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"Brasil envelhece sem preparo"

Data de publicação: 
01/07/2018
Entrevista Alexandre Kalache

Envelhecendo é gerúndio, porque ninguém envelhece de repente. E é nas condições de vida em que a pessoa vive, trabalha, se diverte, se locomove, que os anos de vida vão sendo somados, diz Alexandre Kalache, uma referência internacional quando o assunto é envelhecimento e longevidade. Durante os 34 anos em que ficou afastado do Brasil, ele foi diretor do Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS. Desde 2016, voltou a morar no Brasil. E foi em seu apartamento em Copacabana, o bairro mais envelhecido do país, que o médico carioca recebeu a reportagem de Radis. Presidente do Centro Internacional de Longevidade do Brasil, ele defendeu o fortalecimento do SUS e alertou que o país tem até cinco anos para criar uma política de sustentabilidade do envelhecimento. “Depois disso a janela de oportunidade pode se fechar”.

O Brasil envelhece rapidamente. Que impactos isso pode provocar?
Os países desenvolvidos primeiro enriqueceram para depois envelhecerem; os países em desenvolvimento vão envelhecer na pobreza. O desafio é muito maior em um tempo mais rápido. Na França, foram necessários 145 anos para dobrar a proporção de idosos de 10% para 20%, de 1845 a 1990. Era um dos países mais ricos e por seis gerações foi envelhecendo com recursos para desenvolver políticas em resposta a esse fenômeno. O Brasil vai fazer essa transição em uma geração, em apenas 19 anos. Será um envelhecimento extremamente rápido. Em 2050, seremos tão envelhecidos quanto o Japão de hoje, que é o país mais velho do mundo. Só que eles estão preocupados com o envelhecimento: têm centros de excelência, fazem pesquisas, desenvolvem políticas, preparam quadros e treinam profissionais. Nós estamos envelhecendo na cegueira, sem preparo. A população salta de 14% com mais de 60 anos para 31% daqui a 30 anos. A população idosa do Brasil hoje chega a 30 milhões. Em 2050 vamos ter 64 milhões. Como é que a gente vai se preparar? Porque o curso de vida de um idoso é o adulto jovem de hoje.

Quem é ele?
Uma pessoa que tem um ensino público péssimo, que não consegue emprego digno para pagar uma seguridade social que o sustente daqui a 30 anos. E tudo em um contexto de trabalho formal precário, de ensino público que está piorando e ainda há o congelamento dos gastos sociais por decreto presidencial, que piora tudo. A saúde é criada no contexto da vida cotidiana, onde a pessoa trabalha, que educação recebe, que transporte utiliza, onde se diverte, ama, convive. Quando isso falha, não tem mais política de saúde.

Como define ‘envelhecer bem’?
O envelhecimento tem de ser entendido na perspectiva do curso de vida. Ninguém acorda de repente velho. E as pessoas aos 65, 85 ou 20 são o produto dos anos vividos. Para envelhecer bem é preciso juntar quatro capitais: vital, da saúde, do conhecimento e social. Só que a maior parte dos brasileiros chega muito mal nessa velhice, desamparada e com uma pensão ruim. Não tem segurança alimentar e habitacional. Tudo isso faz parte de envelhecer na pobreza, na miséria, em um país muito desigual. Esse é o contexto do curso de vida de quem está hoje envelhecendo no Brasil. Não sei como alguém pode culpar a pessoa que chegou mal à velhice e dizer que ela não se cuidou, que não é resiliente e que a culpa é dela pelo seu estado de saúde.

A faculdade de Medicina prepara para lidar com o idoso?
Não, pois o currículo está adequado para um país jovem e ensina mais sobre saúde materno-infantil. O atlas de anatomia mostra um corpo jovem do sexo masculino no apogeu fisico de seus 25 anos, com todos os nervos, veias, músculos, tudo perfeito. Lindo. O médico verá outro corpo. Não vai encontrar o baço de uma mulher obesa de 88 anos, nem acertar a dose de medicamentos, que é diferente. Tudo muda. O infarto depois de 75, 80 não dói e a infecção urinária no idoso não apresenta os sintomas esperados.

A quantidade de geriatras é suficiente para atender os idosos brasileiros?
O bom senso recomenda investir na formação de quadros profissionais que saibam mais sobre envelhecimento, mas não estão fazendo isso. No Brasil, hoje, há 1,3 mil geriatras, especialistas com título para uma população de quase 30 milhões de idosos. Deveria ser um por cada 2 mil idosos [15 mil geriatras]. Poucas escolas de Medicina têm Geriatria. Mas eu entendo que é preciso formar todos os profissionais de saúde para ter mais conhecimento de como lidar com um organismo ou uma mente de uma pessoa que está envelhecendo.

Como o senhor se envolveu com o tema?
Eu me formei em 1970, na antiga Faculdade Nacional de Medicina, e em 1975 fui fazer mestrado em Medicina Social na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. De repente, me vi em um país cheio de velhos. Não tinha pensado que o envelhecimento seria um viés para a minha carreira, mas li no rodapé de um artigo que 83% dos médicos geriatras que trabalhavam na Inglaterra eram do sul da Ásia. Entrevistei 850 membros da Sociedade Britânica de Geriatria, sobre se tinham tido “contato íntimo com idosos na família na adolescência e na infância”. Quem tinha adquirido essa familiaridade com os idosos ia para a geriatria e ficava feliz. Os outros se dividiam em dois grupos: metade, que tinham satisfação de trabalho, e metade, que estavam frustrados, queriam estar em outra especialidade, mas não tinham conseguido porque a competição era grande.

Qual a importância do SUS para o envelhecimento?
O SUS foi uma grande conquista e hoje está ameaçado. A única chance de envelhecer bem é com um sistema universal de saúde forte que funcione para absorver os problemas e evitar as complicações que vão exigir hospitalização. Só isso pode resolver as questões na base. É um ciclo: a hipertensão pode ser prevenida, mas não se previne, e a pessoa pode ter hipertensão aos 35, 40, 45 anos. Ela não encontra resposta do sistema de saúde porque este está sendo dilapidado. Falta o medicamento certo, o que acaba complicando o quadro. Aí vem obesidade, diabete e, aos 58 anos, a pessoa tem um derrame em consequência da hipertensão, que poderia ter sido prevenida e que acaba custando mais caro. Se essa pessoa não morrer, poderá ficar 30 anos hemiplégica e necessitar de alguém que a cuide. É um impacto enorme nas famílias, especialmente nas mais pobres. É por isso que eu vejo que, em vez de desenvolvermos as melhores políticas, estamos andando para trás. A gestão pública nessa área é cega por decisão própria. Essa é a cegueira dos responsáveis pelas políticas de saúde, que não enxergam a grande conquista que o SUS é: estão transformando em uma bomba-relógio que vai explodir, e rápido.

O que acha da Estratégia Brasil Amigo do Idoso, lançada em abril pelo governo?
Eu não entendo como o mesmo governo que achata o nível de investimento social, em educação e saúde, e dificulta a situação do idoso tem a ousadia de falar de um Brasil Amigo do Idoso. Eu não acredito nesse projeto.

Qual seriam as ações mais importantes e urgentes?
É preciso centrar na saúde comunitária, caprichar na atenção primária, reforçar o SUS, ensinar quem vai viver e trabalhar tantos anos quanto eu. Trabalho há 48 anos, estou formado há 50 anos. Quem se formar em 2020 e trabalhar tanto assim vai chegar em 2070. Serão 78 milhões de idosos no Brasil. Estamos quase perdendo a chance, pois a janela de oportunidades pode se fechar em breve. Hoje o país já nem é tão jovem. A ONU considera um país envelhecido quando 14% da população têm mais de 60 anos e nós estamos quase lá. Daqui a cinco anos vai ter mais idosos do que jovens. Os problemas tendem a se agravar se nada for feito. Se não há jovens suficientes para entrar no mercado de trabalho, bem formados, competitivos e produtivos, teremos uma base menor para sustentar mais idosos. Uma saída é investir em educação continuada, para que esses idosos continuem produtivos por mais tempo. Mas, agora, 40% dos idosos no Brasil são analfabetos. Nós temos pouco tempo para firmar uma política de sustentabilidade para o envelhecimento.

A sociedade se recusa a olhar para seus idosos?
Sim. Por preconceito, por ser hedonista, por cultivar a beleza fisica. Não pode ter ruga, ser careca, ter cabelo branco, tem que estar sarado, faz parte da nossa cultura. O jovem é que é “bonito”. Não há respeito, não há uma cultura de reverência ao idoso. Só que cultura não se muda por decreto. Temos que informar, educar e batalhar para transformar. Hoje eu noto que a mídia fala mais em envelhecimento do que antes. Pode não ser suficiente nem se traduzir em política, mas fala. Entenda que a pessoa não envelhece diferente do que foi. Ninguém amanhece com 65 anos, mas envelhece ao longo da vida. Envelhecendo é gerúndio. Por isso é importante falar sobre o curso de vida. Tem gente reclamando do envelhecimento como se fosse culpa do idoso. Qual a alternativa? Ou você envelhece ou morre cedo.

Autor: 
Liseane Morosini

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