Portal ENSP - Escola Nacional de Sa??P??ca Sergio Arouca Portal FIOCRUZ - Funda? Oswaldo Cruz

Revista Radis reportagens

Reportagens

"Fake news são notícias fraudulentas"

Data de publicação: 
01/07/2018
Entrevista Ivan Paganotti

“Vaza, Falsiane!” é o nome do projeto que lança mão da própria linguagem das redes como antídoto contra as fake news. Ivan Paganotti, um dos envolvidos, acredita que a abordagem pedagógica ainda é o caminho mais eficaz para compreender o problema que assusta mas pode apontar saídas para a comunicação no mundo atual. Jornalista e professor das Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM-FAAM), Ivan é também membro do MidiAto, um grupo de pesquisas sobre práticas midiáticas da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Por telefone, ele conversou com Radis sobre as muitas aparências assumidas pelas fake news. É bem possível que o diabo seja tão feio quanto pintam, mas também tem seus pontos fracos.

Como definir fake news?

Existem definições diferentes para fake news e há inclusive traduções variadas para o termo em português. Algumas definições consideram que qualquer relato inverídico que se propague e seja reconhecido como novidade pode ser enquadrado nessa categoria. É tão ampla que envolve desde boatos de Whatsapp, posts no Facebook, textos jornalísticos com incorreção publicados na mídia tradicional e sites fabricados propositadamente para abrigar noticiário fraudulento. De modo geral, não uso essas definições mais amplas porque, ao colocar na mesma categoria fenômenos muito diferentes, elas acabaram trazendo mais dificuldades para lidar com o problema. Se você quer fazer um prognóstico correto, necessita de um diagnóstico preciso.

E que definição você prefere? O que diferencia notícias tratadas como fake news do mero boato?

Alguns autores têm definições mais específicas de fake news. Um aspecto importante desse fenômeno é pensar que elas são feitas e se propagam nas redes sociais. Segundo: simulam o estilo jornalístico, são feitas para aparentar a estrutura ou a linguagem jornalística, querem se parecer com uma notícia — e não só com uma novidade de um modo geral. Terceiro: elas precisam ser comprovadamente falsas, ou seja, é possível verificá-las e atestar que a informação é incorreta. Outros autores vão ser mais específicos ainda e dizer que é preciso ter uma intencionalidade, isto é, que essas notícias tenham sido fabricadas para enganar as pessoas. Com essa definição, alguns autores aqui no Brasil têm procurado traduzir o termo “fake news” como “notícias fraudulentas” ou “noticiário fraudulento” em vez de “notícias falsas”. O Carlos Eduardo Lins da Silva [jornalista e pesquisador da Universidade de São Paulo], por exemplo, tem preferido essa terminologia porque considera mais evidente essa intencionalidade de enganar. Dessa forma, seria possível distinguir o fenômeno das fake news do exercício do jornalismo tradicional quando esse erra — porque infelizmente o jornalismo também erra e, mesmo os profissionais seguindo métodos muito apurados, podem publicar informação incorreta.

Quais os interesses em jogo?

Os sites fabricados para parecer jornalísticos divulgam informações deliberadamente falsas para ganhar dinheiro com os cliques ou para conseguir manipular parte da opinião pública, tentar influenciar em um processo eleitoral, destruir reputações ou favorecer um indivíduo ou uma empresa ou uma instituição em particular. Além dessa definição mais específica, esses autores também destacam que ocultar a autoria, não identificar claramente quem é o responsável pelo site, pode também ser uma forma de tentar falsificar a sua responsabilidade, daí o termo fake news.

Talvez não seja por acaso que as fake news chegam ao público com essa feição jornalística. Erros de informação, descuido na apuração ou mesmo má fé também fazem parte da história do jornalismo tradicional. É possível fazer essa relação?

Talvez a forma pouco profissional com que alguns veículos jornalísticos se portam seja responsável por parte do fenômeno fake news. Esses sites de fake news enganam o público porque, por mais mal feito que sejam, por mais tosca a conexão dessa informação com a realidade, por mais obscura que seja a forma de eles revelarem suas fontes, isso também às vezes acontece nos veículos tradicionais de jornalismo. Agora, ao analisar o fenômeno, a gente tem uma outra dificuldade — reforçada por grupos ideológicos muito diferentes, no Brasil e no mundo inteiro —, que é a crítica feita por parte da militância, de direita e de esquerda, de que certos veículos de comunicação tradicionais manipulam a informação, mentem, exibem informação incorreta. Essa é uma crítica válida e muitas vezes os veículos realmente cometem erros e precisam inclusive ser responsabilizados por isso. Mas essa retórica da crítica pode ter consequências bastante danosas, criando uma impressão em parte do público de que todos os relatos são igualmente válidos, de que toda informação publicada é igualmente digna de confiança ou de desconfiança e de que tudo é a mesma coisa. Às vezes, você cria esse mecanismo de desmoralização e deslegitimação dos veículos tradicionais com essa crítica até um pouco simplista e automática de que tudo é ruim, tudo manipula, tudo mente e de que os meios de comunicação não são confiáveis, e, infelizmente, isso pode ter contribuído para essa sensação de que um site desconhecido tem a mesma validade de um veículo tradicional. Agora, se podemos dizer que uma parte da responsabilidade pela propagação desses sites é da forma com que alguns veículos jornalísticos tradicionais usam seus relatos e publicam informações não muito confiáveis, por outro lado, isso também pode ser uma oportunidade para esse jornalismo tradicional.

De que maneira?

É um fenômeno quase contraditório e complexo, que envolve fatores políticos e econômicos bem diversificados. Mas o jornalismo pode ver essa histeria contra as fake news como uma oportunidade para mostrar a importância da informação melhor apurada e para evidenciar o relato responsável e a transparência de seus métodos.

Por que as fake news encontram um ambiente tão fértil no mundo atual?

Temos alguns fenômenos sociais mas a gente não pode ignorar também as características tecnológicas. Primeiro, do ponto de vista social, o fato de existirem plataformas que democratizam a publicação permite que mais pessoas tenham acessos a canais de produção ou reprodução de conteúdo. Isso cria um desafio porque muitas pessoas às vezes não reconhecem muito bem os dilemas morais, éticos ou até os limites legais para publicação e difusão de informações. Do ponto de vista tecnológico, o fato de essas plataformas sociais (Facebook, Twitter ou mesmo Whatsapp) misturarem registros distintos faz com que a gente tenha conteúdos muito diferentes circulando quase que simultaneamente em um só canal — o seu feed de notícias ou o diálogo no seu grupo de whatsapp. Por exemplo, você está acessando essas redes sociais e vê a foto de um sobrinho seu, o convite de aniversário de uma amiga, um meme engraçadinho, um vídeo de um gato entrando em uma caixa e, ao mesmo tempo, um conteúdo extremamente partidarizado, um artigo opinativo e um relato jornalístico, tudo misturado. Quem apenas vê a plataforma sem clicar, sem se aprofundar, sem olhar de onde veio, acaba dando o mesmo status de verdade para todas essas informações. Então, como essa foto de meu sobrinho é válida, como esse aniversário realmente vai acontecer ou como eu concordo com aquela opinião política, se eu recebo uma informação, eu acabo assumindo que ela é verdadeira por estar nesse mesmo canal. Isso demanda um treinamento do público, uma educação midiática, para que o público passe a identificar os registros diferentes, os gêneros textuais mais informativos, mais opinativos, de entretenimento, que são todos válidos, mas a gente precisa saber reconhecer os tipos de texto e qual a sua conexão com os fatos. Participo de um projeto, o “Vaza, Falsiane!” [em parceria com Leonardo Sakamoto (PUC-SP) e Rodrigo Ratier (Faculdade Cásper Líbero)], que é um curso ultrapop para lutar contra a desinformação e contra as fake news, cuja ideia é justamente usar a própria linguagem que esses mecanismos usam para propagar fake news no sentido de desfazê-las, mostrando o que é informação, o que é opinião, quais os estudos científicos sobre isso, para entender como essas informações podem trazer danos inclusive para quem as propaga. Essa abordagem da educação, para nós, parece mais válida.

Como se desmente algo em que as pessoas querem acreditar?

Às vezes é importante diferenciar a propagação orgânica, quando os leitores passam adiante motivações que são diferentes. Tem gente que às vezes é enganada e fica frustrada com essa enganação, que não queria contribuir para propagar informação incorreta. Esse grupo talvez seja nosso objetivo primeiro: são aquelas pessoas que ainda estão preocupadas com a informação factual, que foram enganadas mas não querem enganar ou passar isso para frente. E existem aquelas pessoas que, em algumas circunstâncias, aceitam tomar liberdades com a verdade para defender seus pontos de vista. Esses são os casos mais complicados porque são aquelas pessoas que pensam assim: “Se essa informação não é muito correta mas serve aos meus objetivos políticos, então maquiavelicamente os fins justificam os meios, eu vou dar uma forçada de barra, uma exagerada aqui porque quero defender o meu ponto de vista e vou fazer com que as pessoas da minha rede social, do meu feed de notícia, meus leitores, meus seguidores no Twitter, votem em meu candidato, defendam minha proposta política, então, eu vou instrumentalizar isso com desrespeito à verdade”. Esses são os casos mais complicados e aí a gente precisa descobrir como mostrar para essas pessoas que, mesmo no jogo político, isso é problemático. Você perde leitores, quando apela nos seus argumentos com informações desrespeitosas ou quando tenta enganar as pessoas com informações incorretas. Mas essa é uma motivação que a gente precisa levar em consideração no momento de uma intervenção mais pedagógica.

Autor: 
Ana Cláudia Peres

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
Image CAPTCHA
Enter the characters shown in the image.