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Revista Radis reportagens

Reportagens

68

Data de publicação: 
01/05/2018
Uma mirada sobre os acontecimentos que provocaram transformações sociais no Brasil e no mundo há exatamente meio século

Mil novecentos e sessenta e oito ficou inacabado — dito de outro modo, como no título do livro do escritor e jornalista Zuenir Ventura, foi o ano que não terminou. Um quase slogan bem ao estilo dos muitos que havia na época. Mas 1968 também pode ser lido como o ano que durou pouco. Curto para acomodar tantos desejos e acontecimentos, foi interrompido de forma brusca. Para muitos, acabou. Enquanto em Paris as barricadas dos estudantes davam o tom de maio, nos Estados Unidos milhares iam às ruas pelo fim da Guerra do Vietnã ao mesmo tempo em que explodiam protestos de toda ordem por direitos civis, principalmente após o assassinato do líder pacifista negro Martin Luther King. Na Tchecoslováquia, manifestações pediam por um “socialismo com rosto humano” durante a Primavera de Praga. Do lado de baixo do Equador, os países da América Latina enfrentavam ditaduras sangrentas. No Brasil, os militares que estavam no poder desde 1964 endureciam ainda mais o regime com a instauração do Ato Institucional número cinco. Cinquenta anos depois, quando uma escalada conservadora avança mundialmente com reflexos em terras brasileiras, Radis revisita 68 e pergunta sobre o que restou daqueles dias.

“A barricada fecha a rua, mas abre o caminho”

Paris, 12 de maio de 1968. “A rua Gay-Lussac ainda traz as marcas da ‘Noite das Barricadas’. Carros destruídos pelo fogo cobrem o chão, com suas carcaças sem tinta, sujas e cinzentas. As pedras do calçamento, removidas do meio da rua, encontram-se em grandes montanhas nos dois lados. Um vago cheiro de gás lacrimogêneo ainda permanece no ar”. Escrito no calor da hora, esse testemunho é atribuído a Maurice Brinton, pseudônimo de um famoso neurocirurgião de Londres publicado um mês depois que os estudantes das universidades de Nanterre e Sorbonne tomaram as ruas do Quartier Latin, em Paris, entrando em confronto direto com a polícia.


Eles protestavam contra a burocracia das instituições. Sob a influência do carismático Daniel Cohn-Bendit, os universitários “tomaram a palavra”, como costumava se dizer, em uma França conservadora governada pelo general Charles de Gaulle. Por meio de slogans, cartazes e pichações (anárquicas ou poéticas, como as que entremeiam esta reportagem), questionavam a educação, a sexualidade, a política. Na célebre “Noite das Barricadas”, que concentrou 60 conflitos em 10 de junho, houve bala de borracha, granada, coquetel molotov e 20 mil estudantes pelas ruas.
Ao mesmo tempo, nas fábricas, operários exigiam melhores salários e condições de trabalho. Pouco mais de um mês depois de intensos conflitos e de uma greve geral que reuniu estudantes e trabalhadores — paralisando transporte e indústria com 10 milhões de pessoas ocupando 300 fábricas –, o movimento arrefeceu. De Gaulle antecipou as eleições para junho e, apesar de enfraquecido, saiu vitorioso. Nada mudou. Mas tudo estava diferente. Seja como crítica de costumes ou revolução comportamental, seja para sacudir as velhas formas de fazer política, os acontecimentos de Maio de 68 na França entraram para a história.  


Para a médica e pesquisadora da Fiocruz, Anamaria Tambellini, que naquele ano no Brasil acompanhava atentamente os episódios de Paris, o Maio francês foi uma negativa a uma certa maneira de existir na sociedade que já não correspondia aos anseios de liberdade da época. “Tanto que o movimento ficou conhecido como ‘Barricadas do Desejo’”, lembra. “Eles diziam que queriam trabalhar com os ‘fluxos polimorfos de energia criativa’, o que é lindo de ver, foi inspirador e levou muita gente para as ruas”. Mas a pesquisadora tem dúvidas se o que aconteceu na França pode ser considerado um movimento de resistência civil. “É fato que eles assumiram a recusa a uma hegemonia ideológica e mostraram que era possível sonhar com a inversão das relações de poder. Mas em termos práticos, quando se vive concretamente uma conjuntura de total aniquilamento de direitos como uma ditadura, o enfrentamento é menos lúdico, mais violento”, avalia ela, recordando o contexto brasileiro da época.

“Não tomem o elevador,tomem o poder”

Rio de Janeiro, 28 de março de 1968. Morre o secundarista Edson Luís de Lima Souto com um tiro no peito, quando policiais avançaram contra os estudantes que faziam uma manifestação em frente ao Restaurante Central dos Estudantes, conhecido como Calabouço. “O restaurante servia comida muito ruim e, mesmo sendo barato, os estudantes protestavam por refeição de melhor qualidade”, lembra Anamaria, que recentemente, em 2013, esteve à frente da Comissão da Verdade da Reforma Sanitária — órgão que investigou a violação de direitos e a repressão aos trabalhadores da saúde, ocorridas na última ditadura militar no país. “Edson Luís era ainda um secundarista que sequer fazia parte do movimento estudantil, um garoto pobre que ficava sempre por ali prestando pequenos serviços para se sustentar”.

No Brasil que vivia uma ditadura desde 1964 sob o efeito de atos institucionais que suspendiam direitos, recorda a pesquisadora, o episódio no Calabouço provocou verdadeira comoção e levou as pessoas de volta às ruas. “Ninguém esperava o que aconteceu durante o velório e o enterro de Edson Luís. Os estudantes saíram com o garoto nas costas pelas ruas. Havia cinco mil pessoas, todas com vela, cantando o Hino Nacional”, relata. À época, a pesquisadora era professora da Universidade de Campinas (Unicamp) e também estava engajada nas manifestações que se intensificaram pelo país contra o regime.

Ainda no Rio de Janeiro, em junho, a “Passeata dos Cem Mil” reuniu estudantes, artistas, intelectuais e diversos setores da sociedade no que foi considerado o auge da resistência popular até então. “Depois disso, a ditadura proibiu a manifestação pública. E aí começou uma debandada dos estudantes para a luta armada”, diz ainda a pesquisadora, acrescentando que, a partir dali, seguiram-se confrontos violentos. “Em junho, cerca de 400 estudantes que estavam reunidos no Teatro de Arena da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRJ foram violentamente reprimidos pela polícia ao deixar o local sendo levados presos para Botafogo onde sofreram as maiores humilhações”, conta. Isso provocou um novo protesto no Centro do Rio no dia seguinte, a “Sexta-feira sangrenta” que deixou mortos 27 civis e um policial.

Em São Paulo, em outubro de 68, estudantes da Universidade Mackenzie identificados com o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) entraram em confronto com os estudantes da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, deixando um estudante morto. Como represália, a polícia invadiu os dois prédios e prendeu estudantes. Houve barricadas. Os estudantes da USP usaram pregos para furar os pneus dos carros e bolas de gude para derrubar a cavalaria. Essa foi a “Batalha da Maria Antônia”, numa referência à rua em que ficavam as universidades e que se transformou em praça de guerra. No mesmo mês, o histórico congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), numa chácara em Ibiúna, acabou com a invasão do sítio por soldados da PM e do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) atirando com balas de festim. “Muitos universitários ainda dormiam nas barracas, outros tomavam café, todos foram pegos de surpresa. Não houve resistência”, registrou em sua página na Internet Vladimir Palmeira, líder estudantil na época.

“Eu ficava aflita. Lia o jornal e achava que iam pegar meus meninos, porque muitos alunos nossos da Unicamp estavam no Congresso em Ibiúna”, lembra Anamaria. Para ela, há uma diferença bem visível entre as barricadas da França e o que ocorria no Brasil nos meses que antecederam a decretação do AI-5, em 13 de dezembro — o mais hediondo dos atos institucionais que endurecia ainda mais a repressão, rasgava a Constituição, dava plenos poderes aos militares, proibia a liberdade de imprensa e suspendia direitos políticos. “Se na França, pedia-se por mais felicidade, mais bem estar, mais direitos, mais amor”, diz a pesquisadora, “no Brasil pedíamos para viver, se fosse possível, com liberdade e sem arbítrio, já que enfrentávamos uma ditadura, que cerceava todos os direitos, prendia e torturava, matava e destruía as pessoas”.

“Sejam realistas. Exijam o impossível”

Na opinião do historiador Daniel Aarão Reis, o impacto do Maio francês no Brasil é, em certo sentido, superdimensionado. “Os movimentos sociais aqui tiveram evolução autônoma e pouco se deixaram influenciar pelas lutas dos estudantes franceses, embora elas tivessem sido vistas, pela TV e pela imprensa, e muito comentadas”, diz. Segundo ele, a crítica política e ética mais forte naquele “ano quente” não veio da França, mas dos movimentos que despontavam nos Estados Unidos. “Jovens, mulheres, negros, gays, nações indígenas, experimentações com drogas, leves e pesadas, tiveram nos Estados Unidos seu centro mais importante”.

Daniel tinha 22 anos em 1968. O ano que marcou sua vida pessoal — ele casou pela primeira vez e assumiu o primeiro trabalho profissional como taquígrafo do Tribunal Superior do Trabalho, no Rio de Janeiro — também deixou outras marcas. Na época, Daniel já havia saído da direção do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO) e da presidência da UNE. Mas na direção de uma organização revolucionária — a Dissidência Universitária da Guanabara, que idealizou o sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick para libertar presos políticos —, ele acompanhou de perto a evolução dos acontecimentos e integrou as principais manifestações. “Depois da edição do AI-5, participei diretamente das primeiras ações armadas efetuadas pela nossa organização”, conta à Radis. Dois anos depois, Daniel foi preso e passou 50 dias na tortura no Destacamento de Operações de Informação — Centro de Operações de Defesa Interna, o assustador DOI-CODI, antes de ser colocado na lista dos 40 presos trocados pelo embaixador alemão Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben.

 “Líamos muito, inclusive porque, na luta política que se travava entre as esquerdas, era necessário aprimorar a capacitação política e o nível teórico”, conta. “Na Guanabara, estavam grandes quadros e dirigentes do Partidão [Partido Comunista Brasileiro] e de outras organizações políticas, e para discutir, formulando alternativas às suas propostas, era necessário adquirir consistência política e teórica”. O historiador mergulhou nos livros de Karl Marx, Engels, Lenin, Che Guevara e nas análises do líder da Revolução Cultural Chinesa Mao Tsé Tung contidas em “Sobre a prática e sobre a contradição” e nos “Escritos Militares”. Entre os brasileiros, inspiravam-no nomes como Celso Furtado, Octavio Ianni e Rui Mauro Marini. “Além disso, as obras de Herbert Marcuse, Aldoux Huxley e Wilhelm Reich nos aproximavam das novas tendências que apareciam na cena internacional, principalmente nos EUA”, lembra.
Hoje, como professor de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) e intelectual prestigiado, o pesquisador é sempre uma voz ativa nas análises sobre o período. Ele considera que, embora essencial no combate à ditadura, a luta dos estudantes brasileiros no período não sobreviveu à repressão e à migração maciça das lideranças estudantis para as organizações e ações armadas. “De modo que, quando o movimento estudantil se recuperou na segunda metade dos anos 1970, eram apenas fragmentárias as referências que restavam das lutas de 1965 a 1968”, diz. Daniel destaca, além dos estudantes, o papel dos movimentos operários e de assalariados urbanos, lembrando das greves em Osasco (SP) e Contagem (BH), que ensaiaram lutas importantes.
“Não se cultive, no entanto, a ilusão que o país inteiro estava ‘pegando fogo’. As forças conservadoras mantinham-se decisivas. Embora até hoje pouco estudadas, elas dariam cobertura à intensificação da repressão e, no limite, ao ‘escancaramento’ da ditadura que veio com o AI-5”, analisa. Ao olhar para trás, ele julga que o principal legado dos anos 60 foi um novo paradigma de mudança social baseado na persuasão das consciências e na conquista de direitos, que se anunciava principalmente a partir dos movimentos sociais dos Estados Unidos e se diferenciava do modelo que prevalecia no período.

“É proibido proibir”

Talvez seja verdade que o ano de 1968 possa ser melhor compreendido quando narrado por fragmentos, a partir das rupturas que aconteciam em todo o mundo. Anamaria Tambellini lembra, por exemplo, que os valores de Maio de 68 foram mais visíveis no Brasil na cultura do que em outras áreas, citando o cinema de Glauber Rocha e a Tropicália de Caetano Veloso como fortes referências. Não por acaso, entrou para a história o episódio em que o compositor baiano é vaiado ao exibir a música “É proibido proibir”, no Festival Internacional da Canção, em setembro daquele ano. A canção remetia exatamente a um dos gritos grafitados nos muros pela juventude na França e foi muitíssimo mal recebida pela plateia que, ainda presa à rigidez de alguns conceitos, desaprovou a canção-protesto. Diante da vaia, Caetano fez uma fala que se tornou célebre: “Essa é a juventude que diz que quer tomar o poder? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos”.
Anamaria ressalta a excelência da palavra e da utopia nos valores do Maio francês. “Tinha algo de poético e sonhador que a juventude de Paris evocava. Antes, a esquerda idolatrava as figuras de Lenin e Stalin, ícones do comunismo na Rússia. Isso muda para os revolucionários Che Guevara e Rosa de Luxemburgo, que eram figuras mais míticas”, diz ela que em 68, depois de ter feito residência médica em Ribeirão Preto, dava aulas no Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Companheira de Sérgio Arouca, na época, eles começaram a desenvolver o que ainda não podia ser chamado de movimento sanitarista, mas já dava os primeiros sinais de um pensamento crítico sobre um sistema de saúde.

“A gente tinha um núcleo que começava a trabalhar politicamente as questões de saúde, publicávamos artigos sobre educação médica junto com o pessoal de filosofia e ciências humanas, envolvíamos alunos nas pesquisas e discutíamos saídas para os serviços de saúde”, lembra. Entre as novidades que conseguiram implantar na época, ela cita os núcleos com pacientes em bairros da cidade paulista, algo que ela chamava de “reuniões para discutir as estruturas epidemiológicas” que não era outra coisa senão encontros para pensar os determinantes e as questões sociais. “Arouca tinha um laboratório de educação médica que ia além dos estudos teóricos”, conta. “Não pensávamos ainda que íamos mudar o sistema, mas éramos um grupo de pessoas da área de saúde pública e medicina preventiva que nos posicionávamos contrários à ditadura em uma fase muito pesada e tínhamos feito a opção de trabalhar por dentro das instituições, nas universidades”.

A pesquisadora, que também gostava de arte — foi dançarina de balé, fez canto e, no teatro, chegou a participar de uma montagem de “Eles não usam black tie” — decide fincar os dois pés na área da saúde e na luta política como militante do PCB. “Tive um certo namoro com a luta armada”, revela à reportagem de Radis, durante uma tarde entre lembranças do período em seu apartamento no Rio de Janeiro. No fim das contas falou mais alto a sua vocação para a saúde. “Em Campinas, montamos uma rede de médicos solidários para prestar assistência aos militantes que sobreviviam à tortura. Em minha casa, ficou muita gente ferida e machucada pelo regime. Vi muitos serem presos, torturados, exilados”. No início dos anos 70, junto com outros professores ativistas foi obrigada a deixar a Universidade de Campinas. Ela precisou sair de casa no meio da noite, com o filho, às pressas, avisada por companheiros do partido de que estava prestes a ser presa.

 “A imaginação no poder”

Roma, maio de 1968. Naquele ano, o psiquiatra italiano Ernesto Venturini, referência na luta antimanicomial, tinha 26 anos e era recém-graduado pela Università Cattolica de Roma. Como muitos jovens de sua idade, ele também foi às ruas influenciado tanto pelas barricadas da França como também por um espírito contestador que se alastrava por outros países do globo. “Pode-se dizer que a Reforma da Saúde Mental que aconteceu na Itália dez anos depois com o fechamento de todos os hospitais psiquiátricos é exatamente a realização daquela utopia que estava presente em 68, não apenas na França”, explica o médico, que esteve no Brasil participando de eventos comemorativos aos 40 anos da Lei 180, aprovada na Itália em 13 de maio de 1978, que determinou a extinção dos manicômios e a substituição do modelo psiquiátrico por outras modalidades de cuidado e assistência.

À Radis, Venturini diz que as pessoas estavam claramente encantadas pela possibilidade de transformar a realidade, com toda a dimensão ética e política que isso carregava. “Havia uma revolução nas ruas e, apesar de a gente já vir iniciando um movimento por uma psiquiatria democrática, ainda separávamos essa militância da ciência propriamente dita”. O psiquiatra explica que ele próprio ainda acreditava nos critérios da psiquiatria e em alguns medicamentos. “Ao mesmo tempo em que tínhamos que lidar com as nossas próprias contradições, íamos para as ruas, ocupávamos a faculdade de medicina, tínhamos a possibilidade de falar publicamente e de denunciar alguns abusos psiquiátricos que já identificávamos. Isso era revolucionário”.

Foi em 1968, durante um encontro casual em um jantar na casa de amigos em comum, que ele conheceu Franco Basaglia, passando a se tornar colaborador do italiano que fundou o Movimento da Psiquiatria Democrática e esteve à frente das experiências de Gorizia e Trieste, modelos que transformaram de uma vez por todas as estratégias para lidar com o sofrimento em saúde mental [ver mais sobre sobre o assunto na sessão Pós-Tudo desta edição na página 35]. Apesar de recém-casado e com uma filha para criar, Venturinni tomou a decisão de que nunca se arrepende: deixou o trabalho nas clínicas privadas em que ainda lidava com a psicologia tradicional e práticas como o uso de eletrochoque e de psicofármacos e partiu para a experiência definitiva no Hospital de Gorizia.

Venturinni diz que ler “A instituição Negada”, de Basaglia, e participar de experiências como aquela era como ver se materializando alguns slogans que tomavam as ruas de Paris. “As pessoas foram para Gorizia para defender e exercer essa militância prática. Era como um lugar de fronteira, onde os direitos e a utopia estavam presentes”, acredita. “O que a experiência Basagliana mostrava era que uma disciplina psiquiátrica envolve todo um pensamento a respeito do sujeito, da democracia, da ciência como um pensamento crítico. Era como ver a ‘imaginação no poder’”.

“Corram camaradas. O velho mundo está atrás de vocês”

Maio de 2018. Radis perguntou aos três entrevistados desta reportagem se é possível traçar algum paralelo entre o que acontece no Brasil hoje, com o avanço de uma agenda conservadora, e o contexto de 68. Para Daniel Aarão, naquele ano, a ditadura brasileira pareceu balançar e no fim do ano, surgiu ainda mais forte reafirmando-se com o AI-5. “Hoje em dia, é a democracia que parece balançar. Apesar de suas lacunas e falhas, ela precisa ser fortalecida e não destruída”, diz. “Há várias ameaças no horizonte imediato. A principal, certamente, é a descrença das gentes no sistema político que apodrece a céu aberto. Urge reformá-lo”.

O pesquisador diz que é preciso construir uma ampla frente política que afirme o compromisso com a democracia e cita ainda a ascensão do crime organizado como uma outra ameaça aos valores democráticos. “Essa barbárie tensiona os grandes centros urbanos, evidenciando o estado falimentar de nossas polícias e o crescimento das milícias e do crime organizado em suas diferentes expressões”. Daniel considera “inadiável” lidar com estas ameaças, formulando-se propostas concretas para superar a situação “quase caótica que existe hoje”.

Ana Maria Tambelinni assusta-se com as semelhanças que a cada dia ela percebe entre o momento atual e o passado político brasileiro e com a perda de direitos sociais no horizonte. Na melhor tradição dos movimentos de 1968, ela acredita que conseguir lutar para defender uma democracia que ainda vinha se firmando é o que existe de mais revolucionário no Brasil hoje. Para o italiano Ernesto Venturinni, o mundo vive uma escalada fascista e o Brasil, em particular, um momento de muitas incertezas. Mas ele evoca o espírito de 68 e o exemplo dos fechamentos dos hospitais psiquiátricos na Itália para ressaltar que o “impossível é possível”. “O testemunho dessa nossa experiência permanece mais importante ainda em momentos de grandes discordâncias como o que se vive hoje”. É como no aforismo de Antonio Gramsci, que Venturinni usa para fechar a entrevista: “o pessimismo da razão e o otimismo da vontade”, algo que está a meio caminho entre o pensamento crítico e o desejo de alcançar um ideal que faz com que as pessoas façam algo para transformar a realidade. 

Autor: 
Ana Cláudia Peres

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