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Revista Radis reportagens

Reportagens

Desconstruindo o boato

Data de publicação: 
01/07/2018

Boatos.org, precursora das agências de fact-checking no país, vem desde 2013 se especializando em caçar rumores, lorotas, embustes que se espalham virtualmente. Entre abril e junho, Radis acompanhou o trabalho da equipe do site, formada por quatro jornalistas, que verificou pelo menos 20 histórias relacionadas com a temática “Saúde”. Elas mereceram o selo de “#boato” — classificação que a página utiliza sempre que identifica artimanhas por trás do relato.

No início de abril, depois de confirmada a morte do pediatra goiano Luiz Sergio de Aquino Moura por complicações causadas pelo vírus H1N1, uma série de conteúdos relacionados ao assunto começou a circular pela internet — a maior parte deles, alarmista e sem nenhuma conexão com os fatos. Um áudio do Whatsapp garantia a existência de um novo vírus, intitulado “H2N3”. A voz de uma mulher informava que o vírus matava em três dias e que não respondia à vacina. Dizia ainda que, em Goiânia, já havia casos confirmados e 72 óbitos suspeitos e que a Organização Mundial da Saúde (OMS) encobria o assunto para não alarmar a população. Com algumas variações, o áudio seguia o roteiro padrão das mensagens que viralizam na web. A começar pelo alerta de que se trata de “um comunicado verídico” e terminando com um: “Isso é muito sério. Passe para o máximo possível de pessoas que você puder”.

O editor do site, o jornalista Edgard Matsuki, conta que a equipe começou a receber dezenas de pedidos de averiguação da mensagem e que, a partir de monitoramentos em redes sociais (a exemplo da mensuração de compartilhamentos), ficou claro que a mensagem precisava de uma análise. “Sabíamos que o tema estava muito em voga na época. Muitas pessoas estavam com medo do H3N2, que havia causado mortes nos EUA, e um áudio de um administrador da Santa Casa de uma cidade do interior de São Paulo pedindo recursos e falando de um ‘quadro catastrófico’ acabou viralizando”, explica. “Como muitos boatos que se modificam, o que era um alerta sobre o H3N2 ficou um alerta sobre o novo vírus H2N3”. Atentem para a breve variação na sigla que identifica o suposto vírus.

Para verificar a legitimidade das mensagens, a equipe costuma fazer pesquisas em documentos ou mesmo solicitar dados oficiais e realizar entrevistas. Mas com o tempo foi adquirindo desenvoltura para perceber os artifícios que se repetem. Nesse caso, nem foi preciso avançar muito. “Quem trabalha com fact-checking precisa saber ‘um pouco de tudo’ e a gente aprende com os desmentidos”, explica o jornalista responsável por Boatos.org. Para começar, ele já sabia que o termo H2N3 soava estranho. “Comecei a pesquisar por estudos a respeito do genótipo do vírus. Descobri um que falava que não havia casos desde 1968”, continua. “Mais uma pesquisa de dados e descobrimos, na época, que o número de casos de gripe era menor em 2018 do que no mesmo período de 2017”. Para além disso, o modelo de texto era o de sempre. “Vago, alarmista, com erros de português, sem citar fontes confiáveis e com pedido de compartilhamento. Seguindo esses dados que apontam inexistência do vírus, a fonte da informação e a falta de notícias sobre o assunto, chegamos à conclusão de que a história era falsa”.

A história foi desmentida pela plataforma no dia 6 de abril, cinco dias antes de o Ministério da Saúde se manifestar para esclarecer que o áudio que estava circulando nas redes sociais e aplicativos de smartphones propagava informações inverídicas sobre o vírus da gripe. Em nota oficial, o ministério afirmou que não existe vírus da gripe H2N3 no Brasil e que o país possui uma rede de unidades sentinelas para vigilância da influenza – ou seja, da gripe H1N1 — em todos os estados. O Boatos.org ainda contestou outros áudios derivados desse primeiro. Em 5 de maio, tachou com o selo de #boato uma nova mensagem de áudio compartilhada via Whatsapp que dizia que o vírus H3N2 havia matado um médico no Recife.

A plataforma surgiu em junho de 2013 e, em cinco anos, desqualificou mais de 3 mil boatos. O jornalista idealizador do site trabalhava em editorias de tecnologia de portais de notícias Uol e na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), quando diagnosticou que havia muitos boatos circulando em rede “e pouca gente para desmentir”. “Achava absurdo a forma com que as pessoas eram enganadas via internet”, diz, acrescentando que até sabia que os boatos eram um problema, mas foi só com o passar do tempo que começou a perceber a real dimensão do “estrago” que uma notícia falsa pode causar. O selo de #boato não existia no início, sendo adotado para valer apenas em janeiro de 2015.

Boatos.org também se especializou em contestar histórias de caráter mais fabuloso, espécie de lendas urbanas ou relatos puramente sensacionalistas.  A primeira “notícia desmentida”, lembra Edgard, foi em relação a boatos de morte do ator Jack Chan. Ele diz ser difícil apontar qual dos relatos verificados pela equipe teve maior repercussão. “Há muitas variáveis, tanto de circulação quanto em dificuldade de apuração”, garante. Mas ele afirma que os boatos envolvendo o “caso Marielle” — quando a vereadora assassinada no Rio de Janeiro teve seu nome associado ao do traficante Marcinho VP (ver matéria principal) — e o anúncio de uma nova greve de caminhoneiros, logo após decretado o fim da primeira no final de maio, foram os que mais circularam.

Na busca por brechas, furos, qualquer detalhe e equívoco das mensagens e mesmo os estratagemas que expõem a má fé dos criadores de notícias falsas e boatos — nem sempre de quem os repercute —, Boatos.org cataloga as inverdades por segmento como saúde, política, entretenimento. No período observado por Radis (de início de abril até fim de junho), foram localizados cerca de 100 boatos que afetavam diretamente a vida dos brasileiros. Como a informação de que o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) estaria contratando 2630 profissionais com carteira assinada (4/4) ou aquele outro que garantia que a Caixa Econômica Federal estaria liberando PIS/PASEP salarial para quem trabalhou de 2005 a 2018 (20/6). Esse último dizia que, para saber se o nome do crédulo leitor estava na lista, bastava entrar em determinado site e compartilhar o link. #boato.

Coube a Edgard investigar a mensagem de que Ricardo Oliveira Galvão Pinheiro, que morreu durante o incêndio e desabamento do prédio no Largo do Paissandu, em São Paulo, no início de maio, era membro do PCC, matador de policiais (por conta de uma tatuagem de palhaço), além de ser a pessoa que cobrava aluguel de quem estava no prédio e possuir extensa ficha criminal. Em meio à repercussão do assunto, a vítima da tragédia e da desigualdade social no país virou também vítima de boatos. Depois de ter um perfil no Instagram divulgado em uma matéria, Ricardo teve sua vida devastada em textos que passaram a circular na internet.

“Assim como em muitos casos, a história rodou mais por preconceito do que por causa de dados”, analisa Edgard, que vasculhou todos os pontos de três textos compartilhados à exaustão. “Quando desmentimos a história, a tese que apontava que Ricardo era bandido já circulava há três dias. Nesse período, as únicas ‘provas’ contra ele eram fotos de perfis no Instagram. Não havia um depoimento de alguém que o acusasse ou mesmo prova de que era ele que cobrava aluguéis”. Segundo o jornalista, as teses tinham algumas variações. Nenhuma se sustentava. “O caso mostra o quão importante é buscar fontes confiáveis antes de compartilhar. Por causa de estereótipos, estavam compartilhando uma acusação falsa contra alguém que havia morrido tragicamente. Achei importante fazer esse desmentido”.

NÃO COMPARTILHE BOATO

Como reconhecer fake news e fugir de boatos compartilhados por Whatsapp, sites, blogs e perfis nas redes sociais? A agência de checagem de notícias Aos Fatos alerta: “Redes sociais são apenas um começo, não a melhor fonte”. Na dúvida, não compartilhe.

- Verifique a URL, ou seja, o endereço do site. Atenção para sites que tenham nomes muito parecidos com os de veículos tradicionais. Isso faz parte da estratégia dos sites de fake news para ludibriar leitores.

- Procure pela autoria. Tente identificar o responsável pelo site ou o autor da publicação. Também não esqueça de observar as fontes. Esse tipo de veículo muitas vezes não deixa claro quem são os entrevistados, omite sobrenomes e costuma lançar mão de dados de pesquisas ou instituições pouco confiáveis ou inexistentes.

- Fique atento à linguagem. Sites de fake news escorregam na linguagem e cometem erros frequentes de português.

- Na dúvida, vale a pena checar a informação em outros veículos. Mas não basta “dar um Google”. Sites de notícias falsas costumam replicar conteúdos similares criando a sensação de que a informação está em muitos lugares. O ideal é saber se o relato em questão também foi publicado em outros endereços e fontes que você já conhece e confia.

- Atenção: notícias fraudulentas normalmente têm textos carregados de adjetivos ou com conotação pejorativa que apelam para emoções e estados de espírito, uma vez que internautas costumam compartilhar conteúdos que reforçam suas crenças pessoais. Na maioria das vezes, há apenas uma perspectiva em vez dos muitos lados dos fatos.

- Leia a matéria completa e não apenas a chamada.

- Se um site carrega certa fama de publicar conteúdo falso, vale redobrar os cuidados. Verifique se são disponibilizados o Expediente do veículo, endereço para contato, área para comentários etc. Esse tipo de veículo não tem por hábito reconhecer ou corrigir seus erros.

- O tom do veículo também é importante. Muitos sites são conhecidos por praticar um jornalismo de paródia ou sátira, a exemplo do Sensacionalista ou do Piauí Herald. Cuidado para não compartilhar uma piada como informação verdadeira.

- Procure a data original da publicação. Há notícias que aconteceram de fato mas em outro momento. Tente não reproduzir informação descontextualizada.

- No caso dos boatos, qualquer rastro é importante. Procure por nomes, lugares e detalhes que ofereçam mais credibilidade a informação. Fuja de mensagens que tragam como fonte “o marido da prima da cunhada do sobrinho” ou coisa parecida. E desconfie de mensagens que acabam com “Compartilhe essa informação”. Esses são alguns dos indicativos de que a mensagem pode não passar de boato.

Autor: 
Ana Cláudia Peres

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