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O Cecovisa entrevistou por e-mail a Dra. Ana Cristina Souto... “a graduação (em saúde coletiva) pretende um maior investimento em uma formação voltada para a promoção e vigilância em saúde, para análise da situação de saúde, planejamento e gestão etc..." | CECOVISA

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O Cecovisa entrevistou por e-mail a Dra. Ana Cristina Souto... “a graduação (em saúde coletiva) pretende um maior investimento em uma formação voltada para a promoção e vigilância em saúde, para análise da situação de saúde, planejamento e gestão etc..."

entrevistado: 
Ana Cristina Souto
Data da Entrevista: 
26/04/2017

Até recentemente a formação em saúde pública/coletiva ocorria principalmente nos cursos de pós-graduação do lato sensu. A própria Ensp é exemplo desse movimento. Na virada do século XXI inicia-se um processo de discussão para a criação de Cursos de Graduação em Saúde Coletiva (CGSC), antecipando a formação de sanitaristas no Brasil. Atualmente, são dezenas desses cursos no país, mesmo que com conteúdos e denominações variadas.

O Cecovisa entrevistou por e-mail Dra. Ana Cristina Souto, participante ativa na criação da graduação em Saúde Coletiva no Brasil e foi coordenadora do respectivo curso no Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA), em abril de 04/04/2017.

Ana Cristina Souto é docente do Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA). Possui graduação em Nutrição pela Universidade Federal da Paraíba, mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia e doutorado em Saúde Pública pelo ISC/UFBA e Doutorado Sanduíche na Universidade de Montreal, Canadá. Membro do Colegiado do Curso de Graduação em Saúde Coletiva desde 2012 e, entre março de 2015 a 2017 exerceu a função de coordenação.

A seguir, a entrevista na íntegra

Cecovisa: Considerando que você participou do processo de criação e formulação da graduação em Saúde Coletiva no nível nacional, Numa perspectiva histórica e em linhas gerais, como você descreveria o surgimento deste curso? 

Ana Cristina Souto: Como um rico processo de discussão conduzido pela Abrasco e pelas instituições de ensino superior no Brasil, principalmente aquelas instituições públicas que já tinham formação Pós-Graduada em Saúde Coletiva. Mas foi a Abrasco quem provocou e conduziu os debates mais importantes. Lembro bem de duas atividades que ocorreram no 7º Congresso de Saúde Coletiva (ABRASCÃO) em Brasília no ano de 2003: uma Oficina para discutir a Graduação e  uma mesa redonda. Foi um importante debate. No dia da mesa redonda um dos auditórios da UnB ficou lotado para ouvir os dois expositores Jairnilson, que defendia a criação de uma formação em saúde com argumentos voltados ao crescimento do campo da Saúde Coletiva e a antecipação da formação do sanitarista e, de outo lado, Márcio Almeida que defendia a formação em saúde coletiva apenas na Pós-Graduação. Outros momentos importantes que referencia o protagonismo da Abrasco em relação à formação graduada em saúde coletiva foi a criação do Fórum de Graduação em Saúde Coletiva em 2011 e, neste mesmo ano, a Assembleia Geral da Abrasco, ocorrida no Pré-Congresso de Ciências Sociais em Saúde na USP em São Paulo- SP, que definiu pela mudança do nome da Entidade para Associação Brasileira de Saúde Coletiva e não mais Associação Brasileira de Pós- Graduação em  Saúde Coletiva, mas mantendo-se a mesma sigla. 

O surgimento da Graduação no Instituto de Saúde Coletiva (ISC /UFBA) remete a sua própria criação na primeira metade dos anos noventa do século passado. O primeiro Plano Diretor do ISC de 1996 já trazia na sua imagem-objetivo, a criação do CGSC com o propósito de uma formação antecipada do sanitarista. Em 2002 foi elaborado o desenho preliminar do projeto de urso que tratava da pertinência, projeto pedagógico e viabilidade que foi posteriormente amadurecido e conformando-se, em 2008, como Projeto Pedagógico do Curso. Aqui no ISC todos defendiam a criação dessa graduação. A criação do projeto REUNI (Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) em 2007 foi uma importante oportunidade para viabilizar o projeto. Depois de muitas expectativas e sonhos o CGSC foi criado em 2008 e no início de 2009 enfim iniciado. Lembro que a aula inaugural do mesmo foi com Adib Jatene que fez um discurso lindo, com entusiasmos, de esperança e com muitas expectativas que esses jovens em breve contribuiriam com o SUS. 

A minha participação nos Cursos de Graduação em Saúde Coletiva(CGSC) só se deu de fato, em 2010 quando iniciei minhas atividades docentes no Curso de Graduação em Gestão de Sistemas de Saúde da UFRN onde fiquei por seis meses apenas. Em agosto de 2010 eu retorno ao ISC, desta vez como docente do quadro permanente. Foi a partir daí com o Curso em funcionamento, há um ano, que eu ingressei nele. Desde a sua implantação o ISC acompanha o Curso e, a partir de 2013, o debate sobre a formação graduada tem se intensificado. Foi tema do Seminário Anual de 2014 e passamos todo 2015 discutindo a reforma curricular em uma importante instância do Instituto: o Conselho Técnico Cientifico – CTC. Em 2015 começamos a fazer pequenas mudanças que continuaram em 2017.  Desde 2012 tenho participado intensamente deste debate como membro do Colegiado do Curso de Graduação.

 

Cecovisa: Quais os principais argumentos para a formação de Sanitaristas em nível de graduação?

 

Ana Cristina Souto: Variam, mas algumas são mais consensuais a exemplo de ter uma formação antecipada; ampliação da força de trabalho para o desenvolvimento do SUS; antecipação da formação do sanitarista.

 

Cecovisa: Bosi e Paim (2010) afirmam que a proposição de uma nova profissão pressupõe, do ponto de vista sociológico, de dois aspectos: o saber especifico e a necessidade social a responder. Nesse sentido, o que você pensa sobre a criação desse curso?

 

Ana Cristina Souto: Acho que a criação do Curso vai ao encontro desses aspectos referidos pelos autores. Esses aspectos são muito caros à formação do Bacharel em Saúde Coletiva, mas não são especificidades da formação em saúde coletiva. O que ocorre atualmente é que a formação em saúde coletiva nos cursos de graduação em saúde ainda é muito voltada para o modelo biomédico e a graduação pretende um maior investimento em uma formação voltada para a promoção e a vigilância em saúde, para a análise da situação de saúde, para o planejamento e gestão, etc.

 

Cecovisa: Houve alguma discussão sobre a harmonização dos conteúdos em nível nacional?

Ana Cristina Souto – Não. Até porque devemos respeitar as diversidades de todas as naturezas. O que se discute no Fórum de Graduação da ABRASCO são as Diretrizes Curriculares, mesmo assim não foi consenso no início. Eu lembro que em 2011 fizemos a primeira reunião sobre as diretrizes aqui no ISC, solicitada pelo Fórum de Graduação da ABRASCO. Naomar era contrário, justamente com o argumento de engessamento. Foi uma rica discussão. Depois disso, o debate nesse Fórum foi conduzido com um certo consenso que deveríamos optar pelo modelo curricular estruturado a partir de Diretrizes e, desde 2016, esse projeto das Diretrizes está em tramitação no MEC.

 

Cecovisa: Qual é a sua opinião sobre as discrepâncias das grades curriculares no país?

Ana Cristina Souto -Não conheço todos os projetos pedagógico, conheço apenas três (UFBa, UFRN e UNILA). Nos dois primeiros tive e tenho a oportunidade de ser docente e no último fui convidada para contribuir na elaboração do Projeto Pedagógico. Todos eles construídos a partir de debates voltados para os compromissos da Saúde Coletiva.  A Unila é uma Universidade mais nova, criada como um projeto muito especial de integração entre os países da América Latina e Caribe durante o Governo Lula. O Curso de Graduação em Saúde Coletiva da Unila foi o único da área da saúde pensado para essa integração entre os países no processo de construção dessa Universidade. Um belo projeto, mas com muitas dificuldades em se consolidar, em especial no governo atual que não tem como prioridade uma Universidade inclusiva, intercultural e que integre os países vizinhos. Lastimável!

 

Cecovisa: Quais são os fundamentos teóricos e práticos que fundam a graduação em saúde coletiva?

 

Ana Cristina Souto: Variam a depender do Projeto Pedagógico construído em cada Curso. No caso do ISC, o projeto inicial que ainda está em vigor, oficialmente, se organiza a partir saberes estruturantes da Saúde Coletiva (Epidemiologia, Ciências Sociais aplicadas à Saúde e Política, Planejamento e Gestão). Busca-se uma formação interdisciplinar voltada para as necessidades sociais em saúde.  

 

Cecovisa: Considerando as áreas de concentração no CGSC qual a prioridade concebida para a Vigilância Sanitária?

Ana Cristina Souto: Aqui no ISC não estruturamos o CGSC com áreas de concentração. O projeto pedagógico inicial, que oficialmente ainda está em vigor, conforma-se a partir de quatro eixos estruturantes: Ciências Sociais aplicadas à Saúde; Ciências da Vida e Tecnológicas em Saúde; Ciências da Saúde Coletiva e o eixo dos Conteúdos e Atividades Integradores, além dos componentes optativos e atividades complementares.  A formação em vigilância sanitária está em dois desses eixos: o das Ciências da Saúde Coletiva com o componente curricular Vigilância e Promoção da Saúde IV e no eixo dos Conteúdos e Atividades Integradores com o componente Práticas Integradas em Saúde Coletiva com ênfase nas vigilâncias e no componente curricular estágio obrigatório. Neste, o estudante pode cursar até 600 horas de estágio na vigilância sanitária. Também temos um componente optativo denominado de vigilância sanitária: fundamentos e práticas que tem uma expressiva demanda de alunos. Os estudantes também têm oportunidades de participarem de projetos de pesquisa e extensão em vigilância sanitária. Acho que temos conseguido sensibilizar os estudantes nos quatro anos de Curso para a temática da vigilância sanitária. 

Cecovisa: Como você descreveria “as dores e delícias” de implementação do Curso na UFBA?

Ana Cristina Souto: As dores maiores referem-se à dificuldade de inserção no mercado de trabalho dos egressos diante da tragédia política que estamos vivenciando na sociedade brasileira. E a maior expressão dessa tragédia na área da saúde é o desmonte progressivo do SUS. Pensávamos e apostamos na primeira década dos anos 2000 que iríamos fortalecer o SUS com a formação qualificada em nível de Graduação. Mas não estamos conseguindo, infelizmente! A segunda dor maior é que o projeto de inclusão social via universidades públicas tem sofrido muitos ataques e cada dia é mais difícil resistir. Acho que o projeto de desmonte e destruição da educação brasileira ainda nem começou na Universidade e já está fortemente comprometida com o ataque já executado pelo governo Temer no Ensino Médio.  A inclusão social na Universidade teve início com as quotas há mais de uma década, mas ainda falta muito para ser consolidada e muitas são as ameaças contra ela. O retorno a um projeto de Universidade apenas para a elite está ameaçando esta inclusão.

 

As delicias têm a ver exatamente com o contrário dessas ameaças. É participar de um projeto de Universidade inclusiva e que o Curso de Graduação em Saúde Coletiva da UFBa tem na constituição do seu corpo discente uma expressiva representação das classes populares. Essa é uma das maiores delicias!  

 

 

 

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