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Revista Radis Comunicação e Saúde

 

No ombro, no peito, nas costas ou nos braços. Quem curtiu o carnaval nas ruas de Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Salvador, Recife e Olinda viu por todo o lado a mesma tatuagem temporária em mulheres cheias de brilho e poder: “Não é não”. A frase, que virou uma das marcas da festa deste ano, traduz no corpo a luta diária delas contra o assédio. “Fala sobre respeitar as decisões das mulheres, nosso livre arbítrio”, resume à Radis Luka Borges, uma das quatro idealizadoras da campanha — juntamente com Aisha Jacob, Julia Parucker e Fernanda Barbosa.


A ideia surgiu em janeiro de 2017, pela indignação diante do caso de assédio sofrido por uma delas. Em 48 horas, as amigas conseguiram mobilizar 40 mulheres e arrecadar quase R$ 3 mil reais para produzir 4 mil tatuagens que foram distribuídas gratuitamente no Rio durante o carnaval do ano passado. Este ano, a produção foi via financiamento coletivo: 355 colaboradores doaram um total de R$ 20.547. “O financiamento coletivo também é um trabalho de engajamento, de criação de rede de apoio e conscientização”, avalia Luka.


Nas sete cidades, 27 mil mulheres se tatuaram de graça, em blocos alinhados com a luta contra o assédio e o abuso contra a mulher. “Estamos muito felizes com o tanto que a campanha ganhou de visibilidade. Os relatos que recebemos também são ótimos — tanto de mulheres lutando por seus espaços, se sentindo empoderadas pela frase, quanto de homens mudando de postura”, diz ela. O que não é possível mensurar é o efeito da campanha sobre os casos de assédio. “As denúncias registradas ficam muito aquém da realidade, então a métrica que temos é a sensação das mulheres”.


Quando o assédio acontece em um espaço público, conta Luka, normalmente há uma investida “menos violenta”, seguida de um ‘não’, que costuma ser desrespeitado e sucedido por uma investida mais violenta — com toque, puxões, xingamentos etc. “A única coisa que estamos pedindo é que o nosso ‘não’ seja ouvido. É bem simples”.


No Rio, a Comissão de Defesa da Mulher da Câmara Municipal apoiou a campanha e distribuiu leques com a frase e as formas de denunciar casos de violência, além de mil tatuagens. Com a visibilidade do tema, marcas e empresas aproveitaram para surfar a onda do ‘Não é Não’. “Nossa preocupação é com as iniciativas que apenas usam a frase, sem responsabilidade com a luta, esvaziando seu sentido político”, aponta Luka, afirmando que o objetivo do projeto é deixar de ser necessário.

 

Bruno Dominguez