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Revista Radis editorial

 

Editorial

Fantasma da fome, fantasma do descaso

Data de publicação: 
01/03/2018

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de alimentos, em razão de sua grande extensão territorial e capacidade agrícola. Apesar disto, um contingente estimado pelo IBGE em 3% de nossa população ainda não tem o suficiente para sua nutrição. Problemas como a desigualdade social, a concentração fundiária praticada por décadas, a monocultura para exportação e nutrição animal são alguns dos elementos que impedem o acesso de alimentos para todos, realidade presente em pequenas, médias e grandes cidades e principalmente no campo do Nordeste brasileiro, que ainda enfrenta grandes secas. Em paralelo a este quadro, o país enfrenta o congelamento dos gastos públicos por 20 anos (emenda constitucional 55) e o corte em programas sociais. Ainda não se pode estimar com exatidão os impactos dessas medidas, mas a população, principalmente os mais pobres, já sente o aumento dos efeitos da redução de políticas públicas. E o fantasma da fome volta a amedrontar as famílias que se beneficiam dos programas de transferência de renda.

Para dimensionar o impacto da implantação de políticas públicas que beneficiaram famílias que sofriam com a seca e a fome, nossa repórter Ana Cláudia Peres foi até o interior da Paraíba e pode constatar que graças a implantação de programas como Um milhão de Cisternas e Bolsa Família e a organização da agricultura familiar, entre outros, muitas famílias conseguiram sair da linha da pobreza e já tocam suas vidas com mais dignidade.

Para a pesquisadora Maria Emília Pacheco, ouvida pela Radis, o curto período de experimentação positiva nem bem começou e já está sendo desconstruído”. Também o agrônomo José Graziano afirma que a crise “terminou por impedir que se consolidasse uma política de segurança alimentar” e que na recessão econômica os investimentos em programas sociais precisam ser aumentados. Esta afirmação vem exatamente na contra mão do que o governo vem praticando. Talvez por isto já se possa sentir a volta do fantasma que pode colocar o Brasil novamente no mapa da fome.

Para além do fantasma da fome, temos o fantasma do descaso que ameaça a educação e a pesquisa no nosso país. E as universidades resistem como podem, a exemplo da Uerj, que mesmo adiando aulas de semestre letivo, sem serviços de limpeza e alimentação, com salários e bolsas atrasados, e sem condições mínimas para funcionamento, permanece de “luto na luta” — como diz uma faixa colocada no prédio — e permite que a jovem Priscilla (página 13) realize seu sonho de se formar numa das maiores universidades deste país, pioneira na busca por igualdade de oportunidades, ao criar o sistema de cotas.

Nos últimos dias, a proclamação de uma intervenção militar no Rio de Janeiro é anunciada como alternativa para deter a escalada de violência que amedronta a população deste estado. E vozes se ouvem, umas aplaudindo e outras criticando a medida. É importante que neste quadro de incertezas do que virá, haja espaço para o debate das consequências de ações das Forças Armadas, especialmente nas áreas da cidade onde a população está em situação de maior vulnerabilidade. É importante que o Estado brasileiro coloque em primeiro plano o direito à cidadania, antes mesmo do combate à violência — que não se restringe ao Rio de Janeiro — e ataque também suas consequências, sem ignorar as causas da violência social, sob pena de consagrar a ação pela ação e gerar mais violência.

Autor: 
Justa Helena Franco
Subcoordenadora do Radis