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Revista Radis Comunicação e Saúde

 
Estudos reforçam que a principal vítima é a mulher, mas imprensa destaca agressões contra homens

O estudo Violência por parceiro íntimo: perfil dos atendimentos em serviços de urgência e emergência nas capitais dos estados brasileiros, das pesquisadoras Leila Posenato Garcia, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e Gabriela Drummond Marques da Silva, da Universidade de Brasília (UnB), descreveu o perfil dos atendimentos a vítimas de violência por parceiro íntimo em serviços de urgência e emergência vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS) e investigou diferenças entre os sexos.
A cobertura jornalística, no entanto, deu maior destaque às agressões perpetrados contra homens — muitas delas praticadas em legítima defesa. Em conhecida coluna do jornal O Globo (17/04), a pesquisa foi noticiada com o título “Nem sempre é a mulher”, ressaltando que “as mulheres são quase sempre vítimas de espancamentos (70,9%), e os homens, atingidos por objeto perfurocortante (48,7%), como tesouras. A nota apresentou o estudo informando que ele “descreveu o perfil das vítimas de violência doméstica”. Leila Posenato, uma das duas autoras do artigo, avaliou a referência ao estudo como reducionista: “O VIVA Inquérito se baseia em atendimentos em serviços de urgência e emergência no SUS, não é uma pesquisa domiciliar. Não é uma pesquisa baseada em entrevistas, boletins de ocorrência ou outras fontes de informações sobre a violência doméstica, que inclusive é bastante subnotificada. Outros estudos sobre o tema mostram que quando a mulher agride o parceiro, geralmente ela faz isso em autodefesa. Os homens aparecem sempre como os principais agressores”, esclareceu a pesquisadora à Radis.
A pesquisa foi publicada no volume 34 dos Cadernos de Saúde Pública, em abril de 2018, e baseou-se em dados obtidos em 86 serviços de urgência e emergência de 25 capitais, em 2014. Foram incluídos todos os 506 casos de violência por parceiro íntimo, 69,9% contra o sexo feminino?. “Eu mesma fiquei surpresa com a grande procura da imprensa pelos resultados dessa pesquisa. Não fizemos divulgação ativa e a procura foi maior do que a que aconteceu em publicações anteriores relacionadas ao tema”, comentou a autora.
Leila considera que houve uma “distorção” dos resultados, a que atribui três fatores. O primeiro é a falta de diálogo entre a mídia e os pesquisadores; o segundo é que há poucos profissionais de comunicação que tenham formação na área de comunicação e saúde, e o terceiro aspecto — que ultrapassa a esfera da comunicação — é o machismo que surge quando o tema da violência doméstica é abordado, apontou a epidemiologista. “Geralmente se invocam e especulam possíveis ‘motivos’, que seriam justificativas para a mulher ter sofrido agressões”, afirma a pesquisadora, autora de outros estudos na área.
É fato que uma das informações reveladas pela pesquisa é que, mesmo a literatura evidenciando a predominância do sexo masculino entre autores e vítimas de violências, as mulheres também são autoras de violência contra parceiros íntimos, o que ocorre mais frequentemente em situação de autodefesa. “É importante que as investigações sobre violência por parceiro íntimo incluam vítimas de ambos os sexos e diferentes gêneros”, reforçou Leila.
Apesar disso, a íntegra da própria pesquisa aponta que indivíduos do sexo masculino foram os responsáveis por agressões contra 97,6% das vítimas do sexo feminino — também por 11,8% praticadas contra o sexo masculino. Outros dados revelados pelo estudo demonstram que a residência foi o principal local de ocorrência das violências (69,6% no sexo feminino e 74,4% no masculino) e que o número de agressões entre parceiros homossexuais masculinos (11,8%) foi maior que entre parceiras homossexuais femininas (2,4%). “As diferenças encontradas entre os sexos possivelmente refletem padrões culturais e evidenciam a necessidade de investigar o gênero, além do sexo biológico”, esclareceu Leila.
No Brasil, segundo estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), 36,9% e 28,9% das mulheres residentes em áreas rurais e urbanas, respectivamente, reportaram ter sofrido violência física e/ou sexual por parceiro íntimo pelo menos uma vez na vida. As pesquisadoras lembram que, no país, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) constitui uma importante conquista, e um recurso fundamental para o enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher. Contudo, um estudo que comparou as taxas anuais de mortalidade de mulheres por agressões no Brasil, nos períodos de cinco anos antes e depois da vigência da Lei Maria da Penha indica que não houve redução significativa. As taxas de mortalidade foram, respectivamente, 5,28 (2001-2006) e 5,22 (2007-2011) por 100 mil mulheres.
 

 

Elisa Batalha