacinar

  • Crianças menores de 9 meses de idade
  • Mulheres amamentando
  • Pacientes com imunossupressores (que diminuem a defesa do corpo)
  • Pessoas com alergia a ovo
  • Pessoas em tratamento de quimio/radioterapia


Quem deve ser vacinado

  • Pessoas entre 9 meses e 59 anos de idade
  • Idosos com mais de 60 e grávidas devem passar por avaliação médica

Informe-se!

Radis 174 (março de 2017)
https://goo.gl/w4myZT
Fiocruz
https://agencia.fiocruz.br/febre-amarela
Ministério da Saúde
http://portalms.saude.gov.br/saude-de-a-z/febre-amarela


O amianto foi banido do Brasil, certo? Na Bahia, não. Mesmo depois do Supremo Tribunal Federal (STF) ter proibido a extração, a industrialização e a comercialização do produto em todos os estados do país, em novembro de 2017 — declarando inconstitucional um artigo da Lei Federal 9.055/1995, que permitia o seu uso controlado —, a Assembleia Legislativa da Bahia aprovou (5/12) uma emenda ao projeto 20.985/14, permitindo que a indústria do cloro-soda na Bahia utilize seus estoques de amianto até janeiro de 2026, como informou o site do Instituto do Trabalho Digno (ITD), entidade que se dedica a estudos, pesquisas relacionadas ao mundo do trabalho (16/12). Segundo informações do instituto, a medida beneficia uma única empresa na Bahia — a Dow Química Brasil — que ainda utiliza amianto no processo de obtenção do cloro, mantendo em estoque a fibra, e expondo os trabalhadores a risco de contaminação.
A emenda, aprovada sem questionamento dos deputados, dos trabalhadores do setor na Bahia ou dos meios de comunicação (locais e nacionais), foi proposta pelo parlamentar Rosemberg Pinto (PT/BA), que defendeu sua iniciativa alegando que o Supremo havia deixado de fora o uso de amianto em processos “que não dependem do contato humano”. Para o ITD, o deputado omitiu dos colegas que a emenda ao projeto original contraria o que havia determinado o STF, não admitindo prazos ou exceções.  “A lei tardia dos deputados baianos, por conta da emenda Dow, nasce inconstitucional e será questionada no STF, a não ser que o governador da Bahia vete o dispositivo”, previu o instituto, em janeiro.
Autor do projeto original, o ex-deputado Zilton Rocha (PT/BA) lamentou a aprovação da emenda na Assembleia Legislativa — pelo “rastro nefasto” de danos à saúde e ao ambiente deixado pelo amianto — e declarou sua esperança no veto à medida, evitando que entidades e pessoas que lutam pelos direitos das vítimas tenham que gastar seus escassos recursos para comprovar a inconstitucionalidade da lei baiana.