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Doenças erradicadas voltam a aparecer e assolar países

Durante muito tempo, as doenças infecciosas tornaram-se grandes inimigas do homem, mas por alguns anos elas chegaram a sumir, ter suas notificações reduzidas ou mesmo serem consideradas erradicadas. No entanto, estas mesmas enfermidades começam a dar as caras e se alastram pelo mundo e provocam em especialistas em saúde o seguinte questionamento: por que estamos presenciando este retorno se atualmente temos a nosso favor a informação, tecnologia de ponta e experiências adquiridas no passado?

Os males são classificados pelo meio científico como emergentes e reemergentes. É o caso da China, que nos últimos meses, começou a ser assolada pela volta da sífilis, um fantasma que havia sido erradicado há mais de 50 anos no país e está se tornando a principal forma de doença sexualmente adquirida entre os chineses de Xangai, a ponto de registrar a cada hora um bebê infectado com a doença. Em países da Europa e nos Estados Unidos, o Mal de Chagas - endemia típica de países latino-americanos - já atinge parcelas da população. O mesmo ocorre com a tuberculose, que não encontra mais barreiras e avança principalmente em países em desenvolvimento e subdesenvolvidos.

No Brasil, a dengue ficou por muito tempo sem causar problemas à população e nos dias de hoje, o país contabiliza recordes de contaminação. Os sucessivos surtos da dengue no Brasil e em outros países mostram o que a doença é capaz de fazer a cada ano. Para o professor titular do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), membro titular da Academia Mineira de Medicina, Manoel Otávio da Costa Rocha, o reaparecimento de uma doença extinta em um país pode atingir todo um continente em poucas semanas. "As áreas que mais sofrem são coincidentes com a pobreza e a miséria, isto é, América Latina, África e Sudeste Asiático", alerta.

- As doenças emergentes são aquelas de descoberta recente ou cuja incidência tende a aumentar no futuro, como ocorreu com o vírus HIV. Quando a doença surgiu, na década de 80, era diferente de tudo o que se tinha visto. A Aids é, por si só, um fator determinante para a volta de algumas doenças. O HIV atinge todo o sistema imunológico do contaminado, que fica suscetível às ativações de doenças como herpes, tuberculose e outras infecções, comenta Manoel.

Já em relação às doenças reemergentes, o professor explica que essa reintrodução coincide com o modelo de desenvolvimento econômico das sociedades atuais, baseado na exploração do trabalho, com competição, solidão, tensão social e ação predatória sobre o meio ambiente, como o desmatamento de florestas. "Acrescento ainda a fome, as desigualdades sociais, a pobreza, o desemprego e as condições de vida das populações pobres que vivem em meios urbano ou rural, como fatores fundamentais para esse retorno", destaca Manoel.

Ele cita o caso da leishmaniose, considerada um mal rural e que com o passar dos anos, tornou-se problema nos grandes centros urbanos. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), chegam a 2 milhões os casos registrados no mundo a cada ano. O Brasil registra 25 mil novos casos anuais. A doença é causada por protozoários e transmitidas por mosquitos que vivem em locais escuros úmidos e entre acúmulos de lixo orgânico. "O vírus da leishmaniose está no pé das serras e, quando se abrem estradas e derrubam florestas, se propaga. Cidades que se expandem, como Belo Horizonte e Brasília, são exemplos claros, pois áreas que antes não eram habitadas começam a ser urbanizadas", explica o professor Manoel Otávio.

Em um artigo publicado ano passado e chamado "Doenças Emergentes e Reemegentes" o professor Manoel e o pesquisador Enio Roberto Pietra determinaram a volta de pelo menos sete males nos próximos 90 anos: doença de Chagas, malária, febre amarela, hantavírus, dengue, hepatites virais e tuberculose. Segundo o estudo, até o século passado, as principais questões de saúde relacionavam-se às infecções, responsáveis por 50% das mortes.

Baseados na teoria de que, ao ocorrer uma epidemia em um país, logo outros correm riscos, pesquisadores temem o futuro. "Enquanto houver dificuldade para se obter vacinas e medicamentos e, por outro lado, o uso indiscriminado de algumas drogas, essa situação nunca será controlada", aposta o assistente da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Evaldo Estanislau Affonso de Araújo.

Para o professor Manoel da Costa Rocha, da UFMG, é o ser humano que está entrando no ambiente dos vírus. "Eles são mais antigos do que nós nesses espaços e têm uma alta capacidade de adaptação", pontua. Já Dirceu Greco, também da UFMG, não é tão pessimista. "Se houver tomadas de decisões para que isso não ocorra, como fóruns de discussões, investimento em vacinas e conscientização da população, há chances de erradicarmos muitos desses males".

Data: 
23/06/2010
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