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Revista Radis reportagens

“Não nos interessa ocupar o lugar do poder público”

Coordenador do Núcleo de Saúde do Projeto Saúde e Alegria, organização-não governamental que atua na região do Médio Amazonas desde 1987, o geógrafo e sanitarista Rui Anastácio convive diariamente com as dificuldades das populações ribeirinhas. Nesta entrevista, ele conta que a água potável é o grande problema dessas populações — embora estejam localizadas à beira de uma das maiores bacias hidrográficas do mundo.

Há muitos anos na área, atuando da forma mais “transparente possível”, como faz questão de destacar, Rui tem consciência de que a ONG em que trabalha, muitas vezes, é o único suporte de saúde para as comunidades mais distantes. Mas ressalva que trabalha pelo SUS: “Não nos interessa, de forma alguma, ocupar o lugar do poder público”.

As ONGs na Amazônia não estão ocupando um espaço que deveria ser do poder público?

Não nos interessa, de forma alguma, ocupar o lugar do poder público. Mas falo pelo nosso trabalho. Temos a credibilidade de estar na região há muitos anos, fazendo atividades da maneira mais transparente possível. Sei que existem oportunistas, com segundas e até terceiras intenções. Há ONGs e ONGs. Mas, no PSA, procuramos sempre fazer uma parceria com o governo. No caso da vacinação, que a Radis pôde acompanhar, pegamos o material da Secretaria de Saúde do município responsável e levamos até os ribeirinhos. O Saúde e Alegria não faz vacinação. Apenas coloca o vacinador, que também é da secretaria municipal, na frente das crianças. Trabalhamos pelo SUS.

Há cerca de 150 ONGs na região. Existe concorrência de atuação nas comunidades?

Acontece que qualquer organização, não-governamental ou não-privada, entra como ONG. No entanto, grande parte delas está sob a área de atuação das igrejas. A estratégia de algumas é, na medida em que conseguem um determinado número de fiéis, oferecem determinado prêmio ou benefício à comunidade, que pode ser um filtro. Se o número de fiéis é maior, muda-se a categoria do prêmio.

Um filtro como prêmio para a comunidade... É inimaginável que água seja um problema nessa região.

A água do rio é realmente limpa, mas não é boa para beber. O rio traz compostos orgânicos, fezes de animais, bichos mortos, frutos apodrecidos etc. Na época das chuvas (entre dezembro e junho), é muito comum a incidência de diarréias em todas as comunidades ribeirinhas. A chuva limpa a selva e toda a sujeira deságua no rio, que serve, entre outras coisas, para lavar roupa e dar banho nas crianças.

Nem metade das famílias que hoje estão na área de atuação do Projeto Saúde e Alegria (comunidades à beira dos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns) tem acesso a água de qualidade e sanitários adequados. Por que isso?

Na área da Flona, todas as casas já têm filtros. As 43 comunidades dessa região também têm acesso à água limpa, ou por poço artesanal ou por microssistemas, além de banheiros com pedras sanitárias. Mas é realmente um problema sério. Ao todo, trabalhamos em 143 comunidades. Conseguimos, nessa primeira versão do nosso projeto, 19 microssistemas e 166 poços, o que significa que não vamos atingir todas as casas. Algumas dessas comunidades também já têm microssistemas, ou por intermédio de outras ONGs ou porque a prefeitura viabilizou, mas ainda é um número muito pequeno.

Vocês entregam e instalam. Quem paga o filtro?

São recursos provenientes do BNDES. Já o recurso de contraparti-da, que é de pessoal, da turma que vai à comunidade para trabalhar, ensinar a população a utilizar o filtro, vem de outros financiadores como o PróManejo e o Ibama. Mas quem compra os filtros é o BNDES.

Encontramos um surto de coqueluche. Vimos a falta de segurança no transporte das vacinas, o que pode comprometer todo o esforço do projeto. O que fazer neste caso?

O problema de levar a vacina em isopores com gelo é que não se tem o mesmo controle e a mesma estabilidade da temperatura, como numa geladeira. No entanto, o isopor não oferece risco de perda da vacina ou de alteração de temperatura que deixe o medicamento sob suspeita.

Então, qual é a razão de tantos casos de coqueluche na região?

Em boa parte dos casos apurados, as crianças não tinham sido vacinadas. Por alguma razão, estavam nos 2% de não-cobertura, sendo que cobrimos 98%. Essas crianças não estavam com o sistema vacinal completo. Não foi possível realizar uma vacinação em todas, porque a Prefeitura de Belterra não dispunha de vacinas suficientes para atender toda a demanda. Outro surto em Cachoeira do Maró, também de coqueluche, assustou a todos do programa. Nesses momentos acionamos a vigilância epidemiológica. Em Cachoeira do Maró, por exemplo, tivemos duas mortes sob suspeita da doença. (J.X.)   

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