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Revista Radis reportagens

Reportagens

Na rota do tabaco

Data de publicação: 
01/11/2018
Livro-reportagem investiga táticas da indústria de cigarro que penalizam agricultores e lobby para manter lucratividade das empresas
(MST)

 

Dois jornalistas pegam a estrada, João Peres e Moriti Neto. Em quatro viagens ao Sul do país e extensa investigação nos últimos quatro anos, os repórteres de São Paulo procuraram entender como funciona a indústria do cigarro por dentro, sua relação com os agricultores que plantam a matéria-prima e o lobby que sustenta sua lucratividade. A jornada resultou no livro “Roucos e Sufocados: a indústria do cigarro está viva e matando”, lançado pela Editora Elefante em agosto. Foram três incursões ao Rio Grande do Sul e uma ao Paraná, incluindo apurações de fôlego que duraram entre 10 e 15 dias in loco — feito raro no jornalismo contemporâneo. “A situação do produtor de fumo é conhecida no meio ativista, mas era desconhecida no meio jornalístico”, explicou Moriti durante o lançamento em agosto no Rio de Janeiro. “Temos um olhar sistêmico para o jornalismo e queríamos expor o funcionamento das engrenagens.”
Para acompanharmos a viagem dos jornalistas e suas descobertas, primeiro temos que ter um panorama da cadeia produtiva que vai do agricultor que planta fumo até os maços de cigarro nos pontos de venda. O Brasil concentra um terço de todo o comércio global de tabaco e é o maior exportador mundial de folha de tabaco desde os anos 1990 — 1% de tudo o que exporta. Em 2016, o fumo foi o sexto item na pauta de exportação do país, com valores gerados na casa dos 2 bilhões de dólares.
O cenário que João e Moriti encontraram no Vale do Rio Pardo, região do Rio Grande do Sul que é o coração da fumicultura nacional, era aparentemente tranquilo e próspero. O processo de plantio de fumo é um trabalho meticuloso, artesanal, o que veio ao encontro do estilo de vida tradicional dos produtores rurais daquele local, predominantemente descendentes de alemães que chegaram ao Brasil em meados e final do século 19. Pequenas propriedades, tradição de cultivo, mão de obra familiar e disposição do agricultor para investimentos permanentes foram fatores que permitiram a expansão do plantio de tabaco no sul do país. Exatamente o que encontraram em Santa Cruz do Sul, localizada a 155 km da capital gaúcha, considerada a “capital mundial do fumo”.

Efeito adverso: suicídio

As maiores transnacionais de cigarro têm sede na cidade de 127 mil habitantes. Cerca de 150 mil famílias estão envolvidas no cultivo. Uma parte da investigação se dedicou a explorar qual a relação da cultura fumageira com a triste estatística que Santa Cruz do Sul carrega: é uma das campeãs de mortes por suicídio no país. A cidade vizinha Venâncio Aires não fica muito atrás e ocupa o 5º lugar no ranking das maiores taxas de suicídio entre jovens e em 15º no da população em geral.
O pesquisador Guilherme Eidt, especialista em Direito Sanitário pela Fiocruz, citado no livro, chama a atenção para a conexão entre os períodos de uso mais intenso de agrotóxicos nas lavouras de fumo (outubro, novembro e dezembro) e os com maior número de suicídios. “Abril, que apresenta alto índice de casos, é o mês de preparação dos canteiros pelos plantadores”, afirma Eidt. A produção não pode ser mecanizada, por ser um processo artesanal de coleta e seleção das folhas. Os casos de suicídio estão relacionados também a dívidas contraídas por agricultores no chamado “sistema de produção integrado”. “Não é só pelo discurso e lobby que as empresas de cigarro se impõem, mas também por ´amarrar´ o agricultor pelo bolso”, resumiu um produtor entrevistado. 
Pelo sistema de produção integrado, criado pela Souza Cruz, a indústria define quanto, como e quando os agricultores devem plantar o fumo. Dita também o preço de compra da folha. Teoricamente, existe uma tabela com critérios técnicos de definição da qualidade da folha, mas o elemento fundamental na realidade é a demanda global. “Se for fazer um cálculo de rendimento financeiro e mão de obra, não paga a mão de obra. Mas, por não ter alternativa, acaba sendo inviável mudar”, resume um jovem ouvido para o livro. O agricultor precisa adquirir da própria empresa ou de suas associadas um “pacote tecnológico” que inclui estufas e outros equipamentos que garantiriam a qualidade da produção. O agricultor entra com a sua terra e a mão de obra, que exige cuidar das folhas na estufa inclusive madrugadas adentro. “Não tem escolha. Tem o contrato e é obrigado a entregar para eles. Não tem independência. Na verdade, o fumo tem mais contras do que prós”, afirma um agricultor que não quis revelar o nome.

Doença da folha verde do tabaco

Os males para a saúde dos agricultores não param por aí. No Vale do Rio Pardo, são comuns os relatos de sintomas como tontura, fraqueza, vômito, náusea, cefaleia e cansaço extremo durante o manuseio das folhas, na colheita e separação, típicos da doença da folha verde do tabaco — em que o camponês absorve grandes quantidades de nicotina no contato com a planta, o que pode causar várias reações físicas e psicológicas. No livro, algumas mulheres contam que se sentem mal com muita frequência, mas culpam a si mesmas “por serem mais fracas”.
Um estudo de 2010 publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, relatou a ocorrência de um surto da doença da folha verde no Brasil, caracterizando-a como uma intoxicação aguda de nicotina decorrente da absorção da substância a partir do contato com a planta. O estudo reivindica que o tema entre definitivamente na agenda de saúde pública do país, o que incluiria elaborar uma alternativa econômica sustentável para as famílias que cultivam o fumo.
Em território nacional, as medidas antitabagistas implementadas a partir da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco trouxeram uma mudança de paradigma. O acordo multilateral da ONU do qual o Brasil é signatário desde 2005 contribuiu para reduzir o número de fumantes ao longo dos anos. Dados do Ministério da Saúde mostram que fumantes eram 15,7% da população em 2006 e passaram para 10,1% em 2017, uma queda de 36% em 11 anos. Os especialistas concordam que o Brasil foi bem sucedido em promover uma redução da aceitação social do tabagismo e a desnormalização do uso do cigarro.
A Convenção-Quadro preconiza também que as políticas públicas favoreçam a diversificação no campo, ou seja, que sejam criadas alternativas para manter o sustento dos agricultores e que seja viável plantar outros produtos: alimentos, por exemplo. E propõe alternativas por um motivo muito simples: a indústria de cigarro é um setor econômico que, segundo os dados da própria OMS, mata “metade da própria freguesia”, como escreveram os autores de “Roucos e Sufocados”.

Pelos campos do lobby

Muitos entrevistados preferiram não se identificar para os jornalistas por conta da vigilância e do lobby. Existe a figura do assessor técnico, que fica ao lado do agricultor em toda a fase da implementação dos equipamentos. Em nome da “consultoria”, ele é a voz da empresa dentro da propriedade agrícola. Os consultores técnicos, os sindicalistas e praticamente todos os representantes locais da sociedade reproduziram o discurso de que “não há alternativa” para o sustento do produtor rural. No entanto, a prosperidade aparente não é tão sólida. A renda média do produtor é de 9 mil dólares por ano, mas, deste valor, a renda líquida, ou seja, o que realmente sustenta e paga as contas do agricultor, cai para apenas 1,6 mil dólares ao ano em média, por causa dos investimentos que precisam continuamente fazer para manter a produção. “O discurso culturalmente aceito culpa quem está pobre, porque ‘não foi organizado’”, contaram os repórteres.
Segundo apontaram, esse discurso da falta de opções é reforçado pelo lobby das empresas, que incluem funcionários em cargos no Legislativo para atuar na defesa de interesses do setor. Um dos mecanismos é a chamada “porta giratória” — quando executivos oriundos da indústria assumem funções nas agências regulatórias e depois voltam para a própria indústria, inclusive com informações privilegiadas, o que acaba por gerar conflito de interesses, uma vez que as agências regulatórias deveriam ser neutras à essa ou àquela empresa e prezar pelo interesse público. “A indústria do tabaco é mãe do lobby. É a influência e inspiração para que outras indústrias ajam no cooptação de políticos, de mandatos diversos. Outros atores desempenham papéis para que a indústria não precise gastar a própria voz. As ações são construídas com uma base estratégica”, explicou João durante evento de lançamento. O livro contou com o apoio do Secretariado da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, da Organização Mundial da Saúde, e foi organizado pelo Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), com auxílio também da Aliança de Controle do Tabagismo, organização destinada à promoção da saúde. “A indústria se utiliza dos plantadores de fumo como massa de manobra para fazer valer seus interesses, especialmente disseminando a informação errônea de que estes perderão seu ganha-pão com a implementação de medidas de diversificação do plantio”, resumiu.

Trolls e haters

Um mecanismo que surpreendeu os jornalistas ao longo da investigação foram os trolls — perfis nas redes sociais criados para atacar e confundir. “Basta publicar qualquer notícia sobre os males do tabagismo que as vozes dissonantes surgem, mais para dispersar a atenção sobre os fatos apresentados do que para oferecer contrainformação, uma vez que jamais trazem dados concretos, baseados em evidências e que possam ser levados a sério”, relataram os autores. As vozes trazem a discordância simplesmente pelo prazer de discordar e tumultuar o debate. Ao fazê-lo, acabam por atacar as instituições que trabalham e pesquisam sobre o controle do tabagismo. Troll é um termo surgido do verbo trolllar, da novilíngua da internet, com o sentido de zombar, caçoar. São, como os haters, um fenômeno da contemporaneidade, que usam a rede para disseminar ódio a alguma pessoa, causa ou instituição.
“Queríamos saber o motivo de esses trolls terem o trabalho de seguir nossas publicações e parceiros. Depois de uma apuração minuciosa, chegamos à conclusão que há muito mais do que trolls ou haters nessa causa. Descobrimos que as vozes da indústria do tabaco são mais diversas, amplas e perigosas do que imaginávamos. Elas se espalham pelos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário e, muitas vezes, formam organizações que atuam de forma sub-reptícia, com tentáculos, forjam números e estatísticas, ameaçam produtores de tabaco e aqueles que são menos poderosos”.
A “bancada do fumo” do Rio Grande do Sul inclui 10% do Legislativo estadual e defende os interesses da indústria. O principal objetivo é evitar mais impostos sobre o cigarro, alegando que os tributos estimulariam o contrabando. “O preço do maço no Brasil ainda é baixo em comparação com outros países”, argumentaram os autores, em consonância com dados do  Observatório sobre as Estratégias da Indústria do Tabaco, organizado pelo Cetab, que mantém uma plataforma online de acesso livre que reúne documentos sobre as táticas da indústria.
Segundo os autores, é necessária uma articulação contrária, que atue junto aos órgãos de imprensa e aos atores políticos para esclarecer e prevenir sobre a existência de representantes indiretos das corporações. “Os órgãos públicos devem reforçar medidas de prevenção de conflito de interesses. A ideia central da indústria é unificar a cadeia produtiva em torno de um único interesse: a manutenção desse sistema agroexportador, sem espaço para críticas à postura das corporações e melhorias na vida de agricultores e familiares”.   

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