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Revista Radis reportagens

Reportagens

Autonomia para a vida

Data de publicação: 
02/03/2018
Terapeutas ocupacionais trabalham na reabilitação de pessoas a partir de seus contextos
 (Eduardo de Oliveira)
 
O grupo que conversava nos fundos do Centro Municipal de Saúde João Barros Barreto, em Copacabana, na Zona Sul carioca, na manhã de quarta-feira, 7 de fevereiro, esperava pelo início de mais um encontro semanal do Grupo Alívio. É ali, embaixo de árvores, que a terapeuta ocupacional Aline Cristina Barros Machado dá início ao aquecimento, conduzindo movimentos de equilíbrio e marcha, visando à prevenção de quedas, na base do “um passo para a frente, dois para trás, um passo largo para o lado e para o outro”. Em seguida, enquanto bolinhas começam a quicar a fim de fortalecer a musculatura das mãos e aumentar a percepção, Aline aproveita para orientar os participantes sobre atividades corriqueiras que podem ter impacto na qualidade de vida, especialmente de idosos e pessoas com limitações. “No supermercado, melhor dividir a sacola do que levar tudo em uma só”; “Em casa e na rua, tem que pedir ajuda quando precisar”; “Cuidado quando esticar: cada um sabe o seu limite”; “Não dá para copiar o equilibrista do circo e querer fazer igual”, ensina.
Formada em 2012, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Baixada Santista, Aline Machado faz parte do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf), no eixo reabilitação. Como terapeuta ocupacional que atua na Atenção Primária, ela trabalha com a prevenção e promoção da saúde apoiando as equipes de Saúde da Família. Em sua rotina, ela participa de reuniões com os colegas, discute casos, faz consultas conjuntas e visitas domiciliares, ao lado de um profissional da equipe técnica ou de um agente comunitário de saúde, além dos atendimentos individuais. “Todo caso que eu atendo é discutido pela equipe. Eu sei as razões da perda de autonomia, o que o paciente consegue ou não fazer e se tem ou não rede de apoio. Com essas informações, eu tenho que pensar na forma de qualificar a vida dessa pessoa no lugar onde ela mora”, diz. “As equipes solicitam a minha interferência para definir se o paciente precisa usar bengala ou muleta, onde conseguir uma cadeira de rodas, ou como deve se deslocar dentro de casa. Eu entro no apoio matricial [que prevê a responsabilidade compartilhada da equipe]”, observa. 
Aline salienta que o terapeuta ocupacional, ou TO, como é conhecido, é o profissional que, diante de um caso, estabelece como o paciente será reabilitado. Por esse olhar ampliado, ela considera que esse trabalho é fundamental na Atenção Primária. “A gente tem a chance de pensar na autonomia de uma pessoa e também do território e dizer: o que podemos fazer por ela?”. O aposentado Ruy Gonçalves, de 81 anos, estava entre os participantes do Grupo Alívio, criado por Aline, juntamente com a fisioterapeuta Giselle Mendes. Com os movimentos comprometidos por sequelas de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), ele participa do grupo há oito meses. “No início, seu Ruy ficava sentado. Agora consegue ficar de pé e tem mais estabilidade para fazer os movimentos”, diz Aline. Para ela, o objetivo de todo o trabalho conjunto — que também conta com a ajuda da massoterapeuta Isabel Maria Pereira — é garantir que ele ganhe mais força enquanto aguarda o início da reabilitação. “Estamos qualificando seu tempo de espera”. Seu Ruy disse à Radis que já consegue fazer os exercícios rotineiros com mais segurança. “No começo eu tinha um pouco de medo, mas agora estou mais confiante”.
Como ele, Cícera Regina Sousa enfrenta um problema crônico motivado por um erro em uma cirurgia. “Eu gosto de vir porque me ajuda muito”, relatou, dizendo que o encontro torna o seu dia “mais leve”. “Um dos resultados do trabalho do TO é a oportunidade que as pessoas têm de conviver”, resume Aline. Muitos deles levam exercícios para fazer em casa. Depois do encontro ao ar livre, Aline se dirige ao primeiro andar da unidade para fazer o acolhimento de duas usuárias que na semana seguinte irão se integrar ao grupo.  
Aline aponta que, nas visitas domiciliares, ela avalia o que o paciente precisa, o que pode melhorar no ambiente, observa suas atividades de vida diária, como está comendo, dormindo, como faz para tomar banho e se vestir, e também observa a vida do usuário fora de casa. “O que ele faz, se está indo à padaria, ao supermercado, isso é importante para nossa análise”. A partir desse olhar ampliado, a profissional conclui que o TO é peça fundamental para atuar na rede pública. “Estamos próximos do paciente e temos a chance de pensar a autonomia dentro do contexto de vida dele e contribuímos para ver o ser humano como um todo. E pensamos em atividades que sejam oportunas também para o território”.

Linhas de cuidado

As possibilidades de cuidado que a terapia ocupacional oferece, quando inserida nas políticas públicas de saúde, estão expressas na cartilha Terapeuta Ocupacional e o SUS, publicada pelo Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito). De acordo com a cartilha, os profissionais podem atuar em diversos níveis do sistema. 
Na Atenção Básica, eles estão presentes nas unidades básicas de saúde e na Estratégia de Saúde da Família, nos núcleos de apoio à saúde da família, no matriciamento e nos consultórios de rua; na Atenção Especializada, eles realizam atividades nos ambulatórios e enfermarias especializadas, nos serviços hospitalares de referência para atenção às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, além de integrarem as equipes da rede de saúde mental, atuando na atenção integral à saúde da pessoa idosa e nos centros de reabilitação. 
Na Atenção Hospitalar, a atuação dos terapeutas ocupacionais está relacionada ao acolhimento, preparo para alta e também aos cuidados paliativos. Mas também podem ser aproveitados nas estratégias de reabilitação psicossocial, nas iniciativas de geração, trabalho e renda, nos empreendimentos solidários e nas cooperativas sociais. 
Graduada em 1994 pela Faculdade de Reabilitação Tuiuti, em Curitiba, Patrícia Luciane Santos de Lima é supervisora técnica da Terapia Ocupacional do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). No hospital, ela atende dois grupos: um de pacientes com esquizofrenia, depressão ou com alguma disfunção mental, e outro de pessoas com fibromialgia. “Nosso trabalho é feito para dar independência e autonomia e melhorar a condição do paciente para que ele realize atividades na vida diária, como puxar uma cadeira, subir uma escada, andar de elevador, pegar o ônibus, conversar ou ir ao mercado”, diz Patrícia, que também é vice-presidente do Coffito. “Com um paciente idoso, eu vejo se ele consegue escovar os dentes, pentear o cabelo, ajudo a elaborar uma rotina, andar. Muitas vezes fazemos a adaptação ambiental de pacientes para sair da cama e ir ao banheiro”, exemplifica. Atividades manuais que buscam elevar a autoestima e a autoconfiança ou projetos de geração de renda também são desenvolvidas pela equipe.  
Além disso, ela conta que são feitas atividades externas. “Eu não abro a porta, atendo o paciente e ele vai embora. Trabalhamos com a reinserção das pessoas de uma forma muito ampla”, diz. Ela conta que há um café da manhã semanal, que antecede os atendimentos, e de forma regular são feitos piqueniques e visitas a feiras de artesanato. “Antes desses encontros, nós trabalhamos com pequenos fatos, como onde moram, que ônibus devem pegar, que transportes passam em sua região. Quando alguém do grupo não sabe a resposta, o restante ajuda. O objetivo é que, a partir das conversas, cada um vá desenvolvendo sua autonomia, que chegue aos locais marcados dentro de sua condição”, diz. 
Aninha tem transtorno bipolar e é uma das pacientes da doutora Patrícia. No caso dela, a terapia ocupacional trabalha aspectos da rotina de higiene, alimentação, memória,atenção e concentração. Patrícia ressalta que essa é uma abordagem muito humana e confirma que os atendimentos no Hospital de Clínicas apresentam resultados positivos no tratamento de pacientes com transtornos mentais. “Eu me envolvo tanto que me entristece quando dizem que o SUS não funciona. Esse é um SUS que funciona”, garante. Para ela, as instituições ganham com um terapeuta ocupacional em suas equipes. “O foco de nosso trabalho deixa de ser apenas o membro amputado ou a seção funcional que está com problema. O tratamento contempla o indivíduo como uma pessoa, com desejos, trabalhos, interesses, família e que precisa executar as atividades de vida diária”. 
Ela salienta a importância de os gestores públicos olharem com mais atenção o trabalho dessa rede de profissionais. “O terapeuta ocupacional completa todo o tratamento. Meu sonho é que todas as instituições públicas tenham um profissional da área para realizar esse trabalho”.  
De acordo com Patrícia, há 19 mil profissionais registrados no Brasil e há espaço para mais terapeutas. “O Coffito estima que entre 4 a 5 mil deles atuam na rede pública. Temos carência desses profissionais. Creio que mais 100 mil profissionais atuando ainda seria pouco”, avalia. Patrícia acredita que, por conta do baixo número de profissionais, a terapia ocupacional ainda não é reconhecida pela população. “Não está no imaginário popular quando é preciso procurar um TO. “A primeira ideia de quem convive com um caso de perda de memória é buscar um médico para obter um remédio. O ideal é que essa pessoa também tivesse um terapeuta ocupacional para ensinar como organizar a rotina diante de uma nova realidade”.

Vida diária

A profissão de terapeuta ocupacional foi regulamentada pelo decreto lei nº 938, de 13 de outubro de 1969. O Coffito reconhece seis especialidades: em acupuntura, contextos sociais, gerontologia, saúde da família e saúde mental. De acordo com o conselho, a intervenção do profissional compreende avaliar o paciente, buscando identificar alterações nas suas funções práxicas (capacidade de programar o movimento), considerando sua faixa etária e/ou desenvolvimento, sua formação pessoal, familiar e social. “A característica essencial da terapia ocupacional é o envolvimento ativo das pessoas no processo terapêutico, pois é a ciência que estuda a atividade humana e a utiliza como recurso terapêutico para prevenir e tratar dificuldades físicas e/ou psicossociais que interfiram no desenvolvimento e na independência do cliente em relação às atividades de vida diária, estudo, trabalho e lazer”.
Para a Federação Mundial de Terapeutas Ocupacionais (WFOT), os profissionais são peritos em relação às atividades de vida diária. “É isso e muito mais”, garante Omar Luís Rocha, terapeuta ocupacional formado há 19 anos pela Faculdade de Reabilitação da Associação de Solidariedade à Criança Excepcional (ASCE), no Rio de Janeiro. Ao longo de sua carreira, Omar trabalhou com oficinas de produção com pessoas com deficiência física e transtornos mentais, com população em situação de rua, no centro de reabilitação da Polícia Militar, foi docente e atuou com idosos no Centro de Alzheimer do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Chefe de Controle, Avaliação e Auditoria da Fundação Municipal de Saude de Niterói, Omar pontua que esse trabalho é fundamental. “É multiprofissional. Não tem como ser diferente, já que atuamos com prevenção e promoção da saúde”.
Omar destaca que o arcabouço legal, com portarias dos ministérios da Saúde, Justiça e de Assistência Social, garante a inserção do profissional em vários campos. Se isso fortalece a profissão, ele acredita que traz também um desafio para a área, já que há poucas escolas formadoras de terapeutas ocupacionais no Brasil. “O mercado de trabalho é muito expansivo e não há desempregados nas capitais. Mas, por outro lado, temos uma quantidade tímida de universidades. O Rio de Janeiro foi o primeiro a ter um curso de TO em universidade pública, em 2012”, observa.
Para ele, esse descompasso entre um mercado aberto e a falta de profissionais é um só: a terapia ocupacional utiliza materiais de baixo custo, termomoldáveis [quando aquecidos em água tornam-se maleáveis], o que, em sua visão não é atraente para o capital. “Não usamos equipamentos caros e muitos deles podem ser adaptados. Essa é uma área que não tem apelo na rede privada”, sustenta. Além disso, ele destaca que os materiais e equipamentos existentes já são dispensados pelo SUS – o que torna o campo menos interessante ainda para quem visa o lucro. “A terapia ocupacional não tem o apelo da indústria farmacêutica e de seus medicamentos, ou da fisioterapia, com os equipamentos. Nós estamos inseridos no contexto da saúde pública ocupacional. Por isso, defendo que toda a formação deva ser assumida por universidades públicas”. 

Movimento e orientação

Segundo Omar, quando o terapeuta ocupacional treina uma pessoa para abotoar um botão e vestir uma camisa, ele faz uma análise dos movimentos necessários para a tarefa e também observa os desdobramentos da atividade. “Até para isso tem que ter uma orientação perceptiva, cinestésica, espacial. Quando o TO começa a tratar movimentos, recuperá-los, é com esse fim específico”, diz. Além disso, ele lembra que esses profissionais atuam também na confecção de próteses e órteses. “Se a pessoa perdeu um braço, tiramos um molde para preparar uma pré-protese. Já aí começamos a trabalhar os automatismos para que ela não perca também os movimentos”.
Ao mesmo tempo, ele salienta que o terapeuta ocupacional "dessensibiliza" o corpo, dando uma nova imagem corporal. “Começamos a trabalhar com algodão, depois esponjas e até lixas para que aquele corpo possa receber uma prótese”, comenta. “O TO também faz órteses, ou adaptações, para que a pessoa possa pentear o cabelo, escovar os dentes, sem a utilização da garra funcional, da mão, que permite que ela faça o movimento." Para as pessoas cegas, ele conta que os terapeutas ocupacionais ensinam a orientação e mobilidade por meio de técnicas de memorização, pistas, cheiros e sensação tátil, para que elas possam, por exemplo, andar de bengala sozinhas. “Sou um entusiasta. Eu tive muita sorte na vida ao escolher uma profissão muito generosa. Tenho 32 anos de formado, trabalho num grande município, e tudo isso foi a TO que me deu acesso. Eu sou muito feliz com a minha escolha e trajetória”, resume.
 
Saiba mais
Cartilha Terapeuta Ocupacional e o SUS  — https://goo.gl/9GrTCA ">https://goo.gl/9GrTCA 
Autor: 
Liseane Morosini

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