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Arqueólogo das doenças

Data de publicação: 
01/11/2018

Um dos criadores da paleoparasitologia, Luiz Fernando Ferreira faleceu em outubro. Quando era garoto, nos anos 1940, Luiz Fernando era trazido por um parente ao campus da Fiocruz. Ali foi despertado nele o gosto pela ciência. “Quando entrei na faculdade, já sabia que não queria trabalhar em consultório; queria mesmo ficar mexendo no laboratório”, contou em entrevista à Radis (130), em 2013. Os passeios à Fiocruz ajudaram a moldar o cientista Luiz Fernando da Rocha Ferreira da Silva, internacionalmente reconhecido pela criação da paleoparasitologia, ciência que estuda a origem das doenças por meio da presença de agentes patogênicos em fósseis de animais extintos e múmias. Ele foi o principal responsável pela fundação e aperfeiçoamento de grupos de pesquisa nacionais e internacionais nesta área. Também foi presidente da Fiocruz (1990) e diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), entre 1978 e 1979, e ajudou a idealizar a criação da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) — instituição que também tem a missão de aproximar jovens da formação para as ciências.
Luiz Fernando escolheu um objeto de estudos pouco habitual para buscar respostas sobre a origem de muitas doenças: os chamados coprólitos, fezes mumificadas, secas ou mineralizadas. A ideia surgiu, ainda nos anos 1970, quando ele e seu então orientando de mestrado, Adauto José Araújo, aceitaram o desafio de comprovar cientificamente a origem da esquistossomose — se ela havia surgido nas Américas ou vindo da África, como se pensava teoricamente. Decidiram procurar evidências científicas nas fezes de múmias pré-colombianas e assim nasceu a paleoparasitologia, termo apresentado oficialmente em 1979 no Congresso Brasileiro de Parasitologia. Essa e outras histórias foram contadas em entrevista à Radis, quando ele defendeu a importância de pesquisas em ciência básica como as que desenvolveu durante toda a vida.
Em 2012, o pesquisador ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Ciências Naturais com o livro “Fundamentos da Paleoparasitologia”, em parceria com seu antigo orientando Adauto, pesquisador e ex-diretor da Ensp/Fiocruz falecido em 2015, e Karl Jan Reinhard, da Universidade de Nebraska (EUA). Em 2004, foi diplomado pesquisador-emérito da Fiocruz e, em 2005, tomou posse da Academia Nacional de Medicina como membro honorário. Na Fiocruz, também esteve à frente das vice-presidências de Recursos Humanos e de Ensino na gestão de Sérgio Arouca, entre 1985 e 90.
Carioca nascido em 23 de setembro de 1936, Luiz Fernando Ferreira formou-se médico pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, em 1962. Concluiu o doutorado na mesma instituição, em 1966. Na Fiocruz, fundou o Departamento de Ciências Biológicas (DCB) da Ensp. Uma de suas pesquisas, em parceria com a arqueóloga Niède Guidon, ajudou a provar que a doença de Chagas era anterior à “casa de sapê” e já afetava populações pré-colombianas há 26 mil anos. Mesmo depois de aposentado e chamado com carinho de “pesquisador dinossauro”, ele continuou estudando a presença de parasitas em fezes de dinossauros de mais de 200 milhões de anos. Luiz Fernando morreu no dia 22 de outubro de 2018, aos 82 anos.

Autor: 
Equipe Radis

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