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Revista Radis sumula

 
A Câmara de Deputados da Argentina aprovou em 14 de junho um projeto de lei que prevê a legalização do aborto. O jornal El País (14/6) descreveu a votação e a vigília que se formou na frente do Congresso e em várias cidades argentinas como “históricas”. Em uma discussão acalorada e muito apertada, que se prolongou durante mais de 20 horas, os legisladores aprovaram a interrupção voluntária da gravidez, por 129 votos a favor e 125 contra.
Diante da Câmara, em um dos lados da praça, milhares de adolescentes irromperam em aplausos, gritos de emoção e lágrimas. Do outro, manifestantes se retiraram cabisbaixos. Poucos imaginavam, três meses atrás, quando o presidente Mauricio Macri abriu espaço para o debate, que a legalização do aborto seria aprovada em pelo menos uma das casas do Legislativo. Agora o projeto de lei segue para o Senado, mais conservador. “Foi uma sessão para corações fortes”, definiu o jornal.
“Será lei”, gritavam as mulheres favoráveis que tomaram as ruas na chamada “maré verde”, como ficou conhecido o movimento pela legalização naquele país, por causa dos lenços usados por elas, em sua maioria adolescentes e jovens na faixa dos 20 anos. Segundo a Rádio França Internacional em Buenos Aires, o número de defensoras da legalização chegou a ser quatro vezes superior ao de oponentes.
O projeto de lei permite o aborto até a 14ª semana de gestação. Cifras oficiais citadas pela agência France-Presse (14/6) indicam que 17% das 245 mortes registradas de mulheres grávidas em 2016 ocorreram por abortos. Segundo estimativas, 500 mil abortos clandestinos são feitos todos os anos na Argentina, dos quais cerca de 60 mil resultam em complicações e hospitalizações. E muitas mulheres morrem.
Todos os blocos políticos votaram divididos, com exceção da esquerda, com uma posição unânime a favor da assistência à interrupção voluntária da gravidez. Atualmente, o aborto é ilegal, exceto em casos de estupro, risco para a saúde da mãe e malformação fetal. As mulheres que interrompem a gravidez podem enfrentar penas de prisão de um a quatro anos. 
Essa foi a primeira vez que o tema foi debatido no Câmara. Ainda não se sabe quando o projeto será debatido no Senado. Na América Latina, o aborto sem restrições é legal em Uruguai e Cuba. Também é permitido na Cidade do México. Em quase todos os demais países só pode ser realizado em caso de risco de vida para a mulher, inviabilidade do feto ou se a gravidez for fruto de um estupro. Em El Salvador e na Nicarágua, é proibido em todos os casos.
Enquanto três crianças brasileiras se abraçavam desesperadas, ao chegarem em um abrigo para menores no estado do Arizona, nos Estados Unidos, um funcionário que falava português foi chamado para dar uma ordem a elas: “Diga a elas que não podem se abraçar!”. A história foi contada à BBC News (21/6) pelo próprio funcionário Antar Davidson, também filho de brasileiros nascido na Califórnia, que pediu demissão do local após o ocorrido. Esse relato se soma a fotos, áudios, vídeos, denúncias e capas de jornais e revistas — como da emblemática Time (foto abaixo) — que vêm à tona como repercussão à política de imigração de “tolerância zero” adotada pelo presidente norte-americano, Donald Trump. 
Desde abril, a nova regra é que todo imigrante que tente entrar nos Estados Unidos de maneira irregular será considerado um delinquente, mesmo que não tenha antecedentes criminais. O governo Trump passou a processar criminalmente os imigrantes ilegais e as crianças são separadas dos pais, enquanto estes estão presos, e levadas para abrigos. A medida foi adotada como forma de intimidar a imigração com a ameaça de separação das famílias. Como informou El País (19/6), a partir de estatísticas obtidas pela agência Associated Press, entre 19 de abril e 6 de junho, 2.033 crianças foram afastadas dos pais ao tentarem entrar ilegalmente nos pontos fronteiriços oficiais — o que não incluem aqueles que chegaram pelas vias não oficiais, como pela travessia de bote no rio Grande (na fronteira com o México).
Entre as mais de 2 mil crianças, há pelo menos 49 brasileiros, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores publicados pela BBC Brasil (23/6). O Itamaraty divulgou nota (20/6) em que afirma que essa política é “uma prática cruel e em clara dissonância com instrumentos internacionais de proteção aos direitos da criança”. Trump justificou a medida de separação dizendo que havia “herdado” uma lei do governo Obama e mandou que “os democratas” (opositores ao seu governo) mudassem a lei deles; mas a informação não é correta, como explicou a BBC: embora a legislação usada por Trump para deportar as pessoas já existisse antes, a separação de famílias é uma decisão administrativa do seu governo. 
Ainda em junho, o governo Trump voltou atrás e suspendeu temporariamente a política de tolerância zero, por não haver espaço para abrigar as famílias detidas, como noticiou o G1 (26/6). No entanto, de acordo com a Anistia Internacional, “milhares de famílias já foram separadas e o governo dos EUA não anunciou planos para reuni-las”. Segundo a organização, as crianças continuam em tendas e armazéns na fronteira com o México e seus pais e familiares enfrentam o risco de serem deportados sem saber se verão seus filhos novamente.

“Bem-vindo à América”. A revista Time juntou a imagem de uma menina hondurenha detida com a mãe na divisa de McAllen, cidade do Estado do Texas, enquanto tentavam entrar nos Estados Unidos, com a do presidente Trump. O chargista Gilmar adaptou a capa à realidade brasileira, com o menino Marcos Vinícius, morto pela polícia (leia na pág. 9): “Bem-vindo ao Rio”.